Notas iniciais
Boa leitura.

Eu Sou a Chuva Que Cai no Mar

“Inútil, inútil! A forte chuva mergulha no mar” – Jack Kerouac

Black Sails – Captain Kidd

O vento estava furioso e assoprava a toda velocidade em favor das velas de Nobre Morte. O navio era resistente, graças às mãos dos marinheiros nortenhos, afinal o navio fora tomado quando Capitão Randon e seu filho mais velho se encontraram emboscados na embarcação, dentro da cabine do capitão e com espadas em suas gargantas. Randon e seu filho morreriam ali. Então o ex-capitão disse a Rand “Eu lhe darei uma nobre morte”. Realmente, e que Nobre Morte! Randon nunca vira um desses nas Ilhas de Ferro!

Na gávea o rapaz menor gritou “Estamos em casa, homens!”, e todos bradaram, empenhando-se com força redobrada, para que o navio atravessasse as ondas e se aproximasse mais da costa. As Ilhas de Ferro permaneciam intactas, com suas casas na encosta dos rochedos e os navios, milhares deles amontoados. Era incrível participar de algo assim, uma guerra! Por seu rei! Capitão Randon saiu de sua cabine e observou o porto se tornando cada vez mais visível por trás da névoa e das ondas. Sua barba cheirava a maresia e mijo e ele estava louco para encontrar logo a sua esposa (ou uma prostituta, caso a primeira não se mostrasse acessível).

— Preparem a prancha, abaixem as velas, homens aos remos! – gritava ao lado do leme, que estava nas mãos de seu filho primogênito. O garoto tinha grandes cicatrizes no rosto e não era nem de longe belo, mas tinha uma inteligência boa para o mar e era forte do jeito que Randon nunca vira igual.

— É hoje garoto. – o pai ainda o chamava de garoto, mesmo o filho já estando casado e com um bebê esperando-o. As cartas que chegaram a Skagos há cinco dias atrás eram prazerosas de repassar diante dos olhos: seu primeiro neto estava vivo e saudável e sua nora passava bem. Não que duvidasse disso, tanto a criança puxara ao pai quanto a mãe era boa de parir, com os quadris bem largos e seios fartos. – Hoje veremos o rei, as mulheres e a bolinha rosa! Hoje seremos os homens mais orgulhosos da Ilha!

O rapaz concordou com um sorriso, guiando o navio. Nobre Morte alcançou o cais rapidamente, e todos ajudaram a arrastar a prancha, descendo imediatamente para correr em direção às prostitutas. Estavam há dois meses viajando juntos, mereciam aquele descanso. Randon ajeitou o chapéu e bateu de leve no peito de seu menino, ambos amarrando o navio e ajustando a ancoragem. Por fim, deixaram a embarcação.

Pisar em terra firme estava sendo um grande alívio. Skagos era uma ilha tão parecida com sua casa que muitas vezes sonhava em estar com Elina, e tentava alcança-la esticando o braço. Acabava por tocar o vazio fora da cama pequena em que dormira e passava o resto da noite frustrado. Os skagosi deixaram o navio após todos, pois recolheram todos os seus pertences e saquearam mantimentos, os quais Randon não se importaria de perder. Eles, todos homens fortes e altos, treinados para a batalha e fieis a Lorde Stane e sua filha, a Jovem Lady.

Eles se moviam em uníssono, seus pés erguendo poucos ruídos no cais. Haviam homens com armas por todos os lados e mais soldados das diversas ilhas de ferro que se uniam Pyke para que o exército do Rei de Ferro fosse ajuntado. Obviamente o “Rei de Ferro” não era o rei deles, muito menos era um rei, pois perdera o título há dez anos para o Rei Dragão e hoje tudo o que possuía era um nome de Senhor. Os skagosi estavam ali por algo muito maior do que uma guerra em busca da reconquista dos Greyjoy em suas próprias ilhas, as quais não davam muito valor. Skagos não se comoveria com isso.

[Black Sails – Main Theme]

Todos estavam ali por algo maior.

Algo maior...

Maior...

— Por favor! – ela balbuciava, seu corpo estremecido de prazer. Os cabelos louros grudavam-se a pele de suas costas e pescoço, enquanto ela atirava a cabeça para trás, gemendo alto outra vez, implorando. Ofegava, seu peito parecia prestes a explor e toda a sua pele branca e castigada pelo sol estava avermelhada, salgada e molhada. As marcas dos dedos de Drustan ainda se formavam em suas coxas, mesmo que já as tivesse soltado há muito tempo.

