Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
49 Noivos de Rochedo Casterly
Notas iniciais
Noivos de Rochedo Casterly
Após o envio de todos os corvos da fortaleza, Meistre Rickon sentou-se em sua cadeira e chorou a morte do rapaz que havia ajudado a criar dentro daquele rochedo. Todos os homens que agora viviam ali falavam apenas do leão e vangloriavam-se de defender o brasão dos Lannister, mas todos os amigos foram enviados para Lannisporto ou simplesmente despachados. Ele tinha o juramento de servir Rochedo Casterly mantendo-o ali, era um homem de palavra e terminaria seus dias mantendo a sua honra. Mas certas vezes se pegava pensando “serei capaz de servir aos homens que assassinaram Heigh, um jovem de apenas quinze anos. Não importava quantas palavras boas dissessem sobre essas pessoas, Rickon nunca os perdoaria por aquilo.
Mas um homem cumpre o seu juramento, desde o alto da Muralha até a Cidadela.
Lannisporto estava exultante, a cidade inteira pendurava panos vermelhos nas janelas e aplaudia os Lannister enquanto desfilavam pelas ruas do porto. Eles eram muito conhecidos na cidade, até mesmo queridos. Aquela gente pensava que ter um amigo morando no Rochedo lhes garantiria vida boa, mas se enganavam. Com um bom título ou não, a Casa Lannister era milenar, e, embora aquelas pessoas estivessem esperançosamente agarradas à fé no Pai e no Guerreiro, nem mesmo a Donzela teria se enganado em pensar igual. Uma família nobre nunca se verá como uma família pobre. É a lei dos deuses e também a lei do mundo. Meistre Rickon ficava contente em saber que havia se afastado das leis que regiam a tudo.
E não ficara sozinho na fortaleza, observando através dos pórticos da Sala dos Heróis, os troféus conquistados por todos os Senhores do Rochedo estavam expostos fazendo-lhe companhia e uma jovem loura sentada em uma almofada escrevia sonetos e os recitava com uma melodia de alaúde por trás. Era realmente boa em rimar as frases, ele percebeu.
Giselle passava horas escrevendo e cantando os seus poemas. Ela só conseguia se expressar verdadeiramente através deles, mesmo que fossem sentimentos fortes como raiva ou felicidade, tudo fluía melhor com palavras. E ela nunca fora muito carismática. Tomar Rochedo Casterly não era a única coisa que os Lannister precisavam fazer para se assegurar como Senhores. Ter um castelo e não ter o seu título pode ser útil em momentos de guerra, mas para começar uma guerra é o motivo ideal. Um mensageiro chegara de Jardim Suspenso assim que o dia amanheceu no porto, ele dava ordens para que desocupassem imediatamente a fortaleza ou seriam expulsos até mesmo de Lannisporto, exilados do reino e outras penalidades que ela sabia que não os faria abandonar Rochedo Casterly.
Porto Real podia não estar ao seu lado, mas a Campina já havia se assentado como defensora da causa. Muitos lordes que Otto havia conquistado por diplomacia moviam-se lentamente para longe da Corte de vossa majestade Rei Rhomeo e se recolhiam para seus castelos, preparando tropas, juntando vassalos, mandando cartas aos meistres e levando suas filhas para a casa de outros homens, para que ficassem em segurança. Poucos senhores das Terras Ocidentais vieram visitá-los desde o último dia de exposição do corpo do jovem Nightingale nas Muralhas. Lefford, Westerling e Marbrand. O Senhor de Cinzamarca fora recebido com honrarias e louvor de todos os Lannister, pareciam beijar os seus pés e oferecer-lhe toda a carne do banquete.
