Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
40 Casa é Onde a Família Está
Notas iniciais
Casa é Onde a Família Está
Anezka não sentia sequer um calafrio enquanto observava as cortinas do quarto de seus pais em Correrrio. Ela nem mesmo pensava que eles ali haviam dormido sua última noite vivos, ou que antes deles seu avô e sua avô fizeram muitos filhos naqueles lençóis. Nada disso interessava. Ela só conseguia refletir sobre uma importante e mortal questão: estava grávida? Tudo indicava que sim, que esperava um filho de Vikta e que ele seria forte, pois seu sangue parara no mesmo mês em que começou a suspeitar. Muitas mulheres ainda sangravam até o terceiro ou quarto mês de gestação. Significava que a semente era fraca. Mas não Vikta, ele plantava bem. E plantava todas as noites.
Pacientemente, a menina que já era mulher colocou uma madeixa de seu cabelo castanho para traz da orelha. De súbito lembrou-se de seu irmão, sozinho e longe. Então percebeu que não sabia de qual dos irmãos queria se referir. Dorian estava sozinho em alguma terra distante e Kilian estava sozinho logo ao sul, nas Terras Ocidentais. Sua família se separara há muitos anos, quando seus pais entraram em atrito com os ideais de Dorian e expulsaram tanto ele quanto Kilian de Correrrio. Seu tio-avô, Lorde Tully, ainda detinha de plena saúde e aprovou a escolha, embora Anezka fosse tão jovem que nunca questionou a razão. O mais velho voltou-se para o mar, para a sua fascinação no desconhecido e exótico. Kilian buscou refúgio com os Lannister, a parte paterna da família. Seu pai, embora Lannister, preferia passar os dias com seu sogro em Correrrio, onde gozava de mais privilégios que junto dos parentes em Lannisporto. O casamento fora feito contra a vontade da família, pois os jovens tinham posições muito diferentes perante a sociedade.
Uma gravidez forjada ajeitou tudo, e Torren Lannister e Salyna Tully casaram-se e foram excluídos de suas famílias, uma acolhendo-o para que se escondesse debaixo das muralhas do castelo. Correrrio mantinha seus pais muito bem guardados, e nenhum deles ansiava por sair dali. Dorian fora o primeiro a levantar objeção. Fruto de um amor sincero e de uma mentira, ele se foi para longe, para onde não tivesse família. E Kilian o defendeu, indo para longe também, para outra família.
Se eles estivessem ali quando os Bolton atacaram, talvez não fosse casada com Lorde Bolton e não esperasse um filho sujo daquele porco imundo. Eles a abandonaram ali para ficar a própria sorte, com pais irresponsáveis, avós e tios que a odiavam e um castelo úmido que sempre lhe causou tosses noites sem fim. Ao menos Vikta e os seus homens a chamavam de Lady e a tratavam como tal. A seu modo brusco e rude.
Bem, o passado é passado. Nada devemos extrair dele. O seu passado era apenas um monte de pedras, dispostas da maneira que as outras pessoas desejavam, sem perguntar a ela o que achava ou o que queria. Talvez não quisesse ficar em Correrrio, talvez não quisesse a separação da família. Mas como nunca fora preciso decidir sobre isso, também nunca pensara sobre isso. E agora só sentia curiosidade em saber o “se, por acaso”.
— Espero que perdoe o meu atraso – Vikta entrou no quarto, despido como sempre. Ele raramente usava roupas entre o seu quarto e o dela. Também era exigido que Anezka estivesse sempre nua enquanto dentro do quarto. Para que ele se usufruísse no momento em que desejasse. Não por muito mais tempo, é claro. Quando estivese certa da gravidez, então o mataria e tomaria Correrrio apenas para si. Não desejava o castelo. Deseja o controle.
A sua vida já fora ordenada demais pelas pedras de outras pessoas. Construiria as suas próprias a partir dali. Com a ajuda de muitos amigos conquistados ao longo do caminho. Amigos que seguiam apenas os seus interesses, e a quem ela supria na medida que era necessário. Não precisara trair Vikta, porém garantira que se casaria com um dos melhores lutadores e mais ricos senhores do grupo, também garantiu que o filho de outro senhor importante seria seu escudeiro e protegido, e ainda assegurou terras aos que haviam perdido as plantações. Claro que precisariam tomar essas terras de outros senhores, os fieis a Casa Tully.
— Mas os mortos não reclamam.
