Notas iniciais
Boa leitura, meus queridos!

A SENHORA DE PORTO BRANCO

Aportar e não ser percebido era uma das tarefas mais fáceis após o casamento do rei daquela ilha. Todos em Jardim Suspenso não se importaram com o navio pirata que, aparentemente, não trazia suprimentos ou marinheiros, apenas um grupo pequeno de homens e uma jovem nada escandalosa ou vulgar. Eles passaram três dias em uma das estalagens do porto, bebendo todas as noites, saindo cedo para caminhar pela vila e se misturar no meio da gente. O capitão do navio se destacava em meio aos demais capitães no caís, sua altura e sua beleza não condiziam com as roupas sujas que usava, até mesmo o seu semblante sempre calmo e controlado se assemelhavam mais à um nobre, que a um pirata. No entanto, eles nunca revelaram para quê estavam ali ou para onde iriam depois.

Dorian mandou que lustrassem os estandartes do navio e visitou ao menos cinco tecelarias até encontrar uma que possuísse um brasão Lannister em que o carmesim não fosse um vermelho gritante. A bandeira que astearia entre suas velas ainda ostentava o leão coroado, dos tempos dos Rei do Rochedo, mas deveria servir. Quem sabia até onde as coisas chegariam? Queria estar preparado para entrar em Lannisporto. Tinha fé de que seus primos já haviam executado o plano da tomada de Rochedo Casterly, Kilian lhe contou tudo desde seu casamento com Alayna Lefford. E que carta! Dorian nunca imaginou que seu irmão menor se importaria em contar a ele quão encantadora e boa de cama a sua esposa era.

Mas, graças a Kilian, iria bancar o herói agora e salvaria sua querida prima das garras daquele rei tão meigo. Nunca viu um palácio que não possuísse muralhas e a visão o deixou embasbacado com a facilidade da tarefa. Jardim Suspenso nunca fora atacado ou ameaçado antes, mas estava pronta para ser pisoteada por qualquer frota de navios que surgisse. Se os homens de ferro soubessem disso... Dorian teria se comprar um pouco de doce de abóbora e comer enquanto assistia os fogos no alto de Rochedo Casterly.

Rondou o jardim do palácio, muitos nobres caminhavam por aquela parte e seria fácil se misturar entre os convidados do casamento, se tivesse as roupas apropriadas. Por sorte, ser um pirata exigia mais que coletes de couro de peito aberto e calças justas, o que também facilitava muito quando aportava perto dos bordéis, mas isso seria outra história. Proibiu seus homens de procurarem diversão, pois deveriam estar atentos ao menos perigo. Catherine estava naquele lugar, presa como uma refém valiosa. Sabe-se lá que coisas estariam fazendo a ela.

Vestido com roupas de Essos, diferentes, mas muito caras, desfilou despreocupadamente por entre as rosas e flertou olhares com algumas jovens senhoras que sussurravam juntas. Uma busca heroica merecia um herói a altura. Não esperava ver Catherine, provavelmente ela não podia sair de seu quarto, dentro do palácio. No segundo dia, ele se aventurou a sentar em um dos bancos e até mesmo pediu informações aos guardas sobre navios que partiriam para Jardim de Baixo, naquela manhã. Nenhum deles perguntou muito sobre qual seria o destino, estavam convencidos de se tratar de um dos lordes extravagantes de seu rei extravagante.

Ao terceiro dia, Dorian entrou no palácio e pediu a uma criada que servisse seu jantar no quarto. Ela o encarou e então assentiu, ruborizando cruamente. Talvez ela se matasse para achar o quarto de um jovem homem alto e forte, e nunca mais o veria na vida. Que trágica história para contar aos netos. Ele continuou o trajeto, subindo para os quartos. Cumprimentou outros nobres, cavaleiros e damas. Desviou da princesa e uma vez quase viu a comitiva da rainha acompanhá-la em direção a um dos salões ensolarados. Mas, para todo efeito, não foi percebido por ninguém especial e seus passos seguiram de porta em porta, esperando encontrar algum sinal milagroso, algum ruído que fosse de Cat.

