Notas iniciais
Boa leitura!

Aliados e Inimigos

A sala do trono se esvaziou assim que sua princesa deu a ordem, a voz equilibrada e ao mesmo tempo embriagada dava um aspecto muito mais majestoso que se fosse um rei sensato. A rainha Polya vestia o negro há três semanas, mesmo após o corpo de seu esposo e filho começarem a cheirar mal no grande septo, ela não havia deixado de comparecer às orações das mulheres. Se dependesse disso, a alma dos dois mortos já estavam no paraíso dos deuses pelo menos cinco vezes, mas felizmente Beata acreditava na justiça do Pai. Nenhum pecado pode ser compensado por uma bondade e igualmente o inverso.

Sentada sobre o trono de ferro, ela percebia por quê seu pai e depois seu irmão precisavam tanto dos curativos do Grande Meistre Ulysse. Seu traseiro começava a se espetar antes dos primeiros dez minutos de audiência. Choviam nobres de todos os cantos, desde o Norte até Dorne, queriam jurar fidelidade à coroa e sua herdeira legítima. Ela mesma. Princesa Beata, primeira de seu nome, deixava que os homens beijassem sua mão e distribuíssem elogios sobre sua beleza e boa educação. Parecia-se que era a única coisa a elogiar, mais que sua sagacidade ou coragem, o que se devia dizer a uma princesa-herdeira? O trono de ferro nunca se viu diante de tal encruzilhada. A única legítima filha de Aerys era uma mulher, não casada e sem filhos. O conselho debatia sobre as possibilidades de uma coroação nestas mesmas condições, a Rainha insistia em casar ela a Asalan, para que o trono fosse preservado entre seus dois filhos, mas nunca permitiriam. Havia um documento escrito e assinado pelo finado rei que dizia com todas as letras e adjetivos: Asalan Targaryen não pertence à Casa Targaryen e está banido do reino.

Membros da guarda real queriam ir atrás dele para caçá-lo, o príncipe não deveria nem mesmo estar em Westeros, principalmente em Porto Real. Muitos afirmavam que a assassina fora enviada por Asalan, mesmo após descobrirem que ela era filha bastarda do rei com uma prostituta do Vale ou da Campina. Uma bastarda que se vinga de seu pai nobre, não era a primeira vez que se ouvia esta história. Por isso Beata sentira-se tão atraída pela prisioneira. Elas eram praticamente idênticas, excluindo a cor dos olhos e o formato do nariz. Tinham a mesma suavidade do queixo de Aerys e os cabelos louro-prateados. Mas agora estava morta, a sua meia-irmã. Quanto mais amigos ganhava, mais sentia que estava perdendo.

Sua orla de damas de companhia aumentou consideravelmente, agora tinha moças desde Skagos até Essos, estrangeiras, escravas dadas de presente. Embora Westeros não aceitasse a escravidão, a menina continuou fielmente como sua serva, até conquistar sua confiança. Mas, mesmo assim, Emmeline Tully estava longe, em Correrrio. Seu irmão, Namond, atravessava o pátio entre o palácio e a torre do conselho, sempre com novas notícias e ordens que a Mão deveria cumprir. Ele a lembrava que poucos amigos permaneciam.

Beata empertigou-se no trono quando viu Damien entrando junto da Guarda Real. O rapaz crescera na fortaleza, praticamente, e tinha um dos mais belos rostos entre os cavaleiros. Seu cabelo ruivo denunciava a família, um rosto fino e um tanto feminino, mas ainda assim viril. Era ótimo com a espada, o maior campeão de torneios que Porto Real já vira. Diziam que ninguém conseguiria derrotá-lo no reino inteiro. Ele, junto de Namond, eram os únicos Tully que continuaram ali, apoiando a coroa. Ambos presos pelo dever e pela honra.

Esse tipo de amigos ela já tinha aos montes.

— Vossa Alteza – Lorde Blackfyre entrava atrás dos guardas, ele tinha nas mãos um grande baú, assim como cada guarda segurava um pedaço de tecido vermelho. – Peço humildemente por vossa atenção.

