Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]

22 EXTRA - Canções de Castamere Pt. 1


Notas iniciais
A ideia era fazer um conto no domingo, já que a votação ia acabar no dia. Mas o conto se tornou uma cena meio longa, e depois se tornou uma guerra, e então se tornou uma fuga. E eu acabei não conseguindo terminar a história. E sim, criar um monstro. Boa leitura.

A CANÇÃO DE CASTAMERE

PARTE UM

As pernas de Angus Reyne pareciam de chumbo, pisando as poças de lama que a chuva havia deixado no pátio de seu castelo. A fortaleza exterior jazia no silêncio e nas sombras, a multidão de criados e senhores partira em direção a Lannisporto e para Rochedo Casterly antes mesmo de o rei requisitar sua presença. Estavam em guerra. Os dragões chegaram até a Campina e incendiaram todos os campos. Bestas de dez metros, com escamas grossas demais para que flechas lhe perfurassem e uma boca que poderia engolir cinco homens em uma investida só, que cuspia fogo mais quente que o Sol. As grandes muralhas de labaredas das bordas da Terra do Leão não aguentariam por muito tempo. O fogovivo era atiçado a cada manhã, mas em algum momento o ouro que o fabricava acabaria e os senhores de vermelho teriam de enfrentar a ira dos dragões.

— Dois dragões – dissera a septã Poulla, enquanto trançava os cabelos de sua irmã, há um dia, antes de a comitiva partir para a Garra do Leão. – O Rei das Flores conquistou um dos três monstros com a sua orla de pétalas escarlate e coroas de espinhos. Venya perdeu-se na Corte e agora ascende como amante e esposa do Rei.

— Rei Tommen poderia conquistar o segundo dragão, com seu ouro e suas joias.

— As mulheres não se vendem assim, rapaz – a septã sorriu. – Se há algo que a Donzela poderia ensinar a qualquer uma de suas seguidoras, é que o coração de uma mulher tende muito mais às rosas do que ao seu ouro. Venya era uma donzela. Mas Daenary é a mãe do jovem dragão, nascido em Westeros, sobre Porto Real, após a conquista da Campina e das Terras da Tempestade. Seria inteligente se nosso rei dobrasse os joelhos antes de seu lendário castelo ruir pela primeira vez.

— Rochedo Casterly jamais ruirá. – bradou o corajoso e tolo Angus, com seu temperamento de leão. A mãe Lannister o fazia fraco para a sabedoria e após muito pensar de noite, viu que era prudente a rendição, antes que fossem destituídos para sempre de Westeros. Antes que sejamos consumidos pelo fogo.

Os reis que se submetiam a vontade de Aegon, o Conquistador, tornavam-se lorde de suas terras, uma posição pouco inferior ao título de rei. Obedecia ao dragão, mas ainda possuía suas terras. Angus queria herdar Castamere e ser Lorde Reyne. Para ele, pouca diferença faria que seu soberano fosse um rei ou um lorde também. Seria seu vassalo de todo modo. Mas, aparentemente, era algo muito sério e significava honra. A honra da família, de servir a um rei caído. A honra dos Lannister de se render diante a uma orla de saqueadores bárbaros do outro lado do mar. A honra dos leões de curvarem suas cabeças perante dragões. A Guerra dos Cem Anos entre os Valois e o Rochedo perdurara tempo demais e causou rivalidade demais para que uma aliança fosse considerada. Tolice, Angus via, mas os homens nunca foram conhecidos por sua sabedoria, a isso cabia os meistres.

Alcançou a fortaleza interior, após as Muralhas dos Corvos, que nunca fora derrubada por qualquer inimigo. O nome fora dado após em todos os cercos a Castamere, nos tempos da guerra do Leão e da Beija-Flor terem acabado diante delas. Apenas os corvos ultrapassaram essas muralhas, e se banquetearam bem. Angus lançou um lúgubre olhar para o local onde seu irmão mais velho morrera, há oito anos. Lembrava-se de ser um garoto assustado, abraçado a sua mãe, dentro da Torre da Prisioneira, feita prisioneira pelo próprio esposo para que não caísse nas mãos dos inimigos. Ninguém imaginava que Catamere fosse se tornar alvo do exército de Valois, e se não fosse por Johen, ele e sua mãe poderiam estar mortos. No entanto, apenas Johen jazia em uma baixa de pedra de mármore branca, nas paredes da Torre da Prisioneira.

Ele adentrou a fortaleza e subiu as escadas para a torre. Suas pernas continuavam rígidas e ele sentia-se inteiro feito de pedra. O outono era uma estação assustadora, saindo de um verão calmo e pacífico, para mostrar as sombras de um inverno sangrento. O fogo dos dragões manteria Aegon e sua família vivos, enquanto todos os reis caíam diante o inverno. Assim contavam os meistres, com sua sabedoria, e assim profetizavam as septãs. E Castamere ainda era uma tumba silenciosa. Ele tocava a pedra com as mãos nas paredes, de ambos os lados, sentia-se sempre sufocado naquele lugar, talvez lembrando-se de quando o levaram da mãe, ainda confinada na torre, e o elegeram seu lorde enquanto o pai não estava no castelo. Celebraram a vitória contra os Valois e o louvaram. Uma criança, presa a uma cadeira alta, com dois guardas de Johen a seu lado, e nenhum sinal do irmão. Angus lembrava-se de ter saído correndo do salão, chorando, e subido as escadas daquela mesma torre, e encontrado em frente a porta um dos carcereiros de sua mãe. Ele o esmurrou no joelho, e o homem apenas deu um passo ao lado e o deixou entrar. A mulher jazia diante a janela, seu olhar perdido no salão do banquete.

— Mamãe! – ele gritara – Mamãe!

E ela havia erguido seus olhos verdes, cheios de melancolia e lágrimas não derramadas. Porque era uma Lannister, e os leões nunca choram.

— Johen está morto!

— Eu sei – ela lhe envolvera com os braços apáticos e os dedos gélidos, enxugando as lágrimas de suas bochechas. – Eu sei, meu filhinho.

Ainda após oito anos e após a morte de sua mãe, Angus sentia-se mal ali. Por mais que o quarto da torre não lhe trouxesse a mesma sensação. Era uma mesma guerra, era uma mesma vitória, seu pai não estava ali, e a Torre da Prisioneira mantinha cativa uma mulher que o tinha por completo, assim como uma vez pertencera aos braços protetores de sua mãe, também pertencia aos braços acolhedores dela.

Sor Kevan Reyne, seu primo, estava escorando na parede, elmo nos braços, olhos fechados e roncando. Sua espada na bainha oscilava conforme o vento frio adentrada pelos vãos da pedra. Era um homem grande, mas burro. Angus acordou-o com um toque de leve e Kevan endireitou-se todo, assustado. Ver seu senhor o encheu de temor e ele fez uma cortesia, segurando o cabo da espada com as mãos trêmulas. Talvez de frio.