Ela aprendera certa noite, enquanto os homens bebiam no salão. Vikta estava bêbado e naquela noite havia caído sobre ela como um animal, bateu-lhe diversas vezes no rosto e nas pernas, sem parar até que ela mudasse os gemidos de prazer para os gemidos de dor. Talvez fosse aquela a noite abençoada em que ela engravidara. Um filho que vinha de um Bolton fora colocado com dor e seria tirado com dor, para que causasse mais dor ainda a todos. E ela o controlaria, como uma boa mãe. Vikta saberia o doce som daquelas palavras, quando morresse.
— Onde estava? – ela perguntou, embora ele não precisasse responder-lhe aquilo. Mas Vikta era fraco.
— No prostíbulo. Eu precisava descontar a minha raiva em alguém – ele explicou – e eu não vou bater em você novamente. Não agora que suspeita estar grávida. – seus olhos fitavam o ventro debaixo das cobertas e Anezka desnudou os seios, chamando-lhe a atenção para eles. – Recentemente só consigo encontrar prazer descontando a minha raiva.
— É o seu sangue Bolton. – ela conssentiu.
— Às vezes acho que este sangue é uma maldição. – ele murmurou, deitando-se ao seu lado e colocando a mão sobre seu joelho, subindo e descendo a coxa lentamente. – Toda essa Casa é uma maldição. Você é uma maldição. Eu não deveria ter ouvido meu pai.
— A vida é apenas ela mesma. As maldições e bênçãos são valores que nós mesmo atribuímos.
— Sempre achei estranho você não me detestar, ou querer me matar – ele a encarou, ainda deitado. – É como se você não se importasse com nada. Apenas... vivesse. Eu invejo isso. Penso que não me sentiria com raiva tantas vezes se eu conseguisse apenas esquecer. Perdoar os outros.
Perdoar. Aquilo era muito engraçado. Ele achava que ela o havia perdoado. Que patético. Anezka abriu um sorriso de lado e tocou-o nos cabelos, acariciando-o. Quase maternal.
— Eu deveria ser como você.
— Mas então não seria Vikta, seria Anezka.
Ele sorriu, tocando-lhe a intimidade com um dedo. Vikta não diminuíra o ritmo de sua sede sensual mesmo após saber da gravidez. Em Correrrio os momentos se prolongaram além dos minutos que ele aguentava até o ápice, agora se demorava alisando-lhe o corpo e apertando todas as suas curvas. Anezka tinha de aguentar por quase duas horas ou mais a vontade de jogá-lo da cama. E no fim, estava exausta e dormia profundamente até o meio-dia seguinte.
Sua rotina era muito mais preguiçosa do que a que se lembrava de ter em Correrrio.
Vikta subiu sobre ela e beijou-lhe a boca sem interlúdios. O prostíbulo não cuidara bem o suficiente de seus desejos, normalmente não cuidava. Era incrível, diziam os homens, como só uma esposa consegue sossegar um marido infiel. Por isso é tão fácil se acalmar do lado dela, esquecendo as outras mulheres do mundo. Fora o mais próximo do elogio que Anezka já escutara daqueles Boltons, e mesmo assim parecia um pouco incômodo. Na perspectiva de esposa.
— Logo a minha barriga vai ficar maior e não poderemos – ela disse, quando ele soltou seus lábios.
— Quero aproveitar antes.
— Talvez seja ruim para o bebê.
— Isso é bobagem.
Anezka permitiu que ele lhe abrisse as pernas e percorresse-a com beijos pelo joelho e coxas. Silenciosamente encarando o teto, até que ele chegasse a parte úmida e então piorasse tudo.
Em breve seria apenas ela e um lençol frio. Em breve.
{ . . . }
Otto segurou fortemente o braço de suas irmãs menores, obrigando-as a acompanhar os seus passos apressados. Fugir de Porto Real fora fácil, com a agitação e a morte da assassina, porém alcançar Jardim de Cima fora uma tormenta. Giselle não parara de chorar ao saber que Magnolya havia morrido de enfermidade após uma semana com forte febre. A pequena era apenas mais uma dos acometidos pela tal febre, que devastava boa parte das famílias do Jardim. Somado a isto, Asalan demorava a responder suas cartas e não deixava evidente desejo de ir até a Fortaleza reinvindicar seu trono. Ao Sul os dorneses criavam mais intimidade com os Valois e seu rei parecia finalmente estar reunindo os lordes a seu favor. Apenas um aliado fazia o que lhe agradava, e impressionantemente eram os Lannister.
