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4 Longe de Seu Lar
Notas iniciais

Dentro do carro de Arthur, Maria Flor olha pela janela o reflexo da lua cheia nas águas da praia do Leblon. E, em seu colo, o pequeno Heike Sadrak brinca distraidamente com seu ursinho.
“Pelo menos alguém está feliz com toda esta situação absurda.”
Pensa Maria Flor, acariciando os cachos ruivos de seu filho.
Ela evita olhar para Arthur que, dirige de forma impassível pelo Leblon e, só para não ter que olhar para ele, se concentrou na paisagem, e, isto só serviu para ver a grande diferença entre o seu mundo e o dele, além de aumentar o medo que toma conta si, de que Arthur use o seu dinheiro para arrancar o seu filhinho de seus braços.
Percebe que Arthur está entrando no estacionamento de um grande e elegante prédio em frente a orla, e, não deixa de se impressionar, pois, sempre soube que Arthur era rico, mas não imaginara que ele tivesse um apartamento em frente a uma das praias mais famosas da cidade do Rio de Janeiro.
Em meio aos seus devaneios, se dá conta de que o homem no banco do motorista acaba de estacionar o carro em sua vaga da garagem e, faz sinal para que ela desça.
― Não vai descer, Maria Flor? – pergunta Arthur, abrindo a porta do passageiro para ela.
Maria Flor nada responde e, apenas desce do carro, com o filho nos braços e carregando as poucas coisas que ela trouxera. Arthur faz menção de carregar a bolsa de seu filho, mas, ela não deixa, afinal, nunca precisou dele e não é agora que ela vai precisar.
Em silêncio, os dois seguem para o elevador social e, até a cobertura, no trigésimo quinto andar, a jovem não diz uma única palavra, o que incomoda profundamente Arthur, que não gosta nem um pouco do silêncio da jovem.
― Até quando pretende ficar calada? – pergunta Arthur, ao mesmo tempo em que tira a chave da porta do bolso de sua calça – Você não disse uma única palavra desde que saímos de sua casa.
― Acontece que eu não tenho vontade nenhuma de conversar com você. – responde Maria Flor, ainda de cara amarrada.
― Não consigo entender o porquê. – Arthur dá de ombros – Você deveria me agradecer por tirá-la e ao meu filho daquela pocilga que você chama de casa!
― Não fale assim da minha casa! – exclama Maria Flor, voltando a deixar a raiva tomar conta de si – Pode ser humilde, mas é a minha casa e onde eu me sinto bem!
― Bom, a partir de agora terá de aprender a se sentir bem aqui também, pois esta será a sua nova casa, a não ser é claro que queira se separar desta criança que tem em seus braços.
― Já disse que o nome dele é Heike Sadrak! E, se continuar a tratá-lo como “esta criança”, você jamais será um bom pai para ele!
Arthur nada responde e, termina de abrir a porta, fazendo sinal para que Maria Flor entre e, assim ela o faz. E, assim que ela coloca os seus pés no hall de entrada, fica completamente impressionada com a luxuosidade do local.
O hall dá acesso a sala de visitas, e, o papel de parede em tons claros faz com que o lugar pareça agradável. Nas paredes, obras de arte que, mesmo que ela não entenda muito sobre isto, sabe que custaram uma grande fortuna, assim como as tapeçarias que estão no chão.
A jovem está tão impressionada que, só percebe que está estática no lugar quando Arthur praticamente a empurra, para que ele possa entrar em casa, fechando a porta atrás de si.
― Vai ficar aí parada ou vai vir conhecer o resto da casa? – pergunta Arthur, de forma mais do que impaciente.
Sem dizer nada, Maria Flor começa a segui-lo, e, não consegue deixar de se impressionar com o luxo que ela vê em toda a casa, deixando bem claro o quanto este homem esbanja dinheiro com decoração e móveis caros. Passam pela sala de jantar, sala de visitas, sala de televisão, e seguem para a cozinha e área de serviço, para só então ele levá-la até o elegante quarto de hóspedes.
― Este é o quarto de hóspedes. – fala Arthur – Será seu a partir de agora e, o meu é ao lado. Como não há banheiro no quarto, terá de usar o de visitas, espero que não se importe.
― Quer dizer que agora você está preocupado com o meu bem estar? – a voz de Maria Flor é de puro sarcasmo.
― E por que não estaria? Você é minha hóspede.
― Não sou não! Se levarmos em conta que você me forçou a estar neste lugar!
