Notas iniciais
Boa leitura a todos.

A Rainha Que Comeu o Peão

“O amor é um sentimento mais lúcido da vida, tendo sutileza, gentileza e um pouco de insanidade.” — Julio Aukay

Gregory and the Hawk – Two Faced Twins

Sobre sua cabeça, um grande chapéu pontudo púrpuro, como o vestido de mangas longas e cintura apertada que estava usando. Amarrara os cordões do meistre, com suas presilhas com símbolos estranhos. Também carregava uma varinha de condão, ou no caso uma vela. Caminhava como se pisasse suavemente no ar, flutuando sobre os sapatos com livros amarrados no solado, para que o vestido parecesse flutuar junto. Jogou beijos para uma flor, plantada em um vaso sobre a penteadeira. Jenny parou em frente ao tronco de uma árvore, que se parecia muito com um baú virado de lado.

— Fadinhas? Onde estão, fadinhas? – chamou, a voz melodiosa e fina. Escutou as risadas das fadinhas, o baú se abriu com uma delas dentro. – Fadinha, onde estão suas irmãs?

Debaixo da cama e atrás das cortinas mais duas fadas surgiram e começaram a dançar ao redor da feiticeira do bem. Elas cantaram juntas e rodopiaram, fazendo florescer e brotar plantas em todos os lugares, até que o quarto inteiro estivesse cheio de terra. Jenny escutou o som da porta se abrindo e então alguém exclamou, estupefato. As fadinhas correram todas para debaixo da cama, ficando apenas a feiticeira e o seu ninho de beleza e encanto. A septã caminhou pesadamente, desviando de flores, livros e terra. Bem em frente a Jennara, torceu o nariz e enfiou os dedos ossudos por entre os cabelos da garota, até encontrar sua orelha.

Jenny sentiu a unha da septã torcendo-lhe a carne sensível da orelha e soltou um gritinho agudo, que fez as fadinhas choramingarem. Mas a bruxa malvada não se comoveu com aquilo e arrastou a feiticeira boa quarto afora, tirando-a do bosque encantado e a levando para o seu covil malvado. Lá, Emmeline, mamãe e uma dama de companhia de quem Jennara nunca conseguia lembrar o nome. A septã soltou-lhe a orelha, que a feiticeira esfregou com força e alívio. Fez uma careta para as costas da velha e se sentou em um dos bancos da sala. Suas agulhas estavam prontas, assim como o seu bordado, no começo, enquanto todas finalizavam já as colchas e almofadas.

— Estava no quarto das crianças, de novo! – exclamou a bruxa, voltando-se para Coryna Tully, sua mãe, que ergueu as sobrancelhas para a filha e continuou a costurar concentrada. Emmeline sorriu, pousando o bordado sobre os joelhos e lançando os olhos ao teto da sala. – Eu sugiro um castigo. Ela precisa criar juízo nessa cabeça vermelha. É uma dama, uma Tully, e está no castelo de Vossa Graça o Rei. Não podemos quer deixar que os guardas a vejam rolando pelo chão ou fingindo ser uma sereia que encanta os marinheiros!

— Eu sou uma feiticeira, e sou do bem! – Jennara murmurou, ofendida com as palavras rudes da septã. A velha mordeu os beiços, irritada com a interrupção.

— Ela não respeita a ninguém! Nem mesmo a senhora!

Coryna Tully parou seu bordado e ergueu seus frígidos e belos olhos para a septã. Aquela velha feia e inconveniente, que mal chegara ao castelo e mal trabalhava para a família se achava no direito de dizer que a filha de Lady Elenor Coryna Tully a desrespeitava?

— Jenny, levante-se.

A feiticeira ouviu a voz de sua deusa e o fez com muito bom grado, erguendo os braços e reverenciando a sua divindade. Coryna achou aquilo engraçado, porém não expressou qualquer sentimento, ainda encarando a velha ranzinza que se chamava de septã, mas que não tinha orgulho algum pela profissão.

— Jenny, rasgue o seu bordado, agora mesmo.

A feiticeira obedeceu, agarrando aquele pergaminho de feitiço maléfico da bruxa malvada e o rasgando com a ponta dos dedos, disse algumas palavras de benção e deixou os pedaços caírem, desaparecendo debaixo de sua saia.

— Jenny, pegue outro bordado e termine-o até o final do dia.

A feiticeira saltitou até a mesa onde estavam os bordados e escolheu um dos pergaminhos para escrever um novo feitiço, um feitiço bom, que fizesse a todos felizes. Então ela se sentou sobre uma rocha, em meio a seu bosque encantado, e tratou de começar a escrever. Coryna levantou-se.