— Concedida, Lorde Janos. – ela sorriu, deliciando-se com toda a glória que recebia nos últimos dias. De repente nenhum de seus pecados passados valia algo contra sua nobre alma de princesa herdeira.

— Em nome da Casa Lannister de Rochedo Casterly, venho representando o Senhor Loras Lannister para pedir a sua legitimidade como Senhor de Rochedo Casterly, conquistada no último dia do Pai, e também reconhecê-la como sua Rainha legítima e jurar lealdade assim como nos termos do antigo senhor de Rochedo Casterly. – ele disse em voz alta e abriu o baú, colocando-o no chão. – Para honrar este juramento e como símbolo de sua validade, a Casa Lannister oferta ao tesouro real duzentas mil peças de ouro e à princesa Beata, um belíssimo vestido, datado dos anos da Era dos Heróis, de uma das primeiras Lady de Rochedo Casterly, o belíssimo vestido da Rainha Caese Casterly.

O vestido, desenrolado por todos os membros da guarda real realmente parecia estupendo, era vermelho e dourado, as cores de todos os senhores do Rochedo, e tinha adornos de ouro em praticamente todas as dobras. Por algum motivo, enquanto Damien segurava-o em frente ao corpo, ela o imaginou vestido a peça e começou a rir sozinha. A Corte a acompanhou, imaginando que estivesse zombando do presente de Lorde Lannister. Ela nunca zombaria, mas, sim, estava mais interessada nas duzentas mil peças de ouro.

— O que o Reino do Jardim acha disso, Senhor Janos? – ela perguntou, enquanto tentava se acomodar confortavelmente no trono de ferro. Uma tarefa impossível. Por que seu antepassado pensava que fazer um trono de espadas seria algo genial?

— A Casa Lannister nada tem com o Rei Rhomeo e seus nobres. Eles desejam jurar fidelidade à Senhora.

— Isso seria um ótimo motivo para o rei mandar tropas e destruir todas as Terras Ocidentais. Eu deveria me comover, se meu mais novo lorde for morto e pisoteado?

— Senhora, eu sou apenas um mensageiro...

— Eu sei disso, Lorde Blackfyre, lamento estar nesta situação. – ela olhou para a Rainha, sentada em sua cadeira ao lado do trono. A mulher olhava vagamente para o chão. Deveria recorrer a outra orientação. Beata não sabia o que aconteceria se aceitasse a lealdade dos Lannister, mas com certeza isso aumentaria os impostos e o tesouro real. Poderia até mesmo montar aquela guarda real marinha que tanto queria... A Baía da Água Negra já se demorava em ter uma frota bem equipada.

Entre os poucos que permaneceram na sala do trono, estava o conselheiro Frank, um homem que viera do comércio de Porto Real para a mesa do conselho real apenas com sua sabedoria e boa mão para o dinheiro. Ele servira a seu pai nos últimos dez anos e não duvidava de que fosse servi-la agora.

— Senhor Frank, o que acha desta situação?

Todos os olhos do salão se colocaram em Frank e o homem tímido fingiu tossir calmamente.

— Vossa Alteza – ele pesou os olhos sobre ela até ter certeza do que dizer. – Primeiro Westeros deve ter um soberano, depois virão os juramentos. Uma inimizade com o Reino do Jardim é a última coisa que gostaríamos de ter em tempos tão conturbados de sucessão. Eu sugiro que o conselho se concentre primeiro em vossa coroação e depois com as futuras alianças do reino.

— Muito sábio, realmente. – a princesa sorriu para Janos Blackfyre, o infeliz mensageiro retornaria com más notícias aos enviados dos Lannister, mas ela nada podia fazer quanto a isso. Tinha sua própria guerra pelo trono para lutar, abrir mão do dinheiro era o mais doloroso. – Avise aos senhores de Rochedo Casterly que tenho muito interesse em uma aliança, porém estou ocupada com tarefas que necessitam de atenção imediata. Num futuro breve, espero encontrar Lorde Lannister e colocar eu mesma em seu peito um broche de Lorde. Pode se retirar agora, Sor.