― Nossa, como você se apega a pequenos detalhes. É minha hóspede e pronto! O resto não importa! Agora, acho melhor você tomar um banho, junto com o menino, pois o jantar será servido dentro de uma hora.
Sentindo-se completamente irritada, Maria Flor vira as costas e entra no quarto, fechando a porta na cara de Arthur e, só não bateu a porta com tudo para não assustar o seu filho, que, como toda criança, olha com curiosidade para todo aquele ambiente desconhecido.
Para Maria Flor, o quarto de hóspedes é simplesmente enorme, muito maior do que sua pequena casa e, isto faz com que ela se sinta um peixe fora d’água, pois este não é o seu mundo e, daria tudo para poder estar de volta à sua casa.
Olha para os quadros na janela, a grande cama king size no centro do quarto, dois criados mudos de madeira pura, combinando com a madeira da cama, e, uma cômoda, também de madeira. Na cama, uma colcha de seda branca.
Insegura, Maria Flor caminha até a cama e, senta Sadrak nela, para então colocar a bolsa de seu filho ao lado dele.
― Duvido que o Arthur tenha algo parecido com uma banheira para que eu possa lhe dar um banho, filhinho. – Maria Flor sorri para seu filho, que nem ao menos presta atenção na figura da mãe – É, pelo menos parece que você está se divertindo.
O menino presenteia a mãe com um sorriso, enquanto continua a brincar com seu ursinho. Maria Flor coloca a mão em sua testa e, percebe que ele está sem febre, o que a deixa um pouco aliviada. E, como Arthur passou em uma farmácia e comprou todos os remédios que o médico receitou é, de certa forma, uma garantia de que seu bebê irá se recuperar.
Mas, no momento, não é isso o que a preocupa e sim o fato de que está neste lugar e, não sabe o que Arthur pode fazer para tentar lhe tirar seu filho. A única coisa que sabe é que, de alguma forma, terá de impedir que isto aconteça.
Sabe que é uma moça pobre e humilde e que, nem se trabalhasse a sua vida inteira conseguiria ter nem a metade do patrimônio de Arthur e, diante de um juiz, isto conta muito. Mas, mesmo assim, não vai desistir de seu bebê sem lutar. Ao contrário do prepotente do Arthur, ela ama Sadrak... O amou desde o início... Desde o momento em que soube que ele estava sendo gerado em seu ventre... E por ele, por seu amado filho, é que ela enfrentou o pai e os preconceitos das pessoas de um povoado do interior, tendo que deixar sua terra natal e vir para uma cidade desconhecida, tudo isto para dar ao filho a chance de viver.
E onde estava Arthur enquanto isso? No conforto que seu maldito dinheiro pode comprar, sem nem imaginar o estrago que ele fez em sua vida. E agora, ele acha que pode chegar, posar de “pai” e achar que tem algum direito sobre Sadrak, como se ser pai fosse apenas dar a uma criança os confortos que o dinheiro pode comprar.
E, o mais irônico, é que ele parece não fazer ideia disso, pois, no maldito mundo em que ele vive, é o dinheiro que manda e, quanto mais se tem, mais as pessoas pobres, como ela, não passam de lixo, e a forma como Arthur olhou para sua casa deixou isso bem claro, pois ela viu o asco em sua face nos poucos minutos em que permaneceram em sua casa, seu lar...
E, por mais luxuoso que seja este lugar a verdade é que ela não deseja estar aqui... Daria tudo para estar em sua casa, preparando o jantar para ela e Sadrak e, após comerem, ligarem a televisão para assistir Papati e Patatá, como seu filho tanto gosta, até ele ser tomado pelo sono e ela deitá-lo no berço, para só então ir arrumar a cozinha, enquanto escuta um pouco de música.
Uma rotina simples, mas é a sua rotina e, ela não a troca por nada no mundo.
Mas, infelizmente, a sua rotina fora roubada por um homem cruel, que não se importa nem um pouco com os seus sentimentos, e, no momento, não há nada que ela possa fazer com relação a isto.
Está tão distraída com seus pensamentos que, nem ao menos nota algumas batidas na porta e, quando dá por si, Arthur já entrou no quarto e, está bem ao seu lado.
― Qual é, além de chantagista é mal educado? Não sabe bater na porta? – Maria Flor simplesmente não consegue conter o tom de irritação em sua voz.
― Tome cuidado com o que fala, menina. Eu bati na porta, você é quem não escutou. – ele olha atentamente para o menino antes de continuar – Tanto tempo e você ainda não deu banho no menino?
