Still Loving You More
3 Chantagem
Notas iniciais

Por mais que tente, Arthur não consegue tirar os olhos do bebê no colo de Maria Flor. Seu filho... Seu filho... Não há como negar tal fato, pois, além do menino ter os seus olhos, todas as contas batem. Em questão de segundos, sua mente fez todos os cálculos e, o fato do rosto de Maria Flor ter ficado branco como papel, só vem para dar mais veracidade a sua certeza.
Há oito meses é pai e, nem ao menos sabia disso! Pior, nas últimas horas, sem nem ao menos desconfiar, veio criticando a si mesmo. Está certo que ele não fazia ideia de que o filho poderia ser dele, mas, mesmo assim...
Disfarçadamente Maria Flor olha para Arthur, e, consegue ver o choque no rosto do homem, ante a descoberta que ele acaba de fazer. Mas, ela não se importa. Até hoje, conseguiu se virar para criar seu filho e, não é porque ele descobriu que é pai que precisa fingir que se importa com ela ou seu bebê, pois ela sabe a verdade, Arthur não se importa! Tudo o que ele queria dela era uma noite de sexo e, aproveitou-se de sua inocência para conseguir o que queria, desaparecendo de sua vida no dia seguinte.
Está pronta para deixar o hospital e voltar para casa. Depois encontrará uma maneira de pegar Arthur pela consulta de seu filho, afinal, mesmo que ele seja o pai de Sadrak, ela não quer nada dele.
Dá alguns passos, em direção a saída do hospital, quando sente fortes mãos masculinas a segurando, e, impedindo-a de avançar.
― Que pensa que está fazendo? – esbraveja Arthur, esquecendo-se, por um momento, que está em um hospital.
― Indo embora. – Maria Flor responde, com a maior calma do mundo – Acho que não há mais nada para fazer aqui.
― Você não acha mesmo que vai sair por aí, sabe-se lá para onde, levando o meu filho, não é?
― Seu filho? – Maria Flor o encara, deixando vir à tona todo o ressentimento que até hoje ela guardou em seu coração – Engraçado que, desde a noite em que você me enganou e me embebedou para me levar para a cama, nunca se preocupou comigo, ou com o fato de que eu pudesse ter engravidado! Desde que eu descobri minha gravidez, tenho lutado sozinha por meu filho, ele não tem pai! A certidão de nascimento deixa isso bem claro! E nem ele e nem eu precisamos de você!
― Deixa de ser orgulhosa, menina! – Arthur volta a falar, cada vez mais irritado – Você sabe tão bem que, não fosse por mim, você ainda estaria nas filas dos hospitais públicos tentando atendimento para esta criança.
O homem está prestes a continuar, mas, percebe olhares em sua direção e, vê a recepcionista pegando um interfone, e, ele tem quase certeza de que é para chamar os seguranças, afinal, ele está discutindo dentro de um ambiente hospitalar.
Sem perder mais tempo, e, ainda segurando o braço de Maria Flor, a arrasta para fora do hospital e, os dois vão direto para o estacionamento. Sem qualquer delicadeza, o homem abre a porta do passageiro e, praticamente empurra Maria Flor para dentro, e, em seguida, ele fecha a porta do passageiro, para então dar a volta e entrar no lugar do motorista.
― Aqui poderemos conversar com calma. – Arthur finalmente diz.
― Acho que não temos nada para conversar! – rebate Maria Flor, claramente irritada – Eu tenho é que ir para a minha casa! E, só porque você é rico não pode me obrigar a entrar em seu carro!
― Esqueça a maldita da minha posição social e me escute por um momento!
Ante as palavras de Arthur, Maria Flor nada diz, e, apenas olha para o filho em seu colo, que brinca com uma mecha de seu cabelo. E, vendo o silêncio da jovem, Arthur continua:
― Você não pretendia mesmo me contar que eu sou o pai desta criança?
― Em primeiro lugar não é “esta criança”, o nome dele é Heike Sadrak. E, em segundo lugar, me parece bem obvio que eu não lhe contaria, pois você nunca se importou com o fato de que pudesse ter me engravidado quando me enganou e me deixou em seguida!
― Como eu ia saber que você engravidaria? Pensei que usasse anticoncepcional, a grande maioria das mulheres usam isto hoje em dia.