— Senhor – ele disse, aguardando alguma das ordens rotineiras que Angus arrumava para se livrar do carcereiro. Ao menos Kevan é fiel e não há sussurros em Castamere. Mas sussurros para quem? Os ratos? Não há alma viva neste castelo. Apenas os restos.

— Kevan, ajude meu escudeiro com a espada. O menino é um desastre. Está implorando para que eu não me livre dele. Chora feito uma donzela.

— Covarde! – bradou o primo e colocou o elmo sobre os cabelos dourados. – Vou dar-lhe uma lição de que jamais se esquecerá!

E com isso desceu as escadas, sua armadura se arranhando nas paredes estreitas da torre. Angus sentia pena do pobre escudeiro, mas o que podia fazer? As mentiras se iam esgotando e o primo era tolo o suficiente para não notar em suas repetições. Ele hesitou em bater a porta, mas acabou por empurrá-la com a ponta dos dedos, devagar. As sombras tomavam todo o quarto, e nem mesmo a luz da Lua Cheira que entrava pela janela aberta iluminava a cama e sua ocupante. A comida que lhe era servida estava intacta e cheia de moscas, assim como a água do banho e o urinol vazio. A criada que Angus enviara para tratar da prisioneira lhe confidenciava que ela não comida, nem bebia, e se recusava a ser lavada. Raramente permitia que trocassem suas vestes.

— Está definhando! Como uma borboleta presa em um pote! – ela murmurara – É triste de ver, por mais que seja uma Nightingale.

Sim. Por mais que seja uma inimiga, é penoso ver a morte de uma donzela. Os Ninghingale, que cercaram seu castelo e mataram Johen. A filha do Lorde jazia em sua Torre da Prisioneira, em Castamere, enquanto seu pai lutava ao lado do Rei Valois para se livrar dos Targaryen. Dizem que foi Loren Nightingale quem roubou a princesa dragão, e não Vossa Graça o Gordo Garlan. Loren era um homem bravo, de reputação impiedosa e torneios cantados em todos os sete reinos, sua primeira esposa fora a princesa da Campina, a quem tomou de seu pai. Sua segunda esposa, a princesa da Tempestade, a quem roubou de seu irmão. Não surpreenderia a ninguém se Loren, o Galante se tornasse Loren, o Conquistador e conquistasse a princesa Venya de seu próprio esposo.

Mas sua única filha continua aqui, em Castamere, trancafiada por ordens de meu pai. Angus engoliu em seco, temendo que ela lhe atirasse um castiçal de prata, como fizera da última vez. Ainda tinha sangue coagulado sobre a sobrancelha, aonde fora atingido. No entanto, a torre inteira estava quieta, assim como o resto da fortaleza e do castelo. Adentrou o quarto e fechou a porta. Pousou sua espada ao lado da parede e colocou a trouxa sobre a mesa, com a comida que trazia.

Uma vela se acendeu, nas sombras do baú em frente a cama, e ele a viu, de joelhos nos cobertores, coçando os olhos. Era a moça mais bela que já vira em toda a sua vida, nem mesmo a filha do Rei Tommen, a quem estava prometido, era tão encantadora com seus cachos louros e a pele dourada do Sol. Sua Lyria resplandecia em todo seu teor gótico e fantasmagórico. Magra, como a criada a descrevia, e suja. Suas bochechas desapareciam, contra o maxilar anguloso, e os olhos pareciam covas profundas e escuras. Sua pele era tão branca quanto a neve, mas parecia como papel, pronta a se partir. Seus dedos ossudos e longos, nas mãos finas e graciosas, seguravam o castiçal. Lyria saltou da cama e correu até a mesa, devorando a carne do cordeiro e o queijo que trouxera. Bebeu goles grandes de água e depois virou a taça de vinho de uma só vez. Enquanto comia, Angus virou-se para a bandeja com a comida deixada para ela e cheirou o pão.

— Desejam me matar – ela murmurou, após engolir tudo o que já havia colocado goela abaixo. – Se não com veneno, de fome.

— Quantas vezes lhe trazem a bandeja?

— Toda manhã. E ai continua. Uma refeição por dia, salgada com meimendros. – ela enfiou o dedo dentro do copo, alcançando a última gota de vinho e a lambendo com a língua. O gesto fez Angus sentir-se ainda mais culpado.

— Cersei disse-me que recusavas as três refeições.

— Eu recusava. – concordou a menina, lambendo os dedos com a gordura deixada pela carne. – Então ela achou por bem reduzir a comida. Era um desperdício, afinal.

— Ela será enforcada. Junto com todos que a mantém aqui. – jurou, tomando-lhe as mãos frias. Lyria apenas o encarou em silêncio.

— Junto com você?

— Eu?

— Você me mantém aqui. Poderia abrir aquela porta agora mesmo, se quisesse. – ela murmurou, como um lamurio, e então lhe deu as costas, caminhando até a cama e se sentando. Seu vestido era o mesmo com que viera até ali, acorrentada. Ele havia soltado suas correntes, na terceira noite em que a visitava. E depois lhe deu um baú cheio de roupas limpas. Mas ela se recusava a usá-las. Assim como recusava a banheira que ele havia mandado escadas acima e a criada que lhe fazia tranças nas madeixas negras.

— Não é assim que funciona. E você está aqui por segurança.

— Claro, porque eu estaria muito menos segura com meu pai e o exército dele. – Lyria gritou, como fazia naquela altura das visitas. – É algum tipo de desejo perverso masculino, manter mulheres presas em torres.

— Lyria, por favor...

— Esse lugar não se chama Torre da Prisioneira por minha causa. Você esteve aqui, com sua mãe. Sabe como esse lugar é amargo e frio! – ela atirou-lhe uma almofada contra o peito. Teria doído, se fosse um castiçal. – Você é o Senhor de Castamere, enquanto seu pai não está, então ordene que me tirem daqui!

— Sou senhor apenas no nome – Angus deu alguns passos a frente, mas foi atingido por mais almofadas. – Meu pai nomeou um castelão e os guardas obedecem apenas a ele. Se pudesse, a libertava.

— E me mantinha dormindo em um dos quartos de sua fortaleza, com guardas nos portões e em todos os corredores? – Lyria caminhou pesadamente até ele e acertou a mão em seu rosto, com um estalo alto e doloroso. – Você não mudaria nada.

— Eu digo a verdade – Angus a segurou pelos braços, mas ela tentou se libertar, como seria esperado. Lyria não gostava de ser controlada, assim como não gostava de que mentissem para ela. Mas o que Angus poderia fazer? Realmente não a queria longe. Era tão bela, com os cabelos crespos caindo até o final das costas, que poderia mantê-la – Você confia em mim – disse, encostando a testa contra a dela, obrigando-a a lhe olhar nos olhos. – Senão não comeria o que trago para ti.

— É algum tipo de jogo? Você irá me envenenar daqui cinco dias, quando eu estiver completamente disposta a confiar em tudo o que você diz? – ela se contorceu, mas Angus não soltou.

