Notas iniciais
Boa leitura a todos!

Armações e Chuvas

O que é que se deveria fazer em uma situação como aquela? O céu estava completamente fechado, branco como somente as nuvens conseguem fazer, e chovia torrencialmente desde que abandonaram o Forte do Pavor. A princípio os homens riam e urinavam uns nos outros, fingindo que a chuva era apenas um banho extra, alegres e aventureiros. Mas logo perceberam que a chuva afastava tanto caças quanto aldeãs inocentes da estrada, o que significava sem comida e sem estupro. A diversão caía a medida que as cordas do alaúde de Tom Mão-Quebrada se desafinavam ou quebravam, Marco da Velha Ama coçava a barba e cutucava seus ferimentos não cicatrizados, que pareciam borbulhar infectados, ele normalmente contava histórias para animar os homens nas noites mais frias, mas agora também estava encolhido em sua sela, com os cabelos grudados às suas bochechas sangrentas. Ao todo, cento e oitenta homens caminhavam, lentamente, debaixo da chuva e tempestade. Dormiam na relva, entre pedras e raízes de árvores, alternavam as trinta montarias que dispunham e os caçadores optavam por uma dieta mais vegetal. Vikta, no entanto, estava com toda energia nos cobertores.

A manta que os envolvia estava sempre debaixo de uma improvisada tenda que os isolava da chuva. Peles e couro, assim como os seus pelos negros roçando o corpo de Anezka com violência. A menina cumpria os deveres facilmente, assim como cumpria os outros de gravar o nome de cada um dos homens Bolton e trocar conversas rápidas com os mais influentes, tinha de manter a imagem de uma boa esposa para Vikta e para si mesma, se quisesse continuar viva.

— Ah... – ele ofegou, ainda rígido como uma pedra, tratava-se de um homem facilmente sedento e facilmente saciável, logo os atos não eram dolorosos. Quando chegou a seu apogeu, tombou para o lado e sentiu de leve o momento em que as pele se abaixaram e o vento frio beijou suas costas suadas. Estremeceu e praguejou, puxando todas as mantas de uma vez só.

— Quanto tempo demoraremos até chegar a Correrrio? – perguntou, como normalmente fazia no final de cada noite. Ele se virava um pouco irritado, mas respondia “dois dias”. Os dois dias eram na verdade quinzena e ela contava cada nascer do Sol assim como contava quantas vezes ele lhe penetrava e causava tanta indiferença. Ela também contou quantas luas o seu sangue estava atrasado e surpreendeu-se quando constatou que um mês se passava sem um sinal. Aquilo só poderia ser um sinal dos deuses. – Acho que estou grávida – murmurou, virando-se contra o carvalho logo a seu lado, fazendo com que Vikta encarasse apenas suas costas vestidas. Por debaixo das peles, ele ainda lhe acariciava entre as pernas. Parou imediatamente.

— Grávida?

— Sim. Casamos-nos há seis semanas, não é tão surpreendente.

O Bolton concordou com um meneio, embora ela não o estivesse vendo, e retirou sua mão pecaminosa das entranhas de uma moça corrompida. O que poderia dizer? Ela se via obrigada a concordar com aquilo. Anezka nunca gostou de ser quem não era, mas a vida sempre pede coisas que não estamos esperando, foi isso que sua mãe lhe contou. Ela sabia que estava destinada a grandes coisas assim que descobriu o grande potencial que tinha para ser aquilo que precisava ser no momento ideal, mas nunca imaginou-se tendo um filho naquele mesmo ano, em tão pouco tempo.

O senhor seu esposo distanciou-se de seu corpo e, vestindo os calções, saiu das mantas. Ele partiria, como partia quando estava contrariado ou irritado com ela. Ter um filho seria algo tão prejudicial naquele momento? Pois ela não achava assim. Queria ter certeza de que carregava uma criança, somente assim poderia fazer qualquer coisa sem temer as consequências. Carregando um Bolton em suas entranhas ela estaria protegida pela fidelidade daqueles homens, enquanto lhes conviesse.

