Stella
2 O valor da vida
Notas iniciais
— Então você quer que ele cresça como você?
Aquela pergunta ecoou na sua mente enquanto ela fechava o punho com uma força desnecessária. Essa era a coisa mais cruel que ele poderia ter dito, e com certeza ele sabia disso. Stella ficou órfã muito cedo, não conhecia o pai e a sua mãe morreu em um acidente de carro quando ela ainda era muito nova para se lembrar do seu rosto. Então é claro que ela nunca desejaria uma infância daquelas para a própria filha.
— Como ousa dizer uma coisa dessa? – A pergunta foi feita em um sussurro, mas todos que estavam presentes sabiam que ela estava longe de estar calma. – Acha mesmo que está sendo justo comigo?
— E você está sendo justa comigo? – A raiva dentro dele também aumentou, mas ele não elevou o tom de voz. – Você escondeu o meu filho de mim. Isso é justo?
Ela respirou fundo, fechando os olhos.
— Eu não escondi nada... – Abriu a porta da sala, entrando primeiro. – Entra, eu não quero dar um showzinho na frente do laboratório inteiro.
Ele também entrou, fechando a porta.
— E então... por quanto tempo pretendia esconder isso de mim? – Eles cruzaram os braços, mantendo um olhar rancoroso um sobre o outro. – Nunca me contaria nada?
— Olha... você sabe muito bem que a última coisa que eu quero nesse mundo é que a minha filha cresça como eu...
A expressão dele se suavizou e seus olhos brilharam.
— Filha? – Abriu um sorriso, pensando em como sua filhinha seria. – É uma menina?
— Eu não tenho certeza, é só um pressentimento. – O rosto dela também ganhou uma expressão mais amena enquanto olhava para a barriga. – Eu acho, que daqui a uns dois meses, terei a certeza. – Levantou a cabeça e olhou para ele, que ainda estava olhando para a barriga dela. – Mas, enfim, eu não queria que achasse que deve ficar comigo só por causa desse bebê.
— Stella, por favor! Está me insultando dizendo isso. Você sabe muito bem que os meus sentimentos por você são sinceros e, mesmo que o nosso filho não existisse, eu ainda continuaria te amando. Eu só preciso que você confie em mim para contar o que está acontecendo, porque você é a mulher que eu amo. Então do que é que você tem tanto medo? – Ela engoliu em seco, escondendo o rosto ao sentir um nó na garganta. Aquela criança estava mesmo mudando a sua vida; em outra época, ela nunca se permitiria estar tão vulnerável na frente dos outros. – Confie em mim, por favor. – Encostou a testa na dela, segurando o seu rosto para que não escapasse.
Os olhos dela se fecharam.
— Você... lembra daquela noite?
— É claro... nunca me esqueceria... – Aproveitou a abertura que ela deu para aproximar ainda mais o seu rosto do dela e beijar os seus lábios com muita delicadeza, e aquela sensação a empurrou de volta para aquela fatídica noite.
Os pingos de chuva em contato com a sua pele pareciam um castigo dos deuses para ela. Stella chorava, nem conseguia mais dizer se os tremores eram por causa do frio ou do choro. Estava parada em frente à porta há alguns minutos, a falta de coragem a impedindo de bater e pedir para entrar. Eles nem eram tão íntimos assim. O que diria a ele?
A chuva aumentou e uma grande onda de frio atravessou o seu corpo. Então, finalmente, criou coragem e bateu com força suficiente para ser ouvida. Will abriu a porta imediatamente, encarando a colega com um olhar de pena ao ver o estado em que ela se encontrava, e acabou puxando a mulher para dentro da casa.
— O que você está fazendo aqui, Stella? – Ajudou-a a se sentar no sofá, nem se importou com a possibilidade de encharcar todo o estofamento. – O que aconteceu?
— Alys... Aly... a Alyssa.
O homem abriu um sorriso compreensivo, passando a mão nas costas dela; ele também lamentava muito o ocorrido com Alyssa. O tormento de ficar ao lado do caixão dela ainda não havia deixado a sua mente, então ele entendia muito bem o que ela estava sentindo.
Ele saiu, indo direto para a cozinha.
— Eu vou preparar um chocolate quente e ver se encontro uma roupa seca para você.
