Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
41 Os Problemas Nos Fazem Fortes
Notas iniciais
Os Problemas Nos Fazem Fortes
A carruagem parou dentro do mercado de Nocticantiga, onde o som de pessoas e música perturbava seu sono. Layse se levantou e encontrou mais dois negros dentro da carga, ambos sonolentos e segurando grandes facas. Eles se entreolharam e então mudaram de posição, voltando a se ignorar. Não permitiam que ela se afastasse muito de nenhum vigia, mesmo quando precisava se aliviar em algum arbusto, eles a seguiam e esperavam, com os olhos fitos, prontos para tirar sua vida. Isso não a incomodava mais, após uma semana viajando ao lado deles, aprendera que o silêncio era um aliado e que nenhum ali estava interessado em ver suas partes de donzela.
Noctincantiga era uma das primeiras cidades das Terras da Tempestade, o que provava que os escravos fugitivos cumpriram sua palavra. Perguntava-se se conseguiria cumprir para eles o que prometera. Temia que não. Mas até lá, estaria em Ponta Tempestade, segura e com diversos guardas para protegê-la.
Encostou a cabeça no chão e tentou voltar ao sono. O tempo tinha que passar mais rápido ou não suportaria.
Layse não percebeu quando voltara a dormir, mas acordou já de noite, no meio de uma floresta. Os homens iriam acampar e ofereceram um pedaço de carne, comprada no mercado. Ainda não reconhecia aquela trilha, mas sentia estar cada vez mais perto dos ventos impetuosos do mar da tempestade. Respirou fundo, mantendo-se calma. Se havia algo que Layse Baratheon sabia fazer era se dar bem nas decisões. E se ela conseguira aquele acordo, ainda viva, então tudo terminaria bem. Pensou novamente na mãe, morrendo na noite em que lhe disse para ir logo atrás de um noivo. No fim, estava voltando para Otto. Não deveria ter arriscado a sorte.
Talvez já estivesse em Jardim de Cima, unindo forças e aliados, sendo chamada de Lady, segura e bela. “Mas são os problemas que nos tornam fortes” lembrou-se e sorriu, sentindo a luz da lua contra o rosto. Não precisava de sorte, só precisava de si mesma.
{ . . . }
Tomou o rosto nas mãos e respirou fundo, o sono o consumia, mas tinha de estar apresentável ainda naquela madrugada, quando chegassem à fortaleza no alto da montanha. O cavalo era forte e insistia, subindo a frente dos outros. A liteira que levava as irmãs se demorava no final da fila, e invejava-as por não precisar aparecer em boa forma, àquela hora da noite, chegando à porta do Lannister humildemente. Otto firmou-se na cela e respirou fundo. Faria tudo o que fosse preciso para ganhar aquela guerra.
— Milorde, os portões estão fechados. Devo enviar um cavaleiro para anunciar nossa chegada? – perguntou o capitão da guarda que o acompanhava. Dispensou-os com um gesto de mão, permitindo que fossem.
Seus demais soldados caminhavam penosamente, após dias de viagem internável desde a Campina, até os castelos de todos os lordes preciosos e aliados que tinham, parando por fim no único lugar que importava. Otto estava ciente de que logo eles teriam de lutar pelos leões, para conquistar Rochedo Casterly, porém não duvidava da capacidade e de sua lealdade. Ao contrário das Casas com que estava lidando, os Tyrell tinham seu nome e seu povo em alta estima, a peste que aflingiu suas terras alcançou o leito da grande família, levando a mais jovem e pura alma. O luto em comum com seus fazendeiros, suas viúvas e os órfãos estreitavam ainda mais o elo entre Senhor e seus súditos. E quando fosse Rei, faria uma estátua para Magnolya, para que todos lembrassem que as mesmas dores que enfrentavam, também as famílias de nobre nascimento tinham de enfrentar.
Mas até lá ainda teria de conseguir aquela fortaleza. Seria mais fácil derrubá-la no mar, um dragão poderia fazer esse trabalho. Parecia uma criança, aluscinando sobre coisas que jamais aconteceriam, mas que seriam realmente ótimas. Sua imaginação foi interrompida com o retorno dos dois cavaleiros enviados, um com a bandeira com a flor Tyrell em fundo verde claro e o outro com o beija-flor dos Valois e uma flecha perfurando o seu peito.
Ele havia pensado em uma flor carnívora, mas os pintores se recusavam a estragar o brasão.
Os cavalos quase não suportavam mais a subida quando viram os portões e as muralhas da fortaleza Lefford. Longas muralhas serpenteavam até o cume da montanha e guardas com os brasões vermelho e dourado se adiantavam em fila dupla, permitindo que a comitiva passasse em seu meio. Otto ignorou-os e insitou o cavalo para frente, usando das últimas forças do animal para entrar no pátio e desmontar num salto habilidoso. Deixou que seus demais cavaleiros descem as montarias ao estábulo, tentou achar Senhor Lannister ou Lorde Lefford, mas nenhum dos velhos homens estava a vista, então rumou para a liteira e esticou a mão para ajudar suas queridas irmãs a descer.
Elas bocejavam, seus olhos brilhavam avermelhados. Rosemary parecia quase adormecida, ainda, com as marcas do ombro de Giselle em sua bochecha. Elas sorriram com cortezia para os homens que vinham buscá-las e as levaram até seus quartos, para que dormissem em camas quentes. Ele continuaria ali, até que um dos senhores daquele lugar fosse recebê-lo. Ao menos era o que as regras ditavam.