É claro que ela não abriria a porta no momento em que ele estivesse passando, mas como poderia investigar cada aposento com os guardas no corredor. Percebeu, no entanto, que aquela ala do palácio estava destinada aos quartos dos convidados homens e, quando chegou ao final do corredor, voltou-se a um dos guardas e perguntou-lhe com as sobrancelhas erguidas:

— Sor, poderia me dizer onde encontro minha irmã Nalya? Ela me disse que estaria em um quarto deste andar, mas não acho seu nome na porta.

— Milorde, o aposento das damas é na ala leste, ao lado do Salão Ensolarado da Rainha. Posso levá-lo. – ele se ofereceu, mas Dorian negou fingindo estar ofendido.

— Não vou tirá-lo de seu dever. Obrigado, sor.

Teria de voltar por todo o trajeto e subir as escadas da esquerda, mas pelo menos agora sabia onde encontrar Catherine, mesmo que levasse mais um dia. O salão, ao contrário de minutos atrás, estava praticamente vazio. Ele não se importou em saber onde todos aqueles nobres haviam ido, mas ficou curioso quanto a se Cat estaria indo para o mesmo lugar que eles. Se fosse o caso, poderia apenas aguardar no corredor e em algum momento ela sairia do quarto. Acompanhada de guardas, talvez. Não poderia arriscar tanto, já estava dentro do palácio, mas afobar-se só levantaria suspeitas.

Não subiu as escadas, permaneceu no salão por mais quinze minutos e, quando percebeu que estaa livre, saiu para o jardim.

Encontrou seus homens na estalagem em que estavam hospedados, todos eles perguntaram sobre como havia sido e Dorian contou como fora fácil invadir e se passar por um dos nobres. Após o jantar, pão duro e sopa, ele escutou o bardo tocar e conversou com os demais clientes da estalagem sobre pesca, viagens e o clima. Nenhum deles suspeitou de sua posição social, todos o encaravam como filho de um pescador, pirata nos mares, um sujeito simples e que não serviria para sequestros noturnos. Enquanto todos subiam até seus quartos e o bardo ia tocando as músicas mais tristes que conhecia, Dorian colocou seu plano em prática.

— Lysa, preciso de você para trocar as cordas. – ele se levantou e então empurrou-a para fora da cadeira. Os últimos bêbados observavam como quem via um capitão ordenando a seu marujo mais jovem a ir esfregar o convés.

Ela obedeceu e caminharam calmamente até o outro lado da rua, desaparecendo por entre uma cabana e outra. Então virou-se para ela e pediu silêncio. O luar os esconderia entre as sombras das choupanas da vila. O jardim do palácio tinha altas árvores e arbustos que também ajudavam muito a sua aproximação. Lysa, sabiamente, nada disse. Mas, quando parou em frente a uma das janelas, ela compreendeu que iriam resgatar sua prima agora e que não poderia optar por não fazer aquela missão.

— O que quer que eu faça? – sua pergunta o agradou, gostava de ter homens servis. E não mudava muito se fossem mulheres. Seu trabalho para ela era simples: Lysa tinha facilidade em escalar as cordas das velas e subir até o vigia da gávea, então pensou que ela conseguiria subir até uma das janelas e entrar. Isso, por si só, já seria de grande ajuda.

— Consegue entrar e sair?

— Sem ser vista? – seus olhos maliciosos diziam que ela conseguiria isso, mas ele balançou a cabeça negativamente.

— Chame a maior atenção que conseguir, finja que está bêbada e trabalha nas cozinhas. Quando te levarem para lá, fuja até o navio e se esconda na minha cabine.

Ela assentiu e começou a escalar a parede. Ele esperou que entrasse pela janela e então escalou sozinho. Seu plano seria chamar os guardas e os nobres dorminhocos para o escândalo de Lysa, para que tivesse a chance de entrar nos quartos e encontrar Catherine. Se, porventura, aquela janela não fosse o corredor que ele pensava ser, então estariam um pouco mais encrencados. Assim que colocou a cabeça para dentro, viu o corredor e as velas baixas, agradecendo aos deuses. Já ouvia os gritos dos guardas para virem ajudar e, na penumbra, esperou que eles corressem até a direção oposta do quarto das damas.