— Você está dispensada, septã Marion.

A velha abriu a boca.

— Para sempre, septã. – Lady Coryna Tully sentou-se novamente. Como a velha não se moveu, ela pediu gentilmente para que a dama de companhia, Fiona, a levasse até os portões do castelo e a despachasse com seu salário devido. A septã ergueu-se de supetão e, vermelha da cabeça aos pés, abandonou as fadas, a feiticeira e a deusa, sendo enfim derrotada pelas forças do bem.

As horas se passaram dentro daquela sala. Emmeline terminou seu bordado primeiro, pois era pequeno e simples, então se sentou em uma das escrivaninhas e começou a escrever uma carta para seu pai, Lorde Tully, que estava muito doente e era cuidado pela filha mais velha, Virya, que morava em Casteloencéu, com seu esposo e seus filhos. Há muitos anos Emmeline não via seu pai ou sua irmã mais velha, nem as sobrinhas e o cunhado. Há muitos anos estava em Porto Real, morando no castelo do rei, como dama de companhia da princesa Beata.

Um pajem adentrou a sala de costura silenciosamente e lhe entregou um pequeno bilhete. Emmeline pousou a pena dentro do tinteiro e leu o que o bilhete trazia. Como o jovem fora embora sem hesitar, ela logo tratou de guardar o papel dentro do corpete do vestido e se voltar para as demais mulheres na sala de costura. Era um dos inúmeros recados que a princesa mandava-lhe ao longo do dia. Todos sabiam que Emmeline era a dama preferida da Princesa Beata e por isso a tratavam como uma irmã mais nova da moça, uma princesa sem a coroa. Emmeline gostava do tratamento, mesmo que pensasse merecer mais.

[Gregory and the Hawk = Dare and Daring]

— Preciso ir. – disse para Coryna, que consentiu com um meneio.

Emmeline deixou a sala e atravessou o corredor em passos calmos, seus pés doíam da festa na semana passada, quando dançara a noite inteira com todos os convidados importantes, por ordem de Beata, que detestava danças. Emmy, assim como Jenny, tinha um espírito muito artístico, embora não tão insano e tolo quanto a sobrinha. Era complicado explicar seu relacionamento em família, levando em consideração que tinha apenas dezessete anos e sua sobrinha tinha dezoito. Todos achavam aquilo um fato engraçado, mas Emmeline o detestava. Fazia com que Jenny parecesse mais importante, por ser filha do provável Lorde Tully. Namond seria lorde um dia, quando o pai morresse, e isso estava muito perto de acontecer. Quando ela deixasse de ser filha de Lorde Tully para ser irmã do Lorde, ou filha de um lorde morto. A deixaria em uma situação totalmente dependente de Namond, e Namond era simplesmente desleixado demais para confiar nele. Teria de arranjar-se sozinha, como sempre.

— Senhorita Tully – um dos guardas fez uma mesura enquanto Emmeline passava por ele. Alguns homens achava impossível não fazê-lo quando Emmy estava próxima, pois era de uma beleza tão nobre e vívida que ofuscava qualquer sobrenome que lhe colocassem em frente ao nome. Se dissessem que ela seria a nova princesa, é provável que todos aplaudissem e lhe dessem vivas. Claro que todos já sabiam que um dia ela seria a princesa, casando-se com Aerton e se tornando a próxima Rainha de Westeros.

Enquanto caminhava sobre a ponte que unia o Pátio da Dama, onde as damas e convidadas da rainha estavam e o Pátio do Castelo Real, a parte onde o palácio onde a família real morava, Emmeline sentiu uma brisa suave erguendo gentilmente seus cabelos ruivos, e mais guardas se curvavam e proferiam suas cortesias para ela, querendo agradá-la, quem sabe conquistar sua confiança, quem sabe conquistar seu coração. Os homens são sempre assim, tolos.

Quando entrou no palácio, notou a presença de uma nova comitiva, convidados recentes, com certeza, pois não ouvira falar de nenhum. A bandeira que estava estampada nos baús e pertences dos convidados era verde com uma flor, algo um pouco “Tyrell”, por assim dizer. A princesa Beata havia dito algo sobre coisas estranhas acontecerem nas Terras da Tempestade, onde acontecia o Torneio de Lorde Baratheon (para o qual o rei havia recusado o convite sob o pretexto de ir caçar com seus filhos mais velhos e sua guarda real). A rainha atravessava o corredor de colunas com o passo rápido, acompanhada de seus conselheiros e uma dama, a quem todos conheciam como Blair, embora ninguém soubesse se este realmente era seu nome. A rainha nunca a mencionava e nunca falava com ela em público, mas a levava para cima e para baixo. Blair era suspeita, assim como todos os membros da Corte. Mas um pouco suspeita demais. Tinha cabelos louros, quase brancos, como os dos Targaryen, e olhos verdes intensos, sua pele era branca como o papel e seus lábios não possuíam cor. Às vezes Blair a assustava.