Drustan a beijou novamente, desta vez com mais ferocidade, com mais grosseria talvez, ignorando a tensão dos músculos da perna da pobre moça, ainda estremecida. Ela murmurou algo que ele não compreendeu, mas notou que o efeito estava se tornando menor e ela já não parecia tão comovida. Assim funcionam as mulheres, elas adoram tudo aquilo que é novo, e rapidamente perdem o interesse por isso. Havia aprendido ainda muito jovem que a melhor forma de alcançar o próprio êxtase, era conduzindo outra pessoa ao mesmo lugar. E Drustan conhecia os jogos do amor.

Ergueu seu rosto, ela ainda ofegava, observando-o. Apoiada nos cotovelos, aquela posição poderia ser muito incômoda, então ele tomou a liberdade de deitá-la com as costas no colchão, beijando-lhe o ventre e então por entre os seios, até alcançar seus lábios. Ela sorriu.

— Nunca havia visto isso antes – confessou, um pouco envergonhada. – Não sabia o que fazer.

— Você foi excepcional – ele garantiu, calando-a com um beijo mais demorado. A rapariga parecia realmente querer falar mais, o que não o incomodava, mas simplesmente não era o que ele queria, então empurrou a língua por entre os dentes dela e a tomou, devorando e saciando-se de sua saliva e suor.

Drustan notou que estava quase lá. Ou melhor, estava se segurando para não estar lá. Sentia prazer em seu autocontrole, em sua habilidade. Em seu talento. Realmente se orgulhava de tudo aquilo. Sentia-se mais homem, vendo-a a mercê de suas brincadeiras e de seus beijos, completamente feliz e estúpida de euforia. Parecia quase uma criança, esperando o que viria a seguir.

Como ela já estava deitada e segurava-o pelos ombros, beijando sua barba e passando a língua por seus lábios, Drustan aproveitou a situação para enfim mover o corpo até estar sobre ela. Ansiedade. Essa era a pior palavra num momento como aquele. A ansiedade poderia estragar tudo, pois ele sabia o que vinha a seguir e sabia como seria bom. Como seria terrivelmente bom. Melhor que matar um homem ou abraçar um filho!

Notou que a própria respiração estava começando a acelerar, inconscientemente. Abriu um sorriso sádico, abaixando a mão na qual não se apoiava para deslizar o quadril da moça e enfim agarrar sua coxa, os dedos alcançando a parte interna e macia de sua pele. Acomodou-se.

— Dusty, ah, eu preciso de você agora mesmo. – Alezabeth resmungou da porta do quarto.

Drustan ergueu a cabeça para ela, seus olhos flamejando de ódio. Ela adorava aquilo, não era possível! Sua sorrateira irmã passava horas observando-o em silêncio, talvez para saciar a própria lasciva sem tomar medidas drásticas, e quando via que ele estava quase lá... Estragava tudo! Em uma semana, já era a segunda vez! A garota na cama exclamou e tentou agarrar o lençol, porém acabou derrubando-o no chão. Alezabeth soltou uma gargalhada, fechando a porta atrás de si.

Enquanto o silêncio reinava, Drustan tentava conter a raiva que sentia.

— Você vai voltar? – a moça perguntou, mostrando um grande bico em seu rostinho delicado. Ele perdoou todo o ódio dentro de si e assentiu levemente, sentando-se na cama para vestir a roupa. – Não demore – ela pediu, deslizando a mão pelo colchão. Drustan olhou para ela, por cima do ombro e enfiou a mão por entre suas pernas, tocando-a aonde estava quente e úmida.

— Não irei.

Alezabeth esperava seu irmão, escorada na parede ao lado da porta. O corredor estava vazio. Ela limpava as unhas, abrindo um sorriso infantil no rosto, como uma criança que prega uma boa peça e sai impune. Gostava de seu irmão e seu carinho por ele era a sua fiel espada sempre a disposição. Não era exatamente perversa, ela raramente assistia a muitos espetáculos de Drustan. Mas sempre eram acontecimentos extraordinários, dignos de uma lembrança, por mais engraçada que se tornasse.

O castelo continuava calmamente silencioso, com um silêncio intercortado apenas pelo som do vento impiedoso nas rochas e o mar, batendo nos rochedos a milhares de metros abaixo. Alezabeth gostava daquele silêncio desinteressante e pacífico. Um exército estava junto a sua porta, seu pai preparava uma guerra em favor dos povos livres e dos primeiros homens, em favor do Norte. E mesmo assim, sua casa continuava com aquela nostálgica letargia de uma tarde de outono.

