Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
14 Loba em Pele de Veado
Notas iniciais
Loba em Pele de Veado
“Ours is the fury“
O sentinela despertou em euforia. Um lorde havia morrido, e outro chegava, para realizar o torneio em nome de Samwell Baratheon e sua filha resgatada. Os lordes e senhores que ainda continuavam hospedados no castelo sorriram uns para os outros, relembrando a pessoa que fora o Lorde e saudando o novo Senhor da Tempestade. A corte vinha de Ponta Tempestade, uma viagem longa, porém a esposa do Lorde já organizava a tudo sozinha, enfeitando o castelo com retratos do falecido, realizando um funeral, junto de um pequeno jantar em memória do morto. Betyne fora honrada de todas as formas possíveis e até o momento permanecia quieta e pensativa. Como era belo o pesar das damas da aristocracia.
Quando Oster Baratheon chegou a seu castelo, todos os senhores da Terra da Tempestade já o aguardavam diante do Trono da Fúria, onde sua esposa, filha e herdeiro estavam assentados nas cadeiras ao redor do trono. Era um resquício do antigo reinado dos Baratheon, antes que o Rei Dragão tomasse suas terras. Oster, um homem taciturno e muito responsável com seus deveres, não compreendia por quê ser coroado Lorde da Tempestade em um castelo simples como o Sentinela, ao invés de Ponta Tempestade. Mas como sua esposa dissera que todos os nobres o aguardavam ali, ele rapidamente veio. Dois dias de viagem e lá estava, com seu gibão dourado, o manto dos Baratheon e os cabelos cacheados caindo sobre os olhos. Era um homem imponente, de estatura baixa e ombros largos. Não daria medo, assim como um dia seu irmão mais velho deu, mas mataria da mesma forma.
Oster entrou no salão, observando todos os rostos familiares. Já vira uma cerimônia como esta antes, quando Sam recebeu as terras do pai. Parecia estranho receber aquele mesmo tratamento, por muito tempo julgou que sua vida estava completa junto da família. Mas aparentemente, apenas um herdeiro homem podia carregar o estandarte do veado em fundo dourado. Betyne, sua sobrinha, entrou logo a suas costas, jogando pétalas de flores amarelas por onde sua capa arrastava no chão. Os senhores, um a um, ajoelhavam-se e prostravam-se em respeito a sua figura. Sabiam que Oster era tão justo e honrado quanto seu irmão. A única coisa que temiam em tudo aquilo, era a esposa do Lorde, Catalina Baratheon.
A mulher sorria, seus esbeltos cachos negros foram armados sobre uma coroa cheia de ramos de ouro, presilhas que pareciam muito com chifres de veado, tanto com ramos de uma videira, assim como a casa de sua família sugeria. Ela segurava nos braços seu filho mais novo, Yann, que herdaria as Terras da Tempestade um dia. Todos sabiam que Catalina não lamentava nem um pouco a morte de seu cunhado, pois organizara todo o luto com muita rapidez, o que faltava um pouco com respeito à dor de sua sobrinha, Betyne. No entanto, Betyne era um poço de silêncio e recato, sorrindo diante da cerimônia a qual participava como membro da Casa Baratheon, e não mais que isso.
— Hoje é um dia para celebrar! A vida de um grande Lorde! E a coroação de um novo Lorde! – cantaram os arautos, e todos deram vivas ao estilo Baratheon, batendo os pés e bradando. Aquilo era um pouco intimidador para Oster, porém Catalina bebia todos os sons com deleite.
Quando se sentou sobre seu trono, Oster Baratheon ergueu bem a cabeça. Então o Bispo Melec, Bispo de Ponta Tempestade que viera com ele até ali, entrou no salão carregando a coroa dos Baratheon, símbolo de sua soberania e de seu reinado sobre as Terras da Tempestade. O Bispo ergueu a coroa e fez uma oração para os sete deuses, pedindo que protegessem Oster e sua família, que o abençoassem com filhos fortes e que seu governo fosse próspero. Ao término, virou-se para o trono e subiu os degraus que separava o salão do trono. Ele então colocou a coroa sobre a cabeça de Oster Baratheon e anunciou:
— Saúdam Lorde Oster II Baratheon, filho de Oster I Baratheon, Senhor da Tempestade!