— Milorde, os homens estão perguntando se podem armar a tenda. – novamente seu capitão se adiantava a tirá-lo dos pensamentos. Alguma coisa estava estranha. Mas não permitiria que seus homens vissem aquilo e temessem, nada valia a pena o temor de soldados fieis.
— Sim, mas estejam atentos e não disperssem suas coisas. Se for preciso, levantaremos no meio da noite.
Ele não precisava que alguém lhe dissesse que agora era o meio da noite, mas o olhar insatisfeito do capitão foi suficiente. Otto o dispensou com o aceno costumeiro, que aprendera do pai. Era um pouco mais rude e mais autoritário que o velho, mas tinha a mesma forma graciosa de conquistar a confiança e o temor dos seus. A mente inquieta do Tyrell não parava de maquinar o que faria a seguir. Estava em Dente Dourado, deixara Porto Real e a Campina, começava a tão esperada guerra contra quem sempre teve tudo e sempre foi tudo. Destruir Rhomeo era apenas um aperitivo. O que realmente queria era poder. O poder lhe permitiria cuidar do que precisasse, manter em segurança a quem desejasse e punir quem saísse da linha. Mas, mais delicioso que fazer seu antigo rival perder tudo, era vê-lo perder Layse sem perder a coroa.
Ela estava vindo por vontade própria, exigindo o matrimônio, e que os deuses abençoem a sua querida mãe, mulher ardilosa, sempre conseguindo colocar aquilo que queria na mente da filha. Com certeza fora ela quem incentivara Layse a romper o acordo para buscar uma coroa. Mas Rhomeo não foi bobo o suficiente. Ou foi, muito. Uma mulher como Layse não se encontra todos os dias, não uma com nascimento, Casa, família, terras, homens... Um irmão mais novo e herdeiro que precisa de regentes. Havia parte de seu coração que ainda estremecia quando pensava nela, uma pequena parte que sentia frio sempre que ela estava por perto e desejava que ela fosse sua apenas por ser. Mas deixara essa parte muito bem guardada por trás do grande homem que seria. O homem que construiu com suas próprias forças, sem o auxílio de pais, irmãs ou riqueza. Ele era apenas Otto, o homem mais inteligente e ambicioso de todos os Sete Reinos.
— Milorde – Otto se virou para responder com rispidez, mas se deteve ao perceber que não era o mesmo capitão que lhe incomodava. Era um homem menor, porém com mais cabelo e vestido de armadura pobre. – Lorde Lannister pediu-me para levá-lo até o quarto de Sua Excelência.
— Eu sou excelente, eu sei, mas deixe de lado as pomposidades. Sou um Lorde, assim como o seu novo Lorde Lannister – Otto achou peculiar e saboroso ver que o aliado já estava reclamando o título para si. Deveria ser um homem de ambição, assim como ele. – Quero ver o Lannister, agora.
— Milorde está dormindo os sonhos de um homem cansado, por favor, rogo que aguarde até a manhã. – aquele que haviam enviado sabia como falar, porém Otto não se vencia com aquelas desculpas vãs. Moveu-se para trás e então estalou o pescoço. Era uma pose descontraída de um lorde pronto para dar a surra em alguém. Bem a seu estilo.
— O velho leão pode dormir os sonhos que quiser, mas eu preciso me encontrar ao menos com um dos seus filhos. Eu venho de longe para encontra-los e não aceitarei essa desfeita.
O rosto do pequeno servo se tornou ruge e ele curvou a cabeça antes de sair correndo, provavelmente para bater à porta de algum dos jovems leões. Otto gostou de saber que tinha grande poder ali, eles temiam ofendê-lo, por menor que fosse a desculpa. E esperava que fosse um filho que desposaria Rosemary. Queria deixar claro suas intenções antes das festividades em sua homenagem, no dia seguinte. Sentar-se a mesa de um homem que tenta agradá-lo é pior que sentar-se a mesa de um bajulador por essência. Giselle disse-lhe que certa vez encontrou a menina Lannister em Porto Real, ainda em seus tempos mais tenros de donzela. Ambas eram damas da Princesa Beata, mas nenhuma recebia atenção ou era querida na Corte. Giselle optou pelo caminho do desaparecimento. Ellyn Lannister queria ser notada. Ela era a ratinha ardilosa daquele ninho, que colocara seu pai ao lado do príncipe nos campos de guerra e poderia convencê-lo a traição tão facilmente.
Sua mente não acompanhava o tempo. Antes que percebesse, estava perdido em novas divagações sobre guerras, aliados e inimigos. Mas a vida ao redor continuava, os guardas nas muralhas, os servos adormecidos, o homem retornou esbaforido e com uma nova mensagem, desta vez mais amigável.
— O Senhor Lorren Lannister o receberá em seus aposentos, acompanhe-me, milorde. – curvou-se e pôs-se a andar apressadamente. Otto o seguiu, chamando seu capitão da guarda e um dos escudeiros filhos de senhores da Campina para acompanhá-lo naquele ato diplomático. Nada de ameaças. Seria ouvido e obedecido na frente dos seus, assim como qualquer Lorde de imponência deveria ser.
O medo de falhar o corroia. Ser o homem perfeito exigia um acerto que nunca vira em nenhum outro. Nem oneroso, nem maquiavélico demais. Não poderia se esconder atrás dos homens da guarda, nem se expor demais como um cavaleiro bravio. Era fácil tomar um partido, voltar-se apenas para um dos lados, mas manter o equilíbrio era a verdadeira tarefa. Enquanto seguia aquele pequeno cavaleiro, mediu as suas escolhas e as suas palavras. Uma voz poderia maldizer toda a sua reputação, e conhecia isso dos grandes castelos, onde havia servido como escudeiro e cavaleiro. Aqueles que têm a confiança de seu senhor sempre são ouvidos com mais atenção. Alianças podem ser formadas ou desfeitas em estalar de dedos.
