Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
1 A Lança e o Sol
Notas iniciais
A Lança e o Sol
"Se eu pudesse voltar à juventude, cometeria todos aqueles erros de novo. Só que mais cedo." -Tallulah Bankhead
Do alto das colinas, podiam ver o Sentinela, imponente e grotesco, com suas gárgulas e rostos espalhados pelas ameias. O castelo ficava no que chamariam de monte naquela parte de Westeros, uma elevação que destacava a construção por milhas. Era conhecido como um lugar assustador, onde os quadros podiam acompanhá-lo com os olhos e às vezes sussurrar premonições. Mace Martell não acreditava em nada daquilo. Era um jovem forte e atraente, com um sobrenome a lhe folhear com arabescos. Caminhava conduzindo seu cavalo, que ofegava da última corrida apostada com seu meio-irmão, Raffail Sand, estava orgulhoso por ter vencido.
— É muita sorte, irmão – dizia Raffail, também conduzindo seu cavalo pelas rédeas. – Bonita, nobre, rica, vizinha e herdeira que só assumirá a Casa se casar antes da morte de seu pai. Não há oportunidade melhor.
— Acredito que meu pai também pense assim. – concordou o príncipe, revirando os olhos para Raffail, que apenas sorria.
— Eu sou o seu servo número um quando o serviço é convencer a cabeça dura do filho preferido. Sempre funciona.
Mace apenas balançou a cabeça, antes de montar em seu cavalo novamente e sair a trote ligeiro até a sua pequena corte logo a frente, com 40 soldados, um escudeiro, um cavalariço, duas escravas e o mestre de guerra (também seu tio). A comitiva viajava há uma semana para o torneio pela mão de Betyne Baratheon, Lady da Tempestade. Era uma ostentação e tanto para o príncipe de Dorne, mas o objetivo era impressionar a futura noiva.
— Meu príncipe, gostaria que eu fosse a frente para anunciar a chegada do cavaleiro de Dorne? – perguntou o tio, porém Mace recusou com um aceno, preferindo que sua chegada fosse numerosa e surpresa. De todos que viajavam com ele, apenas um não era dornês. O mensageiro de Lorde Baratheon aceitara ser escoltado pelos 40 homens de Mace até o castelo do torneio. Ele trouxera o convite e uma pintura da menina que tinha sua mão como prêmio ao melhor dos combatentes. O homem falou pouco e parecia sempre cavalgar um pouco a frente do grupo, como se fosse chegar mais rápido deste jeito. Ninguém poderia culpá-lo após tanto tempo com bárbaros dorneses. Mace achava divertido.
— Veja, há trombetas e arautos, eles anunciam a chegada de todos os concorrentes. E olhe todas essas tendas ao redor do castelo! São apenas aqueles que não possuem títulos nobres, ainda nem vimos aqueles que estão nos lugares mais altos nas apostas! Há mais bandeiras do que posso contar! – exclamava Raffail, como um garoto animado, embora fosse mais velho que o príncipe de Dorne.
— Espero que saibam quem sou – comentou Mace, olhando os arautos. Seria vergonhoso ter de informar seu nome para que o anunciassem, quando os lordes normalmente são homenageados antes mesmo de chegarem. Mas a quem poderia culpar caso isso acontecesse? Os dorneses não costumavam sair muito de sua península isolada.
— Temos uma bandeira, eles saberão.
Mace teve de concordar. Cavalgar noite e dia não era fácil, mesmo com celas tão boas e cavalos tão fortes quantos os que tinham. Dorne era um lugar duro e fazia de seus habitantes pessoas duras, os sobreviventes das terras afastadas costumavam se portar como selvagens dentre os comuns de Westeros. Todos olhavam com desconfiança e até mesmo medo dos dorneses, talvez por causa de sua pele mais escura, como a dos dothraki. Embora a aparente semelhança, Mace conhecia dothrakis e sabia que eles eram muito diferentes de qualquer homem de Westeros, mesmo em Dorne jamais se acharia alguém como os de Essos. Mas, claro, a maioria daqueles que moravam além de Dorne, para o norte, talvez nem mesmo soubessem o que é um dothraki.
— Esses rostos... parecem me encarar – murmurou Raffail ao seu lado, olhando com preocupação para as muralhas. Das ameias do castelo os soldados os observavam, alguns sorrindo, outros apenas irritados por estarem trabalhando num dia de tanto Sol.