Janos fez uma mesura e deixou-os. O próximo era Ilya Valyr, um comerciante dos portos das Cidades Livres. Era muito rico e influente, embora nunca ousasse se aventurar nas grandes cortes pelas quais passava. Agora, no entanto, estava ali. O homem, com trinta e poucos anos, uma barba bem aparada e cabelos louro-prateados, trazia consigo três servas, cada uma segurando um presente. A primeira carregava flores, muitas flores, tantas que ocultavam seu rosto e braços. Eram diversos arranjos de uma mesma cor: branco. A segunda serva levava vestidos, ao menos cinco em uma pilha dobrada com cuidado. A terceira, uma cesta cheia de frascos de perfumes e óleos, exalando desde o meio do salão até o trono. Imediatamente Vossa Alteza se sentou na ponta do trono e observou o comerciante se aproximar sorridente. Ele parecia ter ganhado uma batalha.

— Minha rainha, belíssima Beata.

— Lisonjeiro Sor Valyr – ela o saudou, mas sorria ironicamente. Gostava do sujeito, sempre gostara. Ele era um dos poucos que não olhara para ela com sussurros maliciosos enquanto não passava de uma princesa para ser casada. – A que devo a alegria de vê-lo em Porto Real?

— Uma coroação, é claro! A vossa, minha rainha. – ele se inclinou e as três servas seguiram o exemplo. A serva das flores quase perdeu o equilíbrio e a Beata riu, levando também aqueles que estavam no salão também a rirem, sem saber exatamente do quê.

— Não há nada certo sobre minha coroação, mas irei me lembrar de tê-lo como amigo. – ela se apoiou com o cotovelo em um dos braços do trono, adorando a intromissão de Ilya. Ele era tudo o que as donzelas suspiravam por ai, belo, galante, músico e rico. Uma princesa podia se enamorar por tal sujeito, ela imaginava. Enamorar-se não significava casar, mas a diversão de se permitir tal sentimento era gratificante.

— Permita-me anunciar minha boa vontade para com o vosso reinado – Ilya indicou suas servas – As mais belas flores de todas as Cidades Livres. Estão encantadas para nunca murcharem, vossa alteza, é meu presente para a Rainha.

A Rainha Polya, até então absorte nos próprios lúgubres pensamentos, ergueu seu queixo e exibiu um sorriso ensaiado, aprendido após anos de convivência dentro da Corte. A Fortaleza Vermelha ensinava muito às mulheres que precisavam viver ali, mais do que ensinava aos homens. O verdadeiro veneno, é deste que se precisa aprender. Mulheres se dão melhor com ele, é mais complexo e mais difícil de ser extraído, manipulado, conquistado. Uma espada pode ser boa, mas falar com precisão, lançar os olhares certos, rir na altura correta da conversa... são dotes que mesmo as doces jovens da copa sabem desvendar.

— É muita gentileza sua, Sor Valyr.

— Permita-me, vossa majestade.

As flores foram depositadas aos pés da cadeira da rainha e ela as observou silenciosamente. Seus guardas não sabiam se ela os mandaria trazer o enorme buquê até seu colo ou se preferia vê-lo no chão. Beata temeu que sua mãe fosse amaldiçoar o presente e Ilya, ou que começasse a chorar. Ela nunca entendeu exatamente o que se passava pela cabeça da mãe, mas sabia que ela sofria muito.

— Se me permitem – a rainha levantou – Irei para meus aposentos. Por favor, Sor Hottor, traga o presente de Ilya Valyr.

O guarda assentiu para as ordens.

Princesa Beata notou o silêncio na sala do trono e quis quebrá-lo de qualquer jeito. Detestava estar desconfortável em público.

— Meu segundo presente é para vossa alteza, Princesa Beata – Ilya enviou a segunda serva para que colocasse os vestidos no primeiro degrau do trono de ferro. Seus guardas não se moveram, mas encararam a mulher até que ela recuasse novamente. – E, o último, é uma oferta.