Os senhores curvaram-se diante daquele nome.
— Jurem obediência ao Lorde, honrem sua Casa, protejam suas terras. Somos filhos da Tempestade! – o bispo se prostrou ao lado do trono. – Betyne Baratheon, filha de Lorde Samwell I Baratheon.
Betyne caminhou até em frente ao trono e ajoelhou-se.
— Juro obedecer e honrar a Casa Baratheon com minha vida. – beijou a mão de seu tio e retirou-se.
O bispo pigarreou.
— Layse Baratheon, filha de Lorde Oster II Baratheon.
E assim todos o fizeram, a começar pela família. Catalina foi a última, como esposa e consorte, ela era a segunda no comando das Terras da Tempestade e submissa apenas a seu esposo. Os senhores caminhavam respeitosamente e beijavam a mão de Oster de forma educada, nenhum deles se recusou a fazê-lo, admitindo a si mesmos que aquele era o seu novo Lorde. Betyne não conseguira um esposo e um filho a tempo e por isso não podia herdar, sendo uma mulher e possuindo outros familiares do sexo masculino. A própria Betyne assentia a tudo isto.
Já era tarde quando o último cavaleiro jurou fidelidade e submissão a Oster e o Lorde já estava cansado daquela cerimônia. Ser um nobre importante nunca fora uma ambição a ele e agora que o era, tudo parecia ainda mais enfadonho. Sua esposa retirara-se para arrumar os filhos em suas camas e o aguardava no dossel do casal, provavelmente tão impaciente que qualquer tentativa de uma noite prazeorsa seriam interrompidas com reclamações. Oster sorriu para o velho Sor James, sem dentes e sem cabelos, que trouxera seus seis filhos homens para reverenciar seu senhor. Os meninos se ajoelharam.
— Apresento – o velho gaguejou – Meu filho mais velho, Heigh, para ser escudeiro de milorde, se assim o permitir.
Oster nunca tivera um escudeiro, provavelmente porque nunca participara de uma batalha e não pretendia fazê-lo. Mas Yvon era um homem que servia há anos a Casa Baratheon, inclusive salvara a vida de Lorde Baratheon, seu pai, nos anos de juventude, o que lhe rendeu o título de cavaleiro. Ele merecia ao menos uma nova gratificação, antes da morte. Oster sorriu ternamente.
— Será um enorme prazer ter Heigh como meu escudeiro. Traga também sua filha mais velha, para ser dama de minha filha, Layse. – ele pediu e Yvon quase gargalhou, assentindo muitas vezes.
Heigh era um rapaz de no máximo vinte anos, o que surpreendia pelo fato de seu pai ser tão velho. O menino possuía cabelos louros, como um Lannister, embora fosse apenas bisneto do último Lorde Lannister. Ele tinha as belas feições que são tão prestigiadas em um cavaleiro e olhos de um lilás sereno. Parecia habilidoso, conforme retirava a espada da bainha e se ajoelhava, jurando fidelidade. Ele tinha ombros largos e era com certeza muito mais alto que Oster ou o velho Yvon.
Quando tudo teve fim, Oster arrastou-se para seu quarto, retirando o gibão. Após dois dias de viagem e mais de cinco horas sentado em uma cadeira grande e dura, tudo o que queria era deitar em sua cama e adormecer nos braços da querida Catalina. A mulher penteava as madeixas negras, que tanto o enfeitiçavam quanto o enchiam de desejo, apenas por vê-la com a camisola fina e as marcas das duas gravidezes.
— O que o velho Yvon queria desta vez? Lembro que tentou fazer do filho escudeiro de Samwell ao menos dez vezes antes de desistir.
Oster sentou-se na cama, retirando as botas e desatando os calções.
— O mesmo fez comigo. Mas fui esperto e aceitei. – ele sorriu para a esposa, que respondeu com um meneio. – Fez um bom trabalho com o funeral e o torneio.
— Não vi sentido em cancelar o evento, principalmente quando Betyne está bem e apta a casar. Preciso que envie uma carta a Lucien Arryn para agradecer seus serviços de resgate, os quais foram cheios de bravura. – ela disse – Como sabe, os Arryn conseguiram encontrar Betyne e salvá-la. Também precisamos enforcar os Estermont por raptarem a menina e provocarem a morte de seu pai.