Graças a Ellyn sua família estava no caminho certo dos planos para reconquistar a glória de ambas as Casas e destronar os Valois das terras conquistadas traiçoeiramente. E, dentro de mais uma carruagem, pela quinta semana seguida, Otto não podia abandonar o desgosto que o perseguia. Mãos suadas, sobrancelhas cerradas. Rosemary olhava de um para outro irmão e se perguntava o que havia acontecido para que estivessem tão quietos.
— Vocês querem me casar com alguém? – a menina perguntou, ciente de seu destino desde o momento de seu nascimento.
— Fique quieta. – Otto ralhou, pressionando as têmporas.
Giselle apenas ignorou.
Rose era mais próxima de Magnolya. A garotinha, tão vívida e inocente, quase a transformara em uma criança novamente. Porém o mundo a acordara, mostrando que não havia como correr da maturidade. Sua morte era de certo modo boa, assim Magie não cresceria, seria eternamente uma criança boa.
Rosemary não sabia muito dos planos de seus irmãos. Otto havia voltado de Porto Real com as notícias de que príncipe e rei foram assassinados na mesma noite. E todo o reino parecia girar de cabeça para baixo. Agora rumavam para as Terras Ocidentais, auxiliar seus aliados a reconquistar uma fonte de ouro que Otto acreditava ser a resposta de seus problemas: Rochedo Casterly. Mas nenhuma aliança é forte o bastante se não envolver a família. E Giselle estava prometida ao príncipe Asalan, então tudo indicava que ela teria de se casar com alguém.
Mas os Lannister tinham filhos? Quantos eram? Ninguém sabia sobre eles. Nem mesmo de sua existência. Eram quase mitos, histórias de cantores.
Otto mantinha seu cérebro ocupado. Deveria ter ficado em Porto Real, esperando Layse. Ela não saberia onde encontrá-lo, caso chegasse até o castelo. Se depararia com o caos. Isso, se ela realmente partira de Jardim Suspenso. Era quase engraçado imaginá-la abandonando Rhomeo para correr até ele.
Mas sou apenas um substituto. Pensou.
— Você irá se casar com quem eu mandar, no momento em que eu mandar. – disse, repentinamente quebrando o silêncio.
— Eu sei – Rosemary assentiu, sem compreender porquê Otto parecia tão incomodado. Ela sempre soube daquilo. Amores verdadeiros só existiam nas canções.
— Então não faça perguntas – ele bufou.
E novamente o silêncio dominou a carruagem.
{ . . . }
Catherine sentiu novamente as lágrimas molharem seu rosto. Não conseguira parar de chorar durante três noites seguidas, e agora na quarta estava novamente sentada de frente para a janela, de onde podia ver a Lua e o mar, encontrando-se furtivamente na escuridão. Sentava-se sobre uma almofada muito confortável e lia um dos livros preferidos, que trouxera da biblioteca com a permissão do Rei. Poucos diriam que era uma prisioneira, se a vissem.
Mas era.
Quando o primeiro pombo chegou, avisando que sua família havia invadido o Dente Dourado e mantinham Lorde Lefford cativo, Rhomeo a tomou como escudo para se assegurar de que não fariam nada além de tomar um castelo qualquer de suas terras longínquas. Pouco se falava sobre traição. Era mais uma questão individual de seus senhores. Desde que não criassem mais problemas, ele permitiria que seu pai tomasse o Dente.
Mas nada era certo. Pois ainda perto de lá estava Rochedo Casterly, e o tão íntimo amigo do Rei, Lorde Nightingale.
De filha indesejada a refém em um quarto. E o pior, seu coração a traía ainda, mesmo após tantas noites depois do baile, ainda lembrava de Elric, acompanhando-a na dança, e de como fora gentil, mesmo quando todos a tratavam como uma espiã traidora. O Arryn continuava no palácio, porém não mantinham contato, pois seria inadequado quando ela era uma presa política. Lucien desejava retornar ao Ninho o mais rápido possível, e quando fosse, levaria junto seu irmão. Apaixonada e futilmente encantada, Catherine nutria as memórias com suas lágrimas e murmurava as palavras que desejava dizer a ele, caso pudesse e caso ele fosse ouvi-la.
Não iria. Elric não se sentia da mesma forma, em relação a ela. Já havia dito uma vez e deixara claro na última vez em que a visitara.
— Estou prometido a uma moça de Ninho da Águia.
Era mentira, Catherine podia sentir em seus olhos, porém ele precisava de uma desculpa educada para que ela desistisse. Não que deixar de amar fosse fácil assim. Mas os homens não entendem estas dores do coração.
Nem mesmo os homens como Elric.