Era certo que os leões precisavam de todos os aliados possíveis, mas ver uma Casa tão ancestral e grande vindo jurar fidelidade os deixara ainda mais sonhadores com o título. As Terras Ocidentais ainda tinham um senhor, embora seu filho e herdeiro estivesse morto. Lorde Nightingale estava em Jardim Suspenso e poderia vir marchando com cinco mil soldados ou atravessar o mar até a praia de Lannisporto e invadir a cidade, tomá-la, queimar suas casas e matar um camponês para cada dia que os Lannister resistirem dentro da fortaleza.
Bom, as possibilidades eram inúmeras. Por sorte, Giselle não estava dentro daquele esquema. Seu irmão podia usar Rosemary como quisesse, mas ela estava a salvo. Se ao menos não se remoesse tanto por causa daquele banquete...
Desde a noite que a Lannister gritou e esperneou feito uma criança, Giselle não parava de remoer consigo mesma o caminho que estava levando. Asalan pretendia ao trono, se um dia se sentasse nele, governaria os reinos com piedade ou crueldade? Talvez um pouco dos dois, já que era um Targaryen. Mas o problema não estava em Asalan. Ele poderia governa da forma que quisesse. O problema era ela estar ao seu lado, também governando. Otto estava convicto de que o casamento seria o gatilho preciso para tomar as terras de Jardim de Baixo. Chamavam a Campina de Jardim de Cima, mas esqueciam-se que um dia a Campina inteira já havia sido todo o território do Reizinho Valois. Antes dela nascer, com certeza. Otto faria bebês em Layse para se fortalecer na guerra, os homens sempre tendem a lutar por uma linhagem que por um homem sozinho gritando ordens. Asalan se casaria com ela para quê?
Para a aliança com Otto estar completa? Por que Otto não deu Rosemary para o príncipe? A irmã podia ser mais nova e menos valiosa, mas ao menos ela daria os filhos que Asalan precisava. Giselle estava feliz por ir embora para a Campina, onde se casaria com Asalan e tentaria engravidar. Se os deuses fossem bons.
Bons? A última coisa que queria na vida era um bebê. Por isso havia tomado aquela poção para atrofiar o próprio ventre. Quem precisa de um filho para esse mundo? Todas as suas experiências com crianças eram desgraçadas, elas nascem de pais que nunca sabem como lidar, ou os tornam pessoas amarguradas ou mimadas, depende de qual dos filhos o pai gosta mais. Ela não queria estar nessa posição, nunca estaria. Mas isso também a fazia inútil para todos os planos de Otto em relação à coroa de Asalan e à dinastia do rei. Ninguém nunca saberia o que ela havia feito, mas também nunca a veriam com um príncipe nos braços, balançando-o. Não se envergonhava por isso, apenas pensava em garotas como Ellyn Lannister que queriam se casar para ser mães e se perguntava se não estava sendo má antes do tempo.
— Eu não posso dizer que isso seja um remédio para os meus olhos, mas é bom revê-la. – Giselle ergueu sua cabeça, o poema estava incompleto sobre seu colo, mas a mente já vagara para direções completamente opostas. Quem dizia era Layse, caminhando para a sala ainda com o vestido da viagem e olheiras. Não que isso a deixasse menos bonita, é claro. Giselle estava ficando um tanto incomodada com aquelas belezas ao seu redor. – Você perdeu a sua língua assim como perdeu os pais?
— Você também perdeu os seus – lembrou-a.
— Tem razão. E nenhuma de nós ligava muito para eles. – Layse tocou uma madeixa de seu cabelo e ergueu as sobrancelhas. – Eles te dão comida? Você está péssima.
— Não se casou com Otto ainda para fingir ser minha irmã mais velha. Você está muito pior.
— Com certeza, mas eu não como bem há cinco dias, praticamente. Atravessar todos os reinos é cansativo demais. Onde está ele?
— Conversando com os senhores, ou caçando. Seja lá o que os homens fazem para se entreter.