Oster concordou.
— Poderia dar algumas terras a seu irmão, o menino. – ele falou, pensativo.
— Dar terras para o Ninho? – Catalina ergueu uma sobrancelha. Então pensou. – Não seria uma péssima ideia. A menos que você planeje fazer uma guerra. Priorize nossos senhores, você tem de conquistar a lealdade deles. Antes que se revoltem dizendo que Betyne deveria ser a Lady Baratheon.
— Bobagem – resmungou Oster. – Nunca obrigariam uma menina doce e inocente ao cargo de Senhora da Tempestade. – ele respirou fundo. – Não me acorde amanhã, por favor.
Catalina observou-o escorregar para dentro das cobertas e abriu um sorriso faceiro, abandonando a penteadeira e sua escova, correndo saltitante até a cama de dossel. Enfiou-se nas cobertas e envolveu o senhor seu esposo com os braços e as pernas. Era cômico, senão muito fofo aquela cena: um casal velho, rechonchudo e de estatura baixa, ambos abraçados.
— Pensei que poderíamos tentar aproveitar a benção do bispo e arranjar um herdeiro para Yan...
Oster abriu um dos olhos, observando-a.
— Apenas para aproveitar a benção.
Tomou-lhe o rosto e beijou-a docemente.
º º º
Mace Martell parecia uma aranha, movia-se rápida e mortalmente, e quando menos se esperava, estava sobre o oponente. Ele demonstrava ser perito em duelos corpo a corpo, derrubando seus oponentes facilmente do cavalo e levando-os a combate armado. Poucas vezes foi ameaçado, demonstrando que a juventude vencia toda a experiência presente no torneio. Betyne aplaudia sorridente, vibrando conforme a lança do rapaz arrancava o capacete de um ou derrubava outro em meio ao pó da arena. Layse assistia às disputas com pouco interesse, já fazendo suas apostas para o novo esposo de Betyne. Dorne não parecia um lugar muito agradável, tinha pena da prima. Mas quanto mais distante ela ficasse, melhor.
— Veja, prima, como é rápido! – a menina cutucou-a, apontando Mace que novamente vencia seu duelo. Oster Baratheon bebia vinho ao lado de sua esposa, ambos ignorando o torneio enquanto conversavam com os senhores mais importantes das Terras da Tempestade. Papai não gostava de torneios, e mamãe era esperta o bastante para se entreter com algo útil.
— É mesmo – concordou Layse, pousando o queixo sobre a mão, olhando aleatoriamente para as arquibancadas. Cavaleiros e damas, assim como alguns camponeses, todos eufóricos e divertidamente risonhos. Patético.
Layse respirou fundo.
— E o vencedor do duelo é... Mace Martell! — O arauto gritou. Mace ergueu sua lança e agarrou outra rosa. Aquele era seu último duelo antes do final, quando possivelmente seria coroado vencedor e consorte de Betyne. Isso também significava que aquela era a última rosa que daria a moça na arquibancada. Ele dera cinco rosas no total, todas as meninas simples e que vibravam seu nome com todo o fôlego. A excitação era crescente pois todos esperavam o momento em que ele entregasse a última rosa a Betyne. A própria moça estava vermelha até nas orelhas, as mãos se movendo convulsivamente no colo.
O dornês virou-se em direção a plataforma onde a família do Lorde estava e todos fizeram silêncio. Ele veio caminhando ao estilo arrogante de um cavaleiro que vence todas as batalhas da guerra, seu cabelo liso suado e o pescoço vermelho, aonde a cota de malha o estava irritando. Mace fez uma mesura para o Lorde e para sua senhora, antes de se voltar para as duas damas assentadas para a esquerda.
— Uma flor não seria o bastante para expressar vossa beleza. – ele murmurou, esticando a rosa por cima da arquibancada, seus pés quase não tocando o chão.
Layse ergueu uma sobrancelha, recebendo a flor com educação.