Enxugou uma lágrima e soluçou, abraçando os próprios joelhos.
Ninguém se lembraria dela, no final.
{ . . . }
— A família toda reunida! – Ellyn sorriu, abraçando os dois irmãos pelas costas. Eles se curvaram um pouco, para permitir que ela ficasse com os pés no chão. – E quando o Tyrell chegar, com seu exército, seremos uma família reunida numa fortaleza enorme!
— Seja mais cuidadosa com o que fala, irmã. – Rolland a previniu, porém ela apenas deu de ombros, deixando-os ali.
Treinavam no pátio de Dente Dourado, novamente dando um espetáculo a todos os soldados de Lorde Lefford. Lorren era infernal com a espada, e mesmo Rolland apenas ria, enquanto sua espada caía da mão sempre que eles se encontravam no duelo. Kilian não gostava de espadas, e exibia uma mira impecável aos arqueiros, enquanto Roselynn tagarelava na sala de costura, pintando as almofadas com tinta para tecido que ela trouxera. As damas acharam muito mais prático pintar a bordar.
E Lan Lefford se juntara ao treino, após vencer seu orgulho. Pedira a Lorren que o ensinasse, e o irmão era bom demais para dizer não.
— Sua bela noiva está fugindo de você, primo? – Ellyn parou ao lado do alvo, se medo de que Kilian a acertasse.
— Está sendo sarcástica?
— Ah, eu estou. Ela não é bela.
— Sobre a outra parte.
— Isso não. Ela realmente está fugindo de você. Todos estão aqui no pátio, nós até mesmo fizemos um piquenique com Lan, mas ela não mostra as caras desde o banquete. Talvez alguém esteja sendo rejeitado antes mesmo das núpcias. – a prima piscou como uma cobrinha.
Kilian deixou o arco tensionado, porém não soltou a flecha. Não seria bom soltá-la.
— É normal uma mulher não consentir com seu casamento, principalmente nestas circurstâncias. Amor é algo que se conquista com o tempo.
Ellyn riu.
— Você fala de amor? Há tanto otimismo em você que me deixa preocupada, mas vou fingir que não o ouvi dizendo isto. – ela deu de ombros. – Eu estaria exultante, se me casassem com Príncipe Asalan.
— Aposto que a minha bela noiva também estaria exultante se fosse noiva de um príncipe.
— Com a cara que ela tem, dificilmente a casariam com um padeiro.
— Ellyn. — ele a repreendeu, seriamente ofendido. Afinal estava falando de sua noiva, a quem ele deveria proteger a reputação. E principalmente porque a achava bonita. Era estranho ouvir a inveja de Ellyn por alguém tão visivelmente inferior.
— Ah, que foi? Ela tem sorte de que esteja sendo moeda de troca nessa transação toda. Se meu pai não quisesse, Lorde Lefford estaria morto e nós teríamos Dente Dourado de qualquer forma.
Lorren, de repente, se juntou a eles, escutando todo o diálogo anterior. Ele deu um leve cutucão em sua irmã e cruzou os braços, como fazia quando estava irritado.
— Foi ela quem se ofereceu para fazê-lo. Nosso pai apenas manifestou a intensão.
Ellyn se voltou para ele, com as mãos na cintura.
— E ela sabia que seria Kilian? Porque até mesmo eu, na situação dela, tentaria me casar com o filho do homem que derrotou o meu pai.
— Sabia, sua teimosa. – ele a cutucou novamente, desta vez na testa. A garota não gostou muito e fez um bico grande com os lábios. – Você não deveria julgar a índole das pessoas por sua aparência, Ellyn. E não fique zombando dela pelas costas. Logo seremos uma família e Kilian seu esposo. Você deve respeitá-la como uma prima.
— Ela nunca será uma prima. Você acabou com o irmão dela! – novamente se exasperou, deixando que a irritação a dominasse. Lan Lefford fingia não ouvir e movia a espada com os golpes que Lorren havia lhe ensinado.
— E o que isso importa? Fomos tão humillhados por todas as Casas que deveríamos ser menosprezados por todas? Assim como nós queremos conquistar a dignidade, você deve permitir que os outros busquem sua própria reconciliação. Veja Lan, por exemplo.
— Não deixam de ser perdores.
Kilian lentamente soltou a flecha do arco, permitindo que ela caísse no chão, ao invés de acertar o alvo próximo dos primos. Colocou a arma sobre o ombro e começou a recolher o material de treino. Cansara-se daquela discussão. Às vezes Ellyn o incomodava de verdade. Lorren fez uma careta de piedade em sua direção.
