Stella
1 E se fôssemos fantasmas?
Notas iniciais
E se fôssemos fantasmas?
O fato é que, se realmente fosse um fantasma, as coisas seriam muito mais fáceis para ela, e também não estaria passando por nada daquilo. Não teria que esconder do pai do seu filho que estava esperando um filho dele, mas não somos fantasmas, e as coisas não são tão fáceis quanto seriam se fôssemos. Você pode até achar que é pura maldade esconder um filho de seu pai, mas não era exatamente isso que Stella estava fazendo. Na verdade, ela estava era se escondendo dele; não podia simplesmente chegar e dizer que aquela única noite resultou numa criança que provavelmente seria HIV+ como a mãe. E que, para acabar de completar, provavelmente ele próprio também estaria infectado com o vírus. As coisas não eram tão fáceis assim, mas poderiam ser...
Mas só se realmente fôssemos fantasmas...
A mulher pensou enquanto acariciava a sua barriga, que denunciava que o seu filho estava por volta do seu segundo mês de gestação. A ternura em pensar no sexo do bebê aqueceu o seu coração por um instante, mas logo aquele sentimento a encontrou novamente. Ela não podia negar que pensava em suicídio desde que descobriu que tinha mesmo sido infectada ao analisar uma cena do crime, mas não queria incluir o filho ainda não nascido em seus planos.
O plantão estava quase acabando, quase em casa, quase na cama. Só mais uma cena de crime, e ela correria para casa para se deitar na cama e esquecer de todas aquelas pessoas.
— Eu disse para não inventar, Danny. – Estendeu a maleta para ele. – É a sua vez agora.
O homem ignorou o objeto, dando um longo bocejo.
— E eu disse para cortar essa, Stellinha. Esse aqui é o último da noite, e eu sei que você ainda nem está tão cansada assim. – Empurrou a maleta de volta para ela, abrindo um sorriso travesso. – Então quebra essa, vai. Eu prometo que pago o seu jantar.
— Mas você é um belo de um folgado, Daniel Messer.
— Ei! É Danny.
Ela revirou os olhos e se abaixou ao lado do monte de vidro quebrado.
— Alguém odiava muito esse cara. Você não acha, Danny? – A falta de resposta foi a única coisa que a ajudou a perceber que o parceiro não estava mais ao seu lado. Ela se virou para constatar o óbvio. – É... eu acho que somos só vocês e eu. – Levou a mão à testa, aproveitando para soltar um longo suspiro antes de se aproximar mais para analisar melhor aquele monte de vidro ensanguentado. – Ainda bem que tiraram o corpo daqui, porque se dependesse da ajuda do Danny... eu teria que carregar o corpo nas costas sozinha. – Aquilo a distraiu tanto que ela nem percebeu quando aquele pedacinho de vidro escapou de sua mão e cortou o seu braço, misturando o seu sangue com o da vítima. – Merda! A evidência já era.
A evidência era o menor dos seus problemas, nada se comparava à dor de ouvir aquelas palavras saindo da boca do médico. Na verdade, aquela tinha sido a coisa mais dolorosa que ela havia passado em toda a sua vida; não havia palavras que pudessem descrever o que ela sentiu naquele momento. Outra coisa muito difícil era ter que fingir normalidade para os amigos. Danny era o único que sabia do ocorrido, e, por ela, continuaria assim.
— Stella! – Will chamou quando ela passou quase correndo por ele, com os papéis ainda nas mãos. – Stella! Stella!
— Stella! Não me obrigue a arrombar a porcaria dessa porta! – Lindsay insistia, mas ela não respondia. – Então tá bom, se é assim que você quer. – Em questão de segundos, a porta da frente do apartamento estava no chão. – O que aconteceu? – Os olhos dela foram direto para a porta do banheiro, que estava aberta e dava a vista perfeita da banheira. Stella estava ajoelhada ao lado dela, meio curvada para a frente.
— Não! – Virou para a amiga, deixando que visse a gilete em sua mão. A segunda coisa em que ela colocou os olhos foram nos pulsos cortados dela. Os cortezinhos eram finos e aparentemente superficiais, mas sangravam que era uma beleza. – Não se aproxime, não é seguro.
Lindsay encarou a outra com muito espanto e correu na sua direção, agarrando a primeira toalha que viu pela frente.
— O que...
— Eu estou grávida...
— Meu bem... – Enrolou a toalha nos pulsos dela para conter o sangramento. – Mas isso é maravilhoso! Meus parabéns!
O rosto da outra se contraiu numa expressão de pura angústia.
— Não tem nada de maravilhoso nisso. Eu praticamente acabei de descobrir que sou soropositiva, e agora estou grávida... esse bebê pode muito bem ser soropositivo também.
— Mas também pode não ser. Você é uma mulher inteligente, sabe das possibilidades. – Tirou a gilete das mãos dela. – Como está a sua carga viral?