Layse era uma companhia agradável e ao mesmo tempo irritante. Ela era barulhenta demais para permiti-la escrever, mas a conhecia há tantos anos quanto Otto, talvez um pouco mais, pois eram mulheres. A infância ao lado dela fora engraçada, ver seu irmão, Rhomeo e ela correndo um do outro e agora tudo de novo.
A Baratheon estava morrendo de sono, queria cair em qualquer cama imediatamente, mas seria mais educado mostrar que havia chegado. Rochedo Casterly encontrava-se vazio, com exceção pelo Meistre e por Giselle. Ela fora vê-la, logo seriam parentes de verdade. Sua mãe a mataria por se permitir estar com tal aparência diante de uma dama de alto nascimento, mas graças aos deuses ela não estava ali. Layse olhou para o velho encarquilhado no pórtico e pesou as chances de já ter cumprido as etiquetas.
— Soube que vai ser rainha. Parabéns.
— Alguém tem que ser. – Giselle deu de ombros. – Preferia apenas viver num castelo, rica e com todo o tempo livre para mim.
— Isso é praticamente ser rainha. – Layse sorriu, complacente – Eu tentei, mas descobri que esse ócio não é para mim. Eu preciso de coisas para fazer.
— Otto lhe dará muitas coisas para fazer, se ele puder. Principalmente na cama, ele está louco e não consegue passar quatro horas dormindo, pelo que entendi.
— Ansioso para ter logo aquilo que sempre quis – Layse fez uma careta – Ele é patético, mas são homens, não podemos exigir que sejam mais do que isso.
— Você deve ir descansar, parece estar precisando – Giselle observou os guardas que entravam na fortaleza. Provavelmente todos haviam retornado para lá. E se vissem Layse, não a deixariam em paz pelos próximos dias.
Enquanto caminhava com Giselle, a moça contava os passos, observando a altura das paredes e os entalhes em cada arco. A fortaleza Casterly tinha uma riqueza que se sobressaía cem vezes à beleza de Ponta Tempestade. Nada de janelas abertas para o mar ou ventos que cortavam os salões, frios e úmidos. O Rochedo fora construído quase na mesa altura que Ponta Tempestade, porém os arquitetos foram muito mais delicados e inteligentes. Não era maior que Porto Real, mas tinha a imponência de uma Casa tão importante quanto os Targaryen. Layse duvidava que os Lannister conseguissem mantê-lo se não fossem fortes.
E ela duvidava que fossem.
Descansou em seu quarto, deitada na cama. Estava dolorida pela viagem e muito, muito cansada. Seus olhos se fechavam, mas não conseguia entrar no sono, a medida que a tarde avançava e então a noite. As horas desfiavam-se como minutos e a luz ia diminuindo até que a escuridão fosse total. Logo alguma criada lhe traria algo para comer, mas duvidava que fosse levantar da cama. Estava tudo tão confortável ali, as almofadas e o colchão de penas...
A batida na porta foi abafada pelo travesseiro, mas Layse resmungou que poderiam entrar. Provavelmente os criados que trariam a comida. Não se sentiu compelida a se erguer por causa deles, eram apenas criados. Mas, quando a porta voltou a se fechar assim que o visitante entrou, ela notou que não se tratava de criados e ficou realmente desapontada.
— Boa noite – disse, tirando uma madeixa de cabelo castanho da boca.
— Espero que tenha corrido tudo bem na viagem.
Ela deu de ombros.
— Depende de qual delas você quer dizer.
— Como?
— Esqueça. O que você quer?
— Ver a minha noiva, talvez – sentou-se sobre a cama e sorriu, como se isso a convencesse de ser um aliado. – Esperei por você.
Palavras bonitas não combinavam com ele.
— Se tomar um castelo pra cada vez que ficar me esperando, viverei eternamente fugindo. – Layse se levantou para lavar o rosto na bacia com água limpa que algum criado colocara em sua penteadeira.
— Rhomeo está casado, você poderia parar de me afastar, não tem mais uma segunda opção. – Otto também se levantou, mas apenas para servir um copo de vinho. Provavelmente ele havia mandado aquela bandeja para ali mais cedo. Sempre calculista.