— Uma oferta do maior comerciante das Cidades Livres? Por favor, me diga. – Beata sorriu.

— Terei de decepcionar vossa alteza, mas estes assuntos são para amigos, não para os ouvidos perturbados da Corte. – ele olhou ao redor e então sorriu zombeteiro. – Sem querer ofender, é claro.

— Você não ofende ninguém, Ilya. É a verdade – Beata se levantou do trono de ferro e desceu as escadas. – As audiências estão encerradas por hoje, por favor, continuem com o que é que vocês fazem quando não estão aqui, supervisionando a Corte.

Seus cavaleiros e damas aparentemente estavam ofendidos, mas Beata não se importava com eles. Não gostava deles. Não gostava de ninguém em Porto Real, nem mesmo de sua mãe ou do resto da família, mas Ilya era um visitante e ela gostava muito de visitantes. Sempre tinham histórias boas para contar e pareciam mais sensatos que os demais.

Assim que alcançou-o, Ilya Valyr tomou seu braço, cavalheiresco, e a conduziu para fora do salão. O pátio estava resplandecendo com o forte sol da tarde. Muitas horas se passaram enquanto trabalhava nos assuntos do reino, tudo o que Beata queria agora era acabar o dia bebendo, rindo, cantando ou em cima de uma cama, com o doce e caloroso Ilya sobre si.

{ . . . }

As águas frias batiam no casco do navio, ele deslizava lentamente pela costa da Ilha dos Ursos, nenhum sinal de frota militar ou mesmo pescadores, apenas um porto vazio, nenhuma casa de lamparinas acesas, nenhum mendigo dormindo no caís. Tudo cheirava a armação e manhã de inverno. Embora fosse primavera, quase verão, Ornstein Greyjoy detestava o Norte. Havia frio demais naquelas águas, criaturas demais para serem escondidas. Selvagens que não sabiam nada sobre deuses ou mar, nortenhos que se vangloriavam de sua honra, acorrentada à focinheira do Senhor de Winterfell. Tudo no Norte cheirava a vinho azedo.

Era um gosto peculiar de “já provei melhores”.

Mas quem era ele para dizer algo sobre as escolhas de seu pai. O Norte podia ser uma boa conquista, podia ter boas reinivindicações, podia ser uma terra agradável quando terminassem com a tirania Stark. Mas Ornstein só queria entrar no navio de novo, zarpar para uma nova costa desconhecida, foder uma prostituta ou a filha do intendente, conquistar o que quisesse, no lugar que quisesse. Seu sangue de ferro era quase tão forte quanto a obediência que tinha por seu velho pai. Sentado na pedra de Pyke, um marinheiro que não ouvia mais o barulho das ondas. Pobre infeliz.

— Capitão, isso pode ser uma emboscada – alertou-lhe o mestre da artilharia, ele comandava vinte homens dentro do navio, todos focados apenas em atirar com os dez canhões novos que trazia das Ilhas de Ferro. – Seria melhor contornar a costa para a muralha da fortaleza.

— Faça isso. – ele assentiu e então voltou-se para seu intendente – Avise Alezabeth, mande mais cinco navios vigiarem o porto. Façam o cerco à Ilha, nenhum marinheiro sai daqui enquanto não tivermos a posse da Fortaleza Mormont.

Ornstein sentou-se em um dos caixotes da proa e observou a movimentação dos carvalhos, pinheiros e riachos, serpenteando desde o alto dos montes da Ilha até a praia cinzenta. A Ilha dos Ursos parecia-se muito com as Ilhas de Ferro em relação à praia, mas era completamente diferente por causa das árvores e de toda a madeira abundante. Até mesmo a Fortaleza Mormont era feita de toras grossas de carvalhos milenares. Dizia-se que muitas daquelas árvores eram mais antigas que os Primeiros Homens, que foram plantadas pelos Filhos da Floresta e que mantinham misteriosos poderes curativos para as pessoas da Ilha.