― Eu era virgem, esqueceu? Para que eu precisaria de anticoncepcional se nem namorado eu tinha?
― De qualquer forma, isto não vem ao caso! Precisamos discutir o que nós dois vamos fazer a partir de agora!
― O que você quer dizer com isso?
― Como o que eu quero dizer com isso? Acabo de descobrir que tenho um filho! Isto muda tudo!
― Não muda nada! Você vai seguir a sua vida como se nunca tivesse me encontrado e eu vou seguir com a minha! Você vai me dar o endereço do seu trabalho para que eu possa pagar por esta consulta, não poderei pagar o valor todo de uma vez, mas creio que em dois ou três meses eu consiga, e então, cada um seguirá o seu caminho!
Arthur simplesmente não consegue acreditar nas palavras que acaba de ouvir. Será que Maria Flor pensa mesmo que ele será capaz de se afastar dela, principalmente agora que acaba de descobrir que é o pai desta criança que ela carrega em seus braços?
― Esqueça. – a voz de Arthur soa ligeiramente irritada – Isto está totalmente fora de cogitação.
― O que você quer dizer com isso?
― O que quero dizer com isso. – Arthur começa a falar bem lentamente, como se estivesse explicando algo a uma criança – É que eu simplesmente não irei desaparecer de sua vida, agora que sei que este menino é meu filho!
― Em primeiro lugar ele não é “este menino”, o nome dele é Heike Sadrak. E em segundo, acho que você não se importa com ele e só está fazendo isto para não ter nenhuma dor de consciência no futuro. Mas não se preocupe, eu e meu filho não precisamos de você, pode ficar tranquilo.
― Você por um acaso prestou atenção no que eu disse? – questiona Arthur, usando de todas as suas forças para conter a sua irritação.
― Cada palavra. – responde Maria Flor.
― Pois definitivamente não parece.
― Parece que nós dois não vamos chegar a um acordo, não é mesmo?
― Até que enfim você falou algo sensato.
Maria Flor não quer mais discutir e, está prestes a abrir a porta do passageiro e sair do carro quando percebe que Arthur travou a porta e, no instante seguinte, ele já está dando partida no carro.
― Que pensa que está fazendo? – questiona Maria Flor.
― Ligando o carro. – Arthur responde, com uma fria calma – Parece óbvio, não?
― Isto eu notei! Quero saber porque travou a porta antes que eu pudesse descer!
― Pensei que você tivesse entendido, Maria Flor, que não vai levar o meu filho para longe de mim!
― Mas eu preciso ir para a minha casa!
― Não vai. Ao menos é claro, que deixe a criança, e, a julgar pelo que vi até agora em você, isto é algo que está fora de questão.
― Ainda bem que você compreende que eu jamais deixaria o meu filho.
― Isto para mim está tão claro como água.
Sem responder Arthur, Maria Flor olha pelo vidro do carro e, percebe que eles já deixaram o hospital e estão no trânsito.
― Para onde estamos indo? – Maria Flor se vê perguntando.
― Para minha casa. – Arthur responde, com uma grande calma – Para onde mais iríamos?
― Pensei que você fosse me deixar em algum ponto acessível para que eu possa voltar para a “minha” casa.
― E levar o meu filho com você? Sem chance, querida!
― Ele não é seu filho! Quer dizer, você é apenas o progenitor dele, nada mais! Não tem que assumir nenhuma responsabilidade. E, além do mais, para todos os fins Sadrak não tem pai, a certidão de nascimento dele deixa isso bem claro.
― É mesmo? E, quanto tempo acha que meus advogados entrariam na justiça com um pedido de DNA? Em dois tempos, provo que este menino é meu filho e o arranco de seus braços!
― Não pode fazer isso! – Maria Flor sente as lágrimas vindo em seus olhos, mas se esforça para não derramá-la.
― Posso, e, garanto a você que o faço. Não vou deixar que leve o meu filho para onde quer que seja o par de eros que você mora. Pelo menos, não quando eu tenho condições de dar todo o conforto que ele merece.
― Dinheiro não compra amor! – dispara Maria Flor, sem conseguir mais conter as suas lágrimas e deixando que elas caiam livremente por sua face – Você não ama o Sadrak! Acabou de conhecê-lo! Ao contrário de mim... Eu amo meu filho mais do que tudo em minha vida! O amo desde o momento em que soube que ele estava sendo gerado em meu ventre!