Ela ainda estava tremendo muito quando finalmente disse:
— Eu não queria incomodar. – Os tremores eram tão fortes, que estava complicado até para formar uma frase sem cair no choro. – Os meus amigos estão... estão ocupados...
— Mas não é incômodo nenhum.
— Eu vou parar de chorar. – Engoliu o choro, tentando se acalmar, mas aquilo não durou muito. – Eu prometo.
Ele estudou o rosto molhado dela, abrindo um sorriso calmo.
— Mas você pode chorar, Stella. Eu te entendo. – Entregou a caneca de chocolate quente nas mãos dela. – Beba, vai te fazer muito bem.
— Eu não consigo. – As mãos dela tremeram e a caneca quase foi ao chão, mas ele a ajudou, segurando suas mãos com firmeza.
— Olha... assim quem vai acabar morrendo é você. – Aquilo saiu da sua boca sem nenhuma maldade, e ele só notou o quão indelicado estava sendo quando fechou a boca e viu os olhos dela se encherem de água. Então a puxou para um abraço apertado, molhando toda a roupa que estava vestindo. – Ah não, me desculpe.
Nos minutos seguintes, ele tentou convencê-la a tomar um banho e vestir uma roupa seca e quente, mas ela não deu muita atenção ao que ele estava dizendo. Acabou se contentando em vê-la tomando toda aquela caneca de chocolate quente. Os dois passaram quase a noite toda conversando; era muito tarde quando ele decidiu que era melhor deixá-la em casa.
— Stella, ei. – Tocou levemente o ombro dela. – Vamos, eu vou te deixar em casa.
Ela esfregou os olhos e olhou para ele como se ele estivesse falando alguma outra língua.
— Casa? – As sobrancelhas dela se franziram numa careta. – Eu não quero...
— Mas temos que ir...
— Eu não quero.
— Mas... você vai acabar ficando doente se não tirar essas roupas molhadas...
A próxima coisa que saiu da boca dela foi uma surpresa até para ela mesma.
— Então por que você não tira para mim?
— O quê? O que você disse?
— É isso mesmo que você ouviu. – Não demorou para ela enlaçar o pescoço dele em um abraço confiante. – Tira para mim.
Nenhum dos dois soube dizer exatamente como foram parar no quarto, mas lá estavam. Stella não sabia exatamente o que aconteceu naquela noite, pois tomou o cuidado de usar preservativo e, mesmo assim, se encontrava naquela situação.
— Espera. – Stella colocou as mãos nas dele, que estavam em sua barriga. – Eu insisti para usarmos camisinha por um motivo... – As mãos dele tremeram; dava para ver que estava muito emocionado com o primeiro contato com sua futura criança. – Essa gravidez não é um problema para mim. Eu sempre quis ter um filho; esse bebê é o meu sonho. – Eles se encararam por um breve instante. – Mas há cinco meses, eu estava analisando uma cena do crime e me cortei com uma das evidências. – O choro que ela estava segurando simplesmente escapou; nem os amorosos beijos e abraços dele eram capazes de trazer algum conforto. – A vítima era soropositiva, então fiz alguns testes e descobri que eu também sou.
— E por que você não me contou nada disso, Stella? Você não precisava estar passando por nada disso sozinha. Nada disso é culpa sua. Você me perguntou se eu queria, e eu aceitei...
— Mas você não sabia... teria mesmo aceitado... se soubesse?
— É claro que sim. Eu sou um homem adulto e sabia exatamente o que estava fazendo. E, se isso te tranquiliza, eu fiz alguns exames de rotina há alguns meses e estou ótimo. – Beijou a sua testa com uma certa delicadeza, usando os polegares para secar as suas lágrimas. – E então... você pensou em algum nome para a nossa filha?
— Eu pensei em Lily. – Abriu um sorriso, notando um brilho nos olhos dele. – Eu amo lírios.
As sobrancelhas dele se arquearam de um jeito divertido.
— É mesmo? Esse era o nome que a minha mãe queria me dar se eu fosse uma menina.
Stella riu.
— É sério?
— É. – Assentiu com a cabeça, colocando um sorrisinho no canto dos lábios. – A flor favorita dela é o lírio. Ela vai amar saber que vai ser vovó. – O sorriso que ele tinha no rosto desapareceu. – O meu pai também amaria. – O pálido azul dos olhos dele escureceu, como se estivesse nublado por uma lembrança ruim. – É uma pena ele não estar aqui para conhecê-la.