Nenhum de seus homens acreditava naquilo, todos estavam mais interessados sobre as histórias de um exército de mulheres que amamentavam seus bebês enquanto afiavam os machados. Esse tipo de história é sempre bem-vinda das Ilhas.

— Nossa vantagem são os navios, nenhum homem irá para terra firme até que Lorde Mormont responda a minha inquisição. – ele ordenou aos marinheiros e eles obedeceram, pois o temiam acima de todos os perigos do mar.

Mesmo que demorasse um ano, ele tomaria a Ilha dos Ursos, e então seria o fim para os Stark. Nenhuma saída, somente fugir e deixar o Norte em paz.

{ . . . }

As paredes de madeira do quarto pareciam ranger com os passos de todos os criados que iam e vinham da sala de reuniões. O jovem senhor vestia-se após o cochilo, ele havia cavalgado pelo interior do Bosque do Urso, caçando com seu primo Brandon Poolye. O pai mantinha restrição das informações sobre as mensagens trocadas com Lorde Stark, mas Tomah sabia que algo de muito errado acontecia. Enquanto amarrava os sapatos de casa, ele ouviu novamente os passos apressados e pela porta aberta pôde identificar mais dois criados levando cadeiras e tinta para escrever. Um meistre segurava um corvo entre seus dedos ossudos e o primo também surgiu, já esbaforido de correr.

— Evacuaram todo o porto, as pessoas estão entrando na fortaleza. – ele informou parado na porta, sua respiração se misturando com as palavras. A Fortaleza Mormont era um lugar imenso, todo entalhado em madeira dura e resistente.

— Por quê?

— Navios – seu primo deu espaço para uma criada e então entrou no quarto. – Navios com lulas gigantes por toda a praia. Estão cercando a ilha. Seu pai enviou três mensagens a Lorde Stark, mas não tivemos resposta. – ele se ajoelhou diante de Tomah e começou a afivelar suas caneleiras de cavalgar. – Não há tempo, temos que ajudar.

— Os portões estão abertos?

— Não – Bran apertou firmemente a caneleira e então ajudou-o com a outra.

— Então temos que abrir – o jovem senhor alcançou o gibão sujo de terra na cabeceira de sua cama e o colocou novamente. Tomah amava a terra, seu cheiro e sua textura, principalmente após uma bela caçada. Ele se levantou e colocou finalmente as botas de cavalgar, já usadas e um pouco gastas.

Eles correram contra a maré de criados que ia em direção à sala de reuniões de Lorde Mormont e cruzaram todos os Cinco Salões de Carvalho, até chegar ao pátio de treinamento, haviam camponeses e religiosos agachados contra os muros de vigas, todos olhando para eles, apavorados e machucados. Provavelmente haviam escalado os muros e pulado para dentro, em busca de segurança. Os portões fechados eram arrastados pelos moradores do porto, todos gritando para que abrissem a fortaleza, mas os guardas continuavam a conter a agitação, muitos mirando balestras e desembanhando espadas. Tomah empurrou-os com violência, sua irritação sobressaindo a razão. Brandon tomou seu braço antes que acertasse um soco no primeiro homem.

— Abram esses malditos portões, seus idiotas – o jovem senhor ordenou e seus guardas se moveram até as cordas. Antes que os portões fossem abertos totalmente, todos já haviam entrado, trôpegos e esbaforidos, jurando a morte de todos os guardas da fortaleza. – Vão para a árvore coração, todos – Tomah apontou a direção e eles começaram a se mover.

Brandon tomou as sacolas de uma senhora nos braços e ajudou-a a chegar até o jardim da árvore-coração, o local mais seguro da Fortaleza. Enquanto tentava organizar seus próprios guardas para ajudarem aos camponeses, Tomah ouviu o som inconfundível de gritos no mar, desses que são mandados de um navio ao outro, ordenados por notas e não por palavras. Era um canto orquestrado por homens treinados, um sopro de guerra. O único local de onde poderiam ser atingidos era o pequeno espaço entre os muros e a baía rasgada por entre rochas. As árvores coração estavam do lado oposto, protegidas por toda a estrutura da fortaleza. Ele ignorou os sons e continuou gritando com seus homens para manterem os portões abertos. Mais e mais pessoas entravam, todas procurando por ajuda.

