Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
48 A Colheita da Ilha dos Ursos
Notas iniciais
A Colheita da Ilha dos Ursos
— O Sol está se pondo.
— Levante a bandeira branca – ordenou o Lorde a seu meistre, um velho que havia visto a infância das três gerações passadas da família Mormont.
A Fortaleza Mormont rendeu-se poucos minutos antes do anoitecer, os tecidos brancos tremularam na brisa do final da tarde e um pássaro branco foi solto como forma de rendição oficial. Todos os guardas se reuniram no pátio, junto dos criados e os camponeses. Os navios das lulas gigantes continuavam a distância, seus canhões abertos e apontados para o estreito da baía. Todo o porto fora invadido por piratas, estavam sob as ordens de procurar por pilhagens e por armadilhas, porém encontraram uma cidade abandonada. Lorde Mormont e seu filho ficaram junto de seu povo ao menos uma hora inteira dentro do pátio, a espera de que algum grupo de assassinos cruéis chegassem pelos portões, porém os guardas que vigiavam do alto dos muros não avistaram qualquer movimento na estrada para a fortaleza e tudo indicava que os invasores estavam mais interessados em roubar casas que tomar o castelo.
Por fim, quando as lareiras foram acesas na forja para manter a todos na luz e no calor, um grupo de cavaleiros subiu a encosta da colina, liderados por um cavaleiro de longos cabelos louro escuros e uma lança ao invés de uma espada. Eles entraram rapidamente pelos portões abertos e rodearam o pátio, olhando para as pessoas ali dentro. Quem os liderava era uma mulher, a filha de Lorde Greyjoy, Alezabeth. Ela guiou seu cavalo até o lorde e desmontou. Provavelmente haviam roubado aqueles animais de alguma estalagem no meio do caminho, pois uma viagem das Ilhas de Ferro até a Ilha dos Ursos não era exatamente fácil.
— Jorah Mormont – ela gritou ao homem em seus quarenta e poucos anos como se fosse um garoto levado. – Entregou o seu invejável castelo de madeira à mim, Alezabeth da Casa Greyjoy. Agora todos que estão aqui são meus – ela sorriu. – Eu espero que cumpram seu dever tão bem quanto cumpriram com os Ursos.
As pessoas estavam em silêncio e mesmo os guardas não pareciam convencidos a mudar de lado tão facilmente. Tomah temera por aquilo. Nortenhos tinham a sua lealdade conquistada na confiança e na honra, nem mesmo a morte poderia soar terrível o suficiente para que abrissem mão dos seus valores. Os homens da Ilha dos Ursos eram especialmente teimosos e as mulheres aprenderam a ver a crueldade do mundo e a se defender dela. Não eram como o resto do Norte, mas também faziam parte dele. Algo que um Greyjoy nunca entenderia.
Alezabeth deu de ombros, já esperando por aquela reação.
— Tudo bem – ela se voltou aos próprios homens – Enforquem os dois, quero comida quente antes de dormir e tragam o meu lobinho.
Eles riram e assentiram. Lady Alezabeth entrou na fortaleza pulando os degraus, iria encontrar uma construção inteiramente de carvalho, com cinco salões amplos, uma copa para o jantar particular da família, seis quartos e uma sala de trabalho do Lorde. Todos esses lugares assentados com terra dura e móveis de madeira grossa. Seria belo, se fosse a casa de um comerciante rico, mas como uma Fortaleza ela preferia pedras ao invés de tábuas.
Mas haveria tempo de destruir tudo e construir algo mais bonito.
Os soldados Greyjoy se moveram primordialmente em direção aos Mormont, pai e filho foram amarrados com as mãos para trás e presos à manjedoura dos estábulos. As pessoas abriam espaço, incertas do que deveriam fazer, se deveriam lutar ou ceder. Jorah Mormont sempre fora um homem forte e rígido em sua administração, ele tinha a confiança da Ilha dos Ursos, e se achava melhor a rendição... então não havia nada que pudessem realmente fazer. Serviriam a um novo senhor, agora. Ou melhor, Senhora.
