Notas iniciais
Boa leitura!

A Rosa e Seu Espinho

“É sempre fácil estabelecer-se uma amizade estável, quando há alguém que queira fazer-se admirar e outro disposto a cultivar tal admiração” – Viana Moog

Rise of a Kingdom – Brunuhville

O que a fez aceitar o passeio para fora do castelo era exatamente ser fora do castelo, em meio às árvores e o céu azul. Era estranho ver um clima tão calmo e quente em um lugar chamado “Terras da Tempestade”. Claro que não estava em Ponta Tempestade, mas no continente, onde provavelmente não havia tantas tempestades, mas não podia deixar de sentir um desapontamento. Viajara de Jardim de Cima até ali com esperança de ver nuvens negras e relâmpagos ensurdecedores. Ou seriam raios ensurdecedores? As tempestade em Jardim de Cima não tinham nem um, nem outro, de modo que Giselle só sabia que existiam por causa dos livros que avidamente devorava.

O torneio reunia todos os grandes lordes e seus filhos em idade de se casar. As Terras da Tempestade eram prósperas e próximas demais das Terras do Rei para ser ignorada. Se o rei precisava de um aliado, este se chamava Baratheon. Desde que os seis reinos foram conquistados pelos Targaryen, há uma pequena rixa para descobrir se o verdadeiro aliado se chama Lorde da Tempestade ou Rei de Dorne. A concessão de paz para Dorne foi dada com muita luta e muita angústia, tanto homens da tempestade quanto doneses morreram bravamente em guerras sangrentas. Hoje, no entanto, ambas as casas estavam reconciliadas e aparentemente desejavam se unir, pelo que Betyne dizia, conforme a liteira se aproximava do riacho que Betyne queria tanto visitar.

— Meu pai diz que, caso não seja um cavaleiro, o melhor seria um Martell, pois eu tenho sangue dornês. – ela explicou, como se tudo fosse muito interessante. Genealogia não era o estudo preferido de Giselle, e por isso ignorava completamente o que a dama tagarelava com suas irmãs, Rose e Maggie.

A viagem não fora escolha. Quando o Lorde Tyrell decidiu que seu filho deveria participar do torneio pela mão de Betyne Baratheon, quis que suas filhas acompanhassem o rapaz e deste modo talvez arranjassem também um casamento (pois todos sabem que um casamento leva a outro). Giselle era a mais desesperada das irmãs, vinte e cinco anos, bela e sedutora. E no entanto, não parecia interessada em se tornar a dona de um lar, com uma família grande e um marido amoroso. Giselle conseguiria qualquer homem que quisesse, bastava se dedicar a conquistá-lo que assim faria. Porém ela não desejava relações duradouras. Era ótimo ser contemplada, apreciada, até mesmo lisonjeada. Mas não mais que isto. Se eles tocassem seu braço com ousadia, ela logo entendia que era hora de seguir em frente e encantar outro coração casto.

Isso era uma preocupação para Lorde Tyrell, que nada mais tinha que seus filhos e a esperança de que se casassem bem e encontrassem sua felicidade. Giselle tinha noção disto tudo e sabia que tornar a vida de seu velho mais fácil não afetaria tanto a sua própria. Mas não era exatamente divertido fazer o que ele queria, certo? Achar seu próprio caminho sempre pareceu mais interessante.

— Nós brincamos muitas vezes com nossas bonecas aqui, neste riacho – disse Betyne deixando a liteira, ela contava para Rose e Maggie sobre a infância que tivera ao lado de Giselle, sua amiga. Quando todas já estavam do lado de fora da liteira, ela continuou – Lembra-se deste lugar, Sellie?

— Lembro, sim – concordou Giselle, observando o bosque. Não parecia exatamente com o que se lembrava. As árvores estavam maiores e mais escuras, peculiarmente, e a relva parecia mais baixa. Não haviam as flores comuns nem os aromas da primavera. Tudo o que sentia era o vento frio e o sol quente, um vindo do mar, o outro do céu. – Vamos nadar!