— Você nunca foi a primeira opção. – queria ser maldosa para feri-lo, por algum motivo isso a deixava mais feliz. Mas Otto não demonstrava que estava sendo ferido.
— Agora eu sou, já que não há outros reis por aí – ele sorriu ironicamente – Mas eu não me importo em agradar você, se pudesse nunca iria me casar e creio que também pensa isso. – ofereceu-lhe o copo de vinho e Layse aceitou.
— Deve ser muito divertido para você – bebericou um pouco da bebida e deixou o álcool descer lentamente na garganta. – Ganhar do seu maior rival.
— Eu não ganhei – Otto sorriu cínico e malicioso. – Ele que não quis.
— Rhomeu chorou quando fui embora. – Layse grunhiu, irritada por estar sendo humilhada daquela forma por ele. Era impossível olhar para Otto e não ver um sorriso de sarcasmo para tudo.
— Aposto que continuou chorando quando a Rainha subiu no seu...
— Você é baixo – Layse se virou – Não estou aqui para ouvir essas coisas de você. Saia.
Otto riu e engoliu o resto do vinho de uma só vez, ela não olharia para trás, queria se mostrar forte. Mas, quando ele se aproximou e a abraçou pela cintura, Layse teve de girar nos tornozelos e bater-lhe no rosto. Queria ele ou não admitir, era óbvio que ainda sentia alguma coisa por ela, mesmo que fosse apenas desejo. Otto também era sádico e sempre gostara de vê-la chorar por causa de uma boneca rasgada ou de lama no vestido. Ele fazia de propósito.
Seu sorriso voltou, ainda mais malicioso e asqueroso que antes, Otto transpirava sujeira e ela queria se livrar dele. Ser beijada por ele ou tê-lo em si seria o pior de tudo, com certeza. Talvez ameaçasse cortá-lo durante a noite, depois de um ou dois filhos.
— Você não cheira a laranja – ele se afastou.
— Não tomo um bom banho há quase duas semanas. – Layse sorriu – Se quiser, pode continuar se esfregando.
Ele adorava as coisas da sua maneira, adorava que as pessoas estivessem do jeito que ele esperava, esperava que tudo fosse sempre bom para si mesmo. Queria vê-lo enojado, hesitante ou desistente. Qualquer uma dessas coisas a deixaria mais confiante de que sua vida não seria um tormento. Mas Otto sorriu e roçou o nariz em seu pescoço, beijando-lhe em vários pedaços de pele e passando a mão pela altura de suas costas, percorrendo sobre o vestido.
— Se eu me afastasse de toda boa jovem que fede... – roubou um beijo de sua boca e pressionou-a contra o corpo, não necessariamente em um abraço, já que os braços de Layse estavam caídos e ela esticava o pescoço para trás, o mais afastado possível. – Vai me rejeitar para sempre?
— Isso é muito tempo para dizer.
— Ótimo – novamente beijos que ela não retribuía – Não quero acariciar uma boneca para sempre. Alguns gostam, mas eu prefiro quando fazem algo – Otto suspirou em sua testa, ele parecia oscilar entre um irmão e um esposo muito temperamental. – Qualquer coisa.
— Posso bater em você de novo.
— Isso seria ótimo – ele sorriu.
Layse não entendia exatamente o que sempre acontecia com eles. Ora parecia-lhe que se odiavam, ora que adoravam provocar um ao outro. Com certeza não era a primeira e nem a última vez que batia em Otto, mas ao mesmo tempo não queria fazê-lo de novo. Seu rosto era adoravelmente anguloso, o queixo e o nariz tinham a tendência da boa linhagem e os olhos do verde fosco eram frios e simétricos demais, algo que agradava muito. Layse odiava olhos que distoavam um do outro, parecia que a cara da pessoa estava sempre torta. Rhomeo tinha isso, ela nunca se importou muito. Mas agora, sim. Isso fazia diferença. Otto podia estar em chamas ou congelado, sempre iria parecer confortável e controlado, ele passava confiança. Já o vira quebrar o pulso depois de cair do cavalo. Rhomeo estava chorando por causa de seu joelho ralado e Otto olhava para ele como se fosse um bebê descontrolado, mesmo com os dedos em uma posição estranha do rest do braço, ele não guinchou nem quando os meistres colocaram os ossos no lugar.