— Me deixe cuidar de você. Vou trazer outra criada, uma mais inocente e confiável.

— Acha mesmo que vou confiar em outra criada? – ela respondeu, a voz embargada de choro. Em Jardim Suspenso as pessoas choravam, Angus se lembrou. – Acha mesmo que vou confiar em você?

— Se não quer companhia, basta dizer – ele propôs, então, fechando os olhos para não vê-la naquela expressão de dor. – Pode se cuidar. Não virei mais.

— E morrerei de fome. – ela concluiu, e quando ele abriu uma pálpebra, viu seu sorriso. – Eu quero que venha, e quero que mande embora Cersei e todas as suas criadas. Quero que contrate novas mulheres, moças do campo, filhas de fazendeiros que aceitem o trabalho pela primeira vez na vida. – ela exigiu, encarando-o com força, quase como uma rainha lhe dando ordens. E Angus acataria a qualquer uma. – Que não conheçam a vida em um castelo.

— Elas seriam tímidas e burras.

— Que sejam. – Lyria apertou suas mãos às dele e então disse com toda a convicção – Não confiarei em você, nunca. Mas pode ganhar minha amizade.

Angus jurou a si mesmo conseguir a amizade dela. Ele não queria apenas sua amizade, a queria de verdade. Desde a primeira vez que a vira, como era bela e sensual, por mais que se portasse como uma senhora, e tivesse a idade de uma, ele não se importava com aquilo. Uma donzela de vinte e cinco anos fazia seu coração tremer. Com trinta anos, ele estava prometido a uma princesa de onze, que lhe seria dada quando florescesse. E mesmo assim, ele queria-a. Talvez o fato de ser uma prisioneira e uma inimiga o estivesse seduzindo. Sempre teve uma queda pelo perigo. Seu pai e seu irmão mataram Johen. E ele não ergueria um dedo sequer contra ela, por mais que merecesse. Merecia que a violasse, apenas por ser filha de Lorde Nightingale e por ser tão bonita.

Mas não era esse tipo de homem. Ele não faria isso com uma dama. Com nenhuma dama. Casada ou não. Nobre ou não. Ele tinha honra. E tinha juízo. E acima de tudo, tinha moral. Não gostaria de ser violado.

— Farei isso agora – ele a soltou, caminhando em direção a porta.

— Obrigada – Lyria respondeu, aguardando que ele se fosse.

Angus desceu as escadas rapidamente, descer era muito mais fácil que subir. Seu primo Kevan retornava para a fortaleza, embainhado a espada. Garantiu que havia dado sua lição ao escudeiro. Angus ainda se lembrava das palavras de Lyria. Ele havia ficado naquela torre com sua mãe, como um prisioneiro também. Era o irmão mais novo do Senhor de Castamere, mas possuía vinte e dois anos e sabia usar uma espada. Então porque se escondeu lá em cima, enquanto os seus homens morriam no cerco? Era mesmo um covarde. Agora se lembrava. Sentira medo de morrer, algo que Johen nunca sentiu.

O senhor seu pai sentiria vergonha dele.

Bateu a porta do castelão, até que o senhor lhe permitisse entrar. Seu tio, Sor Kayle Reyne, pai de Kevan, cuidava do castelo com mãos afáveis, era um homem glutão que melhor lidava com uma espada na cama do que com uma em uma batalha. A prostituta cobriu-se com os cobertores, enquanto Angus entrava no quarto. Se dissesse a seu pai o que o tio fazia no quarto do lorde na fortaleza interior, com certeza seria humilhado em público e expulso de Castamere.

— Tio Kay.

— Angus – o homem respondeu, sentado em sua cama, com os cobertores lhe escondendo a vergonha. – A que devo o prazer?

— Essa prostituta, talvez – ele apontou a mulher na cama, e ela se encolheu, mas o tio apenas rio, batendo na própria barriga.

— Tenho um apetite grande. O que quer, além de assustar minha senhora?

— Quero despeça todas as criadas que servem a Torre da Prisioneira e que contrate novas, moças no campo, que nunca trabalharam em um castelo.

— E por que eu faria esta estupidez?

— Por que eu sou o senhor deste castelo. – Angus respondeu, calmamente.

— E então porquê o senhor vem a mim? – Kayle era um homem inteligente, sádico e arrogante. Facilmente esmagável.

— Porque está na cama do senhor meu pai, com uma puta qualquer. Posso chamar os guardas no final do corredor e levá-lo até meu pai, com eles de testemunhas. Ou o senhor pode obedecer.

Tio Kay assentiu, passivamente.

— Elas serão mandadas amanhã e novas chegarão de tarde, se assim o agradar.

— Agrada. – Angus virou-se – Boa noite, tio. – e fechou a porta.

Havia cumprido sua parte do acordo. Agora tudo o que queria era ver Lyria sorrindo e agradecendo. A ideia o fez sorrir, por si só. Em seu quarto, ele dispensou o escudeiro, que estava com um olho roxo novo e o olhava de soslaio com raiva. Um dia ainda o nomearia cavaleiro, e assim recompensaria tudo o que o rapaz sofria por seus caprichos, mas ainda precisava dele. Despiu-se e se enfiou nos cobertores, o vento era frio e as janelas foram esquecidas abertas. Angus dormiu e sonhou com Lyria.

º º º

No dia seguinte, Angus treinava com a espada no pátio, quando o Sol alcançou a Muralha dos Corvos e o mestre de armas interrompeu o exercício, dizendo que já haviam praticado muito por um dia. Angus sempre ficava cansado e suado após esses treinos, mas adorava estar bem treinado com a espada. Sua companheira para todos os momentos, até que estivesse nas mãos do inimigo. Quem faz uma boa espada é um homem, a mão que a empunha, isso ele aprendeu desde muito garoto. Castamere não era o lugar mais conhecido pelos seus guerreiros, mas Lorde Reyne tentava levar a seu filho tudo o que afastava na guerra.

Angus pensou em tomar um banho, como ele sempre fazia, antes de ir vê-la. Seus sonhos com Lyria se tornaram cada vez mais violentos, até que ele a viu morrendo em sua frente, morta por um dos venenos de seu pai. Depois disso, pensamentos tenebrosos o assombraram todo o dia, temendo por ela e pelo que aconteceria com ele caso morresse. Sentiria primeiro a culpa e depois a raiva de seu pai, então se entregaria a Lorde Nightingale para que ele fizesse o mesmo com Angus o que tinham feito a sua filha. Seria a justiça. Uma morte honrada e justa. Os deuses entenderiam.

Notou que os cavalariços estavam retornando a seus aposentos, como sempre faziam, e que o ferreiro batia em um bloco de ferro, como sempre fazia. Notou as criadas da cozinha, já servindo pratos para a ceia, como era costume. E notou também o silêncio de toda a fortaleza interior. Como sempre. As coisas pareciam normais demais, assim como ele viu enquanto crescia, muito monótonas e simples. Lançou um olhar para a Torre da Prisioneira e lutou contra a ideia de ir vê-la sem um banho antes. Ela com certeza torceria o nariz, embora não cheirasse muito melhor que ele. Ainda se recusava a tomar banhos... e agora nenhuma criada iria vê-la para que sentisse vergonha de si mesma.