Betyne abriu um sorriso, concordando. Suas irmãs menores, Rosemary e Magnolya, tinham resolvido tornar Betyne Baratheon sua nova melhor amiga. O que Giselle não reprovava, porém ao passo que mais perguntavam e falavam com a menina, mais a menina queria a opinião de Giselle sobre os assuntos, e isso não era muito agradável a quem estava com a cabeça envolta a um cenário tão mágico. Tirou o vestido e adentrou as águas frias, sua pele se arrepiando conforme se molhava. Era ótimo nadar, principalmente quando podia olhar o céu tão azul.

— Sellie, alguém pode aparecer! – murmurou Betyne, o rosto mostrando um sorriso preocupado, porém Giselle apenas mergulhou e retornou ao leito do riacho, vestindo novamente as roupas. Suas irmãs riam, sentadas sobre almofadas na grama. A liteira permanecia há metros de distância, entre as árvores, onde os soldados de Betyne as esperavam. – Você é inconsequente!

— Correção, eu não medi as consequências de meus atos, não significa que não haja consequência – sorriu, Giselle, recebendo um leve aceno de Betyne, que adorava-a. Betyne era filha única de um homem glutão e fanfarrão, sua mãe morreu durante o parto, deixando-o apenas com uma filha para criar.

Bom, quem a criou não foi exatamente ele, mas sim as amas de Ponta Tempestade, onde passou a maior parte da vida, longe de festas ou qualquer viagem que seu pai fizesse. Embora nunca tenha dito, Betyne sabe que Lorde Baratheon tem medo de perdê-la, assim como perdeu a esposa, e quer garantir que ela tenha um bom futuro num lugar seguro, o que justifica o torneio. Apenas o melhor guerreiro poderia um dia se casar com sua tão amada senhorita. Betyne não via no torneio um empecilho para sua vida, mas uma oportunidade. Seu esposo poderia pertencer ao Norte ou à Dorne, qualquer lugar que fosse, desde Rochedo Casterly até Harrenhal, tudo parecia uma grande aventura para ela, que nunca deixara a Terra da Tempestade. E, no entanto, tinha poucas pessoas como suas companheiras. Nenhuma amiga íntima, apenas conhecidos, como sua dama de companhia e o cavaleiro destinado a proteger sua porta no Sentinela. Quando Giselle Tyrell e suas duas irmãs menores chegaram como acompanhantes de seu irmão mais velho, tudo pareceu mudar, como se novos ares chegassem. Betyne amava Giselle, tão inteligente e madura, às vezes sentia vontade de ser como ela.

As moças se levantaram para retornar ao castelo, pois não podiam se afastar por muito tempo sem que outros notassem. Betyne realmente detestava aquilo, ter um tempo limite para ver as árvores ao redor de seu castelo ou ter de ser escoltada até um riacho. Tinha medo de que um dos guardas pudesse ter se esgueirado para observá-las e flagrado Giselle em seu banho, porém nada parecia estar acontecendo de anormal, além de alguns homens conversando sobre o quão entediante era levar mocinhas de um lado para o outro.

Betyne pela última vez olhou ao redor e respirou fundo, o ar estava frio, embora o sol estivesse brilhando intensamente. Que estranho, um sol que não possui calor. As árvores balançavam com o vento que corria veloz. Rose e Maggie colhiam flores e foram pegas de surpresa pela brisa, que levou embora a maior parte de seus dentes de leão. Betyne deu uma risada, sentindo os cabelos esvoaçando em frente ao rosto e seu corpo sendo abraçado pelo vento.

O vento, de mãos grandes e braços fortes, que tomou sua risada e a transformou em gritos de socorro. Os dedos sobre seus lábios fediam a lama e terra, como o cheiro de chuva, porém mais metálico e mais sujo, deixando marcas em sua pele. O corpo contra o seu parecia mais gelado que a própria morte e mais forte que todos os seus guardas juntos, ou foi o que pensou, sendo arrastada de seu mundo. Era impossível focalizar um ângulo, em todos os lugares haviam apenas árvores, riachos e garotas gritando seu nome, até que tudo se tornasse escuro e não ouvisse mais nada.