— Cale a boca, Ellyn – disse, como um barítono de grave e profunda voz. – Eu sou um homem, então quero que você cale a boca e deixe o assunto de homens com os homens. Vá fofocar a sua inveja com as damas de companhia. É o seu lugar.
— O que você está-
— Vai embora, garota. – ele rugiu, assustando até mesmo Lorren. – Você não percebe que não é mais do que uma garota? Não tenho que ficar ouvindo o que você tem a dizer sobre tudo. Vá encher o saco de outro.
Ela enrubesceu, com a raiva explodindo no rosto, e cerrou os punhos fortemente ao lado da cintura, virando as costas e deixando-os a passos firmes. Lorren assobiou e sorriu, tentando testar o terreno. Mas assim que Ellyn se foi, Kilian abaixou os ombros e colocou o rosto entre as mãos. Inconformado com sua atitude.
— Eu nunca vi alguém repreender ela a ponto de mandá-la embora.
— Eu só queria que ela parasse. – murmurou. – Disse coisas idiotas.
— Ela merecia ouvir. Às vezes me culpo por este comportamento descortez de Ellyn. Se não a mimássemos tanto, talvez ela fosse mais dócil com os outros.
Kilian não conseguia parar de encarar Lan, ainda treinando os movimentos no pátio. Impressionado com o ato heroico de seu futuro irmão. O Lefford começava a pensar que Kilian seria um bom esposo para Alayne, se a defendesse assim sempre.
— Ela disse que Alayne é feia.
— Não disse. – Lorren corrigiu, gentilmente.
— Deixou subentendido. Disse que o rosto não é digno nem de um padeiro. Isso é o cúmulo da ofensa. Ellyn está desesperada por alguma coisa e desconta isso em Alayne.
— Perdoe a minha irmã. – o primo tocou-o no ombro. – Sua noiva tem o charme que você precisa, eu sei disso. Você gosta de ruivas.
— Ela parece fogo. – Kilian sorriu. – Cresci em Correrrio, porém nunca vi um vermelho tão vivo antes.
— O que importa é o interior. Sempre é o que importa. Não adianta ser bela como Ellyn se será tão chata quanto. Eu não suportaria me casar com uma mulher assim. Alayne parece ser uma mulher muito bem-educada e silenciosa. Um pouco de poesia e talvez ela se abra a você.
— Por que todo mundo acha que se eu fizer qualquer coisa poética para uma mulher, ela vai se derreter por mim? – Kilian estava realmente começando a achar aquilo incômodo. Não era a primeira vez que lhe sugeriam aquilo.
— Porque sempre funcionou assim. Só você não percebeu. – Lorren piscou, com um sorriso camarada.
Não conseguia acreditar naquilo. Kilian já dormira com prostitutas antes, mas sempre deixara seu ouro para elas. Também já havia se deitado com filhas de camponeses, ao lado de Lorren e Rolland. Os primos tinham romances passageiros, que iam e vinham como as águas de um rio. Eram homens honrados, seriam fieis a suas esposas. Porém ainda eram jovens e solteiros. Não comprometidos. O casamento em si não era um empecilho, no final quem decidia se iria ou não haver traição era ele mesmo, ninguém se oporia, a não ser sua esposa e os clérigos, mas até mesmo a Fé está cheia dessas corrupções. O que realmente poderia impedi-lo de não ser um herói como canta nas canções? É tolice apaixonar-se através da arte, pois ela é mentirosa e esconde os defeitos de seu artista. É fácil cantar que pode brandir uma espada frente a uma legião de soldados e exércitos, porém é mais difícil mostrar isso na prática. Após perceber que sua música alcançava mais a falsidade que a realidade dos sentimentos, parou de tocar às damas da noite e dedicou-se somente para sua família.
Anezka e Catherine também estavam em seus pensamentos, como ouvidos distantes que poderiam capturar sua melodia através do espírito, assim esperava. Mas ninguém além deles seria capaz de compreender a poesia que fazia verdadeiramente, pois não era o amor verdadeiro que estaria envolvendo um terceiro ouvinte. Quando tocava, pensava naqueles que deveriam ouvir. Quando cantava, queria alcançar o coração apenas daqueles que estavam ouvindo a verdade. Desta forma, mantinha-se seguro e protegia os demais de falsas certezas. Falsos amores.