— Que droga, Angus! – ralhou consigo mesmo, enquanto movia as pernas para a fortaleza interior. Subiu as escadas da torre rapidamente, ignorando a sensação de confinamento. Estou ficando paranoico. Ela está me deixando assim. Será a Donzela cruel demais para envolvê-lo naquele romance impossível? Ou então seria o Pai justo demais para que ele pagasse por toda a sua covardia, tendo de ser corajoso por outra pessoa? Quando alcançou o topo da escadaria, não encontrou Kevan. O guarda deveria estar ali, como sempre estava, guardando a porta da prisioneira. Os pelos na nuca de Angus se eriçaram. Seus instintos estavam certos, alguma coisa iria acontecer e ele tinha de impedir.

Abriu a porta com um tapa, parecido com um soco, que mais soou como um chute, e encontrou a cena mais aterradora estendida sobre o chão. Lyria tinha os olhos vermelhos e lágrimas gordas rolavam por seu rosto, molhando o pijama. Notou que o quarto cheirava a lavanda e que a banheira estava cheia de água. Ela se lavou. Pensou, bobamente feliz. Mas então viu que a escuridão o estava pregando peças. Lyria chutou os lençóis da cama que caíam sobre si e ele viu sua camisola empapada de sangue. E correu até ele. Abraçou-o, gemendo de dor e trêmula de medo. Sobre sua cama, ele viu o emaranhado de lençóis dar espaço a uma cabeça negra e então a um rosto arranhado com unhas de uma mulher e o corpo nu. Sua espada estava no chão, manchada de sangue. Kevan Reyne grunhiu algo para seu primo e lançou-se para cima dele.

Kevan... O que está fazendo? O homem agarrou a espada e a ergueu para Angus. Seu primo avançou com uma estocada, aproveitando que o adversário estava sem a espada e que tinha uma moça agarrada a sua cintura. Mas Angus vestia armadura e cheirava a adrenalina. Ele bloqueou com o pulso forrado de metal prateado e com a mão boa segurou a espada e a desembainhou num movimento só. Por pouco não tocou a lâmina em Lyria. A menina soltava gritinhos agudos, encolhendo-se cada vez mais, agora já do lado da porta onde ela poderia descer as escadas e fugir. Mas permanecia ali.

— Vamos matar essa vagabunda nós mesmos! – grunhiu Kevan – Me ajude, Gus!

— Eu não vou matá-la – Angus respondeu, colocando sua espada em posição defensiva. – Se a quer, passe por mim primeiro.

Kevan não se intimidou, conhecia as habilidades limitadas de seu primo covarde e o enfrentou. Primeiro com outra estocada, que passou por um fio de tecido de acertas a coxa do primo, então ele tentou cortar-lhe o pescoço, mas Angus bloqueou com o braço novamente e o acertou na lateral do cotovelo, amortecendo seu braço e deixando-o sem firmeza. Então bateu o cabo da espada em seus dedos, e o fez largar sua arma, deixando-o indefeso. Era fácil lidar com alguém que não usava a espada há muito tempo, quando acabava-se de sair de um treino. Angus abaixou a espada e segurou o braço de Lyria.

— Precisamos ir, aqui não é mais seguro. Deixe Kevan comigo, corre para as cozinhas e peça que a levem até meu quarto. Não deixarei que a machuquem. – disse, rapidamente.

— Não! – Lyria gritou. – Mate-o! Agora! Ele disse que não irá desistir, disse que o mataria para se tornar herdeiro de Castamere e que seu pai o havia mantido aqui para isso.

Angus estremeceu. Seu próprio pai sabia que ele era um covarde, mas jamais imaginou que abriria mão do próprio filho por causa disso. Sentia-se inválido. O que diria a sua mãe? O que diria a Johen? Lyria precisava dele, precisava de sua espada. Sentiu o impacto em seu maxilar, quando o punho de Kevan o atingiu, e então cuspiu sangue de sua língua, ao mordê-la. Lyria gritou, atirando-se para o chão, mas Kevan a agarrou pelos cabelos e a ergueu até a cama. Era tolo. Mas era forte. Angus ainda sentia-se desnorteado, o gosto metálico do sangue não era nada agradável, mas ele tinha de ser firme. Precisava salvá-la. Guerreiro, por favor. Qualquer um dos deuses, por favor, me ajudem.

Como se a sua oração fosse respondida, ele encontrou o cabo da espada e se ergueu, escorado sobre a porta do quarto. Lyria esperneava nos braços de Kevan, o primo abria-lhe as pernas, metendo a mão por entre seus pelos pubianos. Ela gruinchou, tornando seu choro agora em pranto.

Angus não viu quando, mas sua espada perfurou as costas de Kevan, assim como perfura manteiga, e o atravessou até sair sobre o coração. O sangue jorrou sobre Lyria e a cama, quente e pegajoso, mas o homem já estava morto. Ela o empurrou para o chão e jogou-se nos braços de Angus pela seguda vez. ele a envolveu com força, sentindo-se enfim fraco. Ofegava. A mão dos deuses o mantivera firme até aquele momento. Agora o abandonavam, pois já fizeram o bastante. E ele agradecia. Lyria beijou-lhe a barba, limpando as lágrimas com os dedos, enquanto soluçava.

— Obrigada, obrigada, obrigada – ela dizia sem cessar, mesmo quando ele a ergueu e a levou escadas abaixou, ela escondeu sua cabeça de cachos negros sobre seu braço e continuou a murmurar – Obrigada, obrigada.

Angus apareceu no pátio da Muralha dos Corvos e ergueu a cabeça para os guardas em suas ameias. Respirou fundo e caminhou calmamente até os estábulos, cumprimentando um dos pajens que ali brincavam. Os garotos erguiam as sobrancelhas, mas apenas sorriam e acenavam para Lyria, que tinha a inteligência de devolver o sorriso e perguntar se estavam bem. Quando ele terminou de afivelar um de seus melhores cavalos, colocar ração em uma pequena bolsa na cela e então ajudar a menina a subir.

— O senhor vai para a cidade? – perguntou um dos rapazes. Angus quase o respondeu de imediato, mas então pensou melhor.

— Sim. Vou levá-la até a casa da mãe, está desesperada, pois a velha adoeceu.

— Boa sorte! – os pajens acenaram, despedindo-se deles.