Polya Targaryen, a rainha, trajava um de seus ricos vestidos, com musseline a cobrir-lhe os ombros e a barra da saia e do corpete, alto demais para que seus seios fossem vistos, algo que ela prezava muito. A chamavam de Rainha Pura, nunca era vista rindo ou sendo cruel, sorria, mas não excessivamente, ordenava a seus criados, mas não com arrogância. Era educada, prestativa, belíssima e a maior manipuladora que Emmeline já vira. A Polya, prima do rei, casara-se com ele por amor, ou assim todos diziam, pois o rei lhe fazia tudo o que pedia, desde nomear cavaleiros a retirá-los de seu posto. Polya era muito a favor do casamento de seus filhos, Aerton e Beata, queria-os como próximos soberanos e temia que Emmeline e toda a sua família ruiva bloqueassem esse caminho. Ela a detestava.

— Majestade – Emmy curvou-se quando a mulher passou, inclinando sua cabeça gentilmente para a dama e continuando seu caminho. Os guardas aplaudiam todas as interações que as moças da Corte faziam, pois as achavam muito belas em toda aquela cortesia. Emmeline continuou seu caminho, indo pelo mesmo corredor de colunas que a rainha havia passado a pouco e então entrando nos aposentos reservados apenas para a família real e seus amigos. Como uma das principais damas de companhia e sempre requisitada, diversas vezes ao dia, os guardas já sabiam que deveriam deixá-la passar. No entanto, para sua surpresa, quem estava em frente a porta do quarto da princesa era seu sobrinho, Damien, com a armadura branca e brilhante. Ele sorriu.

— Imaginei que o bilhete fosse para você. – ele murmurou, saindo da frente da porta. – Não há ninguém melhor nesse castelo para saber dos segredos de Vossa Alteza.

— Obrigada pelo elogio – ela inclinou sua cabeça e entrou no quarto, fazendo uma mesura para a princesa. Beata servia-se de uvas, deitada sobre seu tapete, com as almofadas ao redor. Suas vestes eram leves e rosadas, com os seios a mostra e os cabelos desarrumados. A moça fez um movimento para que fechasse a porta.

— Você foi rápida. – comentou a princesa. – Muito bem.

— Sempre venho o mais rápido que posso. – concordou Emmy, sentando-se em uma das almofadas. Beata era uma pessoa excêntrica. Preguiçosa, teimosa, vulgar e muito, muito inteligente. Às vezes dispensava todas as damas de companhia e passava horas sozinha. Quando abria seu quarto novamente, havia peças de xadrez para todos os lados e tabuleiros montados, jogos inacabados e vitórias incríveis, das quais ela não se gabava. Às vezes ela enchia seu quarto de damas de companhia, das mais suspeitas e fieis e realizava orgias inimagináveis, das quais Emmy sempre tinha permissão de não participar.

Beata dizia que a vida de uma princesa era monótona demais e que ela preferia viver como um príncipe. Seus irmãos saíam para caçar, cavalgavam por todo o reino e treinavam com espadas. Ela se contentava em adquirir todos os conhecimentos do mundo e usar-se do que tinha para os próprios prazeres. Emmeline sabia que muitos julgariam aquilo como inapropriado. Ela mesma já sabia que Beata vivia sua vida na cama de irmãos, primos, guardas... quem sabe até mesmo do rei. A princesa fechou seu vestido, pois sabia que Emmy era uma pessoa educada e com muito pudor. Talvez esse fosse o motivo de ser sua melhor amiga, pois representava tudo aquilo que a princesa deveria ser, e assim era mais fácil deixar que Emmeline tomasse as decisões por ela.

— Não é injusto que meus irmãos sejam homens fortes por levarem duas moças para suas camas, e eu não possa nem mesmo flertar com algum guarda ou cavaleiro? – ela perguntou, novamente com a conversa. Provavelmente a rainha havia passado ali para incriminar sua filha, antes de seguir viagem, e por isso Beata estava tão irritada. A menina não se fazia de brava ou gritava, ela apenas murmurava coisas e chamava a companhia de Emmy.

