Stop Calling Me Out

3 Capítulo 3: 'It's Hard To See The Light Now'


Depoimento de Linus Schmidt ao 'Comitê Afton' (05 de Janeiro de 2024):
Sentado atrás de uma mesa de carvalho, folheando um arquivo, o juiz analisava a ficha do caso em questão.

— Linus Schmidt, por favor, tenha um assento. Estamos aqui para investigar os eventos que levaram à trágica noite de 14 de Novembro de 2023. — Linus concordou com a cabeça e se assentou na cadeira indicada pelo meritíssimo.

O juiz pigarreou.

— Como primo de Vincent Afton, você deve estar ciente de detalhes importantes. Vamos começar do início. Como era a relação entre vocês dois?

Linus suspirou, abaixou a cabeça por um momento, encarando as próprias mãos antes de tomar ar e falar:

— Vince e eu éramos próximos na infância. Crescemos juntos, éramos como irmãos. — Deu uma pequena pausa. — Mas, à medida que ele crescia, ele se tornava mais fechado, mais recluso. Ele nunca compartilhou muitos detalhes de sua vida, especialmente após a chegar a adolescência.

— Entendo. — Piscou. — Houve algum evento específico que você considere relevante para o comportamento posterior de Vince?

Linus usou a língua para umedecer os lábios, buscando por uma resposta em sua mente.

— Bem, acredito que vocês já devem estar cientes disso, mas... — Deu de ombros. — Durante a adolescência, ele passou por momentos difíceis na escola, né? Era alvo de zoações e bullying. Lembro-me de uma vez em que ele teve o diário exposto. Foi tenso, a cidade inteira ficou sabendo. — Cruzou os braços, tendo pequenos flashs do ocorrido em mente. — Eu tenho o rosto de quem fez isso com ele na minha memória até hoje. Tenho ódio dele. Deles. — Bufou. — Mas enfim. Isso devastou ele, é óbvio.

— Esse incidente com o diário foi um ponto de virada para ele?

— Acho que sim. Foi quando ele começou a se isolar mais e a se tornar mais reservado. Ele nunca confiou completamente em ninguém desde então.

Blake Presner, o juiz, crispou os lábios antes de prosseguir para a próxima pergunta que, ao seu ponto de vista pessoal, é um tanto quanto patética. Um cético nato ele é à este assunto.

— E quanto aos seus poderes paranormais? Você tinha conhecimento deles?

Linus fez uma breve pausa.

— Não, eu não sabia de nada sobre isso. Vince nunca mencionou nada sobre... Poderes para mim.

— Você tem certeza disso, Linus?
Schmidt mantém uma expressão séria no rosto.

— Tenho. Nunca soube de nenhum poder sobrenatural ou habilidades telecinéticas. Sou cético em relação a isso, na real. E também, Vince era muito reservado sobre qualquer coisa. Então, mesmo se fosse o caso, ele não contaria.

Juiz Presner disfarçou uma risadinha com uma leve tosse. Ele concorda com Linus. Mas isso não anula o fato de todos os sobreviventes apontarem Vince como o autor de toda a destruição ocorrida em 14 de Novembro de 2023. Todos os testemunhos, sem exceção, afirmam que o loiro era portador de uma espécie de poder sobrenatural, porém, não sabiam formar uma justificativa para tal afirmação.

— Entendo. Uma última pergunta, Linus. Você já notou algum comportamento alarmante nele antes da noite do baile?

Linus encheu o lado esquerdo da bochecha de ar, e em seguida, assoprou o ar para fora, de forma silenciosa.

— Não exatamente. Como eu disse, ele era recluso, então é difícil dizer. Mas ele parecia mais distante e descontente com o tempo. Digo, sequer lembro da última vez que o vi. Provavelmente foi em 2018... Meu testemunho pode ser meio inútil, no final das contas.

Blake piscou.

— Você não estava em Boca Raton na noite do baile?