O cavalo era realmente veloz, Angus seguiu a trilha para a cidade, até que o castelo saiu de vista, atrás de uma colina, e então alcançou uma estrada malcuidada para as fazendas de Castamere. A região era polvilhada de rebanhos de ovelhas, com lã boa para roupas de frio e por isso muito comercializadas com o Norte, que estava sempre no frio. Os animais já estavam recolhidos, mas alguns pastores caminhavam por suas cercas, arrumando as estacas para evitar a fuga das ovelhas mais jovens. Eles saudavam Angus com um meneio de leve, pessoas não atingidas pela guerra. Talvez nem soubessem o que era um dragão. Invejava-os. Mas quando as mãos de Lyria se prenderam no cinto de sua espada, esqueceu-se dos problemas e sentiu-se bem por ser ele mesmo. Ao menos uma vez na vida não fora um covarde. Ele havia salvado a ambos com sua espada, assim como um guerreiro na guerra deveria fazer.

Matei Kevan. O vento era forte e frio contra seu rosto, conforme o Sol ia desaparecendo e a escuridão tomando conta do pasto. Lyria sentia que as rédeas escapavam das mãos de Angus e preocupou-se com seu estado. Poderiam acampar em algum arvoredo, ou algum celeiro, caso encontrassem, mas as colinas, planícies e planaltos de pasto pareciam não terminar. Matei meu primo. Angus refreou seu cavalo, observando ao longe o último fio do pôr do Sol, e sob sua luz, a fumaça de uma chaminé. Incitou o cavalo naquela direção, forçando a moça a envolvê-lo com mais força. O que tio Kay pensará de mim? O que meu pai pensará de mim? Mãe... me perdoe... Mas ele não sabia a qual das mães pedia perdão.

— Veja, um celeiro! – Lyria apontou o braço por cima de seu ombro, mas Angus levou o cavalo até a casa da fazenda, desmontou o animal e segurou-a pela cintura, para tirá-la de lá de cima. Lyria, silenciosamente, o seguiu.

Angus bateu na porta da casa, que demorou a se abrir. Mas quando o fez, revelou o rosto carrancudo de um fazendeiro simples. Tinha uma barba grossa e negra, pele queimada de sol e uma foice em mãos. Ele ergueu uma sobrancelha peluda e analisou Angus, vestido de armadura e com uma espada em mãos, além de ter um cavalo de guerra bem alimentado e uma dama de beleza extraordinária e seminua em suas costas.

— Quem é você? O que quer? – o homem grunhiu.

— Sou Angus Reyne e esta é Lyria Nightingale, de Jardim Suspenso. Ela é filha de Lorde Nightingale.

— E você de Axell Reyne. Ele levou meu filho para a Batalha dos Espinhos. Jon nunca retornou. – mas os olhos do camponês pareciam mais macios agora que sabia quem eram os estranhos.

— Lamento por seu filho. Meu irmão também nunca retornou depois de defender a Muralha dos Corvos, em Castamere. Johen.

— Lembro dele. – o velho suspirou – O que quer, milorde?

— Abrigo.

— Tinha abrigo melhor em Castamere. – ele fez menção de fechar a porta, mas Angus se precipitou para frente e conseguiu avistar atrás da porta, escondida, uma mulher que aparentemente era a esposa do fazendeiro. Quando seus olhos se encontraram, ela recuou.

— Não posso retornar para lá. – ele admitiu, enfim, demonstrando fraqueza.

— Por que não pode retornar para sua própria casa?

— Eu matei meu primo. – Angus notou a imediata expressão de pânico no rosto do homem. – Ele a quis violar – puxou o braço de Lyria – Era nossa prisioneira na Torre da Prisioneira, mas Kevan não seguiu suas ordens de manter vigília na porta e resolveu vigiar por dentro. Ele me atacou, quando tentei impedi-lo, e tive de me defender.

— Matou sua família! – o velho gritou, sua mão firmemente agarrada a foice. Ele não atacaria Angus. Não podia atacar... era seu lorde, seu suserano. E estava procurando abrigo. – Você não tem honra!

— Eu protegi a honra desta donzela, meu primo teve aquilo que chamou para si mesmo. – e então virou-se para a senhora, ainda ali. – Se fosse vossa filha, a senhora temeria seu salvador? Não podia deixá-la desamparada! Queriam matá-la, mesmo sendo inocente.

O fazendeiro voltou-se para sua esposa, que segurava um pano puído nas mãos e abria a boca e a fechava rapidamente. Então ela caminhou para a porta e a abriu mais, olhando para Lyria, que ainda tinha os olhos vermelhos, a camisola rasgada e sangue banhando-a por todo o corpo. A senhora tocou o próprio peito e então saiu, envolvendo os ombros da menina e a levando para dentro.

— Vou banhá-la, sim – ela disse – Minha pobre Anni encontrou um destino muito pior que o seu. Ela não tinha um cavaleiro para protegê-la, foi violada muitas vezes e depois a mataram diante de nós, com cordas amarrando-a e a puxando de todos os lados por cavalos sendo chicoteados e carros de guerra... fizeram o mesmo com muitas moças das redondezas. – Ela dizia, e conforme falava, seus olhos se enchiam de lágrimas. Lyria tocou-a no braço, comovida. – Foi horrível...

— Lamento. Ninguém merece algo assim.

— Foram os soldados de seu pai. – ela contou – Lorde Nightingale, quando fazia cerco a Castamere. Espero que Johen, o Bravo tenha matado a todos.

— Entre, Angus, o Covarde. – disse o senhor fazendeiro, deixando-o passar, não sem antes segurar o punho de sua espada e puxá-la para fora da bainha. – Eu ficarei com isso.

— Está certo. – concordou Angus, ignorando o seu título. Todos conheciam a história de como ele tinha medo da guerra e como seu pai tinha medo de levá-lo a guerra e envergonhar sua Casa. O que ele achará de perder seu herdeiro e perder o seu candidato a herdeiro? Tentou se lembrar quem seria o próximo na linha de sucessão de Castamere, mas não se lembrou de possuir outros primos próximos que não estivessem mortos.

Ele acomodou-se em uma cadeira de madeira simples, em uma mesa de madeira simples. Possivelmente todos os móveis e até as paredes foram feitas pelo fazendeiro e sua mulher. Ela levou Lyria até uma cisterna na parte de trás da propriedade e quando retornaram, a menina não estava mais suja de sangue, tinha os cabelos presos por uma fita de couro e usava um vestido velho que a senhora deveria ter guardado de sua filha, pois servia bem em Lyria. Maravilhou-se ao notar que ela ficava ainda mais bela em roupas simples, sem todos os adereços e as sedas, nem todas as cores vivas e as maçãs rosadas. Tornava-se mais mulher, mais madura. Como se envelhecer lhe fosse bom.

— Não é nada apropriado a uma dama do seu nascimento, mas é o melhor que tenho. Minha filha noivou com este vestido – ela mostrou a costura delicada e as mangas enfeitadas com linho, também explicou como a lã da gola era algo criado por ela mesma e como adoraria que Anni visse um de seus vestidos sendo usado por Lady Lyria. – Você está belíssima.