Pressionou o próprio ventre, tentando sentir qualquer pontinha de vida ali.

º º º

A chuva havia parado, mas os homens continuavam irritadiços e começando uma caminhada rápida para a violência. Cinco soldados mais jovens morreram em uma briga durante uma vigília e um garoto das cozinhas de Forte do Pavor correu até ela alegando que havia sido abusado por um dos generais de Vikta. E o que poderia fazer? Anezka pousou a mão gentilmente por seus cabelos louros e beijou-lhe as lágrimas, sussurrando que não aconteceria novamente e que ela puniria o homem mal, um dia. Mas não agora, pois precisavam dele para a batalha em Correrrio. O menino passou a ser seu maior fiel cavaleiro, depositando toda a sua devoção a ela e acariciando sempre que podia a sua barriga, que crescia com velocidade surpreendente. Após um mês e poucos dias, Anezka assustou-se ao olhar para baixo e ver-se inchada. Não era algo visível, mas para quem sempre se viu tão franzina e macia, ver-se daquela forma era assustador.

Vikta anunciara a todos os soldados, de todas as patentes, que ele seria pai e que seu filho era um sinal dos deuses para que ele consolidasse a Casa Bolton entre uma das maiores de Westeros. Correrrio ainda estava distante, mas ele incentivava a coragem e a sede por sangue de todos, e isso reanimava-os por um curto tempo. Jen, o rapazinho, sussurrava que muitos andavam falando contra Vikta, supondo que estavam perdidos e que, quando chegassem no castelo, não teriam nem mesmo pessoal suficiente para a cozinha, pois muitos morriam doentes, famintos ou... honrosamente briguentos.

— E o que você acha, Jen? – ela perguntava, com um rosto inocente e a mão inteligentemente pousada sobre a barriga. O menino sorria, com gentileza.

— A senhora deveria ser a nossa líder. Todos se sentiriam mais confiantes. – ele disse, com convicção.

— Mas sou uma mulher, Jen.

— Uma mãe! – ele a interrompeu. – Eu sempre ouvi: uma mãe é mais perigosa do que todo um exército!, todos aqui sabem o quanto lutaria por seu filho. Desde que o tenha, seria uma Senhora Bolton muito melhor do que o frouxo e corrupto Vikta. Ele se aproveita de sua posição contra os próprios homens e é todo bons modos, como um daqueles lobos branquinhos que cheiram a talco de arroz. – ele torceu o nariz.

— Eu poderia denunciá-lo por isso.

Os olhos de Jen esbugalharam-se, assustados e com horror.

— Não faria isso...

— Tem razão – concordava Anezka, sorrindo e passando a mão por seus cabelos dourados. O garoto se dizia descendente dos Lannister e afirmava que poderia ser seu primo bastardo. Ela apenas assentia, fingindo empolgação com a ideia. A verdade é que ele não passava de o filho de um camponês sarnento que fora reconhecido como bastardo de um cavaleiro dos Bolton, pois sua irmã casara-se com o pai do menino. Jen estava esquecido no meio daquele exército, mas com certeza não se esquecia dela, assim como vários outros homens. Logo que descobriu aqueles que desacreditavam em Vikta, tratou de cultivar amizade com eles. E eram todos muito parecidos: violentos, irritadiços e naturalmente ofensivos. Muitas vezes apenas resmungavam quando queriam concordar com alguém, apenas para não soar carismático demais ao gesticular uma frase. Jen a ajudou a consegui-los para seu lado, o menino era mesmo um fantasma e passava despercebido por todos aqueles brutamontes.

Anezka desejava que seus parentes retornassem para Correrrio a tempo de impedir a invasão. Que seu avô tivesse forças para comandar o exército Tully. Mas a última vez que o viu, estava debilitado, preso a uma cama, e com os olhos fechados, a balbuciar frases desconexas. Tia Vyria cuidava dele, no castelo de seu esposo, um senhor juramentado a Casa Tully, mas mesmo as forças dele não conseguiriam contra os Bolton. Eles possuíam trezentos homens vindo em marcha lenta atrás do grupo menor e ainda os cinquenta homens que Vikta deixara cuidando do castelo tomado. Os corvos teriam chegado a Porto Real? Algum vassalo ousou tomar partido sem uma primeira ordem de seu Lorde? Seria fácil encontrar algum assim nas Terras Ocidentais ou no Vale de Arryn, mas poucos eram aqueles que viviam nas Terras Fluviais e diziam com orgulho: pertenço à Casa Tully.