Jardim Suspenso poderia ser o lar de um rei, mas com certeza não fora planejada para a invasão de um leão. Dorian abocanhou aquela oportunidade e esgueirou-se para o próximo corredor. Lá as portas identificavam-se com brasões, um para cada família que vinha prestigiar o casamento real. Aquilo facilitava muito a sua missão. Inacreditavelmente, descobriu que as portas também haviam sido organizadas em ordem alfabética. Correu até a altura em que leu “Laiford”. Em seguida, viu o brasão do leão dourado em fundo carmesim e entrou sem antes bater. Se Cat estivesse dormindo, os deuses o perdoariam por tomá-la no assombro, em meio a um sonho e outro. Desde que estivesse segura no final, não se importava em arranhá-la um pouco.

Todavia, o quarto não estava na escuridão e, entre o vulto de sua prima e a vela mais próxima, havia uma segunda pessoa. Ele se levantou rapidamente e, em questão de segundos, havia uma espada em sua garganta. Dorian abaixou o queixo um pouco para ver o punho bem segurado pelos dedos de um possível guarda. Viera desarmado, pois pensou que menos peso facilitaria a subida.

E, francamente, não precisava de armas.

Segurou a lâmina da espada pelo lado que não possuía corte e girou-a para fora, no sentido horário, deixando o espadachim desnorteado com as sombras que o envolviam. Em seguida, chutou-o na altura do joelho e forçou sua panturrilha para o chão, deixando-o ajoelhado e indefeso. Sua mão então o acertou no ouvido esquerdo e o homem caiu de rosto no chão, já sem sentidos. Correu para a cama e tomou Catherine nos braços.

A prima se debateu, gritando por ajuda em meio às lágrimas.

— Fique quieta! – ele sussurrou.

— Dorian? – a menina segurou seu rosto com força, encarando-o de maneira constrangedora.

— É claro, quem mais?

— Ah – ela sorriu e beijou-o nos lábios rapidamente – Eu sabia que você viria.

— Certo, agradeça mais tarde. – enfiou as mãos por baixo de suas pernas e ergueu-a da cama, já saindo para o corredor.

Catherine era pesada, mas não mais que uma moça comum. Teriam de descer pelo mesmo lugar, porém duvidava que a prima soubesse onde colocar os pés. Ali vinha a tarefa realmente heroica. Saiu pela janela e pendurou-se com os pés e as mãos fincados entre os vãos da pedra.

— Suba nas minhas costas. – mandou.

— Como?

— Suba – gritou com mais violência, da forma que os capitães piratas ordenam para não serem questionados.

Catherine obedeceu. Ela o arrastou centímetros para baixo, mas, quando se acostumou ao peso extra, começou a descer lenta e cuidadosamente. Tateava a pedra até encontrar um local seguro e então esticava o pé até apoiá-lo em outra oscilação. Dez metros abaixo estava o jardim, uma queda acabaria com a vida de ambos. Respirou fundo e desceu mais, chegando aos cinco metros. Neste momento, sua pele transpirava a adrenalina e seus pulmões ardiam com a falta de ar. Mas não se venceria pela falta de concentração. Catherine segurava-o pernas axilas, contornando-as com seus cotovelos. As pernas estavam envolvendo sua barriga e ela parecia tremer um pouco toda vez que descia mais alguns centímetros.

A dois metros do chão, Dorian pulou.

A queda não foi forte, mas deixou-os estatelados na relva por alguns segundos. Então, como se não fosse nada, ele se levantou e a ergueu com um puxão, já arrastando-a em direção ao porto. Seus homens estariam todos no navio, prontos para zarpar assim que seu capitão subisse a bordo. Com sorte, Lysa também estaria lá.

Dorian sentia o peso de puxar Catherine pelo pulso, mas não olharia para trás para ter certeza de que tudo estava seguro. Além do homem dentro do quarto da prima, ninguém o havia visto. Rezou aos deuses para que ele ainda dormisse no chão do quarto, mas àquela altura provavelmente já havia alertado os demais guardas.

O porto se revelou após uma esquina, barcos pesqueiros estavam virados na praia e seu navio, ancorado no caís, flutuava com as velas levantadas. Todos os remos estavam na água e seu mestre condutor olhava-o com uma lamparina em mãos. A prancha foi abaixada no momento em que Dorian pisou nas tábuas e, no segundo em que estava a bordo, novamente o navio se fechou e os remos começaram a se mover para longe da costa. Os ventos estavam á favor e não havia perdido nenhum dedo naquela empreitada. Tudo havia saído bem, ao que via.