Angus nunca teria dito que aquele vestido era um vestido belo e importante, que uma vez fora usado para um noivado. Mas talvez estivesse acostumado com coisas extravagantes demais. Notou como a costura escondia-se sorrateiramente, mas ainda era visível em algumas partes, onde talvez as mãos da mulher tivessem vacilado de dor ou de inchaço pelo esforço com a agulha. Lyria sentou-se em uma das cadeiras e colocou seus braços finos e brancos sobre a mesa. Angus sentiu vontade de segurá-la, senti-la, mas se conteve.

— Tom e Carin. – o senhor apresentou ambos, e Carin sorriu, mostrando a falta de alguns dentes, que até então Angus não percebera. Ele sorriu em resposta, tentando soar amigável, mas Lyria estava de cabeça baixa, apenas assentindo. – Temos um pouco de sopa que sobrou no almoço.

— Vou esquentar – Carin correu para sua cozinha, anexa a sala e a entrada. Toda a casa tinha quatro cômodos, e parecia que o fazendeiro tinha muito orgulho de sua propriedade.

Enquanto a sopa era esquentada e o fazendeiro tentava extrair de Angus informações sobre seu castelo e a guerra, Lyria notou como estava mais quente do que o costume. Tocou seu pulso e depois a testa. Chegava a suar. Aquilo a fazia se sentir bem, de algum modo, pois passara tanto frio em sua torre na fortaleza de Castamere, que esquecera o que era sentir-se quente. O calor vinha da lareira, muito atiçada e com labaredas altas. Fora feita para invernos rígidos, embora os últimos vinte anos não tivessem trazido mais de dois invernos rápidos.

Ela gostava da sensação leve e macia do vestido de Anni em sua pele, o tecido era mais grosso do que o que estava acostumada e até mesmo a lã parecia mais dura, mas aquilo não era nada perto da leveza com que podia erguer os braços sem sentir as amarras das mangas e esticar as pernas, sem sentir a armação da saia. Era como uma camisola quente e que cheirava a mofo.

— Aqui está. – a senhora colocou o prato com a sopa em frente aos dois convidados. Eram tijelas escuras, que eles beberam com fome. Lyria havia perdido a noção do tempo quando começaram a cavalgar e só então notou que não comia há quase cinco horas. O casal os observava, ora trocando olhares de confidências, ora sorrindo para eles, que devoravam a sopa maravilhosa de Carin.

— Muito bom – elogiou Lyria, quando terminou, e viu que Angus também terminava. Ele cheirava a sangue e suor. Seria bom que tomasse um banho, embora ela não soubesse como dizer aquilo sem soar grosseira. Quando Tom decidiu que era hora de dormir, ele apagou todas as velas e acompanhou-os para uma cama pronta, onde seus filhos dormiam juntos.

— Nós do campo não nos importamos com quem dividimos a cama, pulgas ou irmãos. Talvez a senhorita queira dormir com Carin, enquanto eu posso dormir com o senhor. – ele propôs, mas Lyria recusou.

— Prefiro dormir com meu cavaleiro – ela disse, e então fecharam a porta. Angus sentia uma leve excitação em dormir ao lado da moça que dominava seus sonhos, por mais perturbadores que fossem, mas ela logo deixou claro o que queria. – Fique de guarda até que a Lua esteja no alto do céu, então serei eu a montar guarda.

Angus assentiu, sentando-se no chão e vendo-a se espreguiçar e bocejar na cama. Ele caberia ali, se ela permitisse, mas claro que não. Poderia ser mais quente se dividissem os lençóis finos. Talvez as pulgas não mordessem tanto. Ele também poderia acariciar suas pernas, se ela quisesse, ou mordiscar sua orelha...

Colocou as mãos sobre o rosto.

Kevan. Johen. Tio Kay. Pai. Mãe. A Guerra já havia matado mais da metade de sua família, e afastado a outra parte. Embora quisesse acreditar que o que fizera na Torre da Prisioneira fosse justiça, e que o Guerreiro estava a seu lado, tudo o que sentia era culpa. O seu próprio sangue, que crescera e treinara com ele, aprendeu a usar a espada na mesma idade que aprendia a segurar mamilos de prostitutas! Um homem fiel a seu posto. Que havia orquestrado com seu pai para matar Lyria e ele, quando fosse vê-la na torre. Jamais teria imaginado tamanha traição. Enquanto pensava, no silêncio da noite, notou que pela primeira vez estava sozinho. Nem mesmo Lyria conseguia preencher o grande buraco que ele pensava estar cheio de amor fraternal e de lealdade. Seu pai realmente o detestava, queria que Johen fosse seu herdeiro, não o segundo filho, criado nos braços da mulher doce que morreu de desgosto em sua torre. Lembrava-se de ser um garoto enfermiço, os meistres diziam que tinha sangue fraco.

Sangue aguado, como o sangue de um covarde. Sentira medo contra Kevan? Tudo o que se lembrava era de ter enfiado a espada em suas costas e cavalgado por horas, até estar longe o bastante de Castamere. Os guardas o procurariam quando descobrissem o corpo do primo, mas quanto tempo demoraria? Talvez até de manhã, quando ele trocava seu posto com outro guarda. Veria a porta aberta e vazia, apenas com um cadáver. Não o encontrariam, e então saberiam a verdade: assassinou seu próprio primo e raptara Lyria, a prisioneira. Era duas vezes traidor e amaldiçoado. Rezariam para que o Pai o punisse e para que a Mãe tivesse misericórdia de Kevan em seu descanso.

Homens matam o tempo todo na guerra, em batalhas que muitas vezes dizimam exércitos inteiros. Por que seria ruim matar um homem que comete um crime conta os deuses? Contra a própria Donzela? Estava defendendo a honra da deusa, tanto quanto a honra de Lyria. Levava muito a sério seus deuses, mesmo após terem sido implantados sobre sua cabeça, os via todas as noites e a mãe dizia-lhe o quanto se parecia com as estátuas do Guerreiro. Ela dizia “és um cavaleiro, meu Gus, mas não um cavaleiro com terras e com gado, que usa a espada para a guerra. Você é um cavaleiro de honra e de bravura. É um cavalheiro”. Era o primeiro elogio que alguém lhe fazia, embora depois ele notasse que pouco a pouco a mulher enlouquecia. Trancafiada, longe de sua família e do caixão de seu primogênito. Lembrava-se de tê-la abraçado de noite, enquanto soluçava. Podia ouvir seu lamento ainda agora, naquele quarto. Tremia também, sua mãe estava sempre quente e trêmula. Balbuciando o nome de Johen e o dele próprio.

Tentou limpar as lembranças de sua mente, mas o choro não se ia. Estava agarrado a seus ouvidos, perfurando seus tímpanos. Até que notou ser Lyria, e não a memória da mãe. Ela soluçava contra o colchão sem travesseiro, os braços estavam debaixo da cabeça, abafando a voz, mas suas costas se moviam de modo a revelar a respiração pesada e as golfadas de fôlego.