O torneio prosseguiu, embora todos estivessem ainda mais risonhos que antes. Riam-se do feito, pois o menino dornês provavelmente não sabia qual das duas era Betyne Baratheon e entregara a rosa à pessoa errada. Mas Betyne parecia não ouvir isso, prendendo-se apenas às risadas de desfeito e a vergonha que a possuía. Ela fechou os punhos com força, as bochechas ruborizando violentamente e os olhos se inflamando com lágrimas.
— Os dorneses são selvagens – murmurou Layse ao seu ouvido, entregando-lhe a flor. – Não reconhecem a beleza doce e romântica.
Betyne ergueu seus olhos claros para a prima, um sorriso tímido aflorando, enquanto as lágrimas enfim caíam. Ela logo as enxugou, guardando a flor consigo. Era muito melhor receber aquilo de sua prima do que de um cavaleiro qualquer.
O último duelo chegou rapidamente, após Sor Flint, de Jardim de Cima derrotar um senhor do Vale de meia-idade. Ambos os cavaleiros eram muito aclamados nas arquibancadas, os dois jovens e esbeltos, um com sua lança e o outro com a espada, movendo-se com o ímpeto e a letargia de um torneio inteiro disputado ao sol da tarde de verão das Terras da Tempestade.
Flint manuseava a espada como apenas um jovem da guarda real sabia fazer e, caso não conseguisse ganhar a mão de Betyne, provavelmente se tornaria um dos protetores do Rei. Os jovens se enfrentavam de igual para igual, lança sobre o ombro, espada nas duas mãos.
O conflito ganhou espaço após um breve momento de estudo entre eles. Mace murmurava suas palavras, em pedidos para que os deuses o abençoassem naquele duelo. Precisava honrar sua Casa, precisava conquistar Betyne. Mesmo que não a tivesse visto antes do torneio, após um breve momento teve certeza de que ela o faria feliz da forma que fosse. Sabia que seria paciência caso ela tivesse o ímpeto dos Baratheon e seria divertido caso ela fosse uma alma melancólica. A abraçaria da forma que fosse, com aquela beleza, nada seria ruim o bastante para que não fosse perdoado. Sentia-se enfeitiçado por ela.
Flint, no entanto, lutava pela própria vontade de lutar. O prazer da adrenalina, a força que subia por seu braço enquanto estava em movimento. Uma batalha seria melhor que uma mulher.
— Mace! – Betyne colocou as mãos sobre os lábios, erguendo-se da cadeira, quando Sor Flint então derrubou a Aranha de Dorne, a espada por pouco não cortando a cabeça do rapaz ao meio. A defesa de Mace foi perfeita, sua lança era resistente contra a força de Flint e ele aproveitou o movimento para chutas o abdômen do oponente, erguendo-se de um só gesto, completamente conectado com o resto de seu corpo. Sua lança chocou-se contra os tornozelos de Flint e este cambaleou ainda mais, até cair, desnorteado. Como numa dança, Mace arrastou os pés, lançando terra para o corpo do adversário, areia em seus olhos. Flint gemeu, esfregando o rosto e brandindo a espada com a mão direita. Mace sorriu.
Pousou o joelho sobre o peito de Flint, enquanto a lança prendia-lhe a garganta ao chão. Seu outro pé imobilizou o braço da espada, ambos confrontando-se agora pela força. Aquele que estivesse um pouco mais cansado que o outro teria um fim trágico, a derrota.
Mace trincava os dentes, Flint abria a boca, tentando respirar com a mão esquerda a esmo, agarrando as roupas do dornês.
Lorde Baratheon levantou-se de sua cadeira e ergueu uma pão, com o polegar para cima.
— Eu nomeio Sor Mace Martell como vitorioso do torneio!
As arquibancadas explodiram em gritos de alegria, Betyne saltitou, enquanto batia palmas e jogava beijos para Mace. O vitorioso soltou seu oponente, rindo enquanto se deixava cair no centro da arena. Completamente exausto. Flint, de modo honrado, ergueu-se e fez uma mesura para Lorde Oster e para Mace, não se antes cuspir no chão ao seu lado.
— Eu sabia! Eu sabia! – Betyne sorriu – Ele era o melhor desde o início!
— Sim – Layse concordou com um sorriso meigo. – Você tem muita sorte.

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