Os navios continuaram ao redor do forte, porém em uma porção muito menor, todos os outros que estavam a comando de Ornstein Greyjoy foram em direção a Bosque Profundo assim que Alezbeth tomou a Fortaleza. Durante a noite, chegariam à costa e então estariam tão perto de Winterfell que todos correriam sério risco. Tomah encostou sua cabeça à estaca de madeira na qual estava amarrado e olhou as estrelas aparecendo no crepúsculo. Ele poderia ser morto a qualquer momento, mesmo sem uma forca para isso. Mas os soldados de Alezbeth eram obedientes, encontraram corda, uma boa árvore e até mesmo um balde de lavagem para os porcos como banco.
— Vão nos enforcar no bosque sagrado – Tomah observou enquanto as pessoas eram arrastadas para longe da árvore coração. – Querem que até mesmo os deuses vejam.
— Então morreremos com honra até mesmo para os deuses – Jorah esticou seus dedos e encontrou a mão do filho vagamente atrás de suas costas. Eles se apertaram e então se soltaram rapidamente, antes que alguém pensasse que tentavam escapar.
A carta da Lorde Stark fora enviada há um dia, nela era dito que seu filho Roddrick Stark vinha para a Ilha dos Ursos através de Bosque Profundo e que chegaria na Ilha dos Ursos na manhã seguinte, junto de mais trezentos soldados do Norte. Jorah duvidava que ele e seu filho pudessem sobreviver até a manhã seguinte, mas, se fosse preciso escolher, preferia morrer ali pela segurança de todos.
— Vamos logo com isso – um dos piratas chutou o rapaz nas pernas. – Leve primeiro o garoto, quero ver seu pai gritando para não fazermos.
— Os deuses estarão chorando por você, pequeno urso – outro agarrou os cabelos de Tomah e o ergueu contra as cordas, causando fortes dores em seus membros presos. – Mas nós estaremos rindo.
Tomah fechou o maxilar e não esboçou reação, não daria nenhum prazer a mais àquele pária. No pátio, seus camponeses, pescadores e prostitutas, assistiam-no. Pessoas com honra, pessoas sem honra, todos eram da Ilha dos Ursos e viam pela primeira vez um homem de ferro, pela primeira vez testemunhavam as atrocidades que podiam fazer. Enquanto ele tentava parecer forte e digno daquela morte, viu seu primo escalando o telhado do estábulo e então lembrou-se que havia deixado Brandon junto das mulheres do Baixo Porto ali. Elas deveriam estar escondidas no fundo do estábulo, onde os cavalos esconderiam sua respiração agitada. Porém Brandon Poolye não conseguiria assistir a seu primo e tio morrendo enquanto ele estava a salvo. O primo era um ótimo arqueiro, embora não estivesse com um arco em mãos. O que Bran faria? Pularia em cima de um soldado Greyjoy para se matar em nome da honra? Incitaria os piratas com ofensas até que eles atirassem um arpão em sua barriga?
Tomah o perdoaria por covardia, mas não conseguiria perdoá-lo se se sacrificasse ali. O soldado que o levantou desamarrou suas cordas e chutou-o para a lama, não conseguiu evitar não tomar um pouco de terra durante a queda e acabou caindo sobre o próprio pulso, levantando uma dor que o fez grunhir baixo.
— Espere, tenho um presente para o pequeno urso – outro pirata, mais alto e mais jovem, saiu dos estábulos segurando uma garota de oito anos, uma das gêmeas que ele e Brandon salvaram no porto. Ela chorava e gritava por sua mãe, porém ninguém a respondia. O homem também a atirou na lama, porém antes que ela pudesse se levantar ou correr, ele colocou uma mão sobre sua nuca e com a outra rasgou os panos puídos que usava como roupa.
— Os cães dos Stark são igualmente cheios de – o homem que o segurava o fez se ajoelhar e puxou o canto dos seus olhos – Tanto pudor. Olhe, pequeno urso. Olhe!
A garota gritava e se contorcia na lama, sua pele branca agora estava toda escura e sua roupa se misturava a terra confundivelmente, porém o pirata continuou até que conseguisse segurar as penas dela e violá-la sem nenhum prelúdio. A menina gritou, sua voz era quase um ganido e ela desistiu de fugir quando notou que nada a ajudaria. Tentar só tornaria aquilo mais doloroso. Tomah fechou seus olhos, mas a voz dela não saía da sua mente. Era como se ecoasse e dissesse que ele nunca fora bom o suficiente. Estava deixando uma menina de oito anos ser estuprada na sua frente e continuava de joelhos, com um bando de piratas rindo da sua angústia e seu pai, preso. Seu pai sabia que ele nunca seria capaz, não como todos os outros Mormont foram, nenhum deles teria deixado isso acontecer.
