Dever
“Família. Dever. Honra.” – Lema Tully
A mesa do conselho estava arranjada de modo que todos os membros importantes assentavam-se de frente para aqueles que ditariam as ordens; Namond Tully e a cadeira vazia de seu rei. Aerys Targaryen, tão velho quanto enfermo, faltava às reuniões desde que seu pé fora retirado por conta do sangue envenenado que ali havia parado. Os meistres acharam melhor assim fazê-lo, e agora o rei somente aparecia para importantes eventos, e sempre assentado no Trono de Ferro. O ar na pequena sala do conselho estava quente, como todo Porto Real, mas mesmo assim mais abafado do que se esperaria, por motivos que logo seriam verbalizados e então, concebidos como preocupação nacional.
— Os corvos não param de chegar! – vociferou Grande Meistre Anton, diretamente para a Mão do Rei, seus cabelos negros eram um desafio a todos os velhos senhores que ali impunham tanta dignidade. O mais jovem grande meistre da história, este era Anton. Chegara a Porto Real com treze anos, sendo um prodígio, e não parara até se tornar o meistre do rei, aos dezessete. – O Norte está em cerco completo, por todos os portos. Homens de ferro enviam-nos suas saudações e permissão para requerer o que têm por direito. Os fiéis estão desesperados por toda a Terra Ocidental e Fluvial, temendo que a guerra os alcance e há rumores de que os Bolton estão orquestrando uma armadilha nas Gêmeas.
— O que dizem os Frey? – perguntou o capitão naval, com sua cadeira inclinada para trás e os cabelos revoltos em um ninho ruivo. Hegan Hightower, um homem que Namond detestava ter por perto.
— Absolutamente nada – respondeu o jovem Meistre, voltando-se novamente para a Mão. – Dizem que nenhum Bolton cheirou suas torres e que, mesmo se cheirasse, preferia vê-los ali, do que qualquer covarde de vermelho e azul.
— Vermelho e azul são as cores dos Tully – Hegan salientou, com suas grossas sobrancelhas rubras erguidas. Nada como um ser incoveniente para tirar toda a grande paciência de Namond Tully. Mas, como Mão do Rei e futuro Lorde de Correrrio, manteve o rosto sereno e pensativo. – O que diz, Namond?
— Senhor – o Meistre Anton disse, de maneira suave e inteligente. – É certo que não sabemos o que se passa com precisão em suas terras, mas algo não está certo. Sugiro que peça ao Rei por um afastamento.
— Afastamento? – o Tully então falou, pela primeira vez desde o começo da reunião. Sua voz era sempre calorosa e abrangente, dominava a atenção dos homens e lhes convencia do que era mais sensato. Mas, no momento, estava cheia de indignação. – Ousa sugerir um afastamento quando há um levante contra nosso Rei? Que dirá ao Pai quando o Bastardo Negro surgir por aqueles portões, incendiar as casas e matar suas filhas inocentes? Oh, desculpe, o senhor não tem filhas para que morram – e então se levantou. – Se há alguém aqui que queira sugerir que gerencio mal minhas próprias terras, pois que saiba que prefiro me tornar um simples soldado a abandonar meu dever para com meu reino. Que os Bolton mijem em todos os muros de Correrrio. Enquanto for preciso, aqui estarei para defender Porto Real.
Hightower e Blackwood pigarrearam, contrariados, e Meistre Anton aplaudiu-o com louvor, apoiando sua submissão para com o dever e a honra. Todos conheciam o homem que Namond Tully era: honrado, justo, inflexível e sensato. Sabiam, também, que ele seria capaz de entregar uma de suas filhas, mesmo a mais jovem, para que seu reino fosse salvo. Ele defenderia todos os pobres e viúvas de guerra, todos os indefesos e homens que nascessem diante da graça dos sete, apenas para que assim se cumprisse o propósito dos deuses em sua vida, de ser uma luz para um mundo cheio de egoísmos. Conheciam, também, a afinidade que mantinha com Aerys e o Pirralho Anton, que o veneravam como se fosse um próprio semideus.
— Devemos também olhar para o nosso Reino vizinho. – Anton continuou a reunião, prudentemente.
— As Terras dos Passarinhos andam por tempos de desconfiança e prosperidade. É um cenário favorável às guerras. – concordou Alexe Blackwood, o mestre da moeda, envergando um gibão branco adornado de fio de ouro.
— Cartas chegam para convidar Vossa Graça para o casamento de Rei Rhomeo com a menina Arryn. – Meistre Anton prosseguiu.
— O rei não pode abandonar seu quarto. – interveio Hightower, provocando os nervos de Namond, mas a Mão ainda era impassível. – Recuse.
— Um casamento com uma das nossas casas juramentadas é um sinal nítido de paz ou guerra – o Tully disse. – O que os Arryn teriam a oferecer à Jardim Suspenso que seu rei já não possua?
— Até onde sei, nada, meu senhor. – o meistre concordou. – O casamento seria motivado por alianças ou comércio. Acredito que seja por comércio. Os impostos do Ninho vêm aumentando muito.