— Acredito que alguém da família real possa fazer aquilo que desejar. As leis são feitas pelo rei. – Emmeline respondeu.

— Pois é assim que eu vejo. Meu pai não se importa se eu sou conhecida por ser uma das melhores companhias para qualquer um, moças ou rapazes. Ele mesmo diz isso. Por que eu tenho de desperdiçar a minha vida servindo apenas uma pessoa, quando posso me servir de todos? Diga, Emmy, se eu a mandasse deitar naquela cama e tirar o seu vestido, você faria isso? – Beata apontou a cama.

Emmeline já ouvira aquela pergunta antes, normalmente ela voltava e voltava, junto com as demais, sempre que a princesa estava irritada.

— Claro, sou uma humilde serva. – Emmy sorriu – Mas você não me mandaria fazer isso. Porque é minha amiga e sabe que eu não gostaria.

Beata riu.

— Você é uma das únicas pessoas que resistem a mim. Você e Aerton, meu querido irmão, com quem mamãe quer tanto que eu fique. Eu não entendo, não há motivos para que eu me case com ele. Entretanto nossos pais são grandes amigos e sua mãe já foi uma das damas de companhia da minha mãe. Eu preferia ver uma Rainha Tully a uma outra Rainha Targaryen. Eu detestaria ser rainha. Prefiro continuar minha vida alegre aqui. Aliás, Alyss logo entrará, então é melhor eu dizer logo porque lhe chamei aqui.

Emmeline concordou com um meneio. Alyss Sand era a dama de companhia preferida durante as noites.

— Preciso que fique de olho nos Tyrell que acabaram de chegar. Eu a designei como acompanhante da Senhorita Tyrell, então você poderá ficar próxima de seu irmão, que está solteiro e será o próximo Lorde de Jardim de Cima. Se você não quer ser rainha, Emmy, sugiro ele como um bom partido. Agora, ao que eu preciso que fique atenta: suspeito desses dois. Desde que meu pai afastou Asalan da Corte e nomeou Aerton como seu herdeiro, os Tyrell vêm se mostrando suspeitos, eles brigaram meu irmão rebelde e o tratam como seu príncipe, mesmo que o título tenha sido retirado de Asa. Temo que estejam aqui para matar Aerton e começar uma revolta. Muitos lordes gostam de meu irmão mais velho – a princesa disse. – Quero que saiba sobre tudo o que esses dois estão tramando.

— Como posso fazê-los confiar em mim? – Emmeline questionou.

— Você tem sido minha amiga mais fiel, a quem posso pedir tudo. Emmy, falamos de vidas em jogo, falamos de meu irmão e de sua coroa. Você precisa saber o que está em jogo.

— Estou ciente. – Emmeline Tully sentiu um pouco de medo, aquilo não parecia as fofocas comuns que Beata gostava de saber, aquilo parecia uma trama, o feto de uma guerra.

— Por seu rei e seu reino, eu peço que faça o que for preciso.

O que for preciso? — Emmeline engoliu em seco.

— Você quer ser a rainha e eu quero ser feliz. – Beata murmurou – Nós duas sabemos que com Asalan no poder nenhuma de nós terá o que deseja.

Emmeline respirou fundo e concordou com um meneio.

— Uma rainha luta pelo seu povo. Você precisa provar se digna. – Beata indicou a porta. – Se alguém souber disso, estaremos mortas. Não sou importante para meu pai, então ele não se importará se eu for envenenada, e você é apenas a filha mais nova de um lorde velho.

— Eu entendo o que quer dizer. – a dama fez uma mesura e se levantou. – Mas tenho os meus próprios meios de conseguir isso. – então Emmeline rasgou sua manga, desnudou o seio direito, balançou os cabelos e arranhou-se com as unhas. – Sua vadia imunda!

Explodiu porta afora, derrubando a harmonia do palácio real.

Notas finais
Sim, a família Tully é cheia de ramificações. É um pouco confusa. Lorde Tully é pai de Namond, Virya e Emmeline. Emmy é jovem, e Namond é um homem de meia idade. Namond é casado com Coryna, e com ela tem Damien, Jennara, e mais três filhos ainda não apresentados. Damien é da guarda real e por isso seu pai não se agrada muito dele, pois era o primogênito. Emmy é tia de Jennara e Damien, embora ambos sejam um ano mais velha que ela. E o que podemos esperar de Emmeline e os Tyrell? Já sabemos que o Verdadeiro Príncipe é Asalan, mas o que sabemos realmente dele? De que lado devemos ficar? Beijos de Lady Savoy.