Frente à porta, seus pensamentos de repente se interromperam sobre a imagem de Rosemary. A irmã menor que vivera até então presa em Jardim de Cima. Sua vida fora muito mais fácil com Magnolya para cuidar, mas agora que nem mesmo a tinha, talvez se sentisse desanimada demais para permanecer em casa. O que o pai teria dito? Ele morreu entre o sono, um sono que já se estendia por meses. A notícia de seu falecimento era quase um sussurro, do que ele já estava esperando ansiosamente. Lorde Tyrell casaria sua irmã com um dos filhos de Lorde Lannister e juntos eles ergueriam a frente para o Príncipe Negro e contra o Rei Valois. Isso tornaria as coisas mais bonitas numa canção ou no livro dos meistres, mas o que realmente definiria a sua escolha estava atrás daquela porta.
Otto de repente sentiu-se desamparado. A quem estava jogando sua irmã? Ela ainda era sangue do seu sangue. Merecia ao menos o mínimo de preocupação. Engoliu em seco, coisa que poucas vezes se fazia em sua expressa tão monótona e fria. O guarda percebeu e considerou isso um ato de nervosismo diante de um grande aliado. Os grandes homens sabem temer e admirar os seus inimigos, assim como os seus aliados. E qualquer um que tire a sua irmã do seio da família, é um inimigo declarado.
— Milorde, boa noite – o cavaleiro entrou no quarto, deixando a porta aberta. O cheiro que dali exalava contornou o rosto de Otto e o fez se lembrar das noites em Torre do Vigia, quando acampavam no meio da floresta dos Baratheon, onde os meninos menores dormiam do lado de dentro da torre. Ele e Rhomeo, camas separados por um braço de distância, com uma vela acesa sobre a cômoda e os olhos brilhando. Aquela cena era mesmo verdadeira? – Lorde Tyrell está aqui.
Otto endireitou os ombros e olhou obstinadamente para o homem que deveria enfrentar e abraçar, ao mesmo tempo. Mas, quando o viu, sentiu como se um grande tapa fosse dispensado em sua face. Um tapa vindo de sua própria mão.
Um menino! Era um menino! Com o cabelo dourado, músculos demais e um olhar sonolento, enquanto amarrava o robe de seda vermelha e dourada. Não deveria ter mais de dezoito anos, talvez nunca tivesse visto um exército inteiro. Quem sabe nunca tenha pisado num castelo de verdade. Um menino!
— Deixe-o entrar e feche a porta. – ordenou com a voz ainda grave e um semibocejo se formando. – Não esqueça o vinho.
— Sim, milorde.
Entrou assim que o guarda permitiu, e a porta se fechou a suas costas com um suave arrastar de madeira velha em assoalho novo. O garoto limpou a garganta e abriu um sorriso convidativo, gesticulando para a cadeira ao lado da cama. Seu quarto não era o de um lorde, não receberia visitar ali, nem das mais sutis e femininas. Sua cama era estreita e revelava sua situação de filho solteiro. A única cadeira próxima da cama deveria ser de uso próprio, e assim que Otto se sentou, Lorren o fez em sua cama, algo tão informal e deselegante que muito se assemelhou a uma reunião com a Casa Lannister, de fato.
— Lorde Tyrell, é uma honra tê-lo em... – Lorren empacou, pois aquele não era sua fortaleza, nem seu castelo, nem sua torre. – Meu quarto.
— Digo o mesmo, Senhor...
— Lorren. – o garoto novamente sorriu, um sorriso cheio de orgulho e inocência. Ainda tinha muito a aprender sobre guerras. Mas Otto estava disposto a ensiná-lo, gostava do espírito leal e corajoso dos jovens e da humildade dos rebaixados. – Pode me chamar de Lorren.
— É um nome de grande prestígio – lembrou-se, mas não pediu a ele que o chamasse de Otto. Era bom manter a hierarquia. – Confesso que meu desejo era falar diretamente ao vosso pai, estes assuntos de guerra não são convenientes às crianças.
Notoriamente o comentário atingiu-o de súbito, porém Lorren permaneceu sabiamente sorridente e assentiu.
— Posso parecer novo, Lorde Tyrell, mas juro que daria minha vida a essa causa.
— E isso me preocupa muito. Você tem longos anos pela frente, terá uma esposa e filhos. O nome de sua família precisa continuar, para que a glória conquistada hoje não seja em vão. – Otto explicou didaticamente, porém Lorren estava convicto. Jovem, imprudente e ingênuo.
— Não quero soar desrespeitoso, milorde, no entanto devo lembrá-lo que é o senhor quem está em situação mais alarmante. Eu ainda tenho irmãos, irmãs e primos. Todos com o nome Lannister.
— Tens razão – Otto sorriu, genuinamente entretido. – Sou o único filho de meu pai e tenho irmãs prometidas a Casas grandes. Devo também temê-lo?
— A mim? – Lorren negou com a cabeça, porém seus ombros se relaxaram e ele quase se esticou sobre a cama. – Não, milorde. Mas a meu irmão mais novo, Rolland. É a ele que deve temer.
Uma sensação de alívio o tomou avassaladoramente. Otto não percebera o quanto estava receoso de que aquela fosse a personalidade do futuro esposo de Rosemary. Era confiante e responsável, de fato, mas muito autoconfiante e ingênuo para o encargo de ter uma família e cuidar dela. Havia lordes que nasciam para sua Casa, lordes que nasciam para si mesmos e poucos lordes que nasciam para os seus. Lorren seria um lorde responsável com sua Casa, com o título dos cavaleiros e com a fome dos camponeses. Mas sua esposa dormiria solitária em uma cama fria à noite.