A liteira alcançou o Sentinela em minutos, os homens já abandonando-as para espalhar as más notícias: Betyne Baratheon fora sequestrada repentinamente. Rosemary choramingava, ao passo que Magnolya olhava para todos sem compreender o que acontecia. Giselle nunca fora fã de crianças, nem quando elas faziam parte de sua família. Deixou que as irmãs fossem consoladas por uma dama de companhia que viera de Jardim de Cima e correu para dentro do castelo, sabendo exatamente para onde tinha de ir. O salão de festa permanecia em extrema confusão e agitação, homens bebendo há mais de cinco horas seguidas, guisados e lebres sendo servidas às mesas e copeiras se deixando levar pelas músicas obscenas. O cenário era perfeito para quem estava procurando: Lorde Baratheon.

Moveu-se para o meio da multidão, sabendo que seria alvo de retaliação por causa disso, seu irmão não pouparia insultos. Mas quem se importava? Empurrou a todos os bêbados e moribundos que estavam em seu caminho, não se preocupou em ser banhada por cerveja e saliva, nem pelos beliscões que recebeu enquanto caminhava. No final do salão, a grande mesa do Lorde estava repleta de comida e tão barulhenta quanto o resto do lugar, ele carrega sobre seu colo uma gorda moça sardenta, com os seios em seu rosto e risadas parecidas com a de um porco, conforme ele roçava a barba sobre ela.

Giselle tentou não sentir repulsa pela cena.

— Lorde Baratheon?

O homem continuou a vasculhar o decote da dama.

— Lorde Baratheon!

E, claro, isso não adiantou muito. Giselle não entendia como pessoas como ele podiam permanecer com seus títulos, o rei deveria saber que tipos daqueles não tinham capacidade de governar uma das terras dos Seis Reinos (Sete, se você contar Dorne, mas é algo muito complicado). A moça Tyrell colocou o braço entre o Lorde e sua rameira e obrigou-o a erguer a cabeça, primeiramente enraivecido e pronto a gritar com ela, em seguida surpreso e um pouco envergonhado. Não era todo dia que uma dama de nobre criação o encontrava aos apertos com uma camponesa. E além de tudo, era uma das amigas mais importantes de Betyne.

— Lorde Baratheon, preciso que o senhor ouça o que tenho a dizer. – Giselle pronunciou cada palavra com a entonação de uma verdadeira rainha ouvida de todos os cantos de seu palácio, mesmo com o som de tantos porcos rugindo e gritando feito idiotas (homens não são adoráveis em seu habitat natural?). Lorde Baratheon se levantou abruptamente, empurrando a moça de sua perna, sem dar a ela tempo de se recompor. – Como eu dizia – Giselle olhou bem para seus olhos azuis – Eu, Betyne e minhas irmãs fomos ao riacho hoje pois Betyne queria muito colher flores. Levamos uma escolta que nos acompanhou até alguns metros do riacho. Enquanto voltávamos para a estrada, um grupo de homens mascarados nos cercaram e levaram Betyne.

As palavras saíram claras e frias, como o sopro do inverno sobre as têmporas de Samwel. Sua filha levada, por um grupo de homens. Nos arredores de seu castelo! Com milhares de guerreiros e soldados prontos a morrerem pela mão de sua filha! Como isso poderia acontecer? Como aquela menina ousada permanecer em sua frente? Empurrou-a assim que recobrou o controle de seu corpo, atravessando o salão como a força de dez homens, ignorando a todos os retardados que bebiam e cruzavam com outras porcas imundas. Sua filha estava em perigo! Sua Betyne, nas mãos de vilãos cruéis! Desceu as escadas que levavam aos aposentos de armas do lorde, seus melhores homens sempre a postos ajudaram-no a vestir a armadura sem perguntar o porquê disso. Eles o seguiram com seus cavalos e partiram com o lorde, para o riacho, para qualquer pista sobre Betyne.