— Tenho medo de que nunca me apaixone, Lorren. – ele segredou, repentinamente sincero. Porém Lorren não estava surpreso. Era esperado que Kilian dissesse coisas que os homens comuns não diriam, e a ele tudo seria perdoado, inclusive as conversas constrangedoras. – Medo de inventar um falso amor para me apegar a ela, como se ela fosse a minha perfeita inspiração, cego diante da realidade.
— Apenas os admiradores se enganam com uma idealização do seu amor. Os verdadeiros poetas não conseguem se apegar a esta mentira, pois estão ligados demais à essência de todos. – o primo o acompanhou para dentro do castelo, onde os soldados estavam conversando em cada canto e as criadas caminhavam sorrindo e acenando sugestivamente. – E você tem uma alma de poeta, Kilian.
— Essa história de alma de poeta e conseguir enxergar a essência não está em mim. Você se engana ao pensar que sou esse poeta nato. Eu apenas toco e canto aquilo que quero expressar aos outros, e não a todos. Um verdadeiro artista sabe como se expressar para a multidão, e não apenas alguns.
— Esses são os artistas da rua, que vendem sua arte. O que você vende é espiritual, Kilian. É mais profundo, mais denso. Por isso todos amamos e acreditamos que é real.
— Não está na questão. – balançou a cabeça como se os pensamentos pudessem alvoroçar-se enfim e irem embora. – Alayne não é uma canção. Ela é uma mulher de carne e osso, será a minha esposa para o fim de seus dias e me dará filhos. Mas não quero-a apenas para tê-la. Quero amá-la de verdade, quero sentir este ímpeto para dar minha vida a ela, se for preciso. Como... Como meu pai.
Lorren parou de caminhar, encarando o chão.
O saque em que sua mãe e o pai de Kilian morreram fora escondido de todos. Ninguém sabia daquela história, além dele, sua família e os Nightingale. Kilian não era irmão verdadeiro de Anezka e Dorian, era o meio-irmão, nascido de traição e pecado. Era amaldiçoado desde o ventre e nascera em uma noite macabra, que roubara da terra a vida de seu pai e de muitos bons homens na casa dos Lannister.
Kilian, filho de Ruray Nightwood e Salyna Tully. Gerado como se fosse filho de Torren e nascido sob uma Lua de sangue. Os meistres previram sua morte prematura e Salyna jurou que o daria a uma empregada. Porém seu pai não permitiu, adotou-o para escondê-lo como filho legítimo, protegido de sua Casa, e concordou que a ira dos rouxinóis levasse parte de seus soldados, camponeses voluntários para defender a casa dos leões e Ruray, o traidor. Mas, naquela noite de infortúnios, Mayla Lannister também morreu. A primeira esposa do senhor e seu único amor.
— Fazemos sacrifícios pela família. – ele por fim respondeu, ainda engolindo as memórias. Por muitos anos fora proibido tocar no assunto do saque dos Nightingale. – E a família se ama sem precisar de desculpas ou motivos. Então não procure o que amar nela. Apenas ame.
Kilian assentiu, compreendendo aquelas palavras que se gravavam em seu coração. Havia memórias a que comparamos as pessoas ao nosso redor. E com certeza Lorren era uma de suas inspirações para continuar sendo ele mesmo e não se consumir pelas dúvidas. Queria lembrar-se dele por aquilo.
Continuaram a caminhar, até que não houvesse mais preocupações em sua mente.
{ . . . }
O casamento fora planejado durante dois dias, sem intervalos. As pedras de gelo foram esculpidas com as estátuas dos deuses selvagens e uma grande faixa costurada como peles de lobo gigante e ursos brancos fora assentada por todo o chão, permitindo que os trinta convidados caminhassem com os pés descalços. Os ventos do oriente eram cruéis e o Sol se escondia atrás das nuvens cinzentas do céu. Uma tempestade viria, com trovões e geada. Um presságio de dificuldades, mas para o povo do Norte, um presságio de união.
As três grandes famílias Owl, Stane e Magnar estariam presentes para o casamento do filho de Myla Owl. Embora a forasteira fosse mantida em aquecida dentro das peles e da montanha, poucos a viam como uma dos seus. Selvagens seriam mais bem-vindos que os homens de ferro. A aliança cheirava a traição, um Norte dividido era a última coisa que queriam. Desejavam apenas a liberdade, não elos inquebráveis com um inimigo.
— Você está nervoso? – perguntou seu tio, enquanto amarrava a capa de um mamute sobre seus ombros. O peso arriava-lhe as costas e fervia seu corpo com a mesma facilidade de uma chama viva. Ainda sentia-se pequeno dentro das roupas de seu pai.