Negou com a cabeça.

— Apenas o meu pai. — Deu de ombros ao mencionar seu pai. Ainda sentia desprezo pelo homem. — Recebi um convite formal de Vince por e-mail, mas como eu moro em Birmingham, ficou muito em cima da hora para mim. Não iria conseguir vir à cidade a tempo. Mas lhe parabenizei e desejei boa sorte, mesmo assim.

O juiz assentiu.

— Compreendo. Uma última pergunta, Linus. Você acredita que algo ou alguém tenha influenciado Vince a chegar a esse ponto?

Linus suspirou novamente, soltando uma risadinha. Ao seu ver, a resposta daquela pergunta era óbvia. Chegava a ser patético.

— Alguém tem alguma dúvida sobre? Todos sabem o que fizeram com que no baile. Acho que a resposta é clara.

— Oh, claro. Entendi. — Pigarreou novamente. — Obrigado, Linus, por compartilhar suas informações. Isso nos ajuda a entender melhor o contexto dos eventos que levaram a essa tragédia.

— Não sei como. Sinto que só enchi linguiça além da conta. — Se levantou. — Mas, de qualquer forma, por nada.

O fim de semana passou como uma cachoeira que corria desesperada à procura de seu fim. Quando menos percebeu, Vince se viu sendo obrigado a ir para o lugar que mais odiava no mundo.
Grunhiu em rejeição. Estava cansado, exausto, à beira de um colapso. Mas foi.

O sol brilhava intensamente no céu azul, criando sombras sob as árvores que cercam o pátio. O som de vozes misturadas, risadas e música distante ecoava pelo ambiente, criando uma atmosfera animada.

As árvores proporcionavam sombras parciais, criando pequenos pontos de alívio do calor do dia. Algumas folhas caídas cobriam o chão, criando uma sensação acolhedora. Perto dali, havia uma máquina de venda automática e um bebedouro, onde os estudantes ocasionalmente se aproximavam para se refrescar.


Era um cenário típico de uma escola durante o intervalo, com uma mistura de atividade e tranquilidade, proporcionando o ambiente perfeito para uma conversa entre amigos sobre seus colegas e suas peculiaridades.

Vince estava de frente para a máquina. Prestes a ejetar suas únicas moedas no interior do objeto, Afton se assustou ao que, de forma brusca, George Russell se aproximou de si.
Deu um passo para trás, se afastando levemente da máquina de compras.

— Me dá.

Vince piscou, confuso.
— Ahn?

— O dinheiro, pirralho. Me dá! — Exclamou, impaciente.

Estendeu as mãos para a frente e pegou as moedas das mãos do Afton.

— Mas que mixaria. — Negou com a cabeça em reprovação. — Não merece sequer um "obrigado". Parece até que passa necessidade.

Saiu.

Vince piscou novamente. Analisou suas mãos e em seguida a máquina, ficando estático por alguns instantes, digerindo o que acabara de acontecer. Ele foi... Furtado? Dentro da escola?!

Sim, ele foi.

Mariah Sherwood, assentada em uma das mesas, encarou a cena e soltou um suspiro, balançando a cabeça em reprovação.

— Vocês já pararam para pensar em como o Vince é... Estranho?

— Ah, ele é meio reservado, né? Mas acho que isso faz parte do jeito dele.

Hades a respondeu. Ele não viu a cena.

— O Vince é só um pouco tímido, Mariah. Isso não o torna estranho.

Any também não havia visto o furto.
Um sorriso irônico se fez presente nos lábios de Mariah.

— Não, não estou falando da timidez dele. Estou falando de como ele age. Ele age de forma estranha. Tipo, ele é passivo e incapaz de forma tão extrema. Parece que gosta de ser humilhado.

Hades levantou o olhar para a cacheada, curioso.

— O que quer dizer com "age de forma estranha"?

Sherwood ajeitou a postura de suas costas.