Realmente, o efeito de ter mais de cem rostos observando-o faziam com que o Sentinela se tornassem um lugar medonho. Porém Mace encantava-se com aquilo e gostaria de descobrir quais os nomes dos homens que inspiraram-nos. As histórias diziam que cada um retratado no Sentinela era um homem importante ou perigoso que Lorde Otto Baratheon, o Lorde da Tormenta, como o chamavam, o mais sangrento e mortífero homem que pisou em Westeros, conhecido por sua fama de sair vitorioso em todos os confrontos que disputou. Lorde Otto foi filho do último Rei da Tempestade e por isso era orgulhoso e prepotente, querendo restaurar sua glória e quem sabe novamente seu reino. É claro que, vendo o perigo se aproximando, o Rei Targaryen convidou Otto para um banquete em sua homenagem e o navio misteriosamente afundou. Todos dizem que foi o Targaryen. Mace nunca gostou muito de barcos. Eles não eram confiáveis.
O número de não-nobres sobressaia ao de nobres, o que era uma surpresa, afinal a filha de um grande Lorde costumava se casar com alguém de mesma estirpe ou até mesmo mais poderoso. Mas aquilo até que era inteligente da parte de Lorde Baratheon, afinal se Betyne se casasse com alguém sem um nome, esta pessoa poderia adotar o sobrenome Baratheon e deste jeito continuar a linhagem. É claro que Mace tinha certeza de que “Martell” ficaria melhor como senhor da Tempestade e de Dorne.
Os arautos anunciaram sua entrada.
— Senhor – um cavalariço aproximou-se do cavalo de Raffail e olhou para ele, com afetado respeito. – O lugar dos Martell está por este lado, por favor, me siga. – e com isso virou as costas, caminhando com rapidez. Raffail olho de Mace para o tio deles, Asualan. Então riu e apressou o cavalo a seguir o menino. Quando chegaram ao local separado com a bandeira dos Martell, um sol grande, com uma lança o trespassando num fundo laranja, o rapaz novamente voltou-se para Raffail. – O castelo está aberto a todos os lordes e príncipes que desejarem visitá-lo, o salão de jantar também está aberto e dentro de duas horas serviremos a ceia.
— Muito obrigado, jovem...
— Adoff. – ele respondeu, subitamente feliz.
— Aqui está, Adoff, um presente por sua disposição em nos atender com tanta eficiência. – e jogou uma moeda ao menino, que agarrou-a com ambas as mãos.
— Muito obrigado, Lorde Martell! Muito obrigado!
— Não, rapaz, eu não sou Lorde Martell. Ele está em Dorne, com sua esposa e seus milhares de filhos. – Raffail riu novamente antes de completar – Eu sou Raffail Sand, filho bastardo do Lorde. E este ao meu lado, embora um pouco feio e nada nobre, é meu irmão Mace Martell, príncipe herdeiro de Dorne.
Adoff encarou Mace por muito tempo e quando compreendeu seu engano, jogou-se no chão com o rosto na terra e implorou perdão, por ter chamado um bastardo de lorde e ignorado o real senhor. Mace e Raffail trocaram sorrisos, assegurando a ele que nenhum dos dois estava ofendido, e quando o rapaz se foi com os ombros caídos (e a moeda nas mãos), os irmãos desataram em gargalhada, deixando o tio e o resto da comitiva a vê-los com meio-sorrisos, felizes por seus senhores estarem felizes.
Os homens começaram a montar as tendas que abrigariam a todos nos próximos dias. Costumava haver celebração antes e depois do torneio, e raramente esses eventos terminavam antes de três dias. Entretanto, como se tratava da mão de uma dama, o casamento aconteceria um dia após o torneio, e isso significava mais um dia de festa. Estimava que por se tratar de um Baratheon e de um casamento, não voltaria pra casa dentro de sete dias.
Como estavam todos ocupados e Mace estava curioso para ver como era o Sentinela no interior, ele conseguiu convencer seu meio-irmão e seu tio a acompanhá-lo, um porque também estava muito curioso, outro porque queria a cerveja do norte, algo “pecaminoso, nojento e extremamente viciante” em sua opinião.