― Pois se o ama tanto quanto diz, vai aceitar ir para a minha casa sem reclamar.
― Mas...
― Escute, Maria Flor, não sei de onde você tirou a ideia de que eu estou lhe dando a chance de negociar, pois, não estou. Ao contrário, estou lhe dando uma escolha, ou você vem comigo para a minha casa e, terá em seus braços o seu filho. Ou, se escolher voltar para a sua casa, pode ter certeza de que em questão de dias meus advogados irão bater em sua porta e, não adianta você tentar se esconder, eu vou encontrá-la nem que seja no fim do mundo.
― Não pode estar falando sério... – Maia Flor aperta o filho contra os seus braços com todas as suas forças.
― Estou falando muito sério, querida.
― Não pode me forçar a ir para a sua casa!
― Faça sua escolha.
― Isto é chantagem!
― Chame do que quiser! Mas, como disse, não vou deixar que meu filho seja criado em meio à pobreza só porque você é orgulhosa. Posso dar a ele tudo e, é exatamente isso que eu pretendo fazer!
― Como eu já disse, pode dar a ele tudo, menos amor. E uma criança não precisa de dinheiro, mas sim de amor e carinho. E isto o meu filho tem! Dou a ele todo o amor do mundo!
― E vai continuar dando, só que em minha casa. Não há negociação quanto a isso!
― Não posso levar o Sadrak para sua casa! Não sem as coisas dele! Duvido que você saiba do que um bebê necessita!
― Posso providenciar o que quer que seja. Quanto a isto, não se preocupe.
― Só que ele está acostumado as coisinhas dele. E além do mais, eu também tenho que buscar minhas coisas. Se vai mesmo me obrigar a ir para sua maldita casa, precisarei passar em minha casa para pegar, pelo menos, o que for primeira necessidade.
Ante as palavras de Maria Flor, Arthur reflete um pouco, e, percebe que não há mal algum em fazer o que ela quer. E, além do mais, em um certo ponto ela está certa, pois, em casa, não há nada para bebês e, até que ele providencie isso, a criança realmente precisará de suas coisas, além da própria Maria Flor.
― Tudo bem. Diga-se onde você mora.
― Na Penha.
Ao ouvir a resposta da jovem, Arthur a encara de forma perplexa, sem realmente acreditar no que está ouvindo. Realmente, tomara a melhor decisão ao resolver tirar o menino da pobreza, pois simplesmente não consegue conceber a ideia de seu filho morando em uma favela.
Para o carro em um farol vermelho e, por um momento, e, olha para o menino, nos braços da mãe, e, um misto de sentimentos estranhos toma conta de seu coração, pois, mesmo que veja a criança ali, bem diante de seus olhos, sente que a ficha ainda não caiu, pois, de um minuto para o outro, ele descobre que tem um filho.
― Por que está olhando para o Sadrak? – a voz de Maria Flor tira o homem de seus pensamentos.
― Curiosidade. – Arthur dá de ombros, ao mesmo tempo em que o farol fica verde e ele volta a dar partida no carro, pegando a via que dá acesso à Penha – Vai ver quero apreciar um pouco o filho que eu acabo de descobrir.
Maria Flor não gosta nem um pouco das palavras de Arthur e, permanece calada, pois ela não sabe como agir, muito menos o que ela pode vir a falar em um momento como este. Está completamente atordoada, sem saber direito o que pensar e, muito menos como agir.
Perdida em seus próprios pensamentos, ela nem percebe o trajeto e, quando se dá conta, os dois já estão no bairro da Penha.
― Pode me dizer qual é a sua rua? – a voz de Arthur tira Maria de seus pensamentos.
― O que?! – Maria Flor parece completamente confusa.
― Acorda, menina! – a voz do homem soa um pouco irritada – Preciso do seu endereço para que possamos chegar até a sua casa.
Sem perder tempo, Maria Flor fornece seu endereço e, não demoram muito, estão em frente a uma casa bem humilde, a qual imediatamente chama a atenção de Arthur.
― É aqui? – ele questiona.
― Sim. – responde Maria Flor, dando de ombros.
― Me parece uma casa bem pequena.
― Saiba que nem todo mundo tem dinheiro para uma casa maior.