— Estou. – Georj respondeu, batendo os dentes um pouco antes de suspirar. Era difícil não achar-se bobo diante daquela situação. Qualquer homem em seu lugar estaria sério, sentindo o peso da responsabilidade que levaria pelo resto de seus dias. Unindo sua vida a outra pessoa, para sempre. Seria o protetor de uma família, honraria sua mulher e lhe daria aquilo que desejasse aos filhos. Seriam seus sonhos a bordar o véu daquela família, e ele o braço forte para sustenta-los. – Não me sinto pronto.
— Ninguém se sente pronto até que seja preciso estar, Georj – o mais velho pousou ambas as mãos sobre seus braços e tentou passar confiança com um sorriso de lado. – Não posso dizer muito mais, tenho certeza de que estará pronto quando for preciso.
— Obrigado, tio. – pressionaram suas testas uma contra a outra e passaram o calor de seus hálitos através da respiração entrecortada. Os elos que uniam os homens nortenhos eram mais profundos que aqueles ostentados no Sul. Muito além da honra e do orgulho, deveria haver fé dentro do sangue de uma família. Os verdadeiros homens do Norte sabiam aquilo.
Graças aos Deuses ele estava perdidamente enamorado com sua noiva. Syrena era o ser mais gracioso, bom e esperto que já econtrara. Ela sorria quando ele se devorava por vê-la sorrir, ela cantava quando ele precisava ouvir. Saciava sua fome de estar com ela, sempre. Porque só o conhecia naquela terra estranha, recorria-lhe para conversar e trocar sonhos. Ele escutava com um olho no mundo e outro no sonho, aquele tal sonho de estar tudo bem, de ter tudo em harmonia. Queria encostar sua pele na dela, sentir seu hálito conduzindo calor, sentir a fé no sangue da família compartilhado com uma alma a mais. Não uma alma do sangue, uma alma do espírito. Ela seria sua outra metade e ele queria se completar imediatamente.
Antes que a guerra começasse.
Mas o casamento já estava ali. Tudo o que precisava fazer era ajoelhar-se no centro do círculo de pedras, recitar o juramento solene diante da árvore coração e receber a benção de Lorde Stane. Beijaria-a diante de todos e então cortariam suas mãos em diagonal, para que misturassem o sangue e a carne antes do ato em si. Aquele que teria de realizar ainda naquela noite. Apenas de se lembrar sentia o desejo aflorar de leve na ponta da língua, então abriu a boca e sugou o ar gelado.
Deixou a gruta e apareceu na montanha.
Geava já, brutalmente deixando a todos ensopados e petrificados. Porém aguardavam pacientemente. Demoraria meia hora até que tudo fosse feito, conforme a tradição. E ninguém estava permitido de sair, todos teriam de testemunhar aquela união. Sua mãe, ajoelhada ao lado de uma das estátuas de gelo, mantinha as mãos unidas sobre os joelhos. Ela o encarou e então abaixou a cabeça, reverenciando-o. Aquela passagem de garoto para homem era anormal, Georj não conseguia deixar de sentir o quão errado era vê-la se prostrar diante de si. Errado. No centro do círculo, onde se sentou, estava já Syrena Greyjoy, com uma manta de peles igualmente pesada e quente, protegendo-a. Uma touca grossa escondia seu rosto, porém quando viu que ele havia se sentado diante de seus joelhos, ergueu o rosto contra o vento forte e a neve, sorrindo docemente antes de espirrar.
Georj riu-se.
— Hoje, diante dos deuses dos homens do Norte e dos selvagens, unimos este homem e esta mulher em sagrada união, que jamais se quebrará, não em vida, mas apenas pela morte. – a Lua disse, ainda de costas e voltada para os astros no céu claro da tarde. Quando a Lua surgisse e tudo se tornasse em escuridão, então o laço seria legítimo. Apenas diante dos olhos da verdadeira Lua. A garota-deusa, com apenas deze-poucos-anos, tinha longos cabelos negros que alcançavam o chão. Sua pele era pálida como o gelo e lisa, sem marcas ou profundidades. Ela não possuía curvas, e nunca possuiria. Seria eternamente uma criança, pura e imatura, incapaz de ser uma mulher completa, e ainda assim a maior de todas. Dentre as madeixas cacheadas e negras como a noite, saíam fios vermelhos de sangue, unidos em tranças grossas. Não eram pintados, nem mesmo eram ruivos. Eram verdadeiramente sangue, sinal da Lua Vermelha, o sinal de que era escolhida desde o ventre. Seus olhos, do mais puro azul, refletiam o brilho do céu e condenavam todos os pecados dos homens. Não havia ser mais belo e mais cruel em toda Skagos.