— Às vezes, ele fica... Sei lá, olhando para o chão, como se estivesse em outro mundo. E quando alguém tenta conversar com ele, ele mal responde.

— Isso não significa que ele seja estranho. Talvez ele tenha problemas em se relacionar com as pessoas. Tendo em vista o jeito que tratam ele desde... Bom, desde sempre, seria bem compreensível entender o porquê dele ter esses problemas.

Mariah negou com a cabeça novamente.

— Pode ser, mas... Sério, às vezes tenho vontade de pegar ele pelo braço e dar uns chacoalhões. Ele precisa se ligar mais na realidade, se enturmar.

Hades suspirou.

— Mariah, todos nós temos nossas peculiaridades. Talvez o Vince só precise de alguém que o entenda melhor.

— Concordo com o Hades. Às vezes, é preciso dar uma chance para as pessoas mostrarem quem realmente são.

— Ele não parece estar interessado em mostrar quem ele realmente é.

A garota passou a mão sobre seus cachos e escorou as costas no apoio da cadeira.
Não falou mais nada a respeito.

Nos momentos restantes do intervalo, o ginásio ainda estava agitado, repleto de alunos que conversavam animadamente enquanto esperavam pelo início das atividades.

De repente, a porta do pátio se abriu em um ranger suave, que chamou a atenção de alguns alunos próximos. Ronnan Konded entrou, com uma expressão determinada no rosto. Andava da mesma forma marrenta de sempre, porém, aparentava conter um pequeno sorriso.

À medida que ele caminhava pelo ginásio, em direção ao centro, os olhares curiosos dos alunos começaram a se voltar para ele. Parecia confiante e tinha uma aura de importância ao seu redor.


Quando ele finalmente alcançou a mesa que estava no centro do ginásio, onde seu grupo de amigos se encontrava durante os intervalos e tempos vagos, ele parou por um momento, respirou fundo e, com um movimento ágil, subiu na mesa. O som de seus sapatos contra a madeira ecoou pelo ginásio, chamando a atenção de todos.

— Cuidado com o meu lanche!
Joseph Lewis exclamou, retirando seu lanche da mesa, na intenção de salvá-lo de um triste fim relacionado à sola dos pés do Konded.

— Cala a porra dessa boca. — Revirou os olhos.

Ele levantou a mão direita, pedindo silêncio aos demais alunos:

— Ei, ei, ei! Pessoal! — A voz de Ronnan era firme, grossa e ressoou pelo ginásio, dissipando gradualmente qualquer resquício de conversa paralela.
Seus olhos percorreram a multidão de rostos curiosos, criando uma atmosfera de expectativa no ar.
— Bem, bem, bem, pessoal, tenho uma 'novidade' para todos vocês. Os ilustres Rick e Nick, meus priminhos pirralhos, decidiram graciosamente brindar-nos com sua presença mais uma vez.

O olhar de Vince se levantou ao ouvir aqueles nomes. Agora sentado sozinho em uma mesa, sentiu um arrepio percorrer pelo seu corpo, e direcionou a atenção para Ronnan.

— Sim, vocês ouviram direito, eles estão de volta à nossa amada escola. Vamos todos fingir que estamos emocionados com essa 'incrível' notícia e dar as boas-vindas a esses dois rapazes, porque, afinal de contas, eles decidiram nos honrar com sua presença.

Ronnan bateu palmas após sua fala sarcástica e riu do seu próprio deboche. Os irmãos Konded então adentraram o pátio.
A reação dos alunos foi mista.
Os rapazes do time de futebol gritaram em comemoração e foram de encontro aos gêmeos, os recebendo com abraços violentos.

Homens...

Agora, a outra metade da multidão de alunos não se mostraram tão contentes com aquilo.

Rick e Nick Konded eram duas pestes que aquela escola, graças à Vince Afton, conseguiu se livrar há pouco menos de dois anos.