Layse se lembrava dessas coisas com raiva, desejando que ele morresse. E em outro segundo se jogava em seu corpo, beijando-o e mordendo os seus lábios com a mesma intensidade com que o ódio fluía ao vê-lo. Era certo o que diziam sobre a linha entre o amor e o ódio, mas ela sempre a imaginou separava entre Rhomy e ele, mas agora percebia que Rhomeo nunca esteve nesse jogo. Ele estava do lado de fora, chorando por causa do joelho, enquanto Otto segurava a linha e brincava com ela do jeito que queria.
O desejo também fluía, ambos queriam desesperadamente por aquilo, talvez por muito mais, como se o tempo de negação os tivesse deixado insensíveis para a necessidade de simplesmente... Layse beliscava as suas orelhas, arranhava o tecido macio do seu gibão, mordia e fazia menção de rir. Ela o empurrou abruptamente e Otto simplesmente caiu para trás, deixando seu corpo ser tomado pela avalanche de Layse que estava recebendo. Ele sabia daquilo, de como ela gostava das coisas. Sempre soube. Tempo demais olhando-a de longe, conhecendo-a de todas as formas, enquanto ela suspirava baixinho por aquele idiota de coroa. Já tinha jurado dar uma coroa a ela, quando era muito jovem. Mas não era isso que Layse realmente apreciava. Não. Ele sabia como as coisas eram, eles tinham mais em comum do que podiam contar.
Ora, por favor, isso nunca aconteceria com um retardado como o Valois, ele não podia dar o que ela queria. Controle, poder, força. Otto caiu de costas, por sorte estava virado para a cama e não foi uma queda muito violenta, mas mesmo assim o ar sumiu de seus pulmões e ele encarou o teto, ofegante. Então riu, pois sentia gosto de sangue em sua boca.
— Isso – Otto ergueu o rosto e viu-a. Estava desgraçadamente tão desequilibrada quanto ele. Cabelos enroscados no vestido, em nós, grudados no pescoço e no rosto. Gotas de suor surgiam por sua testa, as bochechas rosadas ferviam com adrenalina. Esqueceu o que ia dizer, isso não tinha importância. Nada tinha importância. Ela ia se deitar em seu colo e beijá-lo na cama, isso sim importava. A vontade o atormentava aglutinando em todos os pontos sensíveis do corpo, mas nada era como sentir dor e prazer ao mesmo tempo, ela o machucava de verdade. Estava desmanchado naquela cama, totalmente entregue ao que ela quisese fazer, todas as torturas que desejasse, fosse por ódio ou por amor, ele aceitaria o castigo.
— Vá embora.
Ah, sim. Isso era mesmo cruel.
— Por que não me bate? Isso vai ser menos doloroso para mim e mais divertido para você. – ele sugeriu, verdadeiramente esperançoso.
— Saia daqui, Otto.
— Layse – ele murmurou, sentando-se e abraçando as suas pernas, imploraria se era isso que ela queria. Esperou tempo demais para se humilhar assim, cumpriria todos os votos antes e depois. – Você tem um belo traseiro – apertou-lhe de leve, mas não recebeu um tapa, nem mesmo um soco. Ergueu seu rosto, ela estava chorando. – Layse? Espere. – tentou fazê-la parar, mas parecia impossível. – Eu pensei que... você não....