O castelo não era diferente daquele em que moravam em Dorne, talvez a única coisa que os diferenciasse era a pedra da qual tinham sido feito e a decoração. Em Dorne haviam cores por todas as paredes, tapeçarias, pinturas, óleos perfumados e velas de essência. Os tapetes eram de peles de animais exóticos de Dorne e os sinos anunciavam as horas no decorrer do dia, marcando o ritmo da vida dornesa. No entanto o Sentinela parecia estranhamente primitivo, com poucas pinturas ou móveis, apenas pedra e corredores estreitos. Para alcançar o salão de visitas foi preciso passar por um corredor com as bandeiras dos Baratheon e dos Durrandon, as casas irmãs, e de todas as casas submetidas a seu poder. Já no salão, havia mesas, bancos, homens conversando e bebendo, copeiras sendo beslicadas e flertando, um menestrel tocando alaúde e contando histórias que ele supostamente havia presenciado. Parecia tão simples e ao mesmo tempo tão peculiar. Era diferente dos jantares de Dorne, ao menos.
— Rapaz! Vejam, é Mace Martell! Ele finalmente saiu daquele deserto! – gritaram de uma das mesas, para onde Mace olhou e reconheceu o rosto de um dos únicos cavaleiros a se aventurar para o sul, para Dorne. Era o insensato Jobie, com seus três filhos ao seu lado, todos com menos de dez anos, mas já com canecas de cerveja e olhares ferozes para as copeiras.
— Joberyon! – saudou Mace, caminhando e desviando de todos no salão para alcançar a mesa de seu conhecido. Jobie estava bem mais velho desde a última vez em que se viram, ainda não tinha o terceiro filho e lembrava-se de uma certa dívida que ele tinha para com seu irmão, Raffail, que o cumprimentou com um simples aceno de cabeça, silenciosamente parado ao lado de Mace.
— Há quanto tempo, meu senhorzinho. – Jobie gostava de chamá-lo e senhorzinho, pois herdara terras que antes pertenciam a Dorne, e por isso ele se considerava um quase submisso ao Lorde de Dorne. Mace achava engraçado essa consideração. – Andei me divertindo muito nas terras da tempestade, veja meu último garoto, como é grande e forte! Já se entrelaçou com a virilidade!
Em outras palavras, Joberyon levou seu filho de sete anos para um bordel, provavelmente sem a consciência de sua esposa, uma mulher muito educada, gentil e inocente, que achava seu marido especialmente forte e poderoso, quem a protegeria de todos os maus, por isso não precisava se preocupar com o que ele fazia.
— É realmente a sua cara, Jobie. Infelizmente. – Mace gargalhou, levando o já embriagado Jobie a gargalhar também, em seguida caindo em uma série de soluços. Enquanto o pai tentava controlar-se, os meninos olhavam para Mace e Raffail com os olhos atentos, como se os reconhecessem. Era claro que haviam se conhecido quando eram muitos jovens, porém Mace não os julgaria caso não soubessem seu nome. – Hadrick, quantos anos você tem mesmo?
— Nove e meio – respondeu o rapaz mais alto, com um sorriso orgulhoso. Ser o primogênito deveria ser um orgulho muito grande nas famílias, porém para Mace isso era apenas sinal da injustiça contida no mundo, pois o primogênito era Raffail, e no entanto quem tinha a coroa e todos os direitos era ele mesmo, um filho único com muitos meio-irmãos.
Raffail visivelmente estava incomodado com a companhia, e por isso Mace pediu licença, disse novamente que estava muito feliz com rever Jobie e levou seu irmão para fora do salão, onde seu tio se perdeu sem avisá-los. Ambos pareciam prestes a sair do castelo, quando Raffail parou abruptamente e olhou para um quadro pendurado no corredor. Era um dos únicos naquela parte do castelo e parecia um pouco luxuoso demais para pertencer às terras da tempestade, por isso Mace também o observou mais atentamente. Era uma moça, com pele morena, olhos vivos e cabelos presos por um véu branco, as bordas da pintura eram douradas e cheias de arabescos entalhados. Mace sentiu-se atraído por aquela imagem, como se a moça pudesse falar com ele e ele a pudesse entender perfeitamente, mesmo sem saber o que era.