— Levem as crianças para a cozinha – órfãos entravam, todos chorando e agarrados às bainhas de sua ama, uma mulher encarquilhada e com um machado em mãos. Ela parecia-se com uma esposa de armas e por isso Tomah a parou antes que cruzasse o pátio – Sabe lutar?

— Sei – ela disse, decididamente.

— Proteja o jardim da árvore, as crianças estarão bem na cozinha.

Ela jamais recusaria uma ordem de seu lorde, mesmo que fosse apenas o filho dele, mas sentiu-se tão feliz em poder ajudar o seu povo e a sua Ilha que assentiu militarmente e correu como poucas vezes tivera a chance de correr após a sua juventude: como se fosse uma ursa girando um machado nas mãos. Os órfãos vinham da parte baixa do porto, um local em que era comum pescadores desaparecerem, engolidos por tempestades ou monstros marinhos. As crianças eram fortes e muitas vezes aprendiam desde cedo com a guarda do porto a se virar. Tomah pediu para que todos que soubessem manipular armas se enfileirassem e que os demais fossem para as cozinhas.

— Tragam machados e arpões – ele deu a ordem aos guardas e logo os órfãos do baixo porto estavam armados para defender a fortaleza. Mandou-os vigiar o jardim, junto com a velha ama. Também enviou mais cinco guardas para lá e, quanto Brandon retornou, conseguiu se sentir aliviado. Queria ter certeza de que todos estariam seguros e nada melhor que camponeses para protegerem camponeses, eles se consideravam equivalentes, ao contrário dos guardas que deixariam todos morrerem nos portões da Fortaleza.

— Ainda há pessoas na cidade – Brandon disse-lhe, seu primo desamarrara dois cavalos e conduziou-os até os portões. – Eles se recusam a sair das casas.

— Onde? – ambos montaram os cavalos e já começaram a corrida em direção ao porto, descendo a colina e passando por todos os guardas do porto que corriam para a construção.

— Baixo Porto. — seu primo respirou fundo – Prostíbulos.

Prostíbulos na Ilha dos Ursos eram proibidos, sua existência era mantida em segredo por todos da cidade. Claro, o “segredo” não era de todo um segredo, mas por muitas décadas os antepassados de Tomah queimaram prostitutas no porto, como forma de punição para as mulheres que praticassem o pecado da prostituição mesmo após o decreto de Lorde Stark. O atual lorde não dava punições, mas o medo era grande. Rumores de que prostitutas sumissem após se deitarem com guardas eram espalhados por todo o porto e ninguém teria dito que havia uma casa de prostituição se não fosse uma questão de vida ou morte.

Tomah nunca estivera em uma casa como essa, ele sabia que Brandon e muitos outros guardas frequentavam durante as noites de verão, mas nunca recebeu um convite sequer. E não pensava que aceitaria, mesmo assim. Enquanto deixava seu primo guiá-lo por entre os córregos do Baixo Porto, ele notou que as fezes dos camponeses, restos de peixes limpos e redes rasgadas se misturavam aos barracos e camas improvisadas do local. A pobreza cheirava muito mau e quase não conseguiu passar pelas pilhas de coisas, comida, excremento, coisas mortas e coisas vivas rastejando. Doentiamente, pessoas moravam ali, e muitos culpavam seu pai por aquela situação.

A Ilha dos Ursos nunca fora um local rico. Era constantemente invadido por expedições de nortenhos, nos tempos antigos. Não prosperara muito desde que entrara para as terras do Norte. Seu porto mau era visitado por navios, a maioria dos quais ia direto para a Muralha, fornecer mantimento aos patrulheiros. Os prostíbulos estavam um ao lado do outro, construídos debaixo da ponte que ligava a estrada da Fortaleza até o caís. Eram casebres com quartos quase expostos, divisórias feitas de peles de urso e lobo, nenhum sinal de vida por trás do fedor insuportável.