Por outro lado, irmãos mais novos eram ensinados a cuidar daquilo que lhe era dado. Quase como um mendigo, ele beijava a mão de seu benfeitor e lambia seus dedos, como um cão. Rosemary seria adorada, mesmo pelo menor dos homens dentro daquele castelo, mas deveria ser adorada, custando o que fosse preciso.
— Deixando de lado as conversas supérfluas, espero que tenham recebido as boas novas de Porto Real.
— O rei está morto.
— E o jovem príncipe, também. – brindou Otto, assim que o vinho chegou junto de uma criada bem vestida. – Agora o caminho ao trono está garantido ao nosso verdadeiro príncipe.
Lorren tomou o vinho em silêncio. Talvez os ideais da revolta não fossem tão fortes naquela parte da aliança. Os interesses eram um, apenas: destronar o rei passarinho e revirar seus ninhos em todo Jardim de Baixo e Terras Ocidentais. Não importava desde que erguessem suas espadas do mesmo lado.
— Como andam os preparativos para Rochedo Casterly?
Os olhos do menino de repente se acenderam e ele empertigou na cama, deixando o vinho de lado.
— É previsto que partamos em três dias, todos os soldados estão ansiosos por retomar nosso lar e expulsar os Nightingale. Esperamos tempo demais por isso.
— Imagino que a excitação não o deixa dormir a noite.
— Tudo o que mais quero é apenas ser eu mesmo na batalha, sem me segurar para não machucar ninguém.
Otto piscou, atônito com aquilo. O pequeno lorde Lannister sem Rochedo queria lutar dentro da batalha? Como um herói galante dos contos das donzelas? Ele morreria em meio segundo assim que vissem seu rosto. Mais que fazer seu nome diante de conquistas e títulos, é fazer seu nome matando alguém importante. Com ou sem armadura reluzente, o leão estaria extinto. Mas era jovem, os sonhos devem ser alimentados nessa idade, e por isso Otto apenas sorriu gentilmente, terminando a taça de vinho e entregando-a à criada, ainda no quarto.
— Imagino que isso indique a vossa competência com a espada.
— Tomamos Dente Dourado por duelo. Eu venci – vangloriou-se o rapaz, ainda tão animado que suas bochechas se tingiam de vermelho carmesim. – Dizem que sou um demônio com a espada e que tenho a força de um leão.
— Lamentavelmente, não poderei dizê-lo se concordo. Nunca aprendi mais do que torneios, e normalmente com lanças. Sou um diplomata, não um cavaleiro. Acho que é por isso que as donzelas não suspiram meu nome.
Lorren riu. Uma risada gutural e sincera, tão difícil no meio em que Otto estava acostumado a conviver. Observou o garoto, vivaz e feliz. Sua vida deveria ser das mais difíceis, humilhado e castigado por seus superiores, fadado a carregar o nome de uma Casa fracassada e condenada à miséria. Não tinha um castelo, Lannisporto era o grande aterro de peixes e cardumes das Terras Ocidentais. Mas portava-se com tanta informalidade e jeito de cavaleiro, que Otto não conseguia imaginá-lo tornando-se Lorde. Um cavaleiro, assentado nas filas de soldados rasos, encorajando-os a morrer com glória e alcançar a misericórdia do Pai. Às vezes era o tipo de Lorde que faltava em um reino.
— Meu irmão está ansioso por conhecer sua prometida – o louro virou o rosto para o lado, intimamente incitando-o a falar.
— Rosemary é minha irmã mais nova, viveu a maior parte de sua vida em casa, cuidando do pai e de nossa irmã caçula.
— Deve ser difícil para ela deixar ambos para viajar a uma terra um pouco longe. – Lorren assentiu, porém não percebeu a expressão um pouco frígida e honesta no rosto de Otto.
— Ambos estão mortos, Rose adoeceria se continuasse no castelo. Ela é... sensível.
— Não devemos negar às moças a sua sensibilidade. Lamento grandemente por vossa dor, milorde.
— Obrigado – Lorde Tyrell balbuciou sem saber exatamente o que dizer. Era a primeira vez que lhe desejavam condolênscias e lamentavam a sua “dor”. Ele deveria sentir dor, afinal era sua família. Seria terrível se não sentisse?
— Mas Rose, posso chamá-la assim?, como ela é?
— Imagino que a conhecerá amanhã, logo no desjejum, senhor. – Otto tentou esquivar-se, porém os olhos do rapaz queriam respostas mais completas. – Ela é bonita, não mais bonita que a irmã mais velha, Giselle, mas é bonita a seu modo. Parece muito com a mãe. Tem os cabelos louros bem claros e olhos azuis. – aquela descrição parecia ridícula, porém Lorren ouvia atentamente. Era provável que saísse dali correndo para contar tudo ao irmão menor. – Ela e Magnolya se pareciam muito, ambas nasceram com intervalos muito pequenos, brincavam juntas quando criança. Ela também adora crianças em geral, todos os bebês eram obrigados a ficar em seu colo por pelo menos uma hora. Ela também tem o talento de fazê-los dormir, mesmo se estiverem berrando.
— Parece-me uma mãe perfeita.