— Isso é verdade – concordou Blackwood, que nada tinha contra Namond, já que era seu Lorde, mas que preferia muito estar em seu próprio castelo, assegurando-o de estar seguro contra os Bolton. Mas, imagine, Bolton em Correrrio? Impossível! Gael Frey os teria avisado.
— Tratados comerciais são comuns. – Namond gesticulou com a mão – Prossiga.
— Sim, senhor. Lorde e Lady Baratheon faleceram por doença na manhã passada, o seu herdeiro, Lorde Yann Baratheon, está seguro e viaja para Ponta Tempestade, onde governará sob a tutela de seus senhores juramentados.
— Lamentamos a morte de Lorde Osther, envie nossas condolências ao menino. Requeira saber o nome do regente das Terras da Tempestade.
— Sim, meu senhor. – Anton olhou para os papeis a sua frente. – Príncipe de Dorne pede-nos que reconheçamos seu filho mais velho, Raffail Sand, como um filho legítimo. O pedido é feito por motivos de assegurar sua hereditariedade. O príncipe teme estar próximo de sua morte.
— Conceda.
— Protesto – Hegan Hightower franziu o cenho. – Não é correto um bastardo ser considerado filho legítimo. Há um herdeiro para Dorne e ele está casado com uma Baratheon. Não há o que temer.
— Protesto – Blackwood também se pronunciou – Já estive em Dorne e asseguro que nada é certo lá. Jovens saudáveis morrem misteriosamente pela noite todos os dias, e digo isto até mesmo nos castelos mais ricos.
Hegan certamente não gostou do que ouvia.
— Concedo a permissão – Namond os interrompeu – pois é preciso a fidelidade de Dorne, em tempos como estes. Agradar a um velho príncipe e dar a legitimidade a um de seus inúmeros bastardos não é nada em comparação com a ameaça da Campina. Eu sugeriria protestar mais contra a estadia dos Tyrell neste palácio.
Ninguém poderia rebatê-lo, e assim a reunião o conselho continuou.
— Lorde Lucien Arryn gostaria de pedir a mão de sua filha, Jennara, em matrimônio.
Namond ergueu seus olhos azuis, assustado pela primeira vez.
— Por que esta carta está entre as demais?
— Ele julga ser motivo de importância real. Sugere que logo uma guerra começará e que o senhor precisará de aliados.
º º º
A criada, que não merece o luxo de ter o nome citado, desdenhava das ações e comportamentos depravados da princesa Targaryen, sempre que Emmeline estava no quarto, ela gostava de agradar a seus senhores, optando por repudiar seus inimigos. Pobre menina, mal sabia que toda a história da briga entre a Tully e a princesa era apenas uma farsa e que quem Emmeline realmente desdenhava era a tal Tyrell, tão antiquada para os meios aristocráticos. Ela mais parecia a filha de uma rameira que alguma filha de Lorde.
Seu irmão, por outro lado, era firme e muito astuto, ele ainda não acreditava na história sobre ela e Beata, evitando os Tully ao máximo. Mamãe também não acreditava, mas escondia suas opiniões com a boca e revelava-as com os olhos. Jennara... bem, a prima sobrinha nunca se importara com nada disto, ela ainda estava em seu mundinho estranho e infantil, do qual ninguém planejava tirá-la antes do tempo. Namond... o irmão era mesmo um caso especial. Enquanto ela nutria uma falsa briga e desgosto pelos Targaryen, ele tentava passar a ideia de que a família ainda era aliada do reino e que as brigas de criança entre ela e a princesa eram apenas discussões banais que meninas nesta idade têm. O Rei não saberia de nada, ele nunca sabia de nada. A Rainha Polya, no entanto, tratava-a tão bem que seu afastamento de sua filha e consequentemente de seu filho tornaram a convivência de ambas quase harmônica, elas se cumprimentavam nos corredores com sorrisos verdadeiramente gentis e uma vez a mulher até mesmo a chamara para um passeio na praia.
— É um bordado realmente bem feito. – elogiou Damien, na porta do quarto, com uma espada na bainha e a capa branca nos ombros. Desde o incidente com a princesa, ele pedira licença para cuidar de outros aposentos, pois achava que não tinha capacidade para atender as necessidades de Vossa Alteza. O capitão da guarda o colocou como encarregado da própria tia.
— Não é mesmo? – sorriu Emmeline, passando seus dedos sobre a almofada. – Eu jamais faria tão bem. Quem lhe ensinou?
— Na verdade – Giselle disse – Aprendi sozinha.
Emmeline jamais engoliria aquilo. Jamais.
— Ah, não creio! – voltou-se para Damien – Acreditas que ela faça isso sozinha?
— Nunca imaginaria. É realmente um talento – o guarda concordou, um pouco taciturno. Ele não gostava de estar envolvido com suas artimanhas. Emmeline não o culparia por isso.