O próprio Afton encontrava-se congelado em seu assento, sem saber como reagir a tal notícia. Sentia como se estivesse revisitando aquele dia. Aquele maldito dia cujo foi exposto da maneira mais cruel cujo poderia imaginar.

Era uma tarde ensolarada na aula de educação física. Os alunos estavam espalhados pelo campo da escola. Vince, após por sua roupa esportiva, pôs seus pertences sobre os pequenos armários presentes no canto inferior do campo. Primeiro deixou seu diário sobre a superfície metálica, e em seguida, o cobriu com sua blusa do dia, o escondendo.

Estava concentrado, focado em arrumar seus pertences. Acabou por não ouvir o chamado da professora, que, impaciente, se aproximou do loiro, levou o apito até a boca e o assoprou.
Afton deu um pulo, assustado. Sequer viu que, sem querer, destampou parte do seu caderno azul. Seu ouvido esquerdo passou a pulsar devido ao som agudo do apito. Ele levou a mão ao ouvido.

— Para a quadra, Afton! Último aviso.

— Perdão. — Murmurou.

Engoliu seco, respirou fundo e seguiu em direção ao campo, mantendo o olhar baixo, como sempre.
A sessão de tortura iria começar. Malditas aulas de educação física.

Nick e Rick Konded, chegaram ao campo correndo, tendo em vista que estavam atrasados para a aula. Foram em direção aos armários para pegar os pertences necessários.
Começaram a revirar seus respectivos armários, em busca de roupas esportivas.

À pedido de Miss Colby, que estava ocupada guiando a posição dos alunos no jogo, Ronnan saiu do campo, à procura da lista de chamada que Karen precisava.
Não obtive sucesso em achá-la, apesar procurar por toda a extensão da quadra.

Avistou seus primos vasculhando os armários e um instalo se fez em sua mente. A lista só poderia estar lá. (no final das contas, a maldita lista estava na sala dos professores. Karen a esqueceu lá)
Em passos apressados, Ronnan foi de encontro aos gêmeos.

— Ei, vocês viram a lista de chamada? A professora está pedindo.

Nick passou os olhos de forma rápida sobre a parte superior do armário, esticou o braço e pegou um caderno que estava parcialmente escondido.

— Deve ser isso aqui. — Abriu o caderno.

"Propriamente de Vince Afton. Não tocar!!!!".

Franziu o cenho.

Começou a folhear o caderno. À medida que fora avançando as folhas, uma série de emoções começaram a o inundar.

"Querido diário, hoje ele me bateu de novo. Eu não fiz nada, só estava assentado no mesmo lugar de sempre, mas ele cismou que eu estava no lugar dele. Ronnan desferiu tantos socos na boca do meu estômago que sinto dificuldade para respirar até agora. Está doendo demais."

Ele sentiu uma mistura de curiosidade, surpresa e intriga, pois estava descobrindo algo profundamente pessoal e íntimo de Vincent.

"Querido diário, mamãe me perguntou sobre o hematoma em meu ombro, ela cisma que é um chupão. Acho que fiquei trancado no closet por umas 6 horas; não foi tanto tempo quanto as outras vezes."

"Querido diário, estou cansado. Penso todos os dias em me atirar da janela do meu quarto. Mas isso deixaria Deus tão magoado, e não quero chateá-lo. Insistem para que eu seja grato, mas por que? Tenho que ser grato por apanhar e ser zombado todos os dias? Tenho minhas dúvidas à respeito."

"Querido diário, hoje eu não comi. Não consigo comer. Estou sempre sentindo essa sensação de sufocamento e agonia.
Sinto que se eu comer, irei vomitar, assim como das outras vezes. Apesar disso, me sinto faminto... Muito faminto. Sinto tanta fome que a minha visão se turva. Por que eu sou assim?! "

À medida que suas mãos percorriam as palavras escritas à mão no diário, ele pôde sentir a intensidade das emoções que Vince havia expressado ali.