— Rose sonha em ser mãe, ela se sente culpada pelo que aconteceu com a nossa. Seu nascimento causou grandes problemas de saúde e quando Magnolya nasceu, nossa mãe não resistiu. Rose também sempre adorou o pai, ele a mimava junto de Magnolya. Giselle nunca gostou de estar em casa por causa disso. Ela se sentia excluída. Nós dois fomos. Éramos velhos demais e precisávamos cumprir deveres. Nosso pai estava sempre doente, ele dormiu por três meses antes de falecer. Rose e Maggie cuidavam dele. Mas quando se foi, elas estavam longe e voltaram correndo para a Campina.
— Isso é muito triste...
— Jardim de Cima estava sofrendo com uma praga forte. A população já havia lutado muito, quase não havia mais sinais de doentes, porém elas estiveram fora. Em alguns dias, Magnolya ficou muito febril e não resistiu. Mas Rose se mantém forte, por nós. Ainda somos uma família e precisamos nos ajudar.
— Rosemary será bemvinda em nossa família, Lorde Tyrell, nós cuidaremos muito bem dela. Tenho uma irmã com as mesmas descrições, porém seu nome é Roselynn. Ela é irmã gêmea de Rolland, ambos estão sempre juntos.
Otto assentiu, ainda digerindo tudo o que havia contado. Não percebera o quanto sabia sobre sua irmã. Ela sempre parecia distante demais, desconhecida demais. Mas ainda era sua irmã, certo? E agora era tudo o que restava, além de Giselle.
— Não posso mais tomar vosso sono, senhor. Estarei em meus aposentos. – levantou-se e Lorren o acompanhou até a porta. – Agradeço por vossa atenção.
— Sou eu quem agradece mais, Lorde Tyrell.
Assim que Otto seguiu a criada para os seus aposentos, ouviu a porta do quarto do jovem se abrir novamente, ele estava indo dar as notícias a seu irmão, como previsto. Por algum motivo, aquilo foi engraçado ao lorde, e ele se permitiu soltar uma risada.
{ . . . }
Quando Rhomeo de Valois deixou a sala de reuniões, já era noite. Seus lordes e conselheiros já haviam, há muito, se retirado para o descanso, e ele mal conseguia se lembrar exatamente do horário em que Syerra havia passado para lhe dar um beijo de boa noite.
Estava exausto! Sentia os músculos tensos e doloridos de tantas horas sentado, mal podia esperar para finalmente entregar-se a Morfeu e se deleitar no cálice da serenidade. Precisava dormir antes que todos os problemas voltassem a povoar sua mente, pois caso isso acontecesse, dificilmente conseguiria adormecer.
Porém, o crepitar da lareira da biblioteca capturou sua atenção quando cruzava o corredor até o quarto. Estranhou. Aquele fogo deveria ter sido apagado horas atrás, quando Syerra se retirou. Havia dado ordens para que ninguém além da família real usufruísse daquele aposento. Era o favorito de sua mãe, e Rhomeo queria manter tão intacta quanto possível a memória da finada rainha Cordelya.
Abriu as portas duplas de madeira branca com cuidado, a desconfiança presente em cada gesto. Entretanto, qual não foi a sua surpresa ao se deparar com a figura loura de sua irmã gêmea, enrolada numa coberta grossa, parada diante do fogo da lareira. Ela estava de costas para si, e não parecia ter percebido a sua chegada. Seus cabelos estavam soltos, brilhando como ouro por cima da manta negra, que parecia pesar sobre seus ombros. Havia algo de sublime na imagem de Ophelya rodeada por todos aqueles livros, sendo iluminada apenas pelo fogo fraco. Rhomeo não podia ver sua a pele sardenta da irmã, mas apostava que estava mais pálida do que o normal, como sempre ficava quando era escuro. A noite acentuava o fulgor alabastrino de Ophelya de uma forma quase transcendental. Era uma visão angelical, a sua gêmea.
Entretanto, era o que diabos ela fazia na biblioteca àquela hora que o intrigava. Parecia tão imersa em pensamentos que nem sequer o ouvira chegar, por isso, foi com certo receio de assustá-la que chamou seu nome.
— Oph?
Ela se virou, e Rhomeo se deparou com olhos tristes e melancólicos e bochechas marcadas por lágrimas já secas. Havia parado de chorar a pouco, percebeu, mas não fora o choro desesperado e desalentado com que chegara ao palácio depois do sequestro. Fora um choro silencioso e contido, como se ela não quisesse que ninguém presenciasse. Fora um choro íntimo, cujo motivo Rhomeo já desconfiava: o tal sequestrador.
— Rhomy, olá. — Ophelya forçou um sorriso, limpando com as mãos as marcas nas bochechas. — O que faz acordado tão tarde? Pensei que tivesse se recolhido com Syerra.
— Poderia lhe fazer a mesma pergunta, minha irmã. O que ronda sua cabeça? Parece abatida novamente.
Ophelya balançou a cabeça, os cachos louros dançando com o movimento.
— Estou bem, não se preocupe. — Garantiu. — Só estou pensando.
— A essa hora da madrugada? — Questionou. — Ora, minha flor, pensa que não a conheço? Sei que há algo se passando. Faz tempo que não conversamos direito, vamos, se abra comigo. Costumávamos ser confidentes.
Um riso triste deixou os lábios róseos.
— Estou bem, Rhomy, de verdade.
O rei de Jardim Suspenso abandonou as botas no chão e afrouxou o gibão azul enquanto se largava, aparentemente despreocupado, sobre o chaise dourado que ficava ao lado da lareira. Lembrava-se, ainda que quase como um borrão, da mãe sentada ali, com os dois filhos aos seus pés, enquanto contava histórias de grandes reis e rainhas que já haviam pisado em Westeros e dizia que os dois estavam destinados a fazer coisas tão majestosas quanto aquelas. Bem, Rhomeo não se sentia exatamente majestoso naquele momento de sua vida, Ophelya tampouco.