— Onde está Lysa? – perguntou ao mestre e ele apontou para a cabine do capitão. Ele riu, lembrando-se da orientação que lhe dera sobre esperar lá. A menina tinha mesmo muito o que aprender, mas não gozaria da cara dela. Voltou-se para a prima, ela ofegava sentada contra o parapeito esquerdo. Seus olhos vidrados no convés e as mãos trêmulas sobre os joelhos. Vestia nada mais que uma camisola branca e seus cabelos pareciam um mar revoltoso. Não conseguiu suprimir uma risada, antes de agachar ao seu lado. – Cat.

Ela ergueu os olhos.

— Bem vinda ao Glória Carmesim.

{ . . . }

Lorren sentou-se sobre a cadeira de honra do banquete, seu pai fizera questão de colocá-lo ali, embora fosse o Lorde daquela fortaleza. Rochedo Casterly inteira vestia o dourado e carmesim da Casa Lannister, a música que todos entoavam era nova, uma escrita naquela mesma tarde, das próprias mãos de Kilian. A primeira canção que seu primo entitulava e ensinava à outros bardos. Chamava-se “Noites em Assobio” e contava como um jovem leão, dono do maior rugido já visto em todo o reino, havia devorado um rouxinol descuidado. Ellyn e Roselynn tomaram a atenção de todos quando pediram para cantar o dueto das damas, chamado “O Que a Rainha Quer”. Rose tinha uma voz suave e adorável, mas Ellyn ficara com a parte masculina do dueto, dando força tempestuosa a seus versos. Lorren escutava-as de seu lugar e sorria, sentindo seus braços se arrepiarem conforme as notas cresciam na garganta das irmãs.

A Rainha ordena a vitória

De seu público no salão

Ela quer a sua glória

Quer tomá-la em sua mão

A Rainha de duelos não sabe

Espadas não lhe dão

Mas quando entra na guerra

Sai cantando esta canção

A Rainha quer reinado

A Rainha quer o pão

A Rainha só não quer

O rei e o que vem em seu calção

Minha Rainha quer a guarda

Na porta de seu quarto a guardar

Ela a chama no esgueiro

Para a noite afastar

Minha Rainha quer meu bardo

Para vir a ela cantar

Ela diz que é ligeiro

Mas sem bardo fico o dia inteiro a passar

Minha Rainha quer o reino

Quer também a minha Mão

A Rainha quer herdeiros

Que erguam a saia e sair-lhe-ão

A Rainha muito quer

Só não quer deitar na cama

Diz que reis não sabem lidar com mulher

E vai contando à sua ama

Sou eu que nunca quero!

É o rei o trapalhão!

Ele entende de fazer duelo

E sai perdendo o que os outros

Acharão!

Acharão!

Acharão!

O salão explodiu em risadas, como sempre acontecia ao final de certas canções. Lorren gostava daquele tipo de som e apreciou ainda mais quando Alayna e Roselynn tomaram a dianteira. Sua irmã menor adorava cantar. Ellyn voltou para a mesa esbaforida e com as bochechas muito vermelhas. Todos lhe parabenizavam no caminho e até mesmo o pai agradeceu pela canção.

Parecia que Ellyn havia voltado ao normal, ou pelo menos tentava não se irritar com os outros. Pedira desculpas à Lady Giselle e foi recebida com um sorriso amigável. Ambas passaram a tarde inteira preparando o banquete juntas e, aparentemente, o primeiro desentendimento sobre o príncipe havia se tornado uma troca de lisonjas e comentários educados sobre os talentos uma da outra. Ellyn adorava ser elogiada e, ao que tudo indicava, Giselle não tinha problemas em agradar uma menina orgulhosa. Lorren estava feliz por sua gêmea, ela precisava muito de todo o apoio que pudesse ter, enfrentava seus próprios demônios e vencia-os bravamente, mas ela sempre contara com ele... Jamais a abandonaria. Mesmo que isso significasse uma vida de mágoas e traições, ele nunca conseguiria deixá-la de verdade. Uma parte de si sempre estaria confiando nela, desejando que ela fosse feliz. De qualquer forma.

