Notas iniciais
Boa leitura.

Abrigo Para a Alma

“Só os mortos conhecem o fim da guerra.” — Douglas MacArthur

Brunuhville – The Voice of The Forest

O fogo tomava conta de casas, tavernas e estábulos, os animais escoiceavam, tentando se livrar de suas rédeas, enquanto as pessoas corriam desesperadas, gritando ora de dor ora de medo. Não havia vida em tudo aquilo, apenas sangue e corpos despedaçados pelo chão de lama, embora que o céu estivesse limpo e sem sinais de chuva. As vozes vinham de todos os lados, assim como o vento, atiçando as chamas e levando as cinzas para novos presságios em terras longínquas.

O castelo, no entanto, estava intacto. Imponente, suas muralhas pareciam alcançar os céus e nenhuma torre as ultrapassava. Nem mesmo uma fortaleza conseguiria avistar as janelas naquela muralha, que por sinal eram muitas, todas voltadas para a cidade destruída, abertas e com bestas armadas, do tamanho do braço de um homem em largura e com flechas tão grandes que seriam capazes de atravessar o crânio de um lobo gigante. O castelo não pareciam possuir entradas, apenas muralhas. De seu interior, nada era possível de constatar, apenas que havia uma monotonia diferente ao seu redor.

A monotonia estava no ar, quase sufocado, como uma baforada morna do oceano, o silêncio era uma cova, frio e mortífero, exalando o fedor da traição. E havia também aquela tensão no ar, o momento antes do cataclismo, quando mesmo a paz parece um prelúdio para a tormenta.

O som de cavalos debandando tomou todo o silêncio, de repente os estábulos se romperam, uma chuva torrencial desaguou dos céus e os animais pareciam sair das casas e do vazio para correr de encontro à muralha. O bando de cavalos relinchava e escoiceava as pedras, havia centenas deles, e mais vinham chegando, cada vez mais agressivos e mais barulhentos, interrompendo lentamente toda a monotonia do castelo. Nas muralhas, as bestas permaneciam imóveis e suas flechas tão ameaçadoras quanto antes.

A chuva era gelada como a neve e parecia ferro ao tocar a pele, cortando profundamente até mesmo uma cota de malha, como as lâminas valirianas costumavam fazer. Os cabelos grudavam-se ao rosto, como era possível sentir conforme o sangue escorria do couro cabeludo. Mas não havia dor. As nuvens escureciam-se mais, a lama transformando-se em um mar. Ergueu o rosto e abriu a boca. Sua língua se partiu e ela sentiu o gosto de sal e ferro.

Então eis que dentre todos os cavalos, surge uma figura montada. O alazão possuía pelagem negra, embora seus olhos fossem vazados e sangrassem. O animal, no entanto, não dava sinais de sentir dor. Ele tinha a crina colada ao pescoço e ofegava, como se tivesse acabado de correr mil milhas sem descanso. Então notou que a crina colada ao pescoço na verdade era um véu de sangue, pingando para o regato.

Todos os sons dos animais e da chuva cessaram, ela ainda caía, embora não molhasse mais o solo. A lama, movendo-se como ondas, abria espaço para o alazão e seu cavaleiro. Os demais cavalos se afastaram, era tantos que parecia impossível vê-los sem subir em uma colina.

O cavaleiro não possuía rosto, apenas sua armadura se sustentava, ela não brilhava, nem possuía sinais de uma batalha. Era negra como carvão e cobria-lhe todo o corpo, por mais que fosse impossível vê-lo, era sabido que a roupa fora feita para que o tornasse invulnerável a qualquer ataque. E nas muralhas que alcançavam os céus, as bestas continuavam imóveis.