— Bem, já que você não tem nada para contar, contarei eu. — Falou, puxando a irmã pelo braço para que se sentasse ao seu lado. Quando ela o fez, o rei, que não estava com muita cara de rei naquele momento, virou-se e deitou a cabeça em seu colo. Não foi preciso mais nenhuma palavra para que Ophelya levasse as próprias mãos de dedos não mais tão delicados para os cabelos louros do gêmeo e começasse um cafuné reconfortante. Rhomeo soltou um gemido de aprovação tanto para o gesto quanto para o sentimento de familiaridade que o cercava. — Céus, como senti falta disso!
Ophey soltou uma risada.
— Não era você que tinha algo para me contar, vossa majestade?
— Ah, sim, claro. — Um vermelho adorável tomou conta das bochechas do rapaz. — Eu… não consigo parar de pensar na Layse. — Confessou. — Meu casamento está aí já às portas, minha noiva está morando sob o meu teto, e eu não consigo parar de pensar em Layse Baratheon.
— Ela sempre foi o seu grande amor, não foi? — Ophelya perguntou, sentindo a textura macia dos cachos do irmão entre os seus dedos. — O seu primeiro e único amor.
Qual não foi a surpresa da princesa quando Rhomeo de Valois balançou a cabeça em negação e se aninhou ainda mais nela, virando-se de lado e enlaçando sua cintura fina com os braços.
Rhomeo, naquele momento, em nada se parecia com o grande rei de Jardim Suspenso, Jardim de Baixo e a Marca. Aquele Rhomeo era o seu pequeno e frágil irmão mais novo, que fazia de tudo para protegê-la das crueldades de seu pai e manter sua inocência e ingenuidade intactas. Aquele era o Rhomeo que havia levado surras por ela e não se importava nem um pouco com isso. Era o Rhomeo que complementava seu piano com o próprio violino, que passeava com ela na beira da praia e pelos jardins, que lhe trazia flores todas as noites e compartilhava o leito consigo. Era o Rhomeo que sempre fora seu conforto e seu lar, e deuses!, como sentira falta desse Rhomeo.
— Houve mais alguém? — Perguntou surpresa. — Quem?
O vermelho em suas bochechas se intensificou quando ele sussurrou:
— Um rapaz.
— Um rapaz?! — Ela ecoou. — Que rapaz?
— O nome dele era Jonathan Tarly. Nós nos conhecemos num dos bailes dos Tyrell, daqueles cujo único motivo era que Otto pudesse se exibir, sabe? Ele, Jon, veio me cumprimentar e… bem, eu fiquei meio desconcertado com os olhos dele na hora. Eram de um tom peculiar de âmbar, quase como whisky reluzindo sob a luz de uma vela. Não sei se essa é uma boa descrição, mas eles certamente eram embriagantes. — Riu. Um riso de saudade, nostálgico. — Lembro-me que ele veio falar algo sobre política, mas não sei dizer o quê até hoje. Estava muito perdido naqueles olhos para prestar atenção em qualquer coisa que ele falava.
— É, eu sei como é. — Ophelya disse, parecendo ainda mais nostálgica do que o próprio Rhomeo.
— Não lembro bem em que momento nós fugimos para os jardins, porém me lembro do toque quente de sua mão na minha, me puxando para fora do salão. Conversamos a noite toda sobre tudo e sobre todos, e eu estava completamente inebriado pela presença dele, por sua voz, seu perfume… tudo. Nós nos deitamos na grama e começamos a contar estrelas, enquanto Jon ria de suas próprias piadas infames. Naquele momento eu havia esquecido completamente de quem eu era, o futuro rei Rhomeo I. Estava completamente alheio, imerso na bolha acolhedora que era ele. Só que essa bolha estourou quando ouvi a sua voz, Oph, chamando o meu nome. Parecia tão preocupada. Logo descobri por que. Papai estava me procurando, queria que eu dançasse com Giselle uma última vez antes de irmos. “Os últimos a chegar, os primeiros a sair”, ele sempre dizia. — Suspirou, cerrando os olhinhos verdes e sorrindo quando Ophelya acariciou uma parte específica de seu couro cabeludo. — Eu não queria sair dali, sabe? Queria que aquele momento durasse para sempre. Mas infelizmente eu precisava ir, porque se eu não fosse, papai iria descontar sua fúria em você, e isso não podia acontecer de forma alguma, então eu me levantei da grama e disse que tinha que voltar. Ele se levantou também e segurou o meu pulso, me impedindo de ir embora, só para que pudesse perguntar se podia me ver de novo em breve. Eu não consegui conter minha alegria perante à pergunta e assenti diversas vezes como um tolo. — Mais um riso saudoso. — Então ele segurou meu rosto entre as mãos e me beijou. Meu primeiro beijo. O melhor beijo da minha vida.
— E vocês se encontraram depois? — Ophelya perguntou, genuinamente curiosa.
Rhomeo balançou a cabeça em confirmação.
— Pouco depois do baile, ele veio para Jardim Suspenso. Passou um tempo como convidado da corte, lembra-se?
— Oh, meu Deus, Rhomy, você está falando daquele Jon Tarly? Aquele bonitão?
— Sim, aquele mesmo. Ele era realmente lindo, não era?
— Tão lindo quanto o caminho para o inferno deve ser.
— Ele definitivamente não foi o meu caminho para o inferno, Ophey, querida. Essa seria Layse Baratheon, que se recusa a deixar os meus pensamentos em paz por um segundo sequer.
— Rhomeo, não fuja do assunto agora! — Protestou. — Vamos, termine a história!