"Querido diário, hoje Jason Nolan assentou-se ao meu lado na aula de informática. Ele é tão bonito! Talvez seja errado pensar assim, mas eu sinto tanta inveja de Mariah Sherwood. Ela também é tão bonita. Tem um cabelo cacheado tão lindo, uma pele retinta tão delicada e bem cuidada que refletia nas luzes... Eu queria ser como ela. Eu queria ser ela.
Ela e Jason namoram desde o fim do recesso do meio do ano. Eu sei que ele fuma e é envolvido com algumas coisas erradas, mas eu não consigo não achá-lo atraente.
Apesar disso, eu estou ciente da minha realidade. Ele não gosta de garotos e namora... Jamais olharia para mim como olha para ela. Além do mais, olha só para mim. Ninguém me olharia de uma forma positiva. Nunca."

Inicialmente, Um choque percorreu o corpo de Rick ao ler os sentimentos românticos de Vince em relação a Jason Nolan, especialmente porque isso era algo que Vince mantinha em segredo. Sentiu-se estranhamente poderoso. Essa informação é delicada e potencialmente explosiva.

— O que foi, Rick?

Ronnan perguntou, o cenho franzido.
Rick estava praticamente paralisado enquanto lia o diário.
Nick olhou para a cena. Pôs a mão sobre o ombro esquerdo de seu irmão.

— Rick?

— Rick?! — Ronnan chamou, impaciente. — Ah, quer saber? Me dá essa merda aqui. — Esticou os braços em direção ao caderno, o segurando com as duas mãos.

— Ei! Espera!

Exclamou, piscou os olhos, e apontou para o caderno.

— "Espera" é o caralho. Que palhaçada.
Ronnan suspirou, irritado.

Começou a ler as páginas. Ainda tinha uma expressão peculiar de irritação estampada em seu rosto.
Não durou muito, já que o conteúdo escrito por Vince rapidamente capturou sua atenção.

Primeiramente, ele arqueou ambas as sobrancelhas, em uma pontada de surpresa e diversão ao descobrir os sentimentos de Vince por Jason Nolan.

— Tipo assim, não é nenhuma surpresa ele ser viado, né. — Soltou uma risadinha maliciosa.

O fato de que Vince estava secretamente apaixonado justamente por Jason era uma revelação que Ronnan não esperava.
Enquanto lia o que fora escrito por Vince, Ronnan sentiu um misto de superioridade e satisfação. A vulnerabilidade de Vince, revelada no diário, aumentou a sensação de poder de Ronnan. Ele sabia que aquilo poderia ser usado para prejudicar Vince, e essa ideia o fazia saborear cada palavra escrita. Praticamente salivava enquanto lia.

À medida que Ronnan continuava a ler, ele sentiu um senso de diversão cruel. Chegou a gargalhar das palavras de Vince.

— Ele é tão esquisito que sequer consegue comer!

Os gêmeos não conseguiram se conter com o comentário de e passaram a trocar risadas.

— Patético, não é? — Rick tomou a palavra.

— Muita coisa!
Nick respondeu.

Rick assentou-se no gramado, apoiando as costas nas grades que envolviam todo o campo. Fez um sinal com a mão, pedindo para que seu primo e seu irmão o copiassem. Assim eles fizeram.


Enquanto analisava o caderno, um estalo se fez presente em sua mente, como se uma luz tivesse acendido. Olhou para frente, arqueou ambas as sobrancelhas novamente, agora tendo uma feição entusiasmada no rosto.

— Ei, ei... Acho que eu tive uma ideia!

— Qual? — Ronnan e Nick perguntaram em uníssono.

— Não teria graça alguma deixar todas essas informações guardadas com a gente, certo? — Os dois assentiram. — A gente deveria postar na página da escola.