O guerreiro ergueu sua espada, tão negra quanto a armadura, e apontou para o castelo. Era possível sentir a força com que agarrava o punho da arma, todos os tendões e músculos do braço estavam tensionados e prestes a estourar, mas ele permanecia firme. Os cavalos então, numa loucura sem fim, avançaram sem hesitar para cima das pedras da muralha e, ao invés de quebrarem seus crânios, romperam a muralha e adentraram o castelo, um vácuo grande tomou todo o ar e a chuva, levando-os para dentro do castelo. O fogo reinflamou, porém desta vez ardia por toda a terra, como um inferno, queimado a tudo e todos. Menos o alazão e seu cavaleiro. Ele assistia à queda daquele monstruoso castelo sem erguer um sinal de prazer ou glória. Apenas a monotonia, outrora sentida na construção.

Ela ofegava com tudo o que acontecia ao seu redor, as chamas lambendo suas pernas e queimando sua camisola. Começou a bater no fogo, tentando apagá-lo, gritou de medo, caindo sobre uma pedra e sentindo seus dedos se transformarem em lama. Ergueu o rosto para cima, para quem estava sobre seu corpo e o viu. O cavaleiro negro, por trás de seu elmo, o rosto. Os olhos ardiam em bolas de fogo e sua boca estava transbordando de sangue. Ele gritou, porém não foi sua voz que ecoou por todos os cantos do mundo, mas sim o som de aço contra aço, o som de uma batalha. Sua espada estava prestes a cortá-la ao meio, quando a armadura rompeu-se em mil fagulhas e brasas e o homem se partiu em pedaços, seus braços caindo sobre a relva, como se fossem de pano e seu rosto se desmanchando em lama e sangue. Por debaixo de sua pele, um dragão nascia, ardendo nas chamas, banhado pela chuva de ferro e sangue. Ele a encarou com um pânico amedrontador a lhe tomar toda a garganta, o frio descendo como gelo pela espinha e transformando-a inteira em um ser irracional e inflexível. Uma estátua de ferro.

O dragão grunhiu um ultimato e sua boca com o tamanho de um carro de guerra e cheia de dentes do tamanho de suas mãos avançaram contra ela e a devoravam, veias, músculos, ossos, todos quebrando com claks e clums.

Despertou com o corpo lambuzado de suor e chuva, pois a janela estava aberta e do lado de fora uma tempestade torrencial clareava tudo. Seu peito subia e descia com tanta força que sentiu uma dor profunda tomando seu coração e os pulmões, obrigando-a a colocar as mãos sobre o tórax e se curvar sobre os joelhos. Não chorava, no entanto, apenas tremia. De frio, de fome, de medo. Voltar a dormir era algo impensável, aterrador, mortal. Jamais adormeceria novamente, jurava por todos os antigos deuses que seus olhos nunca mais se fechariam e ela nunca mais veria o rosto daquele dragão.

Permaneceu naquela posição por todas as horas que se passaram, até que o Sol iluminasse o quarto e lhe provasse que estava a salvo. As galinhas de Winterfell anunciavam o novo dia e os guardas logo começaram a perambular pelo pátio do castelo, suas armaduras despertando pontadas em suas costas. Não suportou mais, ergueu-se sobre os joelhos e encarou a porta com toda a determinação dentro de seu corpo miúdo. E partiu. Correu com todas as forças de seu corpo até o quarto de mamãe, encontrando uma cama vazia e limpa, as janelas fechadas e toda a escuridão do mundo presa ali dentro. Tropeçou em seus próprios pés tentando se afastas das garras daquela incerteza e caiu no corredor, batendo a cabeça contra a parede de pedra. Seus olhos rolavam para longe do sentido, desnorteando-se em loucura e sono. Um lapso e quase adormeceu. Quase. Jogou-se contra o ar, erguendo-se sobre os pés e travando a luta contra a própria carne, em busca de amparo.

Seus pés não pararam de caminhar até que estivesse em frente às árvores do bosque, os joelhos caindo na relva úmida de orvalho da manhã e o rosto na mesma expressão desolada das árvores de tronco branco e folhas vermelhas. Arrastou-se de encontro às raízes das árvores e deitou-se de encontro a elas, suas almas dividindo-se ao meio para se unir então, os olhos fechados e a respiração apenas um farfalhar das folhas.

Enfim, paz.

Notas finais
O que acharam deste sonho verde? Poderiam dizer o que ele significa? Beijos de Lady Savoy.