O ruim em estar longe da família em nome do dever é que você começa a perder as pessoas que ama sem nem estar presente para acompanhar a sua partida. Will entrou naquele hospital com a sensação de que, de alguma forma, havia perdido uma guerra, mesmo retornando para casa com honrarias. Aquelas medalhas não eram nada. Mesmo enxergando a resposta nos olhos aflitos da mãe, ele perguntou:
— Como ele está?
— Nada bem... – O restante da frase morreu em sua garganta e ela beijou o rosto do filho. – Eu acho que é melhor você ir vê-lo, querido.
O homem respirou fundo, tomando uma coragem que nem sabia que tinha, e caminhou lentamente até a porta do quarto onde o pai estava.
— William Taylor Junior. – O pai dele verbalizou com uma voz muito arrastada e profundamente aguda, esticando o braço na direção do filho. – É uma honra te receber aqui depois de dois longos anos servindo ao Corpo de Fuzileiros Navais. – O peito dele subia e descia numa velocidade assustadora. – É muito bom te ter aqui, filho.
Ele olhou para o pai como se aquele não fosse ele; era melhor desvincular a imagem dele daquela doença horrenda. O câncer veio cerca de um ano antes do filho ser convocado e evoluiu com muita lentidão.
— Oi, papai. – Sentou na cadeira ao lado da cama do pai. – Eu quero que me desculpe por ter demorado tanto para vir.
O pai colocou uma mão trêmula sobre as do filho.
— Mas você não demorou. – Tossiu. – As coisas acontecem na hora certa. Você veio no momento exato em que deveria vir. Tudo tem o seu momento para acontecer, Will...
A vida foi simplesmente deixando o seu corpo. O brilho e a obstinação dos seus olhos não existiam mais. Por fim, as funções motoras também declinaram e, em alguns minutos, tudo o que restava dele era um corpo.
— Will? – Os olhos incrivelmente verdes da mulher a sua frente o puxaram de volta para o presente. – Está tudo bem? Eu achei que você estivesse em outro mundo.
Ele passou as mãos no rosto.
— Eu me lembrei do meu pai... do dia em que ele morreu...
— O passado acabou, a vida continua. – Ensaiou um sorriso. – O valor da vida ainda está aqui. A sua vida continua, aqui. – Segurou as mãos dele, colocando-as em sua barriga mais uma vez. – Eu sei que a minha vida está uma verdadeira bagunça agora, mas ainda acredito que tudo acontece na hora certa. – Ela o abraçou, dando um beijo em sua bochecha. – Eu acho que podemos criar a nossa filha, mas não precisamos fazer isso juntos, então guarde esse pedido de casamento que eu sei que você está louco para fazer e vamos tentar ser razoáveis, tudo bem?
— Eu sei que o seu instinto é fugir; você nunca teve uma família e tem medo de que dê tudo errado, mas eu quero que saiba que eu não vou desistir de você. Eu quero que cuide bem da nossa menininha. – Abaixou para ficar da mesma altura da barriga dela. – E eu quero que você cuide bem da sua mamãe, princesinha.
Os meses passaram com ele se fazendo muito presente, se interessando por tudo, desde os cuidados com o bebê até a data em que finalmente veria o rostinho da filha pela primeira vez. Ele também esteve lá quando descobriram que o bebê realmente seria uma menina, mas, no momento mais importante para os dois, Stella se encontrava sozinha em seu quarto.
— Ai, dessa vez doeu muito. – Colocou a mão na barriga. – Eu acho que você só está com saudades do seu papai, não é? – Um sorriso se formou em seu rosto quando ela se lembrou das muitas horas que ele passava conversando com a menina em seu ventre. – O que acha de ouvir a voz dele um pouquinho? – Pegou o celular e discou o número dele, foi quando sentiu uma pontada na barriga. – Mas depois vamos dormir, combinado?
Ela respirou fundo, dizendo:
— Will?
— Stella? – A respiração irregular dela o deixou preocupado. – O que aconteceu? Está tudo bem?
— Eu acho que tem alguma coisa errada com o bebê.
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