Giselle relaxou os ombros, começando a se sentir melhor, fizera a sua parte de contar tudo o mais rápido possível para Lorde Baratheon. Agora, bastava deixar que os seus cuidassem daquilo. Olhou ao redor, perguntando-se como sairia de um lugar tão nojento e obscuro. A mesa do lorde estava vazia e a copeira sardenta não se encontrava mais por perto. Giselle sabia que eles continuariam ali até que a noite terminasse, por isso teria de conseguir uma oportunidade boa.

Ora, mas como estava sendo cega! As chances de achar Betyne aumentariam caso mandasse todos aqueles guerreiros nobres atrás dela! Subiu sobre a mesa, sem se importar com o vestido roçando nos pratos de comida ou a falta de etiqueta aquilo representava. Bateu palma alguma vezes e gritou com toda a força de seus pulmões:

— A filha do lorde foi sequestrada! Betyne foi sequestrada! – olhou para eles, em busca de qualquer apoio. – O Lorde está indo buscá-la agora! O que estão fazendo aqui?!

Ofegava, o cabelo caindo sobre o rosto. Não imaginava que o salão se tornaria um completo silêncio, antes que o primeiro homem voltasse a gritar, correndo salão a fora, até as suas armas e o seu cavalo. Assim foi com outro e outro, até que todos se acotovelassem para sair e buscar a filha do lorde de seus raptores. Quando, enfim, estava sozinha, atravessou o salão sentindo-se vitoriosa. Não era todo dia que fazia uma boa ação e ainda conseguia o que queria com eficiência.

Passou pelos corredores vazios do Sentinela até alcançar a entrada e então as escadas. Os quartos estavam reservados apenas aos amigos do Lorde e de sua filha, por isso ela e sua família tinham um lugar no segundo andar do castelo. Entrou no quarto que dividia com suas irmãs e encontrou Otto parado ao lado da janela, com seu gibão verde e o broche de flor do lado direito do peito.

— É uma pena que o torneio tenha de ser adiado quando todos os lordes já estão aqui. O que torna tudo mais fácil. – sorriu o rapaz com uma piscadela. – Você foi exímia em sua missão, querida irmã, merece uma recompensa por ter ajudado a causa.

— Apenas me deixe em paz! – murmurou Giselle, deixando-se afundar na cadeira da escrivaninha.

— O seu desejo é uma ordem. Você ficará em paz, eu garanto, hoje mesmo providenciei isto com Lorde Karstark, do Norte. Você conhece o Norte, certo? Gelo, frio, e nada. É um ótimo lugar para quem quer ficar em paz.

— É melhor que um lorde de Jardim de Cima, suponho.

— Muito melhor. Os nobres dos Stark são mais antigos, mais poderosos... Eles não precisam de riqueza para ter o poder. É algo que você deveria aprender, para ser mais útil a mim.

— Quando estiver casada, eu não serei útil para mais nenhum esquema seu! Pode ir até o fim do mundo, que cuspirei em você e no seu principezinho.

— Não ouse desafiar o verdadeiro rei de Westeros! – rugiu Otto, o rosto vermelho. Ele era inflamável demais, infelizmente. – Você pode ir para onde quiser, eu tratei de assegurar que fosse para um lugar onde suas leituras não incomodariam ninguém. Fique longe do mundo, se é isso que você quer.

— Muito obrigada por entender – Giselle sorriu, escutando os passos no corredor. Voltou-se para a porta, no momento em que suas irmãs entravam acompanhadas da dama de companhia. O sorriso permanecia – Minhas irmãs, Otto veio aqui para nos trazer uma notícia incrível!

Rosemary e Magnolya imploraram para que contasse o que era.

— Eu estou noiva de Lorde Arthor Karstark!

Notas finais
O Tumblr da fanfic sempre conterá imagens e alguns spoilers especiais da história. Sejam atentos e talvez saibam se virar nesse jogo dos tronos. Beijos de Lady Savoy!