― Como eu vou dar banho em um bebê se não há uma banheira adequada em seu banheiro? – ataca Maria Flor – Bem se vê que você não entende nada de crianças.
― Se é de uma banheira que você precisa, pode dar banho nele na banheira de minha suíte. Amanhã vamos sair e comprar tudo o que ele precisa. Mas ande depressa, pois eu não quero atrasar o jantar.
Sem dizer mais nada, Maria Flor tira uma toalha, sabão e o shampoo de seu filho de sua bolsa, além de uma muda de roupas e, ao lado de Arthur, seguem para o quarto dele, onde vão direto para o banheiro da suíte.
De forma proposital, Maria Flor tenta não prestar atenção aos detalhes do quarto de Arthur, e, por isso mesmo, ela apressa os passos em direção ao gigantesco banheiro e, ali, ela simplesmente não consegue ignorar o local, principalmente por conta da grande banheira, muito mais bonita do que as das novelas que ela costuma assistir. E, pelo tamanho dela, será complicado banhar o seu filho, mas, é melhor do que nada.
― Ei, será que você pode encher a banheira enquanto eu tiro a roupinha dele? – pede Maria Flor, sem encarar o pai de seu filho.
― Sem problemas. – responde Arthur, dando de ombros.
E, enquanto Maria Flor tira as roupinhas e a fralda de Sadrak, Arthur começa a encher a banheira e, com todo o cuidado do mundo, Maria Flor coloca o seu pequeno ali, a fim de começar a banhá-lo. Mas, a tarefa não se mostra nada fácil, com Sadrak, animado por estar em uma banheira tão grande, começa a bater na água, começando a molhar Maria Flor e Arthur que, está bem ao seu lado.
O homem está prestes a berrar um impropério, pois o menino molhou toda a sua camisa de seda italiana, mas, ao ver um sorriso tão inocente naquele rostinho tão pequeno, algo o detém.
Intrigado, continua a observar aquela cena, inédita para ele. Maria Flor tendo dificuldade para dar banho na criança em uma banheira tão grande, e o garotinho continuando a bater as mãozinhas na água, começando a gargalhar de felicidade, e, sem que ao menos se dê conta, Arthur começa a sorrir.
Com uma dificuldade tremenda, Maria Flor consegue terminar de dar banho em seu filho e, no momento em que tira Sadrak da banheira, ele começa a chorar.
― Calma, Sadrak. – Maria Flor fala com carinho a seu filho – A mamãe sabe que você gostou de brincar nesta banheira grande, mas agora é hora de sair do banho!
Pouco a pouco, o bebê começa a se acalmar e, Maria Flor o leva para o quarto de hóspedes, sem se incomodar em olhar se está sendo seguida por Arthur ou não. No quarto, ela troca seu filho, penteia os cachinhos ruivos dele, e, dá o vidro de perfume fechado para ele brincar enquanto executa todas estas tarefas.
― Você realmente tem prática em cuidar dele. – fala Arthur, chamando a atenção de Maria Flor.
― Sou mãe. – Maria Flor responde, de forma indiferente – O que você esperava?
― Bom, se quer saber, a maioria das mulheres que conheço contratam babás para seus filhos. Eu até mesmo pensei em...
― Nem pense em terminar esta frase! Sei o que você vai dizer e isto está totalmente fora de questão! Eu não preciso de uma babá para o meu filho! Sempre cuidei muito bem dele e agora não será diferente!
Arthur se surpreende com a ferocidade contidas nas palavras de Maria Flor, pois, não esperava uma reação dessas, só porque ele cogitou a hipótese de contratar uma babá. Mas, tanto faz, afinal, quem irá ter trabalho com o menino é ela, de toda forma.
― Está na hora do jantar. – Arthur volta a falar.
Maria Flor tira o perfume das mãos de seu filho e o pega no colo, para então seguir Arthur até a sala de jantar. Imediatamente, o homem puxa uma cadeira para que Maria Flor se sente e, ainda com o filho no colo, ela assim o faz.
Arthur segue até a cozinha e, volta com uma travessa de sopa.
― Como não sabia o que o menino come, achei melhor fazer uma sopa.
― Você fez a sopa? – Maria Flor arqueia a sombrancelha.
― Minha empregada não trabalha em tempo integral, por isso mesmo é que eu costumo cozinhar a noite. Não sou nenhum chef, mas acho que dá para quebrar o galho.
― Compreendo.
― O menino toma sopa, não é?
― Quando vai aprender a chama-lo pelo nome?