— Eu desafinei na terceira estrofe – ela arrumou os cabelos enquanto se sentava sem amassar o vestido de banquete. Era o mais belo vestido do baú de mamãe. Papai levara às duas filhas uma peça singular e belíssima, as joias eram relíquias da família e muitos outros enfeites da Casa Lannister foram encontrados nas masmorras da fortaleza. Brincos em formatos de leão, tiaras e coroas incrustradas de rubis e adornadas de ouro. Havia ouro em quase toda parte, em vestidos, cortinas, brasões, taças de vinho e pratarias. No entanto, o que mais impressionara a todos da família, fora o trono escondido atrás de uma tumba, no Salão dos Heróis. Suas pernas e braços eram patas de leão, com garras de ouro, afiadas. Fora escovado com carmesim no topo e era estofado com veludo vinho. O pai insistira para deixarem-no ali. Não seria apropriado colocá-lo em algum lugar em que pudesse ser danificado. Era a relíquia mais preciosa de sua Casa, tinham de cuidar dele.

— Não percebi – respondeu-a. – Estava encantado com você e Rose.

— Disponha – Ellyn ergueu as sobrancelhas, mas não conseguiu esconder a felicidade pelo elogio. – Mas você deve agora chamar nossa irmã de Lynn. A futura esposa de Rolland também é Rose.

— É impossível me acostumar com isso.

Lorren olhou seu irmão no centro do salão, no espaço das danças. Ele e Rosemary dançavam a canção de Alayna e Roselynn. Seu irmão parecia gostar da prometida e ela gostava dele, evidentemente. Lorde Otto fora específico sobre as condições do casamento: apenas após a vitória sobre Rochedo Casterly, no Grande Septo de Seror, com a presença de todos os senhores das Terras Ocidentais que jurassem fidelidade à Casa Lannister.

As cartas haviam sido enviadas naquele mesmo dia avisando a todos os castelos e fortalezas sobre a conquista em Rochedo Casterly e as condições para prestar as honras à Lorde Lannister. Seu pai elegera o novo Senhor de Lannisporto, Dorian Lannister, para perpetuar a família no controle da região, porém o primo levaria ao menos dois dias até chegar de viagem em seu navio e nada assegurava que ele havia realmente recebido a notícia. Dorian provavelmente recusaria o título e o passaria a seu irmão mais novo.

Ao seu lado, Ellyn observava o salão. Seu aniversário de dezoito anos, que consequentemente seria o aniversário de Lorren também, estava se aproximando e ela ainda não encontrara um esposo. Em sua posição, tinha de encontrar uma linhagem para sua família. Se algo acontecesse a seus irmãos, ela teria de assumir a herança, mas sem um filho isso tornaria a tarefa muito mais difícil. No entanto, não havia pretendentes dispostos a se casar, ao menos não algum que fosse favorável. Lorde Otto seria um bom partido, se já não estivesse compromissado com a irmã de Lorde Baratheon. No mais, eram poucos os herdeiros vivos e em idade para o matrimônio. Lorde Arryn seria uma ótima aliança, mas era um inimigo, sua irmã se casara com o Rei que os esmagara e nada o faria trocar uma coroa por um casamento arranjado de uma família decadente.

Lorde Greyjoy possuía um herdeiro também, mas pelo que se sabia ele era... um tanto difícil de lidar. Matara duas das pretendentes e jogara seu cadáver ao mar para alimentar o deus afogado para quem orava. Ellyn não queria virar comida de caranguejo.

Lorde Tully possuía apenas um filho em idade para se casar e ele estava na Guarda Real da Fortaleza do Rei. Ela já o vira. Bonito, mas inalcançável. Era uma pena, Ellyn gostava de ruivos.

Lorde Baratheon tinha oito anos. O único filho solteiro de Lorde Stark estava em terceiro lugar na linha de sucessão. Lorde Martell tinha muitos bastardos, mas seu único filho legítimo já era casado. Até mesmo Lan Lefford possuía uma prometida de doze anos! Quem, deuses, nos sete reinos tinha um filho solteiro, rico, bem nascido e disposto a casar com ela?

— Lorren, casa comigo?

— Claro, que dia?

Abaixou a cabeça e fungou, incomodada com seus pensamentos.

— Que raiva! – gritou – Não tem um pretendente nessa bosta de reino para casar comigo?