— Termino se me contar o porquê de estar tão melancólica hoje, irmãzinha. — Barganhou.
— Rhomy…
— Ophey…
— Tudo bem. — Cedeu. — Eu conto. Mas não posso garantir que ficará feliz com a história, tenho certeza de que isso não irá acontecer. Você vai se chatear, Rhomeo, não diga que eu não avisei.
— Prometo me chatear bem longe de você, se for o caso.
— Tá, agora continue falando.
O rapaz se acomodou melhor no colo da irmã e beijou uma de suas mãos, murmurando um “amo você” em seguida, para, enfim, continuar:
— Nós nos víamos todos os dias. Treinávamos juntos, tomávamos o desjejum juntos, tocávamos juntos. Foi ele quem me ensinou a tocar violino, aliás. E eu o ensinei a tocar piano e a atirar com bestas. Passávamos o tempo inteiro juntos, mas nada demais aconteceu. Eu queria que ele me tocasse, queria que me beijasse, que me fizesse sentir como havia me sentido no baile e me fizesse esquecer de tudo e todos. Porém, tudo que Jon parecia ser era um bom amigo. Já estava me sentindo mais do que frustrado, queria que fizesse, dissesse alguma coisa , qualquer coisa. Estava começando a considerar que aquele beijo não tivera significado algum para ele, quando Jon me apareceu na praia de madrugada. Ele sabia que eu estaria lá e veio caminhando até mim de cabeça baixa, em nada mais do que suas roupas de dormir. Sentou-se ao meu lado, entrelaçou seus dedos aos meus e disse, baixo como um sussurro, que sabia o que eu estava pensando. Assegurou-me que aquela noite no baile havia sido genuína, que sentia coisas por mim, tanto quanto sabia que eu sentia por ele. Disse-me que queria poder chamar aquilo, nós dois, de alguma coisa, mas não podia. Iria se casar dali a três meses com uma mulher que não amava e sabia que eu também me casaria um dia. Eu iria ser rei, afinal. Foi naquela noite que ele disse que me amava. Eu disse que o amava também. E nós nos amamos ali, na beira da praia, com a lua de testemunha. Uma pena que ela não foi a única testemunha. Lembra-se de que o nosso pai tinha insônia crônica? — Ophelya ofegou em choque.
— Oh, não.
— Ele nos viu. Depois que tudo aconteceu, quando eu voltei para dentro de casa, mais feliz e triste do que jamais estivera, levei a maior surra do mundo. Passei semanas com lanhos horrendos nas costas, que deixaram cicatrizes. Jon foi embora na manhã seguinte logo após o desjejum, mas não sem nos amarmos uma última vez. Todas as duas vezes tiveram sabor de amor e saudade, um sabor que sinto até hoje sempre que me lembro dele. Queria que tivéssemos tido mais tempo.
— Rhomy… — Ophelya beijou-lhe a testa, sentida. — Sinto muito.
Ela limpou as lágrimas que haviam escapado dos olhos do irmão e suspirou, empenhando-se ainda mais naquele cafuné. Queria fazê-lo sentir melhor, pois conhecia a dor da saudade e do saudosismo como ninguém. Não tinha um dia em que não se lembrasse de Lysander.
— Bem, acho que agora é a minha vez, não é?
Rhomeo assentiu.
— Hoje seria o meu aniversário de casamento. — Confessou. — Nos casamos no início da primavera, Lysander e eu. Foi o dia mais feliz da minha vida. Eu o amava, Rhomy, de verdade. Não o teria entregado a minha virtude se não amasse, sabe disso. Nós queríamos ter filhos juntos, formar uma família. Iríamos para as Ilhas de Ferro no dia seguinte, para nos encontrarmos com a família dele e ficaríamos por lá. Num lugar que ninguém sabia quem eu era, onde as pessoas eram humanas, sem a falsidade da corte. Às vezes sinto vontade de procurar pelos parentes dele, explicar o que aconteceu, o amor que sentimos. Queria ter tido um filho dele. Queria que tivéssemos tido mais tempo .
— Me conte sobre ele.
— Lysander era um bobo. Sequer sabia fazer a corte decentemente, era um descarado. Mas… ele foi bom para mim. Cuidou de mim. Sabe, aquelas pessoas que me levaram não sabiam direito quem iria… ficar comigo. Ouvi-os brigando para saber de quem seria a primeira vez com a princesa. Lysander insistiu para ficar comigo, alegou que saberia barganhar-me melhor do que aqueles porcos imundos analfabetos. Tremi dos pés a cabeça pensando nas barbaridades que ele poderia fazer comigo, tinha certeza de que ele iria me estuprar e me torturar, como qualquer outro daqueles homens faria. Achei que fosse implorar pela morte. Porém, ouso dizer que ele foi até… respeitoso? Essa não seria a palavra, mas não consigo encontrar nenhuma outra melhor. Tudo que ele fez foi cortar o meu cabelo. Relatava inverdades a seus chefes, dizia que me usava todas as noites, que me machucava, porém não fazia nada disso.
— Mesmo assim, ele sequestrou você. Machucou você. Isto — apontou para a cicatriz fina em sua bochecha — é a prova.
— Ah, isto. — Ela riu. — Isto fui eu que causei a mim mesma, logo no começo de tudo, enquanto ele cortava os meus cabelos com a faca. Ele acabou me ferindo sem querer de tanto que eu me debatia, tenho uma cicatriz no couro cabeludo até hoje.
— Olhe só para isso, Ophelya, como conseguiu amá-lo? Ele era um rato imundo — Não fale do que você não sabe, Rhomeo. — Seu tom foi cortante como um navalha.