Branca como a neve, de cabelos negros e lábios vermellhos. A profetiza pousou as mãos sobre os noivos e erguue o rosto para os céus.
Sua voz entoou um cântico antigo, tão antigo que moveu as pedras e o ferro daquele instante, pararam o tempo e a geada, fixaram o sangue e o espírito de cada um presente, chamando os deuses para quele lugar. Ao término, eles seriam abençoados em sua união ou amaldiçoados. Pois todos possuem seu par, mas é preciso seguir as vontades dos deuses para que se encontre a pessoa certa. Os comuns não possuem a chance de conhecer a vontade dos deuses. Mas a Lua lhes diria se aquela união era boa ou não. E ouvir a resposta era o que todos queriam naquele lugar. Apenas assim confiariam em Syrena e em sua Casa.
Após dez minutos, todos conseguiam sentir a luz diminuir e o vento se aquietar, a Lua aparecia, conforme as nuvens caminhavam no céu do entardecer. Um crepúsculo premetidato que a profetiza esperara pacientemente. A língua que cantava era irreconhecível a todos, menos aos deuses. Ela e somente ela poderia se comunicar com eles e saber a sua vontade. Georj ainda mantinha os olhos presos ao chão, não tinha forças para erguer a cabeça. A sua frente, os joelhos de Syrena se remexiam, ansiosos.
— Sim, a luz! – de repente a garota gritou, deixando de cantar às divindades para se voltar ao casal. – Eu vi a luz que vem da Lua e que os ilumina desde a ponta de seus cabelos até a sola de seus pés. Eu vi também o oceano, os mares e seu deus, enviando criaturas monstruosas para saltar sobre as ondas em júbilo e regozijo. Eu vi tudo – profeticamente parada acima deles, ela começou a tremer, seus olhos fechados e os cabelos se agitando ao vento. Então todos ali puderam ver quando seu oráculo enfim cruzou os limites entre o mundo humano e o mundo dos deuses. Seus olhos brilharam por detrás das pálpebras, brancos e ainda mais gélidos. As madeixas de sangue pingavam o líquido sobre o gelo da montanha e pequenas gotas escorreram por sua pele, contrariando as leis da física, e se alojando próximo a seu coração, que emanava o calor de mil fogueiras.
Ela gritou. Sua voz se dilacerava e ecoava por toda a ilha, tocando o âmago e o espírito de todos que a ouviam. Era um grito que unia dor, alegria, morte e vida. Alguns dos presentes caíram sobre seus vizinhos, emocionado com a cena que viam.
— Esta união não durará muitos invernos – ela profetizou, sobre a cabeça de Syrena. Sua noiva se encolhia e Georj ousou erguer o braço para tocá-la. – Mas gerará um herdeiro que vingará as mortes futuras e realizará aquilo que os homens fieis querem. O herdeiro, com duas coroas, se sentará sobre o maior dos tronos e trará o inverno, protegerá a terra e cuidará de seu povo. Ele é o Rei do Meu Norte, o Norte dos deuses do Norte. E nenhum outro povo ou língua ou raça se colocará em seu caminho, desde hoje em que é profetizado, até a última das traças que roer os seus ossos. Amém!
A convulsão tomou conta de todos, prostados de boca no tapete de peles e dizendo ‘amém’ em concordância com o oráculo. A garota abaixou os braços e ajoelhou-se diante dos noivos. Ela estava trêmula e sem forças, porém continuou o ritual dignamente, tomando as mãos de ambos e unindo-as sobre uma de suas madeixas vermelhas.
— Eu uno com a benção dos deuses, Georj Owl-Wood e Syrena Greyjoy. Que sua aliança seja eterna e gere muitos frutos.
Georj ergueu enfim os olhos e encontrou o rosto pálido de Syrena. Ela chorava e batia os dentes com frio, porém também o olhava. Estava apavorada. Ele também não se sentia a vontade com a situação. Assistira muitos casamentos onde a presença da profetiza era necessitada, até mesmo ouvira as histórias de como ela dera a profecia de Nayra Stane, porém nunca imaginou sentir aquilo, estando debaixo das mãos e do sangue da Lua. Inclinou-se para frente e a beijou com cuidado. Era necessário fazer aquilo, mas não queria assustá-la mais. Syrena aceitou passivamente o beijo, levantaram-se e todos bateram a palma da mão no chão.
Estavam casados.
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