— Mas eu pensei que você queria casar comigo – Lorren piscou, mas não conseguiu acalmá-la. – Ei, você é Lady Lannister agora, alguém vai aparecer com uma caixa de joias e jurar amor eterno.

— Eu não preciso de amor, eu quero um casamento – sua voz era audaciosa, mas seu coração estava cheio de medo. – Nenhuma Lannister se casou até agora. E se os outros lordes não quiserem estragar a linhagem?

— Estragar a linhagem – Lorren repetiu – Você é uma Lannister de Rochedo Casterly, descendente dos Reis do Rochedo e irmã do cara mais fodão de todos os Sete Reinos. – ele beijou-lhe a bochecha – Ninguém vai achar que você estraga a linhagem.

— Ainda bem que sou sua irmã, então – ela sorriu, grata por Lorren tê-la acalmado. Era ótimo ter um irmão gêmeo.

Lorren limpou a garganta e ela se preparou para alguma frase memorável. Era a forma dele dizer que não queria dizer algo, mas precisava. Lorde Lannister notou os filhos e se atentou ao que o herdeiro iria contar. Se fosse certeiro, alcançaria o que todos desejavam. Mas lidar com Ellyn era uma tarefa que ele mesmo, pai e velho, preferia se esquivar.

— Além disso, ontem chegou uma mensagem do Alto Septão de Porto Real.

— O que o Alto Septão quer com você?

— Na verdade, ele respondeu a uma carta de nosso pai – o irmão explicou. – Sobre você e Dorian.

— O que há conosco?

— Era uma concessão para matrimônio.

Ellyn piscou, atônita. Ela realmente não esperava aquilo.

— Porque somos primos.

— Porque são primos. A consessão legitima a união e...

— Eu sei – ela encarou a mesa antes de olhar para o lorde. Seu pai estava ansioso para ver ser ela levantaria e gritaria com todos ou daria de ombros. Mas Ellyn realmente não sabia o que dizer ou o que pensar sobre aquilo. Queriam empurrá-la para um casamento com Dorian, ao mesmo tempo que empurravam seu primo aventureiro a uma vida de calmaria como Senhor de Lannisporto e esposo. – Mas ele pode recusar o título.

— Sim. – Lorren assentiu.

— Isso é loucura.

Seu irmão gêmeo suspirou.

— Eu falei pro papai pedir uma concessão de irmãos gêmeos, mas ele disse que era loucura.

Ela o cutucou.

— Diz isso porque pode se casar com qualquer uma e ainda será Lorde. Se eu me casar com Dorian, serei Senhora Lannister e não Lady Lannister.

— Então acho que devemos correr para o septo antes que alguém perceba.

— Pare com isso, Lorren. – ela se deitou sobre o ombro do gêmeo, procurando algum refúgio. O irmão estava surpreso pela reação calma e azeda que ela estava tendo. Não tinha nada melhor para responder do que sua ironia. – Eu queria realmente ficar com você para sempre.

— Posso fazer isso.

— Mas eu seria uma solteirona de trinta anos, sendo chamada de tia e tendo de cuidar dos seus filhos enquanto sua esposa curte uma estadia em Porto Real.

— Ellyn, você não quer casar comigo?

— Eu já falei para parar. Somos gêmeos, Lorren! Você está brincando comigo.

Lorren suspirou novamente.

— Se até mesmos os Targaryen podem se casar com um ou dois irmãos, por que não nós?

— Porque é doentio e sujo. Eu nunca te vi de outra maneira e você também não me vê. Nós tomamos banho juntos e dormimos na mesma cama. Sempre seremos irmãos. E, ainda pior, gêmeos.

— Agora você está me fazendo desejar não ter nascido do mesmo ventre que você.

— Eu sempre me amaldiçoei por isso – ela piscou e ambos riram.

Lorde Lannister, que a tudo ouvia, abaixou a cabeça e entristeceu-se um pouco mais. Um rochedo inteiro para a família e pouca alegria para a festa.