— Leia o que está escrito na parte debaixo – pediu Raffail, apontando o pequeno retângulo onde se dizia “Jeanine Martell, aos 16 anos, noiva de Lorde Baratheon”. Mace falou ao irmão o que estava escrito e por sua vez o mais velho arregalou os olhos, como se suas suspeitas estivessem se provando verdadeiras. – Jeanine Martell é sua tia-avó, um Baratheon já se casou com uma Martell!
— Sim, para cessar as guerras nas fronteiras. – concordou Mace, um pouco divertido com a situação, era sempre engraçado quando Raffail ficava naquele estado contemplativo e fascinado. – O que há?
— Eu apenas... nunca soube disso.
— Você não precisa estudar a genealogia da Família Martell. – Mace piscou, tentando fazer seu irmão rir, porém ele apenas coçou a cabeça e olhou novamente para Jeanine. A pintura de repente se tornou um pouco mais complexa. Uma jovem atraente de Dorne já fora uma Lady da Tempestade e agora estava morta, enterrada nas tumbas do castelo, apenas com seus ossos e vestidos. – Raffa?
— Ela não é... idêntica a Thallysha?
Mace buscou a memória de sua irmã no fundo do coração, temendo que isso fosse visível em seu rosto. Os olhos cheios de sagacidade e vitalidade, a pele morena e brilhante e os cabelos sempre perfumados. Por mais que quisesse concordar com Raffail, no entanto, Jeanine não era idêntica a Thallysha. Elas eram apenas um pouco parecidas, o nariz de Jeanine era maior e mais largo, os lábios de Thally eram maiores e mais definidos, além de que Jeanine tinha sobrancelhas quase invisíveis, e Tally tinha sobrancelhas marcantes e arqueadas. Era impossível comparar Jeanine a sua meia-irmã, pois Tallysha era muito mais bela e muito mais encantadora.
— Não mesmo! Você está vendo coisas, Raffa. – riu Mace, abraçando os ombros do irmão, enquanto o conduzia para fora do castelo. Olhou para os céus, já escurecendo, e a sua tenda já erguida. O que se fazia antes de um torneio? Mace temia ficar entediado dentro de sua tenda, e pior que ele entediado, era Raffail entediado. Tinha de encontrar algum entretenimento para ele e o irmão rápido.
Seus olhos circundaram o pátio, com suas muitas tendas, muitos cavalos e muitos homens. As únicas mulheres estavam com os seios a mostra e entravam e saiam das tendas dando risadas. Não era o tipo de companhia que ele e Raffail apreciavam, em Dorne a vida privada devia ser mantida no privado, ainda mais quando se morava no palácio. Raffail jurou nunca ter um filho bastardo e a abstinência não o incomodava, já Mace sabia que não podia ter um filho bastardo.
— Quer tomar um banho? – perguntou Mace, de repente – Vi um riacho na estrada, podemos nos banhar lá enquanto não nos chamam para a ceia. Aposto que isso nos manterá revigorados da viagem.
Raffail concordou apenas com um meneio e ambos selaram seus cavalos novamente e partiram para a estrada, para o local que Mace tinha visto. Era uma boa ocasião para conversar com o irmão e esquecer o torneio. Não era exatamente seu evento preferido, machucar outro homem ou um animal. Mace preferia o casamento pela diplomacia, mas para o Lorde da Tempestade, esta era desnecessária.
E quanto a sua pretendente a noiva, quem poderia ser? Como seria? Era impossível dizer. Temia que fosse feia, burra e irritante. Claro que a combinação de todas essas coisas era algo difícil para a nobreza, mas mesmo assim possível. Seus pensamentos alcançaram novamente Tallysha, a irmã bastarda que estava em Dorne. Ela era alguns anos mais nova que ele e Raffail, sempre repudiou as brincadeiras violentas e era adepta ao esclarecimento, tinha fascínio pelas estrelas e pelas histórias da Muralha, no norte. Era estranho uma moça de Dorne sonhar com a Muralha, afinal se tratava do outro lado de Westeros, onde o sol não brilhava, o que dizia as canções. O Sol dos Martell nunca brilhara no Norte. O que de interessante haveria naquelas terras?
E mesmo assim, ainda se mantinha interessado pelo Norte, pela Casa Stark e os deuses antigos que lá ainda habitavam. Quais seriam os motivos para pessoas tão longínquas e desinteressantes permanecerem na sua mente? É claro que sabia a resposta. Tallysha.
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