Tomah cerrou os punhos e se levantou já gritando e acertando um soco que deixou seu captor no chão. Agarrou as roupas do violador e jogou-o no chão, chutando seu rosto e suas bolas expostas até que ele fosse apenas uma mistura de sangue, lama e lamentos. Sem que visse, Brandon Poolye saltou do telhado dos estábulos e caiu sobre os ombros do líder daqueles mercenários, ele quebrou-lhe o pescoço com um chute e tomou a espada que carregava. Guardas da fortaleza se encheram de coragem e revidaram o que os Greyjoy faziam, o pátio transformou-se em um campo de guerra, todos queriam matar os intrusos.
O Lorde foi liberto e recebeu uma espada, seu filho esmurrava e chutava homens na lama e a garotinha, tremendo e gritando no chão, estava encoberta pela chuva de terra e sangue daquela carnificina. Em questão de minutos, corpos desfigurados, rasgados como se fossem pedaços de carne, semeavam o pátio da Fortaleza Mormont, a maioria deles tinha as cores da lula gigante e eram irreconhecíveis. As pessoas gritavam e ajudavam os feridos.
— Filhos da puta – dois guardas trouxeram Alezabeth Greyjoy para fora da fortaleza, ela estava descalça e seus cabelos bagunçados diziam que havia lutado. Um grande hematoma roxo se formava debaixo de seu olho direito.
Lorde Mormont caminhou até a prisioneira e cuspiu em seu rosto.
— Você pagará por isso – ele disse e então passou por ela em direção a sua casa. Um a um, os camponeses se mobilizaram e levataram Alezabeth até o centro do pátio. Eles estavam enfurecidos. Rasgavam suas roupas, arrancavam seus cabelos, gritavam ofensas sujas e chamavam-na de pirata. Tomah não teve tempo de dar qualquer ordem para prenderem-na, as pessoas se uniram para o espancamento e não pararam até que a mulher tivesse o mesmo destino doloroso dos seus soldados.
Tomah não conseguia ver ou dizer nada, sua mente estava presa naquele instante em que percebera o quão merda era e que nada que fizesse o colocaria à altura das pessoas daquela Ilha.
Seu primo estava sentado com as costas no poço e uma das mulheres dos prostíbulos cuidava de seu ferimento na altura do joelho. Brandon gemia de dor, mas perguntava se todos estavam bem. Correu até o primo e sentou-se ao seu lado, envolvendo-o pela cabeça em um abraço nortenho. Ele sorriu para Tomah e voltou a analisar a própria ferida.
Era uma grande abertura no joelho esquerdo, ossos, cartilagem, tudo parecia ter sido triturado pelas pisaduras de um cavalo. Os animais que Alezabeth usara se perderam no meio do combate e Bran fora atingido enquanto estava no chão. Nada poderia ser feito para melhorar com a dor ou com o estrago, mas ele parecia observar tudo de longe. A mulher passou-lhe um pouco de massa de pão trazido da cozinha e Tomah ajudou-o a morder. Ele segurou o tronco do primo e apertou-lhe as mãos contra os próprios dedos, A amputação foi rápida, a perna estava praticamente pendurada, porém Brandon gritou e agarrou-o com mais força do que qualquer soldado Greyjoy. A contusão no pulso passou longe de ser um incômodo e ele só a percebeu quando todos já haviam se recuperado e os Greyjoy sobreviventes foram julgados pelos guardas da fortaleza.
Os navios continuavam parados no porto.
— O que faremos com eles? – Brandon olhou pela janela do quarto, indicando as velas de lula gigante.
— Mais cedo ou mais tarde perceberão que sua capitã não manda notícias. – a mão de Tomah começava a inchar bruscamente, um de seus dedos estava quase roxo e ele não conseguia fechar as articulações completamente. Tudo era doloroso, mesmo quando tentava coçar a pele.
— E então usarão os canhões?
Tomah puxou os cobertores de Brandon para cima de sua cintura, não queria vê-lo naquela situação. Ainda não havia aceitado totalmente o sacrifício que seu primo havia feito.
— Então irão embora, ou os afogaremos.

E o evento ficou conhecido como a Batalha dos Ursos, ou a Colheita da Ilha dos Ursos, por causa da lama e do número de Greyjoys que foram ceifados.
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