{ . . . }

A comitiva partiria em algumas horas pela Estrada do Rei, em direção às Terras Ocidentais. Levariam ao menos sete dias até chegar em Rochedo Casterly, mas, uma vez que estivessem lá, finalmente estaria casada e pronta para assumir sua posição naquela guerra. Layse se reuniu uma última vez com os senhores que cuidavam do governo de Ponta Tempestade enquanto Yann ainda fosse pequeno. Todos concordavam com o casamento e com a aliança pela Campina. Permitiram que ela levasse mil homens e, se a tomada a Rochedo Casterly saísse bem, permitiriam mais mil. Isso acrescentaria às forças de Otto um exército considerável, mas não maior que o de Porto Real.

Enquanto Asalan não se sentasse no trono, nenhuma guerra estaria vencida.

— Esta é a capa de casamento de sua mãe. – Sor Yllien ofereceu-lhe o tecido dourado com arminho branco. Layse a colocou dentro do baú que levaria para o Rochedo.

— Obrigada, Sor.

O velho sorriu paternalmente.

— Desejo a milady um feliz futuro.

— Eu também – ela devolveu o sorriso.

Todos em Ponta Tempestade desejavam a ela felicidade, mas o que realmente queria era fazer Rhomeo e todos de sua corte pagarem pela humilhação que tivera. A começar com Elric. O bom rapaz que nada tinha de bom.

Enquanto terminava de organizar o baú, a porta de seu quarto abriu-se novamente. Yann entrou segurando um papel carimbado com o selo do lorde e ofereceu-lhe enquanto sentava na cama. As letras caprichadas não eram de um menino de oito anos.

— É um título, para seu segundo filho – ele explicou. – Lorde Estermont disse que era um bom presente.

— Obrigada, Yann – Layse beijou-lhe a testa.

Se chegasse a ter um segundo filho, Otto o colocaria em Jardim de Cima. Mas a honra era válida. Sem dúvidas a ideia fora do regente de Ponta Tempestade, era algo que ele faria a seu próprio filho, se pudesse.

— Vou poder brincar com seus filhos?

— Claro.

— Posso ir pra Campina também?

— De jeito nenhum.

— Vou sentir sua falta.

E eu a sua, ela queria dizer. Mas não mentiria a ele. Não sentiria a falta do irmão, com certeza seria melhor que ficasse em Ponta Tempestade, seguro e com seus senhores para protegê-lo. Desde que soubesse que Yann estava bem, Layse não via necessidade de visitá-lo. Tirou-o da cama para ajeitar os lençóis.

{ . . . }

Lady Manderly sentou em sua cadeira na sala de bordado, onde as damas já estavam àquela hora da manhã. Ela nunca fora amante das tarefas femininas, mas recentemente passar os dias bordando e ouvindo a conversa das mulheres parecia o melhor para sua gravidez. A barriga, ainda pequena, incomodava-a em quase tudo. Para dormir, tinha de se virar de lado, porém a barriga do esposo sempre a empurrava um pouco mais para borda e ela temia acordar no chão, caída sobre o bebê. Florence era um porco e roncava a noite inteira, acordava apenas quando seu criado vinha vesti-lo e não conseguia colocar os calções sem fazê-la pular no colchão até despertar. O marido incomodava mais que a própria barriga.

Lamentavelmente, também não podia visitar Wylis, poderiam suspeitar quando a criança nascesse. Os irmãos eram parecidos, porém um filho belo demais com certeza não teria o sangue de Florence. Após o casamento, a cama do casal fora seu martírio, até que provo a gravidez. Dez vezes teve Florence dentro de si e nas dez vezes implorou aos deuses que o fizesse chegar logo. Wylis a visitou quatro vezes, mas suspeitava que fosse dele a criança. Florence nunca fizera direito. E Wylis... era o tipo de homem que tinha sementes fortes.

Ela desejava que a criança fosse de Wylis. Seus filhos não podiam ser fracos como o esposo, eles precisavam ser fortes e corajosos para o futuro incerto que percorreriam. Porto Branco era a maior cidade e a mais rica de todo o Norte, seu comércio alimentava Winterfell e Lorde Manderly tinha bons dedos para fazer dinheiro. Mas se a fortaleza sofresse um ataque, talvez não conseguisse lidar. Não estavam na linha dos ataques dos selvagens e dos homens de ferro, porém receberam ordens de manter a guarda levantada e a cidade em estado de sítio para evitar surpresas. Destruir Porto Branco era como destruir todo o Norte. Se os lordes perdessem a esperança nos Manderly, perderiam também nos Stark.