— O que quer, Aleza? Espero que seja importante. – grunhiu Drustan, embora seu rosto estivesse levemente ruborizado. Ele não gostava de ser pego em seus momentos mais íntimos. Alezabeth compreendia, em parte, e se arrependia um pouco de ter cometido a mesma brincadeira novamente. Mas era tão bom ver a cara dele de decepção e raiva...

— O pai está querendo sua presença. Um dos navios de Skagos retornou e há trinta homens ai, pedindo comida e cama. – ela informou. – Eu cuidaria desses assuntos, se fosse a filha mais velha. Mas eu não sou. Eu também cuidaria dos assuntos se fosse a segunda filha mais velha. Mas eu não sou. Eu sou a maldita terceira filha. E quanto o primogênito está no mar fazendo as coisas dele, você está no comando. Agora pare de perder tempo com aquela ali e vá ajudar o nosso pai com a guerra. – ela ralhou, adquirindo o tom autoritário que mamãe diversas vezes usara neles. E que funcionava.

— Tudo bem. – ele suspirou, cedendo. Drustan era um homem forte, de temperamento irascível e ímpeto violento. Era voraz em tudo o que fazia. Matar, conquistar, amar. Ele era bom em tudo isso, e era temido por tudo isso. Menos por sua irmã mais nova. Ela desafiava a todos, e era engraçado, pois Alezabeth não era o estilo de irmãzinha que precisa ser protegida. Ela não desperta a vontade de um homem em proteger algo fraco. Ela desperta a vontade de duelar com algo forte. E perder com honra.

Alezabeth viu-o desaparecer pelo corredor, e não moveu um músculo até que ele desaparecesse. Então olhou os dois lados do corredor e entrou no quarto do irmão, encontrando sua amante ainda deitada na cama, cantarolando uma cantiga obscena. As duas se entreolharam curiosas com a presença uma da outra e então notoriamente se ignoraram. Alezabeth caminhou até a cama e se ajoelhou diante dela, enfiando a mão por baixo do colchão. A moça esperou pacientemente. Quando conseguiu alcançar o que queria, puxou com força, observando o cabo da adaga, translúcido, assim como a própria lâmina. Era algo que Drustan trouxera de uma de suas expedições “de turismo” pelo mar. Dissera que fora encontrada Além-da-Muralha, onde os navios congelaram antes de alcançar terra firme.

“Se construirmos navios de ferro, poderemos ir muito além da Muralha. Talvez até o fim do mundo” pensou, enquanto guardava a adaga dentro do casaco. Ergueu os olhos escuros para a jovem loura, ainda nua e curiosa. Encontrou uma moeda dentro de seu bolso e jogou-a na cama, colocando o dedo sobre os lábios e assoprando, num pedido de silêncio.

A garota assentiu, virando-se para o outro lado da cama, e então recomeçou a cantarolar.

[The Outlander — The Skye Boat]

No porão do navio, Myna tentava não vomitar com aquele cheiro de podridão e o balanço das ondas no casco do navio. Se esconder e comer aquilo que conseguia pegar na cozinha não estava sendo fácil. Tivera de urinar nas próprias roupas uma vez e não tomava banho há mais de cinco dias seguidos. E ali fazia tanto calor! Não havia janelas! Ah, que agonia! Os marinheiros eram todos inexperientes e por isso não pareciam se interessar pelas pilhas de caixas ao lado da parede, mas ela observava-os. Sabia seus nomes e do que eram capazes, sabia suas manias e onde urinavam. Guiava-se pelo ritmo em que cada um vinha fazer algo. O vigia de gávea dormia por volta das cinco, até as onze da manhã, o cozinheiro gostava de ter o urinol só para si por volta das duas, após o almoço. O contramestre adorava um cochilo no final da tarde e papai, como sempre, cantava até que todos estivessem dormindo em suas redes.

Vir escondida naquele navio se mostrava algo muito estúpido de sua parte. O que faria depois? Papai estava indo para uma guerra, ser treinado como um soldado e ajudar o Norte a ser livre de um tirano. O que ela esperava encontrar nas Ilhas de Ferro? Bondade? As Terras Fluviais ficavam para trás. Papai amava suas origens nortenhas e defendia o Norte com todo o ardor de seu coração, quando soube do alistamento, abandonou seu barco pesqueiro e deixou mamãe com uma pequena renda de soldado que ele teria.

E então? Correria atrás dele?

