Steps
6 Machucado- Explicações
Notas iniciais
20/08/2013
Naquela noite eu voltei para casa meio andando meio me arrastando. Meu rosto doía com a pancada recebida e eu nem ao menos conhecia aquele cara louco. Para piorar, eu não podia falar isso para ninguém.
“Nico, eu estou atrás de você” Foi o que ele disse... mas por que ele estaria atrás de mim? O que eu teria que ele precisava?
Nesse momento Jason entrou na cozinha e olhou diretamente para o roxo em minha bochecha. O loiro balançou a cabeça negativamente e começou a comer.
Fazia dez longos dias que eu não me dirigia a Jason.
Às vezes, ele puxava um assunto qualquer. O qual se perdia no silêncio da minha resposta.
Nós fazíamos somente o necessário: Sentávamos a mesa no café da manhã e depois eu ia para escola com Clarisse e ele ficava. Nada de interação ou olhares. Simples assim.
Hoje tinha tudo para ser um desses dias, mas Jason entrou em meu quarto pela manhã.
–Posso falar com você? – disse se sentando na minha cama.
Peguei uma cadeira e a coloquei em frente a ele. Era um sim não pronunciado.
–Nico, eu não tenho nada com a sua vida e..
–É. Não tem mesmo. – Disse sem pensar. Ele ficou me encarando.
–Posso?
Assenti e ele continuou
– E você estava certo. Na verdade, você sempre está! O problema é que eu fiquei muito preocupado com você. – Ele me olhou e abaixou a cabeça, olhando assim para meus pés- Sua irmã me contou o que Jackson te fez, e eu não pude acreditar que você voltou para ele.- Jason bateu fortemente com a mão na própria coxa- Como você pode transar com ele? – disse agora olhando para mim- Como pode sequer olhar para ele?
Eu não sabia como agir. Minha resposta parecia boba até nos meus pensamentos... ficaria mil vezes pior se colocada em palavras. Mas assim que aconteceu.
–Ele me pediu desculpas...
–Ah, claro que pediu! Ele pediu desculpas por te trair, por ser um canalha ou pelo o que te falou? Como você conseguiu acreditar nele?
Ele esperou uma resposta que nunca viria, então simplesmente continuou.
–Nico, pedir desculpas não se encaixa aqui. As pessoas pedem desculpas depois de terem feito algo errado. O Percy não fez algo errado. Ele É o errado!
– Jason, por que diabos isso te importa?
– Por que eu sou seu amigo.
– Eu não tenho amigos! – respondi rígido.
– Di Angelo, eu só estou vivo por sua causa. Você e sua família me ajudaram, me deram comida e um lar. Antes eu não tinha nada disso.
Ele suspirou e me encarou diretamente.
– Eu me lembrei, Nico. Minhas memórias voltaram a uns dois dias. Eu deixei em segredo por que não queria voltar. Eu não queria perder você.- ele suspirou – Vocês são tudo que eu tenho.
– Então você se lembra? Do que você se lembra, Jason?
– Eu me lembro de ser um órfão. Minha mãe morreu quando eu nasci, e eu sei disso por que meu pai fazia questão de me culpar por isso. Até que ele também se foi. Eu tinha seis anos e fui mandado para um lugar horrível. – ele fez uma careta e seus lábios formaram uma reta. – Eles batiam por motivo algum, sabe. Só por que você não tinha lavado atrás das orelhas ou esqueceu de desvirar as sandálias. Os meninos mais velhos, não ficavam para trás e nem hesitaram em abusar dos mais novos. Com seis anos, isso pode ser considerado um inferno.
–Você... você foi espancado e estuprado?
– Bom, sim... Mas me deixe continuar. – ele disse e prosseguiu- Eu fui adotado quando tinha 12 anos, por uma família que me pareceu legal no começo. Eles tinham outros quatro filhos, e quase todos nessa idade. Passei três ótimos meses na casa. Brincava como nunca antes e pela primeira vez, eu estava feliz. No quarto mês, o homem que havia me adotado, acordou todos de madrugada, e assim que ele fez isso, todos começaram a chorar e a implorar para ele não fazer alguma coisa. Eu não sab.. sabia o que era, Nico. Eu não sabia.- ele disse soluçando.
–Jason, você não precisa me contar...- falei, percebendo o quanto aquilo o estava afetando. Mas ele apenas continuou.
–Ele nos levou para o porão e tirou nossas roupas. Tinha câmera por todo lado, e por já ter passado por coisas do gênero, eu já sabia o que viria. Por isso eu fugi. Esperei ele se distrair com alguma coisa e sai correndo daquele lugar. Eu poderia procurar o orfanato, mas seria obrigado a voltar para aquela rotina horrível... e por isso eu fui para a rua. Eu vivi quatro anos na rua. Sozinho, com frio e com fome boa parte do tempo. Roubava de latas de lixo, para me manter. Até que eu me apaixonei. – Ele sorriu. O sorriso mais lindo que ele já havia dado.
–Por quem?
–Por uma moça. Uma menina linda que eu conheci enquanto estava na rua. O nome dela era Reyna, e eu a prometi que nós não seriamos mais mendigos. Nunca mais. Nós arrumamos emprego e Reyna começou a estudar de noite. Nós não roubávamos mais e nos mantínhamos com o nosso direito. Foi uma ótima época... foi perfeita! Mas ela adoeceu. – ele fitou o chão- Câncer... câncer no pulmão. Pelas noites dormidas no frio e com chuva lhe cobrindo. Pelo chão gelado, onde ela descansava todos os dias. Eu a perdi... a perdi pelo mesmo motivo que a conheci.
Ele ficou olhando para a parece, deixando abertamente as palavras e as lágrimas lhe escaparem.
– À noite, à noite que você me encontrou. Eu estava fazendo o que sempre faço as quintas. –Ele sorriu, orgulhoso- Eu saio com cobertores e mantimentos, e os distribuo para os moradores de rua.
Ele me olhou, claramente esperando uma resposta. Ela foi clara e rápida, e de um modo não verbal.
Eu pulei da cadeira e me joguei no seu colo. Agarrando seus ombros em o abraço mais apertado que eu já dei na vida.
– Eu te amo, Nico.
Ele disse, e eu senti lágrimas rolarem pelas minhas costas. Lágrimas dele.
–Eu também te amo, amigo!
– Amigo... – ele murmurou e me abraçou mais forte.
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