A página de fofocas da "Viv High School" era uma presença onipresente na vida dos estudantes. Intitulada "ShadowViv", tinha uma aparência simples, com um fundo branco e uma interface de fácil navegação. No entanto, era o conteúdo da página que a tornava notória.
A página era organizada de maneira limpa e simples. O logotipo da escola foi modificado e aparecia no canto superior esquerdo, dando uma aparência oficial, apesar do conteúdo questionável. As postagens eram exibidas em ordem cronológica, com as mais recentes no topo, facilitando a leitura.

Para facilitar a busca por fofocas específicas, a página tinha tópicos e categorias bem definidos. Os alunos podiam escolher entre "Fofocas sobre Alunos", "Fofocas sobre Professores", "Eventos Escolares" e muito mais. Isso tornava mais fácil encontrar e contribuir com as fofocas do interesse de cada um.

Os alunos podiam postar fofocas anonimamente. Isso garantia que ninguém fosse responsabilizado por seus comentários, alimentando ainda mais o ambiente de fofocas.
Cada postagem permitia comentários e reações. Os alunos podiam expressar seu apoio ou desaprovação por meio de emojis e comentários, criando uma atmosfera de competição virtual. Uma grande festa sem regras.
Algumas postagens eram acompanhadas de imagens, memes ou até mesmo vídeos, tornando as fofocas ainda mais impactantes e difíceis de ignorar.

Os usuários podiam ativar notificações para receber atualizações instantâneas sempre que uma nova fofoca fosse postada. Isso garantia que nada passasse despercebido.
Os professores e diretores não tinham controle algum sobre a página, apesar de serem frequentemente mencionados em fofocas. Isso criava um ambiente onde os alunos podiam expressar livremente suas opiniões, fossem elas quais fossem.
A página já foi derrubada diversas vezes, mas quando percebiam, já estava no ar novamente. Era imbatível.

"ShadowViv" era um reflexo da cultura estudantil de "Viv High School", onde boatos, segredos e rivalidades alimentavam a curiosidade e o desejo de estar por dentro de tudo o que acontecia na escola. Era um lugar onde a fofoca reinava e onde a privacidade dos alunos frequentemente se desfazia diante da busca implacável por informações suculentas.

— Nossa! — Ronnan arregalou os olhos, e um sorriso tomou conta dos seus lábios. — Genial!! Como eu não pensei nisso?

— Oh meu Deus! — Exclamou Rick em uma gargalhada cortada ao meio, na intenção de abafá-la por puro reflexo. — Ok, vamos fazer isso! Usa o meu celular.

Retirou o objeto do bolso, e o jogou na direção de Ronnan, que o pegou com maestria.

— Já é. Ajeita o caderno aí.

Ronnan acessou a câmera do celular, Rick prontamente obedeceu o comando de seu primo e posicionou o caderno de uma forma que a luz não ficasse estourada na foto, levando em consideração o quão o sol estava estridente naquele dia.
Ronnan apontou em direção ao caderno.
Bastou apenas um clique e pronto.
Os garotos gargalharam em uma excitação e ansiedade antecipada.

— Posta, posta, posta!
Nick exclamou.

— Minha nossa; calma, Revotril. — Ronnan encarou seu primo por alguns instantes e entrou no site. Clicou na opção de fazer um post. — Tipo, não me choca ele ser viado, mas pelo menos agora temos algo que comprova isso.

— Não esquece de selecionar a opção anônima. Essa conta é minha.

— Shh. Tá, tá, tá. — Ronnan respondeu, mas sequer ouviu o que lhe foi dito, ignorando completamente o pedido de seu primo.

Selecionou a foto recém tirada e logo fez o post.
Conseguiu ouvir alguns celulares próximos vibrar, e outros emitiram um som padrão de notificação. Como um passe de mágica, agora todos sabiam que Vince é gay.

Vincent, por sua vez, analisava, do banco de reservas, o jogo que se desenrolava no campo. Richard Jones estava ao seu lado e também assistia a partida. Jones ouviu seu celular vibrar.
O rapaz de pele retinta, olhos castanhos e cabelos raspados retirou seu celular do bolso e o ligou.
Piscou aí visualizar uma notificação de 'ShadowViv' e umedeceu os lábios com a língua, ansioso pelo que viria dali. Clicou na notificação, e prontamente leu do que se tratava.