— Magda? – Brandon saltou do cavalo até a lama no chão, ele correu para uma das casas e puxou sua cortina sem prelúdios. Uma figura feminina escorregou para seus braços e em seguida mais cinco, todas jovens e vestidas com grandas mantos de pele. Seus cabelos estavam enrolados e sujos, provavelmente não se banhavam a meses. As moças seguiram Brandon, a mais vellha, Magda, parecia cuidar delas e combinaram que as duas mais jovens iriam montadas no cavalo. – Tomah, ainda há gente nas casas.

Ele despertou de seu torpor, impressionado com aquela realidade. Aos moças o encaravam, como se fosse uma espécie de assassino ou cavaleiro sombrio. Quando desmontou, elas se afastaram e se abraçaram. Brandon agitava os panos a procura de mais prostitutas escondidas. Elas pareciam transbordas de cada casebre, quanto menor a construção, mais apareciam. Um quarto possuía oito irmãs, todas com o mesmo nariz e olhos. Outro, dez, também mulheres da mesma família. Tomah sentia-se perdido, mas tentou ajudar, ele chamava por pessoas, mas quanto mais se aproximava delas, mais elas pareciam correr dele. Por fim, Brandon foi quem conseguiu convencê-las a abandonar o porto para a segurança da fortaleza.

Os cavalos carregaram duas meninas cada, duas irmãs da família de dez mulheres, gêmeas com oito anos, e duas moças de doze e quatorze anos cada. Ao todo, eram trinta mulheres, todas magras, desnutridas e muito sujas. Tomah tentou desviar do exterco pelo caminho, mas não conseguiu. Suas botas se sujaram mais do que se tivesse ido a uma caçada de uma semana. Eles subiram a colina e guiaram todas até a fortaleza. Não poderiam ficar com o resto das pessoas no jardim da árvore coração, pois seria desrespeitoso com os deuses e com as pessoas de bem, mas também não tinham espaço na cozinha, com as crianças inocentes e esfomeadas. Tomah decidiu então levá-las para os estábulos, provavelmente era o lugar mais adequado, onde nem seu pai saberia que elas estavam ali e nem elas se sentiriam ameaçadas pela presença dos guardas. Os cavalos estavam agitados e foi difícil acomodar todas, no entanto, Brandon fez a maior parte do trabalho. Ele sabia falar com elas e até mesmo acalmá-las.

— Vou buscar baldes de água e comida na cozinha – ele informou, enquanto passava os cobertores de cavalariços para elas. – Você precisa voltar para a fortaleza. Seu pai não pode achar que as pessoas invadiram a fortaleza.

— Ele mataria todo mundo – Tomah concordou, sem hesitar. Queria voltar para a fortaleza, não estava se sentindo útil ali, assustando aquelas mulheres. Ao voltar para a Fortaleza, encontrou-a um pouco mais calma que minutos atrás.

Os criados estavam sentados em cadeiras na sala de entrada e assim que o viram, se levantaram e fizeram uma mesura cortês. Tomah nunca havia pensado muito sobre aquelas tradições até o momento em que cavalgara para o Baixo Porto, agora parecia tudo inutilidades. Seus servos comiam melhor que as pessoas que trabalhavam debaixo da ponte, eles se curvavam diante de um homem de vinte e sete anos que nunca havia erguido um machado na vida para cortar uma árvore. Tomah sentiu-se envergonhado com sua posição, mas passou pela sala sem diminuir o passo. Ele precisava atravessar os Cinco Salões de Carvalho até os infindos corredores que serpenteavam toda a Fortaleza. A sala de reuniões de seu pai era rodeada pelos quartos da família, a maioria deles desocupados e cheios de pó.