O senhor seu esposo retornou para a árvore onde estavam acampados, o garoto curvou-se diante do Lorde e logo voltou a seus afazeres normais, fingindo não estar conversando com a jovem esposa. Vikta parecia novamente contrariado, jogou as peles para o alto, metendo-se com as roupas ainda pesadas e encharcadas por uma fraca chuva que os assolou por um dia inteiro, após algum tempo de ventos secos e frios. Ele não a olhou, enquanto se aprumava e enfim, bufava alto, fechando os olhos para adormecer. Ainda não era noite e ela estava assentada em uma pedra, observando os pássaros no alto das árvores. O que teria acontecido para tamanha reação de seu corajoso e carismático marido?

Não achou que ele a responderia e continuou a olhar para o alto, murmurando consigo mesma algumas canções infantis de ninhos e pássaros. Lembrava-se de sua mãe e da ama, duas mulheres muito gentis. Lembrava-se também de seu pai, um homem mais amargo, mas ainda amoroso. Lembrava-se de quase toda a família e não sentia qualquer falta deles. O tempo de uma ignorância falsa havia acabado e Anezka não sabia se sentia-se nostálgica ou encorajada. Era da coragem que precisava, então anuviou os pensamentos e levantou-se, aproveitando que ele já havia adormecido, e se encaminhando para uma das rodas de homens cantando e bebendo o resto das reservas de cerveja amarga.

Sentou-se ao lado de Tom Mão-Quabrada e Uli Chute, que possuía este nome por sua incrível habilidade em combate utilizando as pernas. Ambos a cumprimentaram com gemidos do fundo da garganta e olhos desconfiados. Mas o que poderiam desconfiar da esposa de seu senhor, uma jovenzinha tão pequenina e prenha? Assim que se aconchegou, ela esperou alguns segundos. Seria ruim se iniciasse um discurso logo, isso apenas salientaria ainda mais o seu desejo de convencê-los a algo, a vontade de ser ouvida. Quando mulheres o fazem sem dizer muito, é apenas porque são mulheres. Mas se têm algo a dizer... é por que querem coisas difíceis ou perigosas, das quais é preciso lugar e momento certo.

— Conheço essa música – ela virou-se para Tom, enquanto o musicista e exímio açougueiro dedilhava uma canção de amor, muito estranha a seu habitual repertório. Os seus olhos encontravam-se marejados. – Também a conhece, Tom?

— Como conheço, pequena Anez! – ele a chamava assim, pois não conseguia vê-la como uma “milady” e muito menos como uma senhora. Era um ótimo matador e um homem sentimental, este Tom, quem estimo tanto.

— Já conheci também. – ela emendou, suspirando. – Uli, você já conheceu o amor?

O cavaleiro de mãos nuas e chutes precisos deu de ombros, emburrado como sempre. Não era de seu feitio falar sobre amor, como era de Tom. Muito menos pensar em seu passado, como era de Anezka. Ele, um muito simplório e taciturno, mantinha seus dedos aquecidos debaixo das axilas e uma adaga muito afiada em seu cinto.

— O Uli não é de ver donzelas, ele não sabe o que é ter uma mulher que se ama. – Tom sorriu, sonhador. – Como é bom quando ela também te ama...

— Nunca tive um homem que me amasse – Anezka riu fraco, mostrando que não se importava com este fato. Uli grunhiu em concordância.

— Como não, pequena Anez? Tão bela e boa! Uma menina que seria cortejada por todos os homens esfolados! Vikta tem muita sorte com certeza. E como é fértil, menina!