— Certo, certo, desculpe-me.
— Não posso responder a sua pergunta. Não faço ideia do porquê me apaixonei por ele, levando em conta quem ele era e a situação em que nos encontrávamos. Acho que foi porque… Lysander era humano. Como nenhum outro homem que conheci. Ele tinha defeitos, era falho em tanta coisa. Mas era gentil, carinhoso e espirituoso, sempre procurava melhorar e se contentava com tão pouco. Era feliz apenas por fazer sopas para o jantar e descascar maçãs para mim. Ali, com ele, eu não precisava me portar de jeito algum, não precisava ser perfeita. Lysander, ele… me tratava como uma pessoa. Como uma mulher . Não como um prêmio ou um objeto, como muitos lordes faziam. Com ele, eu não sentia mais falta do castelo. Não sentia falta do nosso pai, da corte… não sentia mais falta de nada. Queria ser Ophelya, a garota de Lysander, para sempre. A única pessoa de quem eu sentia saudades era você, meu irmão. Queria que tivesse conhecido meu marido, iria amá-lo tanto quanto eu o amei.
— Sinto muito, Ophey. — O rapaz sussurrou. — Sinto muito por tê-lo tirado de você, por tê-lo… matado.
— Você não o matou. — Assegurou-lhe. — Desculpe-me por aquelas palavras, aliás. Você não tinha como saber. Eu deveria ter ouvido Lys quando ele disse que eu deveria te enviar uma carta, contar onde eu estava, que estava bem e feliz. Mas eu tive medo que você não fosse compreender. Temi que fosse me arrancar de lá a força e me trazer de volta para o palácio. Eu não queria sair de lá, queria ficar com ele para sempre. Então não falei nada, nem para você nem para ninguém. Queria ser a única a dar um nome àquilo.
— Acha que o casebre de vocês ainda está de pé?
— A nossa casa — ela o corrigiu — certamente está intacta. Morávamos distante da cidade, mais pro interior de Harrenhal.
— Me leva lá algum dia? Quero conhecê-lo. Lysander, eu digo. Quero conhecê-lo como posso, levando em conta a presente situação.
Ophelya não escondeu o espanto.
— Eu… sim, sim, claro que levo.
Fez-se silêncio por um tempo. Os únicos sons eram o crepitar da lareira e o farfalhar dos dedos da princesa nos cabelos do irmão. Era bom, familiar e necessário. Tudo aquilo era muita informação para ambos. Rhomeo, seu irmãozinho, havia amado outro homem.
Ophelya, sua pequena florzinha, havia amado um bandido. Parecia que já não se conheciam, mesmo que se conhecessem melhor do que qualquer pessoa. Rhomeo conseguia dizer, apenas pelo correr dos dedos de Ophelya em seu couro cabeludo, que ela estava tensa. E a princesa sabia, apenas pela respiração do gêmeo, que ele estava agoniado. Era tudo demais para ambos, mas mesmo assim, nenhum deles queria quebrar aquele momento.
Uma corrente de vento frio passou pela brecha da janela, e por pouco não apagou o fogo. Rhomeo estremeceu e Ophelya prontamente o cobriu com a própria manta. O sorriso carinhoso que recebeu em troca a fez querer se estapear por ter se fechado em luto por tanto tempo. Não devia tê-lo cortado, não devia ter ficado magoada. Eram Rhomeo e Ophelya.
— Eu não sei porque não te contei. — Ele disse de repente. — Sobre Jon.
— Porque era algo que você queria guardar só para você. Certas coisas são assim, Rhomy, não estou magoada.
— Sei que não, você é bem mais madura do que eu nesse aspecto.
A princesa franziu o cenho.
— Por que diz isso?
— Porque eu fiquei magoado quando soube sobre Lysander. Quer dizer, Elric sabia. Você contou a ele antes de me contar e eu passei semanas remoendo isso. Eu sei que ele é seu amigo, às vezes acho que mais que isso, mas eu sou seu irmão. Sou seu irmão gêmeo, eu não deveria saber tudo sobre você?
— Elric e eu não somos amigos. — Assegurou, uma amargura peculiar escapando por entre as palavras. — Fui tola, não devia ter confiado tanto nele.
— Posso saber por que diz isso?
Ophey deu de ombro, e o cobertor negro escorregou, mostrando um pedaço da camisola cor-de-rosa da irmã. Ele se lembrava daquela camisola, fora presente de seu pai. Era aniversário dos dois e o rei Bartholomew III havia feito um grande baile em comemoração, entretanto, nenhum dos gêmeos se divertira nem um pouco. Ophelya havia chorado em seu colo a festa inteira e cuidado de seus ferimentos nas costas, pois, aparentemente, um príncipe não deve subir em árvores para apanhar maçãs para sua irmã.
— Não é nada demais, Rhom, eu só… não gosto dele. Quero-o o mais longe de mim possível, aquele bastardo duas caras.
— Ophelya! — A repreendeu, mas havia um quê de riso em sua voz. — Onde aprendeu essas coisas?
— Uma das várias coisas que Lys me ensinou foi a xingar os nobres com propriedade. Posso afirmar que foi algo essencial para o meu crescimento pessoal.
— Ah, claro que foi.
— É ironia que eu ouço, Vossa Majestade? — A princesa riu.
— Pare de zombar do meu título!
— Você não está exatamente parecendo um rei neste momento, irmãozinho.
Ele apertou o abraço em sua cintura.
— Eu sei que não. Não sou o rei nesse momento, sou seu irmão.
![]()
Rosemary Tyrell (16)
Fale com o autor