Tinha de bolar um plano logo. Temia o que poderiam fazer com ela em Pyke. Ouvia coisas horríveis dos homens de lá. Quando o primeiro marinheiro gritou “Chegamos!”, ela teve de se segurar para não sair correndo até onde quer que papai estivesse e se grudar em sua cintura. Era injusto! Como ele podia acreditar que ela aceitaria ficar sozinha com mamãe? Ambas se odiavam desde que Jon morrera, o filho verdadeiro do casal. A adoção de Myna na família fora algo pacífico, quase amável, embora a menina nunca tivesse realmente se sentido em casa. No entanto, desde que o único filho do casal se foi, a mulher a culpava por não ter morrido no lugar dele, como se pegar a doença dele fosse possível, e livrá-lo daquele fim. Sendo uma bastarda, e ele o filho legítimo. Papai, sim, a amava. E ela o adorava.

O navio atracou no cais e todos começaram a retirar seus pertences do porão. Até mesmo o cozinheiro ajeitava sua cozinha. Quando o capitão desceu, observando a pilha de caixas, em busca de alguma coisa, ela tentou ser rápida os suficiente. Esgueirou-se para fora da caixa em que passara mais de uma semana encolhida e correu até as escadas, subindo para a popa. Atravessou a prancha em direção ao píer rapidamente e correu a toda velocidade para o meio da multidão, com a vã esperança de que papai já não estivesse longe. Os homens eram inúmeros e mulheres com os seios desnudos sorriam e se atiravam para todos os lados. Sentiu uma mão em seu traseiro e logo saiu correndo com mais força. Onde quer que o velho pescador estivesse, era longe da visão de Myna. Ela vagou por muito tempo, em busca de algo. Sem saber exatamente o quê. Ali começava a sua viagem, enfim. Teria de ser esperta para se virar sem papai, mas ela conseguiria.

Sentou-se contra a parede de uma loja, observando o movimento das pessoas. Sua pequena sacola com meias, luvas e um pedaço de pão estava em seu colo, e ela deixou que as sensações a tomassem. Queria chorar, sentia-se mais solitária do que nunca, por mais que fosse uma bastarda.

Sem perceber, adormeceu.

Acordou com uma pancada em seu rosto, e então, desnorteada, caiu de lado, sentindo sua sacola desaparecer do vão que tinha feito comodamente em seu colo por tantas horas. Tudo estava escuro e a cidade inteira parecia feita de sombras. Os meninos ladrões corriam, abrindo a sacola e jogando fora suas meias. Levaram a luva e o pão. Myna conseguiu retomar suas meias, colocando-as nos pés gelados. De repente a caixa do navio parecia muito confortável. Levantou-se, se escorando na parede da loja. Para onde ir? Onde dormir? Estaria segura? As perguntas a assombravam. Quanta estupidez numa menina só! Era mesmo verdade o que diziam de as mulheres não saberem tomar decisões! Odiava-se!

Os soluços vieram rapidamente. Ótimo. Além de ser uma menina tola, também era chorona. Ninguém a protegeria, como pudera ser tão idiota?

Começou a caminhar, sem rumo. A escuridão permitia-lhe ver apenas o chão e as paredes. Quando encontrou um beco sem saída, agachou-se e começou a chorar, escondendo o rosto da rua. Frio. Fome. Sono. Sentia tudo isso e mais: Solidão. Queria ter uma companhia, qualquer que fosse, que pudesse fazer-lhe bem, quem sabe oferecer uma cama macia e um cobertor...

— Pss.

Ela ergueu o rosto, assustada, olhando para todos os lados, sem encontrar quem fizera aquele ruído. Porém ele se repetiu, mais forte, e seguido de uma luz proveniente de uma vela. Ou seria uma tocha? Uma pequena portinhola lateral da parede, bem baixo. Um rosto de nariz comprido e olhos grandes a encarava. Ele fez um gesto com a mão, para que entrasse, e ela correu até lá, entrando. Desceu algumas escadas e então alcançou o solo. Havia uma fogueira grande queimando no centro da sala e palha espalhada no chão. Myna observou os garotos que estavam ali, todos deitados. Logo atrás dela, aquele que a havia chamado também apareceu, com sua lamparina em mãos.

— De manhã conversaremos sobre você. Agora, deite com C-C – ele apontou uma menininha pequenina com um sorriso angelical. Myna viu que ela possuía uma pilha maior de palha e um casaco grande cobrindo-a, então logo aceitou a oferta, perdendo-se debaixo do calor e dos bracinhos finos de C-C.

— Obrigada – murmurou, ainda soluçando.

Mas ele já haviam retornado a seus afazeres, e ela não demorou muito a adormecer.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Beijos.