Stepfather
22 O longo castigo
Notas iniciais
Dia seguinte...
P.O.V Da Sam
— ME TIRA DAQUI!!! — Soquei a porta diversas vezes, meus punhos estavam machucados, doloridos. — PAI! ABRE A PORTA, PAI! ME TIRA DAQUI! ME DEIXE SAIR! PAI! PAI! ME DEIXE SAIR! — Chutei a porta com força e desabei no chão, chorando.
Ele havia me levado para a casa dele e me trancou no quarto onde eu costumava ficar toda vez que ia para lá passar o dia com ele e com sua família.
— É para o seu bem filha, me perdoe, mas é para o seu bem... — Sua voz saiu abafada.
— Não pode me manter trancada aqui. Eu quero sair... ME DEIXE SAIR! ABRA ESSA PORTA! — Voltei a gritar, eu me ajoelhei e comecei a socar os punhos contra a madeira.
— Já liguei para a sua tia Eleonor, já até comprei a passagem e já cuidei da sua transferência, você vai terminar os estudos na Suíça, vai morar com sua tia, o vôo sai às 13:00 da tarde. — Meu pai me informou.
— Não! Eu não vou, eu não vou... Você não pode me obrigar, não pode... — Chorei ainda mais.
— Já está resolvido, filha, é para o seu bem. — Ele se manteve firme.
— EU NUNCA VOU TE PERDOAR! EU TE ODEIO! TE ODEIO! NUNCA VOU TE PERDOAR! — Juntei forças berrando.
No dia seguinte, eu me recusei a comer. Fui obrigada à arrumar as malas, ele tinha ido buscar o resto das minhas coisas na casa da minha mãe. Eu me mantive calada, eu nem suportava olhar para a cara dele. Ele, meu próprio pai, estava me obrigando a morar em outro país.
Não tinha como fugir, ele não largava do meu pé. E no aeroporto, ficou o tempo todo ao meu lado.
— Tem notícias do Freddie? — Deixei o orgulho de lado, eu realmente precisava saber.
— Ele vai ter alta hoje. — Senti um grande alívio ao ouvir aquilo.
Eu ainda estava com raiva do meu pai, mas permiti que ele me abraçasse na hora da despedida. Eu não queria ir para a Suíça, mas não tive escolhas.
[...]
Tive a sorte de conseguir pular um ano, apenas estudei o 2° e o 3° ano na Suíça.
Quase tive que repetir o ano, posso resumir que o tempo que passei naquele país foi o pior da minha vida. Eu consegui pular de série após fazer uma prova de 50 questões, ela era definitiva. Tive 89% de acertos, fui aprovada e ingressei no 2° ano graças a prova que eu me dei super bem. E antes de completar 18 anos, terminei o colegial e me senti muito orgulhosa.
Foi um inferno estudar naquele colégio interno apenas para meninas.
Graças a Deus eu ainda pude manter contato com a Carly. A gente se falava todas as semanas por telefone.
A única coisa boa foi poder concluir o colegial. Eu só podia sair nos finais de semana, onde eu ia para a casa da minha tia e ficava enfurnada no quarto a maior parte do tempo quando não estava atarefada.
Tia Eleonor era muito rígida, uma verdadeira solteirona chata que criava 5 gatos.
Só fiz amizade com duas garotas que eram legais e com elas aprendi o idioma com mais facilidade.
Havia algumas atividades extras no colégio, como Ballet, culinária e costura. Era obrigatório participar de todas e eu odiava fazer Ballet e ir para as aulas de costura.
Minha tia era religiosa e todos os domingos eu tinha que ir com ela para a missa. Eu não podia sair sozinha, ela parecia um cão de guarda de olho em mim, ela sabia o motivo de eu estar ali e seus olhares acusadores me causavam arrepios.
Ela nem precisava de palavras, apenas os seus olhares já me julgavam como se eu fosse a pior das pecadoras.
Eu era obrigada a usar roupas em tons neutros, saias longas, blusas de mangas compridas, camadas de agasalhos e casacos.
Lá fazia muito frio, nevava e tia Eleonor não me deixava usar maquiagem e eu nunca me divertia já que ela me mantinha ocupada com afazeres de casa aos sábados, e sempre me fazia ler a Bíblia aos domingos.
E o colégio era muito rigoroso, eu odiava estudar ali mais que tudo. Odiava a Suíça. O clima. Odiava a tia Eleonor e seus gatos que soltavam pêlos e só viviam dentro daquela maldita casa.
Viver na Suíça foi um verdadeiro inferno. Me senti pagando por meus pecados. Aquele foi o pior castigo de todos.
[...]
Foi muito difícil ter que dizer adeus para minhas únicas duas amigas, Monizek e Luryah. Elas eram as únicas pessoas que me fariam falta.
Mas eu estava feliz por finalmente poder voltar para Seattle, eu já havia terminado o colegial mesmo. Guardei os documentos dentro da pasta e terminei de arrumar minhas malas.
Quase 18 anos. Eu estava tão animada, ansiosa para o meu aniversário. Ainda bem que eu ia poder comemorar em Seattle.
Tia Eleonor fez um bolo com muita calda de chocolate Belga, salgadinhos e docinhos típicos dali para comemorarmos por eu ter conseguido terminar meus estudos. Convidei Monizek e Luryah, serviu como a nossa despedida também.
Voltar para a casa... Eu já estava tão ansiosa para voltar para a casa. Vibrando de tanta felicidade.
Eu não via a hora de cortar meu cabelo que já batia quase em minha cintura, minha tia havia me proíbido de cortar. Eu também queria aproveitar para fazer as unhas, as sobrancelhas e toda a hidratação completa.
Rosto, corpo e cabelo. Eu precisava urgente ir ao salão.
Eu ia me livrar de toda aquela roupa cafona e sem cor, pois minha tia havia se livrado das minhas roupas antigas alegando que eram curtas e vulgares.
Castigo. Foi o castigo mais longo. Foram longos meses terríveis. Pensei que nunca fosse acabar.
Meu pai me ligava, mas eu recusava a atendê-lo. Passei meses sem falar com ele. Eu ainda estava com tanta raiva e mágoa.
Tia Eleonor me passou um grande sermão e eu tive que passar a atender as ligações do meu pai, mesmo contrariada, as ligações eram curtas, eu me limitava à poucas palavras.
E assim foi a minha vida na Suíça, os meses foram se passando arrastados para a minha tortura. Mas eu sobrevivi. Sobrevivi. Sobrevivi ao castigo.
— Adeus, tia! — Sorri feliz, era a hora da despedida. — Obrigada por tudo. — Agradeci, no fundo eu sabia que tudo que ela fez foi para o meu bem.
Tia Eleonor secou as lágrimas com um lencinho bordado e me abraçou.
— Vá com Deus, filha, continue lendo a Bíblia, perdoe o seu pai... Que Deus ilumine o seu caminho. Tenha juízo, Samantha. — Encerrou o braço e me abençoou.
— Amém. — Falei de olhos fechados.
"Adeus inferno!"
Embarquei feliz da vida. Eu finalmente estava voltando para casa. E o melhor de tudo, eu finalmente estava livre daquele castigo.
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