— As mulheres mais pequenas são mais fáceis de fisgar. – disse Uli, apontando o estômago de Anezka. – Menos espaço para os bichinhos fugirem.

Tom Mão-Quebrada soltou uma sonora gargalhada.

— Bom pensamento, Chutador!

Anezka aproveitou o momento oportuno.

— Vikta está todo irritado em nossas peles. Não fala nada, só me usa enquanto lhe convém e então dorme. Sabem de algo que o esteja incomodando? – perguntou, para ambos. Tom e Uli trocaram olhares significativos.

— Vikta é um homem muito temperamental. – disse cuidadosamente Tom.

— Eu o acho muito inconstante. – ela disse, com sinceridade – Lhe falta firmeza!

— Se uma esposa diz que falta firmeza, é porque coisas andam ruins – Uli riu grave e Tom o acompanhou com sua gargalhada divertida. Anezka notou que havia ganho, mas não se exasperou. – Um Lorde para os Bolton não deve ter qualidades como “inconstante” e “fraqueza”.

— Ninguém o chamou de fraco – Tom interveio, nervoso, olhando apreensivo para a menina entre ambos, mas ela apenas acompanhava o diálogo com olhos inocentes.

— Vikta não merecia um fardo tão grande. Alguns homens nascem para liderar. Outros, nem tanto – ela suspirou, como se suas palavras sábias fossem apenas divagações incertas. – Desejo que meu filho seja um bom líder.

— Todos desejamos, senhora. – Uli Chute penetrava com os olhos verdes, era tão ameaçador quanto impassível. – Que seja alguém melhor que Vikta. Ou estaremos perdidos.

— Diz isto, mas viaja com meu marido para uma batalha – ela o lembrou. Uli grunhiu em concordância, dando de ombros.

— Nem sempre homens são inteligentes. – e ele se permitiu sorrir. – Se te desagrada as peles de Vikta, está convidada para conhecer as minhas peles. – e com isso, voltou-se para a fogueira a frente deles. Tom Mão-Quebrada guinchou de pânico com o que ouviu. Mas Anezka achou graça.

— Senhor – note que o termo usado era realmente inapropriado, mas completamente perfeito para a situação, afinal Uli se considerava um Lorde muito melhor que Vikta, e não rejeitaria ser chamado de “Senhor”. – é muito obsceno este convite. Mas muito gentil. Terei de recusá-lo. – ela deu uma pausa. – Por acaso tramam algo contra meu esposo?

Tom e Uli se entreolharam novamente.

— Quem lhe contou isto? – o músico questionou.

— Jen, são meus ouvidos por todos os lugares. Soube que desaprovam profundamente os métodos de Vikta para comandar os homens esfoladores.

— Não é errado a um homem reprovar seu líder. – Uli grunhiu, perigosamente grave.

— Com certeza não é. Mas para certos ouvidos soaria como traição. – ela então se aproximou mais de ambos. – Digam-me, o que planejam? Deveria ajudá-los?

Uli Chute ergueu seu quadrado queixo para Tom Mão-Quebrada que, com os olhos atônitos, piscava várias vezes, sem conseguir gesticular palavra. Pois foi a própria Anezka quem quebrou o silêncio.

— Eu sempre achei que daria uma melhor líder do que Vikta.

Notas finais
Gostaria de agradecer primeiramente à leitora Dhuly135 por sua recomendação. Pode ter parecido que eu não vi, mas queria agradecer especialmente aqui pelo tempo dedicado a escrever aquela nota de recomendação a outros leitores, para divulgar a fanfic. Me alegra muito saber que vocês acham a história digna de recomendações! Terminado os agradecimentos especiais. Alguns leitores pediram a continuação do conto do capítulo extra que fiz um tempo atrás. Quero saber se a maioria prefere um capítulo normal ou um extra do conto. Marque no seu comentário #Normal ou #Extra, para qual deles você prefere. Lembrando que agora a história viajará para Porto Real e a Família Targaryen/Tully/Tyrell. Muito obrigada a todos os leitores que continuam acompanhando avidamente. Beijos de Lady Savoy.