E, após dizer estas palavras, a jovem abre a porta do passageiro e, deixa o carro, sendo seguida de perto por Arthur que, não tira os olhos do bebê em seus braços. De forma ágil, Maria Flor tira a chave de casa de sua bolsa e abre a porta, e, entra em seguida, ainda sendo seguida por Arthur.
Assim que ela ascende a luz, os orbes azuis de Arthur começam a esquadrinhar todo o ambiente e, o que ele nota, é que a pobreza ali é muito maior do que ele inicialmente imaginara. A casa tem apenas um cômodo, o telhado não é forrado, e, as telhas deixam o lugar abafado demais. As paredes brancas estão descascadas e, várias das cerâmicas do chão estão quebradas. E, no pequeno espaço do cômodo há uma geladeira, um fogão, uma cama e um berço, além de uma pequena cômoda.
― Me dê o menino e arrume logo as suas coisas. Quanto menos tempo nós passarmos neste lugar, melhor.
― “Este lugar”, é a minha casa. E “este menino” tem nome, creio já ter lhe dito o nome dele. E, se quer mesmo ser o pai dele, seria bom se começasse a chama-lo pelo nome.
― Não me importa que este lugar seja sua casa. Agora que vi onde vive, tenho ainda mais certeza de que meu filho não pode ser criado aqui, em meio a toda esta pobreza.
― Sei que sou pobre, mas sou honrada! E, caso você não saiba, dinheiro não é tudo nesta vida.
― Dinheiro pode até não ser tudo nesta vida, mas, pode ter certeza de que comprará o melhor para meu filho. Agora, me dê logo o meni... Sadrak. – se força a dizer este nome horrendo – Para que você possa arrumar as suas coisas o mais rápido possível.
― Tem certeza de que você não vai fugir com ele no momento em que eu o entregar?
― E eu lá tenho cara de sequestrador.
― De sequestrador não, mas de chantagista...
― Depressa, Maria Flor, você está acabando com a minha paciência.
Maria Flor sente a sua espinha gelar ante as palavras de Arthur e, sem perder tempo, entrega o seu filho a ele. E, como Arthur é um completo estranho para Sadrak, o menino imediatamente começa a chorar e a dar os bracinhos para a sua mãe, enquanto Arthur tenta, em vão, acalmar a criança, balançando-a de forma desajeitada em seus braços.
― Por que ele não para de chorar? – Arthur se vê perguntando.
― Porque você é um completo estranho para ele. – responde Maria Flor, dando de ombros ao mesmo tempo em que abre uma das gavetas da cômoda – É natural que ele estranhe.
Sadrak continua a chorar e, isto faz com que Maria Flor se apresse. Sem pensar muito e, agindo de forma quase que automática, ela pega algumas peças de roupas dela e de seu filho, fraldas, lenços e todas as primeiras necessidades de Sadrak. As coisas ela coloca na bolsa do bebê e as suas, em uma sacola de supermercado.
E, sem perder mais tempo, Maria Flor volta a pegar o filho em seus braços e, no momento em que está nos braços da mãe, o bebê abraça o pescoço dela e, deita a cabecinha no ombro da jovem.
― Pronto, Sadrak, a mamãe está aqui.
Pouco a pouco, Maria Flor vai embalando seu filho, com todo o carinho do mundo, cantando para ele cantigas de ninar, e, pouco a pouco, ele vai adormecendo.
― Você leva mesmo jeito com ele. – comenta Arthur, como quem não quer nada.
― É meu filho, é natural que eu saiba como acalmá-lo, o conheço desde que ele estava sendo gerado em meu ventre.
Arthur não deixa de notar como cada palavra que Maria Flor diz quando se trata do filho é repleta de amor e, isto, de certa forma, o surpreende.
― Já está pronta? – pergunta Arthur, tentando expulsar estes pensamentos de sua mente.
― Já. – Maria Flor responde, olhando de cara feia para o seu interlocutor – Vai mesmo me obrigar a isto?
― Não estou lhe obrigando, já disse, lhe dei uma escolha. Pode ficar, mas o menino vai comigo! Não deixarei meu filho em um lugar como este!
Maria Flor sente a fúria tomar conta de si pela forma como Arthur olha para sua casa, mas, a verdade é que está com medo deste homem, com medo de que ele lhe tire seu filho e, por isso mesmo, é melhor que, por enquanto, fique quieta.
― Muito bem, Arthur, estou pronta. Podemos ir.
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