Passou os olhos sobre o post e desviou o olhar para Vince, que estava ao seu lado, assentado, ainda focado no jogo. Intercalou o olhar entre a postagem e o garoto, e acabou por soltar uma risadinha.

Vince, no entanto, olhou para o maior com a feição confusa. À princípio, deduziu que se tratava de mais uma zoação, porém, se deu conta de que as demais pessoas que estavam no local o encaravam da mesma forma.
Alguns cochichavam, outros apenas riam, o que colaborou para que Afton sentisse seu nervosismo aflorar no seu interior.

— Ei! — Jason Nolan Exclamou, apontando para o loiro enquanto se aproximava. Nolan estava no campo quando viu o post; consequentemente, leu o que Vincent escreveu a respeito de si.

A cena chamou a atenção dos alunos que estavam por perto. Os olhos curiosos estavam agora sobre Jason e Vince.


Vince o olhou assustado, sem entender o que alimentava a raiva eminente nos olhos de Jason, e sem saber o que esperar. Sentiu seu coração se acelerar e um medo ansioso se formar dentro de si, de modo que seus batimentos aumentaram.

Jason parecia estar enfurecido, encharcado de ódio. Realmente estava.

— Oi...

Sequer conseguiu terminar a fala, pois, pela gola da camisa, Nolan ergueu Afton do chão, fazendo com que ficasse da sua altura. Vince arregalou os olhos, encarando Jason. Sentiu um arrepio percorrer por sua espinha, sentindo que poderia desmaiar ali mesmo.

— Pode apagar aquela merda que você postou no ShadowViv, tá me ouvindo?! Eu sei que foi você, seu viadinho de merda! Eu sou homem, porra!

Vince sentiu sua respiração pesar e o coração errar uma batida, encarando o maior de forma amedrontada e desesperada.
Não entendia o porquê da fúria de Jason, não o fez mal algum.

— E-Eu... Não sei...

— CALA A BOCA!

Ele arremessou o garoto no chão com força, fazendo com que o mesmo batesse as costas de forma abrupta no chão.
Vince soltou um gemido de dor, fechando os olhos com força, praticamente se desmontando no gramado da escola.

Seu choro se iniciou quase que imediatamente. Ouvir tais palavras e sofrer tais ações de alguém cujo tinha um sentimento romântico, algo tão genuíno e especial. Doía quase tanto quanto suas costas naquele momento; e sequer sabia o porquê de estar sofrendo tal atentado.
Apenas teve noção ampla do que realmente acontecera horas mais tarde, quando, literalmente, a cidade inteira estava ciente de sua sexualidade.

Ele sentiu como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés. Uma mistura de vergonha, raiva e tristeza o envolveu. Sentiu-se exposto, vulnerável e envergonhado. Os comentários maldosos naquela página de fofocas parecia uma faca perfurando sua alma. O peso do julgamento e da humilhação da escola inteira pesou sobre seus ombros, fazendo-o questionar sua própria existência ali. Cada olhar, cada riso e cada sussurro dos outros alunos pareciam atingi-lo como uma ferida aberta.

O loiro estava emocionalmente devastado, e a sensação de isolamento era avassaladora. Ele se perguntava como poderia enfrentar mais um dia naquela escola, onde todos agora conheciam seus segredos mais profundos e sombrios.
E, por fim, ainda teria que suportar todo aquele amontoado de mágoa, chateação e frustração completamente sozinho, tendo como companhia apenas uma caricatura medonha de Lúcifer, que estava posto nas paredes do closet, cujo foi aprisionado por sua própria mãe por quase três dias seguidos. Sem água, comida. Nada; apenas ele e seus pensamentos.

[...]