Não tinha sido bom? Ela não gostou? Tinha sangue na boca dele e tremores de excitação em suas veias, mesmo assim não era bom? Não a tinha obrigado a nada, ela havia começado atacando e controlando tudo, ele apenas deixou-a ter tudo o que queria. Levantou-se desnorteado e confuso, encontrar a porta fora um desafio e pior ainda foi sair. Seus passos tropeçavam nos declives das pedras e por mais de uma vez se assustou com o guarda no fim do corredor.
— Otto – Giselle chamou-o de seu lugar na Sala dos Heróis. A irmã parecia muito pequena encolhida no espaço entre a cadeira e a janela. Ela o encarou e então franziu as sobrancelhas – Onde você estava?
Giselle viu as marcas vermelhas em seu rosto e pescoço, ele respirava descompassadamente e seus olhos pareciam se mover para todos os lados, como se esperasse que algo fosse saltar de trás de qualquer um dos móveis ou das lápides. Heróis mortos, tesouros antigos. Alguém o atacara?
— O que aconteceu? – ela segurou seu rosto e fixou os olhos dentro dos dele. – Diga!
— Ela me expulsou – Otto murmurou, parecia uma criança emburrada. – Quase vinte anos e ela me expulsou! – agora seu rosto se transformou em uma carranca de raiva. – Eu deveria mandar açoitar aquela vagabunda!
— Layse? – Giselle não conseguiu segurar a gargalhada – Você não tem coragem para isso, pare de fingir ser malvado.
— Não tenho coragem? – ele a chacoalhou pelos ombros – Está dizendo que eu sou um covarde?
— Sim, você é. – a irmã deu de ombros – Se tivesse me essa coragem toda, já teria feito isso comigo há muito tempo.
— Você é minha irmã. Tem sorte por isso.
— Aquela idiota vale muito mais para você do que eu – Giselle revirou seus olhos. – O que você fez? Tentou seduzi-la com os seus encantos peculiares? Isso não funciona em mulheres normais, sabe? Só com as putas que você paga.
— Ela me atacou! Eu sou inocente – Otto juntou as mãos – Eu juro.
— Ah – Giselle riu – Então se acalme. Ela quer brincar com você, usar e jogar fora, sabe como é. É um teste, Otto. Pra ver se você é um cachorrinho para se chutar ou para mandar correr atrás dos outros.
— Ela me odeia mesmo.
— Todo mundo te odeia mesmo. Você faz isso com as pessoas.
Layse ordenou que a banheira fosse preparada. Queria se livrar de todo aquele suor e cheiro de Otto. Ao mesmo tempo que não conseguia acalmar a si mesma, ela sentia que iria desabar de exaustão. As criadas foram rápidas e em uma hora já estava pronta para dormir. A noite não deveria ser longa, ela esperava. Tudo o que havia acontecido, desde que seus instintos estivessem certos, voltaria a acontecer, viver ao lado dele seria uma eterna brincadeia ao redor da fogueira. Se esticasse a mão, poderia queimar os dedos ou brincar com as chamas sem se ferir. Dependia de quão alta as temperaturas estivessem. Mas não funcionava. Ela sempre assoprava a lenha antes de começar.
Estava magoada, muito magoada.
Com tudo o que disseram a ela em Jardim Suspenso, tudo o que havia passado até Ponta Tempestade e agora ali. Sentindo-se pronta para morrer. Sua vida passara por quadros cada vez piores, agora que finalmente parecia no fim daquela missão, algo novo aparecia: Otto. Ela sabia que ele sempre a venerara. Nunca escondera isso, ele sempre fora sensível a todas as coisas que ela fizesse, se chorava ou se ria. Mas nunca sentiu o mesmo por ele. Era quase doentio tentar imaginar-se adorando outra pessoa. E no entanto, não conseguia parar de pensar nele e em como beijava bem.
Devia ser só isso, só vontade.
Ela podia lidar com isso.
Fale com o autor