A Tyrell mostrou-se envergonhada pelos elogios, uma bela demonstração de boa educação e modéstia. Se beliscasse suas próprias bochechas, conseguiria ficar tão vermelha quando a menina, mas ela não era tão dada a autoflagelo. Seus objetivos eram mais práticos e mais verdadeiros. Lembrou-se de com saiu do quarto de Beata assim que concordou em seguir seu plano e pesou novamente os próprios pensamentos. Estaria sendo invejosa? Não. Inveja não era algo a que ela desse valor. Era melhor parar com aquele tipo de pensamento.
Deu o braço a Giselle que o segurou delicadamente, ambas saíram para o pátio interior, onde os soldados não treinavam e a maioria dos nobres passeava com suas companhias, mais ou menos nobres do que eles. Como Emmeline era a filha de um grande Lorde, maior que o pai de Giselle, ela convidou-a para o passeio, mas, por exemplo, se quisesse passear com Beata, mandaria um bilhete escondido, ou aguardaria o convite direto da princesa, pois alguém em uma posição inferior, não poderia convidar outra pessoa em posição superior. Do mesmo modo, apenas os nobres de alta estirpe apresentação damas e cavaleiros a outros nobres, e um cavaleiro não poderia apresentar um Lorde para outro cavaleiro, a ação deveria partir diretamente do Lorde. Ou seria um erro grave de etiqueta. Todas estas coisas Beata repudiava, mas Emmeline não pensava muito naquilo. Regras de educação não eram o fim do mundo, e muitas vezes sentia-se bem por obedecê-las tão perfeitamente, era um exemplo a ser seguido, como todos diziam.
— Então você cansou de obedecer à princesa e resolveu levar minha irmã como sua dama de companhia escolhida a dedo? – Emmeline girou nos tornozelos assustada com a súbita voz que a assaltou no corredor, enquanto ainda estava longe das escadas.
Otto Tyrell, o melhor espécime do sexo viril e membro da baixa aristocracia das castas de Lordes de Westeros saudou-a com um movimento ligeiro de cabeça, onde os cabelos finos e louros movimentaram-se junto e roçaram suas orelhas, compridos desde a última vez em que estivera nas Terras da Tempestade. Também uma leve barba começava a crescer, mas ele a rasparia, pois detestava a sensação que causava na pele quando uma moça lhe acariciava o queixo fino.
— Como? – balbuciou a ruiva menina, embora já fosse uma mulher, (era como se voltasse a ser menina).
— Cansou de ordens? – ele repetiu, com um sorriso sarcástico estampado no rosto. – Ou ainda as obedece, em segredo?
— Eu não compreendo, senhor. – ela respondeu, sincera.
— Tudo bem. Não esperei que compreendesse.
— Otto, deixa-a em paz. – ralhou Giselle.
— Como quiser, querida irmã. – ele novamente fez uma mesura. E foi-se.
Giselle se desculpou pelo irmão e disse que o rapaz adorava incomodar a todos, Emmeline não duvidava daquilo, desde o começo não conseguiu criar qualquer vínculo com Otto, e desistiu dele, vendo que não seria útil a nada. Qualquer coisa que ele pudesse tramar, seria contado a sua irmã, pois ela estaria ao seu lado, era sua única família, ela e as duas irmãs mais novas, que estavam na Campina. No entanto, Giselle ainda era um poço de informações desinteressantes e frívolas. Teria de desenvolver sua paciência, se quisesse se envolver com ela. Emmeline logo notou que o pátio estava especialmente cheio, e optou por erguer novamente a imagem de inimiga da princesa.
— Beata é realmente deselegante – disse, de maneira rude, parecendo extremamente frustrada. A Tyrell se surpreendeu com a mudança rápida de atitude e atribuiu aquilo ao encontro com Otto no corredor.
— Conheces aquele provérbio que diz: algumas pessoas nascem para mandar. Outras para serem mandadas. Talvez a princesa tenha nascido na casa errada.
— De fato. É uma pena para a Rainha Polya ter uma filha tão inapropriada. E ainda mais infeliz é ter um filho rebelde e traidor! Ainda bem que temos Aerton, ele salvará sua Casa da ruína. – Emmeline disse, sem esconder o assunto dos demais que ali estavam, permitindo que os passarinhos de todos os ouvintes do palácio escutassem e fossem reproduzir aquilo a seus mestres. – Um dia, quando for o momento certo, suplicarei a meu pai para que me permita voltar a Correrrio.
Giselle ficou em silêncio. Para ela, a proximidade que aquela moça havia criado tão rapidamente tratava-se de sua carência de amizades, e a discussão com a princesa era algo passageiro, logo voltariam a ser amigas. Mas, além de qualquer motivo, ficou em silêncio porque sabia que ela não voltaria para Correrrio, não com facilidade, nem tão rápido. Podia não ser envolvida nos planos de Otto, podia ser usada pelo irmão para fazer aquilo que desejava, mas ao menos sabia daquilo que todos sussurravam nos cantos do palácio. Se, em algum lugar do mundo, todas as pessoas se encontram, este lugar era Porto Real, pois todas as notícias de todos os lugares ai se concentravam.
Continuaram a caminhar no pátio e apenas voltaram para o palácio quando já entardecia.
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