Levantou-se devagar, não querendo levantar ruído e chegou-se a cama, ajoelhando-se e pousando a mão sobre sua cabeça. Ela ergueu-a, lágrimas corriam seu rosto. Parecia uma criança na escuridão, e deixou que ele a consolasse até adormecer. Angus ficou sentado no chão e pousou a cabeça no colchão. Antes de perceber, também dormiu.

º º º

Fez-se sol pela manhã. Carin e seu esposo serviram dois copos do leite de sua vaca e cortaram algumas maçãs para eles, embora Angus pudesse comer maçãs inteiras. Lyria lavou-se na cisterna e insistiu para limpá-lo com um pano, dizia que estava fedendo, e Angus acreditava. Mas se sua preocupação com o banho fosse mais forte do que a preocupação com ela, estariam ambos mortos e Kevan se sentaria sobre seu cadáver para reclamar a herança de Castamere. Agora que já era dia e que os homens de seu pai em breve estariam procurando por eles, tinha de arranjar algum meio de se esconder e se manter. A cota de malha e as botas de couro poderiam ser vendidas em uma cidade mais ao sul, onde a influência Lannister fosse menor. Os Valois ainda tinham súditos fiéis naquelas regiões, poderiam chegar até Lorde Nightingale e pedir ajuda.

Então estaria sendo definitivamente um traidor. Por mais que seu pai pudesse perdoar um assassinato ou um rapto de sua prisioneira, não aceitaria que ele se unisse a seu maior inimigo. Ele diria que estava traindo toda a Casa, que traía Johen e a mãe. Queria saber para onde ir. O inverno começaria e isso é o fim da vida para um homem sem onde morar. As fazendas de Castamere eram impossíveis, não anoiteceria antes de cavaleiros passarem por ali a procura de um jovem nobre e de uma moça magricela.

— O amor faz coisas estranhas conosco – não notou quando Tom chegou ao seu lado, mas o velho cruzara os braços e olhava para o campo, assim como fazia Angus. Como se compartilhasse de seus receios. Achou aquilo engraçado, e ao mesmo tempo gentil. – Às vezes não podemos escolher lados, mas simplesmente escolher.

— Obrigado – respondeu ele, porém Tom colocou uma mão sobre seu ombro.

— Ela precisa de você.

E com isso, foi-se para o campo, levar suas ovelhas para pastar. Carin insistia para que eles levassem alguns vestidos consigo, por mais que Lyria os recusasse gentilmente. Notou como os olhos dela eram verde escuros, feito musgo após a chuva, sua pele era branca e quente, erguia pequenas pintas pelo pescoço e o colo, tinha um semblante astuto e rígido, como uma senhora. Como podia ainda ser donzela quando a raptaram? Seu pai não a casaria? Estaria noiva? Prometida? Angus acariciou o focinho de seu cavalo, enquanto olhava suas patas e afrouxava o cinto da cela. O pobre animal passara a noite todo amarrado, ele decidiu que caminhariam até a vila mais próxima e então tomariam uma carroça ou uma trupe até Forte Desgraça, no porto embarcariam para o sul, para Jardim Suspenso.

— É bom ver que um bom cavaleiro lida bem com seu cavalo, tanto com a espada e com a donzela. – a mulher do fazendeiro empurrava Lyria pelos ombros, segurando também uma trouxa com roupas e suprimentos. – Espero que os deuses iluminem seu caminho até a segurança.

— Eu também – concordou Angus. – Você consegue montar sem cela? – ele perguntou a Lyria, que fez uma careta.

— Apenas se sentar de lado.

— Então o faça, quero deixar o cavalo descansar dos arreios. – ele a ajudou a montar, enquanto carregava todos os pertences e os presentes de Carin. A velha fazendeira acenava, com os olhos tão brilhantes que ele jurava tê-la visto enxugar uma lágrima. Quando se foram pela Estrada do Rio, já traçara um caminho mental até Ashemark, onde venderiam as botas por sapatos mais simples e um lugar para dormir. Da vila, iriam para Crag e então para Forte Desgraça. Lorde Banefort não estava em suas terras, lutava com os filhos pelo seu rei e por isto entrar em um navio para o sul seria fácil. Só tinham de se manter nas sombras e fazer o caminho menos provável. Os guardas saberiam que ele tinha apenas um cavalo e que a primeira coisa a fazer seria trocá-lo por passagens de barco, enquanto sua espada valia um mês de comida, caso fosse tolo demais para vendê-la.

Lyria não gostava do ritmo que seguiam, o tempo todo lançava olhares pelo ombro, a espreita de algum sinal dos guardas de Angus. Mesmo quando a casa da fazenda tornou-se apenas um ponto no horizonte, ela não pôde deixar de suspirar e bater suavemente o salto das botas na barriga do cavalo. O queria correndo, não caminhando. Mas como poderia dizer aquilo a Angus, ele conhecia melhor as estradas de Castamere e provavelmente saberia como lidar com um cavalo, enquanto tudo o que ela entendia era de como subir e como descer. Seria útil aprender a cuidar de um alazão, se ela fosse um cavaleiro.

Ela pousou os olhos sobre Angus e perguntou-se o que ele tinha para estar ao seu lado tão fielmente. Teria alguma divida com seus mortos, a mãe ou o irmão? Ou então estivesse comovido pela honra de cavaleiro, por mais que o chamassem de Angus, o Covarde? Em qualquer caso, ela não podia esperar que ele fizesse muito mais, pois não podia confiar nele. Tinha de estar pronta para correr até seu pai por conta própria. Ouvira o plano traçado por Angus, levaria ao menos uma quinzena até avistar Jardim Suspenso ou uma das bandeiras familiares de Valois. Muitos perigos poderiam se encontrar no caminho e talvez a lealdade de Angus fosse testada. Talvez ele não gostasse de seu primo e por isso matá-lo foi mais fácil. Mas estaria ele disposto a continuar?

— Quer comer? – ele tirou-a de seus devaneios, erguendo um pouco de pão preto. Lyria aceitou sem hesitar, mordendo os pedaços com força e engolindo em seco. Ele também ofereceu o cantil.

— Ashemark é tão distante de Castamere?

— São praticamente vizinhas. Embora digam que Rochedo Casterly também. Há um rei de nosso lado esquerdo e um dragão do lado direito, temos de seguir até o porto e contornar essa guerra.

— Valois nunca se renderá. – ela afirmou – Ele conquistará todas as terras do leão e governará um império.

— Ele pode ter um dragão, mas ainda é apenas um dragão. – respondeu-a Angus, como quem sabe do que fala, e aquilo a deixou irritada.