Ela continuou bordando, seus dedos se moviam independente dos pensamentos. As damas sempre perceberam como sua lady parecia desaparecer da fortaleza quando bordava. Era como esquecesse todo o seu derredor e focasse apenas em fazer os desenhos. Ela bordava lobos gigantes, o rosto de seu pai e irmãos, bordava até mesmo seu esposo e cunhado, ambos em posições opostas. Ela bordou o nome de seu filho e o nome de sua filha, fez brasões de todos os lordes do Norte e enviou o presente junto de um convite a se juntar a seu pai na guerra. Lady Clarysse fazia sua própria batalha, enquanto bordava, vencia alguns inimigos, fugia de outros e sempre terminava a tempo um novo desenho.

Desta vez, estava fazendo um urso.

— Milady, para quem seria esta peça? – Senhora Arya perguntou.

— Para minha irmã. Ela está prometida a Lorde Mormont.

— É realmente inspirador – a mulher assentiu e mostrou seu próprio bordado. Senhora Arya era horrível com as agulhas. – Para meu esposo. É um cão-lobo.

— Ele irá adorar, Senhora Arya. – Clary sorriu e continuou bordando.

Nenhuma de suas damas conseguia mais que aquilo, elas se contentavam em diálogos curtos, colocavam a conversa em dia entre elas mesmas e nunca perguntavam a opinião de sua lady, temendo que ela as repudiasse. Lady Clarysse era uma mulher muito séria e fria, assim como todos os Stark. Sua própria melancolia construíasse como blocos de gelo em uma Muralha, afastando-a de todos. talvez fosse a gravidez, talvez fosse apenas a personalidade dela. Qualquer que fosse o motivo, nada tiraria o respeito e admiração que as senhoras sentiam por sua Lady.

— Querida – Florence entrou na sala de bordado sem anunciar e todas as senhoras se levantaram, menos Lady Clarysse. – Uma carta de Winterfell. Péssimas notícias! – ele balançava o papel, sem entregá-lo de uma vez para ela. Clary o odiou por isso. – Seu irmão, Poddrick, foi assassinado em batalha na Baía das Focas, na costa de Skagos. E os selvagens foram avistados perto de Atalaialeste, na Muralha.

— Você poderia apenas me entregar a carta – Clarysse respondeu.

— Eu lamento muito, minha querida! – Florence se aproximou para beijá-la, mas ela recuou e ergueu o bordado entre ambos, como uma barreira. – Clary?

— A carta diz onde está Roddrick?

— Está em Winterfell, ele e Poddrick iriam trocar de lugar na batalha, pois a ofensiva selvagem estava mais perigosa ao leste, mas nunca chegou a deixar a fortaleza.

— Mande uma carta fúnebre para Winterfell junto de meu bordado – ela olhou para uma de suas senhoras, a que parecia menos abalada com as notícias. – Senhora Celyn, arrume vossas roupas e despeça-se de vosso esposo, iremos para Winterfell amanhã.

— Sim, milady – Senhora Celyn levantou-se com uma mesura e saiu da sala. Florence olhava para sua esposa com medo. O que ela o ordenaria fazer além de enviar a carta?

— Vou passar as próximas semanas com meu pai e minhas irmãs. – ela se levantou e de repente a barriga pareceu muito mais imponente contra o tecido do vestido. Florence sentiu um misto de medo e amor por seu filho. – Fique aqui e fortaleça as defesas de Porto Branco, mande construir uma frota nova de navios.

— Com as reservas?

— Com o dinheiro do próprio porto. – ela revirou os olhos. – As reservas são reservas, Florence.

— S-sim, querida. – ele assentiu.

— E irei levar Wylis como guarda. Seu irmão irá jurar lealdade a meu pai, como cavaleiro.

— Wylis detestará deixar Porto Branco – Florence encolheu os ombros, porém sua esposa parecia certa do contrário.

— Wylis deve servir a seu lorde como for mais útil. Esconder-se aqui, com uma boa espada, não trará a vitória para nós.

Eles se assombraram com a sabedoria de sua Lady e, quando tudo já estava pronto, ela voltou a se sentar na cadeira de bordado. Precisava terminar a peça antes do anoitecer.

Clarysse sorriu. “Uma boa espada”. Com certeza, ambas eram muito boas.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Beijos!