A porta da sala estava aberta e assim que Tomah apareceu em frente a ela, seu pai o chamou pelo nome e uma mão invisível o puxou para a sufocante pressão cheia de raiva e descontrole do velho Lorde. Ele era um homem da Ilha dos Ursos, seu temperamento não era dos melhores e constantemente sofria com as enxaquecas que o atingiam nos piores momentos. Desde que sua esposa morrera, Lorde Jorah Mormont mantinha uma curta comunicação com todos e mesmo após anos de luto, nada parecia ter mudado desde a noite do falecimento da jovem Lady. Agora que seu filho já tinha vinte e sete anos, era como se tivesse pulado toda a infância e juventude do rapaz e passado a vê-lo como um homem desde os cinco anos.

Tomah temia o que viria pela frente. Qualquer coisa que o pai lhe falasse seria devastadora, tinha certeza, nunca conversaram sobre coisas que não fosse estritamente devastadoras desde... bem, desde que tudo mudou na vida deles.

— Tomah.

— Sim, pai – respondeu-lhe prontamente.

Jorah era um homem de poucas riquezas, a Ilha dos Ursos lhe dava tudo o que sempre quis: um lugar para caçar, peles quentes e um clima agradavelmente nortenho, no entanto nunca fora ganancioso sobre o resto do Norte ou sobre casamentos. Casara-se com uma moça da Casa Glover por obrigação e gerara apenas um filho. Estava satisfeito com sua passagem pela terra. Mas... aparentemente, um pouco de ganância o seguia, mesmo que não procurasse por. As duas cartas que recebera eram tentadoras. Uma chegara há dez horas, durante a noite, outra em apenas trinta minutos. No entanto, não deixava de ser tão importante quanto a primeira.

Lorde Stark estava oferecendo a mão de sua filha em casamento caso aceitasse resistir aos Greyjoy enquanto os soldados nortenhos não chegassem à Ilha dos Ursos. Já Ornstein Greyjoy, primeiro filho do Lorde das Ilhas de Ferro, deu-lhe até o pôr do Sol para entregar a Fortaleza Mormont em suas mãos, ou reduziria toda a construção de madeira em cinzas com seus canhões.

— Você vai se casar – anunciou Jorah Mormont, desdobrando o papel da carta e entregando-o ao rapaz. – Com Bryanna Stark.

Casamento era a última coisa que passava pela mente de Tomah neste momento. Ele podia calcular a distâncias do navio com a costa, podia planejar fugas para os camponeses ou formas de lutar mesmo sem as muralhas para protegê-los, no entanto se casar não parecia a resposta para aquele problema. Leu o documento assinado com o nome de Lorde Stark e selado com seu brasão de lobo gigante e então empalideceu. Era verdade, ele iria se casar com a filha do Senhor do Norte, isso parecia inacreditável. Ela não tinha predentendes melhores ao sul? Por que viria tão longe, em uma ilha condenada?

— Há mais uma coisa – Jorah se sentou na cadeira e olhou pela janela os navios flutuando serenamente a milhas de distância da sua Fortaleza. – Vamos render o castelo para Ornstein Greyjoy.

— O quê?! – Tomah literalmente gritou.

Seu pai então começou a lhe contar o que estava planejando e Tomah ouviu a tudo com apreensão, a ansiedade crescia no peito a medida compreendia até onde iriam para manter todos em segurança e a construção de pé. Os riscos eram grandes, tanto para seus aliados quanto para seus inimigos, eles poderiam acabar se afundando em duas traições que não seriam perdoadas. Mas Tomah concordava com seu pai em tudo o que dizia. Não podiam entregar as pessoas por quem estavam responsáveis para morrerem debaixo dos muros, também não podiam abrir mão da Fortaleza honrosamente sem que isso lhes custasse a vida.

Tomah preferia mil vezes trair um Greyjoy a virar as costas a seu Senhor.

— Você entendeu, Tomah?

— Sim, pai – ele assentiu e então olhou para o sol se pondo na linha do horizonte. – Entendi.

Tomah Mormont e Brandon Poolye

Notas finais
E ai, gostaram? Deixem nos comentários os núcleos que gostariam de ver!