Não importava quem iria vencer a guerra, se os dragões, os leões ou as flores do Sul, tudo o que ela queria era retornar para Refúgio da Lua e estar a salvo com sua mãe e suas irmãs. Ah, como sentia falta das horas em frente a lareira, costurando, bordando e cantando. O Refúgio não era o mais majestoso dos castelo, mas era seu lar. Não possuía torres para aprisionar suas senhoras e não tinha calabouços para apodrecer criminosos. Muito menos possuía cidadela ou vilarejo. Era apenas um castelo, feito em frente ao mar, em direção oposta a Jardim Suspenso, sem muralhas ou fortes de vigia. Uma casa, de verdade. Ela podia visitar a praia, colher conchas, nadar na maré quentinha ou subir nos rochedos e cantar para os ventos. Suas irmãs costumavam fazer isso para atrair esposos, como as sereias.

Ela nunca havia se achado a altura de uma sereia para tentar.

— Vamos mais depressa – ela resmungou, sem perceber.

— Estamos depressa. À noite, podemos galopar até Forte Desgraça se tivermos forças. – ele respondeu. Mas o Sol era forte nos céus e não havia sinal nem de rochedos, nem de montes, nem de Ashemark. As fazendas deram espaço a bosques e campos grandes, sem gado ou pessoas. A estrada do rio era um deserto. Todos estavam na guerra ou em Rochedo Casterly, prestando honras a seu rei. Eles passaram por pelo menos quinze grupos de cavaleiros do verão rindo e falando sobre como salvariam suas terras das garras dos dragões. Também passaram por comerciantes corcundas, sem um tostão no bolso ou em suas carroças, com filhos e esposa famintos. Viram crianças órfãs correndo atrás de cães selvagens para comê-lo e viram corvos se aglomerando em pontos no céu, onde provavelmente alguém havia morrido na floresta ao tentar capturar um javali. Tempos difíceis, sim.

Quando o Sol se pôs, não havia nada além da estrada e das árvores em pelo menos uma milha para trás e para frente. Lyria tentou se convencer de que eles não estavam perdidos, mas sim que a caminhada fora muito demorada e que por isso atrasariam a quinzena para mais um dia. Angus não demonstrava sinais de estar contrariado, ele parou o cavalo debaixo de um salgueiro e amarrou as rédeas do animal ao tronco da árvore. Ela se lembrava da mãe chamando aquelas árvores de salgueiro-chorão, com os ramos caindo como lágrimas. Era uma árvore para donzelas, onde elas podiam se recostar para compartilhar o luto com a natureza. Constantemente donzelas eram comparadas à natureza, como seres místicos? Divinos? O que determinava uma donzela sendo graciosa e valiosa? Ela mesma provara o gosto da desonra e achara hediondo.

— Vou fazer uma fogueira – Angus disse, saindo para a floresta. Ela apenas se ajuntou às raízes do salgueiro e observou o céu se escurecendo, até que ele retornasse. Era inútil ser uma donzela. Angus acendeu a fogueira e encontrou um esquilo para comerem. Encontrou talvez não seja a palavra certa, capturou. — Tem sede?

Aparentemente, também tinha achado um riacho, pois trazia o cantil cheio de água fresca. Ela aceitou, mesmo contrariada, bebendo pequenos goles e molhando a garganta seca. Seu corpo doía todo de ficar montada no lombo de um cavalo por todo o dia, mas com certeza era melhor que permanecer dentro da Torre de Castamere, prisioneira. O esquilo tinha uma carne dura e pouco gordurosa, porém assava rápido e ela logo conseguiu encher a barriga com seus pedaços fatiados com os dedos. Angus comeu a menor parte, deixando-lhe o resto. Ele preparou sua capa sobre o chão, afastando as folhas. Como uma cama, e disse que o primeiro turno seria seu, embora ela soubesse que isso queria dizer passar a noite acordado.

Queria lhe dizer que nada daquilo era preciso, ela sabia se proteger. Mas não sabia. Provavelmente nunca saberia e isso era o que mais a irritava em tudo aquilo. Donzelas não precisam se proteger. Ah, verdade, não precisam? Donzelas talvez não, mas moças que tiveram a virgindade violada com certeza precisavam. Precisaram. E não sabiam. O sentimento de impotência era incrivelmente consumidor, e Lyria não conseguiu adormecer, nem pregar os olhos sequer, enquanto ruminava a ideia de que nem mesmo agora estava segura. Tudo o que a protegia de uma outra violação eram os deuses, quem sabe a honra e muito provavelmente a falta de vontade de Angus.

Ela o vira enfiando uma espada em seu primo. Como não temer alguém capaz disto? Como não se sentir inferior e indefesa? Patético, menina, patético. São apenas desculpas. Ela sabia disso, mas se deixava enganar.

Sua mãe sempre dizia para que visse as coisas pelo lado positivo. Sim. Ainda era uma donzela, tinha um possível cavaleiro e um bom nascimento. Ela não era Anni. Aquilo a obrigou a se levantar, horrorizada. A vida das pessoas era realmente assim? Com a guerra e todos os tormentos que ela pensou ter visto seu pai enfrentar, haviam pessoas sofrendo muito mais. As enxaquecas de Lorde Nightingale não eram nada em comparação a uma jovem violada muitas vezes por soldados inimigos de seu suserano e morta na frente de seus pais. Ou de um primogênito que morreu defendendo as muralhas de um castelo que nem mesmo era seu, quando não sabia nem mesmo segurar uma espada, quanto mais matar outra pessoa. As espadas que matavam tinham nomes, e eles nem ao menos se recordavam daqueles que haviam ceifado do mundo. Notou que Angus a encarava, assustado com o sobressalto que a tomou.

Não deveria pensar naquilo. Teria tempo para chorar e gritar em casa, onde sua mãe diria que aquilo não era algo que uma donzela fazia. Quando fosse uma mulher, senhora de seu próprio castelo, poderia gritar para todas as paredes. Mas nunca para seu esposo, nunca. Limites. Minha vida é cheia de limites. Quais os limites que ele conhece? As convenções sociais não impediram a morte da filha de Carin, e nem mesmo a traição de Kevan contra o próprio primo.

— Pesadelos? – ele perguntou. Não havia movido um músculo, mas ela recuou mesmo assim, puxando a capa para cima dos cabelos e envolvendo-se com as mangas do vestido. Ela não sonhava. Não tinha pesadelos. Mas se forçou a assentir. – Todos temos pesadelos. Volte a dormir, eu estou aqui.

Sim. E era isso que a manteria acordada.

Notas finais
Bem, como poder ver, a votação acabou com a vitória da Ane por um voto, obrigada a todos que votaram, e não percam a esperança u.u Beijos de sua Lady Savoy e... Obrigada a Yury, Jhu, Dhuly e Queen G que esses dias têm comentado quase imediatamente após eu postar os capítulos. Eu adoro os comentários, mas muitos leitores não conseguem acompanhar a postagem e isso me deixa com medo deles se irritarem, então eu agradeço por estarem sempre juntinhos de mim e dando as suas opiniões ^-^ Obrigada também, Scar, por comentar todos os capítulos sem falta, eu não esqueço de você. Aos demais, saibam que eu leio cada comentário (até os seus, Sr. D) e que citá-los aqui ou não é apenas um detalhe, e que meu amor é grande para todos. Beijos novamente.