― Talvez quando eu me acostumar a um nome tão estrambólico. – Arthur dá de ombros.
― Não fale assim do nome dele!
― Vamos comer, está bem? Antes que a sopa esfrie e eu detesto ter que comer sopa requentada.
Maria Flor nada mais diz e, serve-se um pouco de sopa, começando a dar para seu filho. Por um longo momento, Arthur apenas a observa e, após vários minutos, percebe que Maria Flor não comeu, e, apenas alimentou o menino, que, ao contrário do que ele imaginara, não deu trabalho nenhum.
― Você não vai comer, Maria Flor? – pergunta Arthur, como quem não quer nada.
― O que?! – Maria Flor devolve a pergunta do homem, confusa, pois estava tão entretida dando o jantar de seu filho que, por um pequeno momento, esqueceu-se completamente da presença de Arthur.
― Perguntei se você não vai comer. Reparei que você está concentrada no me... No Sadrak, e ainda não comeu.
― Não sei no que isto pode te interessar, mas, eu só costumo jantar depois que dou comida para o Sadrak.
― Mesmo que a comida já esteja fria?
― Sim, mesmo que a comida já esteja fria, em minha vida, o bem estar do meu filho vai vir sempre em primeiro lugar.
― Você é uma mulher bem estranha, sabia?
― Para você, colocar o bem estar do filho na frente do seu é ser estranha?
― Você é a primeira que eu conheço a fazer uma coisa dessas, só isso.
Dizendo isto, Arthur pega o prato vazio de Maria Flor e, o enche de sopa, levantando-se em seguida.
― O que vai fazer? – pergunta Maria Flor, sem esconder o tom de curiosidade e sua voz.
― Esquentar no micro-ondas para você. Não existe nada pior do que sopa fria.
― Obrigada.
― Não precisa agradecer, afinal de contas você e minha hóspede e, por isso mesmo, quero que se sinta bem em minha casa.
Arthur coloca o prato no micro-ondas e o liga, esperando alguns minutos e, quando a sopa já está quente, coloca-o na mesa.
― Deixa que eu seguro ele enquanto você come.
― Já estou acostumada a comer com ele no colo.
― Eu imagino. Mas, mesmo assim, quero segurar o menino.
― Ele não está acostumado com você.
― E se eu não começar a ter contato com ele, nunca irá se acostumar. Anda logo, Maria Flor, deixa eu ficar com ele enquanto você janta.
Com um dar de ombros, Maria Flor entrega Sadrak para o pai e, assim que vai parar no colo desajeitado de Arthur, o menino começa a chorar, estendendo os bracinhos para a mãe dele.
Mas, desta vez, Arthur, ao invés de só ficar olhando para o menino, começa a fazer caretas para ele, e, Sadrak logo começa a rir.
Enquanto toma a sopa, Maria Flor não consegue deixar de notar esta pequena interação entre pai e filho e, simplesmente não sabe o que pensar, pois, não conhece Arthur o suficiente para saber se ele está querendo mesmo se aproximar de seu filho ou é apenas empolgação momentânea com a recente descoberta de que ele é pai.
E, por mais complicado que seja para si mesma admitir, espera que seja a primeira opção, não por ela, mas por Sadrak, pois, se seu filhinho se apegar a Arthur e ele de uma hora para outra enjoar da “brincadeira” de ser pai, sabe que quem irá sofrer é seu bebê, e, isto é tudo o que ela não quer que aconteça.
Termina de comer e, no mesmo instante, percebe que Sadrak está começando a resmungar, nos braços de Arthur.
― O que ele tem? – questiona o homem, intrigado.
―Está na hora de ele assistir Papati e Patatá, por isso está irritadiço, está sentindo falta do programa dele, está em um ambiente estranho, é mais do que natural ele estar assim.
― E por que você deixa uma criança assistir dois palhaços irritantes?
― Bem se vê que você não entende nada de crianças, não é mesmo?
Arthur está prestes a responder quando escuta um barulho de porta e, a mesma imediatamente se abrindo, dando passagem a uma mulher de estatura mediana, um metro e sessenta e cinco centímetros de altura, pele branca, olhos castanhos e cabelos loiro e lisos, um pouco abaixo dos ombros, o rosto carregado de maquiagem e, usa um vestido vermelho, estilo tomara eu caia, um pouco acima dos joelhos e bem colado ao seu corpo.
Imediatamente, o olhar da recém-chegada recai sobre Maria Flor.
― Arthur, pode me explicar o que está acontecendo aqui?
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