— Não está baixa o bastante, mas estou tomando o e fazendo tudo o que o médico mandou. – Aquilo saiu como um mero sussurro, o choro ainda entalado em sua garganta. – Eu não sei se isso é o suficiente para livrar o bebê.
— Está grávida de quantas semanas?
— Seis.
— Então isso explica toda aquela mudança de figurino. – Abriu um sorriso carinhoso. – Escuta... quem é o pai da sua criança? – Buscou a resposta no fundo dos olhos dela. – É o Will, não é? – Essa pergunta nem precisava de resposta, a proximidade entre os dois deixava isso bem claro. – Ele sabe? Ele sabe que vai ser pai?
— Não sabe e nem precisa saber. Eu não quero que ele ache que deve ficar comigo por causa dessa criança. Você sabe como ele é certinho.
— Mas...
— Mas nada. – Reparou que as toalhas em seus pulsos ganharam um tom meio rosado. – Eu sei me cuidar, tá bom?
— Eu acho que não precisará de pontos. – Estudou bem os machucados, notando que realmente não eram tão profundos. – E então... você pensou em algum nome para o seu filho?
Ela estufou o peito, sorrindo ao pensar no bebê.
— Eu acho que o nome Lily é perfeito para uma menininha, e eu amo lírios.
— Eu achei que você fosse preferir um nome grego...
As sobrancelhas dela se franziram numa careta.
— Mas o meu nome também não é um nome grego... e eu acho que o meu sobrenome já rouba a cena toda. – Soltou uma boa risada, fazendo a outra rir também. – Ela não precisa de mais um trauma na vida dela.
— E se for um menino?
— Não... – Acariciou a barriga. – Eu sei que será uma menina.
— Então muito bem, senhorita. – Ambas ficaram de pé. – E o que você quer fazer agora? Eu acho que devia ficar em casa e descansar, só por hoje.
— Não na cidade que nunca dorme. – Naquele curto espaço de tempo em que conversavam, ela tratou de colocar as roupas mais largas que tinha em seu guarda-roupa e, então, foi na direção da porta, dando uma boa olhada para ela, que se encontrava no chão. – Me deve uma porta nova.
Os crimes na cidade de Nova York eram sempre surpreendentes para ela. Mesmo que estivesse acostumada com toda aquela selvageria, sempre havia algum detalhe em suas cenas do crime que a deixava verdadeiramente perplexa. Aquela, em particular, mexeu muito com o seu coração e até mesmo com a criança que ela carregava dentro dela.
— Ela estava grávida de seis semanas. – Will explicou enquanto os dois observavam o corpo sem vida da mulher. – E era soropositiva; acho que ficou com medo de que o bebê também fosse.
Aquilo a atingiu como um raio; era exatamente assim que ela estava se sentindo naqueles últimos dois meses. O método era exatamente o mesmo em que ela vinha pensando: pulsos cortados e morte por altura. O corpo ficou lá estirado no meio da calçada, como se fosse natural estar ali.
Aquele caso a perturbou durante uma boa parte do dia, porque ela também sabia como era temer pela vida de um filho. Aquela pobre mulher não sentia mais nada, mas ela ainda sentia tudo.
— Stella? – Estalou os dedos próximo ao ouvido dela. – Está tudo bem? – Stella olhou para Lindsay como se ela fosse alguém de outro mundo e se esforçou para abrir um sorriso. – Uma moeda por seus pensamentos?
Ela riu da brincadeira.
— Está tudo bem, Lindsay. Eu só... só preciso descansar um pouquinho...
O seu coração simplesmente se convenceu disso, mesmo que não fosse totalmente verdade. O sono consertaria tudo; nada melhor do que ir para o reino de Morfeu.
— Stella. – Ela estava quase entrando em sua sala quando a voz do pai do seu bebê a interrompeu. – Será que podemos conversar? – Ela o olhou como se aquela fosse a pergunta mais idiota do mundo e virou as costas. Mas o que ele disse em seguida a paralisou. – Eu sou o pai do seu bebê?
As pernas dela perderam um pouco da resistência.
— Qu...
— Eu não sou cego, Stella. Eu vi o jeito que você ficou quando vimos aquela mulher hoje de manhã... isso, e mais a mudança repentina no guarda-roupa... não é tão complicado assim somar dois mais dois. Essa criança é minha, não é? Você está grávida de seis semanas, então isso seria exatamente dois meses.
— Você é o pai, mas eu não queria que fosse...
A próxima frase saiu da sua boca sem nenhum rodeio.
— Então você quer que ele cresça como você?
A pontada no peito dela foi certeira. Então ela voltou a pensar que as coisas poderiam mesmo ser muito mais fáceis...
Mas só se realmente fôssemos fantasmas...
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