Stella

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Numa noite quente de verão, quente mesmo, ela ouve a campainha acompanhada de batidas na porta: Uma reunião sindical fora marcada de ultima hora.

–Mas que merda, cara. — E coçou os olhos — Logo hoje que decidi me deitar mais cedo, que merda!
E ela vestiu uma camisa de seda, cor chumbo e desceu descalça até o térreo, onde esperou com o síndico, as pessoas de boa vontade participarem da reunião.
Thadeu falava sobre a precária falta de aparelhos de ar condicionado até que bateu os olhos no decote da moça. Fitou os detalhes: O cabelo tingido, vermelho alaranjado, com restos de escovação, pois de via na raiz que eram na verdade, cacheados. A camisola preta que ornamentava o busto com renda, escondendo mais ou menos o sutiã que também imitava renda, e o resto do corpo com outro tecido que ele não sabia o que era. Muito bojo, o que entristeceu o rapaz por dois segundo até ele olhar as fartas pernas de Stella.

–Como vocês sabem, o sistema de ar está quebrado já tem um tempinho, e esta reunião está sendo feita justamente para acharmos uma solução desse problema. — Exclamou o sindico á mais ou menos trinta pessoas que se dispuseram a participar.
Thadeu levantou-se da cadeira e sugeriu:
–O mais sensato era cada um ter o seu ar condicionado em casa. Esse negócio de tratar como água ou gás encanado não rola.
–Mas é a forma mais barata! Ia sair mais caro optando por aparelhos individuais... — Fora interrompido.
–E a gente paga quinhentos paus nessa porra pra quê? — Stella pousou as mãos na cintura e Thadeu a observou de longe, sorrindo de leve pela ousadia da moça ao falar com o síndico.
–Pera lá, Dona Stella...
–Dona é o cassete! E não vem tirar minha razão não! Quinhentos paus, isso é, metade do meu salário numa tubulação que solta pum de rato e pó, mais do que qualquer coisa.
–Eu concordo com a dona... — Thadeu foi repreendido pelo olhar dela. — com a Stella, eu concordo.
–E vocês acham que é fácil fazer isso? — Retrucou o síndico, olhando alternadamente para os dois.
–Se tu quiser um caralho de abaixo assinado, a gente faz, mas eu garanto que se tu perguntar pra esses pobres coitados que acordam cinco horas da manhã se eles querem um vento descente batendo na cara pra dormir, acho que vão concordar.
–Tá, Stella! Vocês concordam com isso? — E o síndico cruzou os braços e esperou o resultado dos cochichos. Sim.
–Você vai assinar um termo de responsabilidade: Se der problema em qualquer dos setenta e dois aparelhos, eu ligo na sua casa, ok? — Grunhiu com arrogância o síndico para Stella.
–E eu mando você ir se foder se me tirar da cama por conta desse tipo de coisa antiga! Porra, Tavares... Ajuda nóis, véi!
E as palavras da moça fizeram Thadeu rir, atrás dela. Ela ainda não o havia notado.
–Pois é, eu me fodo mesmo pra fazer vocês ficarem quietos e pararem de reclamar de tudo nessa coisa! Stella mal educada.
–Ela tem razão, só isso. — Defendeu Thadeu.
–Aí, Tavares! O cara mesmo disse que era mais viável...
–Mais sensato, eu disse...
–Foda-se, é a mesma coisa... Então, que era mais legal cada um ter o seu ar condicionado. O que custa, Tavares? Sei lá, trinta paus á mais até vocês tirarem essa tubulação fedida?
–Trinta é pouco ainda!
–Olha lá hein? Aumenta essa bagaça que o negócio vai ficar estreito. E vocês me dã licença que eu tô morrendo de calor. — E Stella se despiu da camisa de seda, deixando o colo mais a mostra e Thadeu de olhos brilhantes.
–Toda... Toda. — Disse ele, abobalhado, enchendo a boca pra falar e espantando um pouco Stella, que riu disfarçadamente.
–Boa noite, Tavares! — Se despediu ela, adentrando os bolinhos de pessoas que se acumulavam, conversando e esperando a vez de assinar a ata.

Thadeu apressou-se para assinar e correu até ela.
–Espera, espera...
–Que foi?
–É... Você quer um café? — Procurando assunto.
–Café essa hora cara?
–Você vai trabalhar amanhã?
–Não mas, sei lá. Café de noite...
–Nos deixa acordado? Nada a ver, é mentira isso. A gente dorme quando quer.
Stella coçou a cabeça e se virou pra subir a escada caracol branca.
–Qual é o teu andar, rapaz?
–Segundo, no prédio do lado.
–E eu no terceiro. Vai me dar café mesmo?
–Eu não tenho pó em casa.
–Porra, tu me oferece café e não tem pó?
Thadeu riu e balançou a cabeça. Stella retomou: Tu é folgado, cara... Ah, entra vai, eu faço um café pra você. — E arrumou a trouxa que fizera com a camisa e subiu mais um lance de escadas. Thadeu a acompanhou.
–Fica a vontade, não repara a bagunça não. Aliás, tu é homem, deve estar acostumado.
–Não, eu não reparo não, fica tranquila. Você é gaúcha? Tantos "tu"s.
–Não... Isso aí ficou depois que eu namorei um gaúcho. Sou duma cidade pequena da grande São Paulo.
–E como namorou ele? Ele foi pra lá?
–Internet.
–Namoro pela internet?
–Isso. Nem na internet eu dou certo de namorar... — E riu da sua triste desgraça, enquanto abria e dobrava o filtro de papel.
–É solteira então?
–Eu sou. E muito azarada. Apesar que eu acho que sou nova. Tenho um rolo aqui e ali mas nunca nada sério.
–Entendi.
–Tu é solteiro também, guri?
–Eu terminei um relacionamento tem uns dias.
–Ah, que pena.
–Não... Normal.
E o silêncio tomou conta por alguns minutos. Stella ligou a cafeteira e separou a xícara para a visita e o seu copo americano como de costume. Ela se sentou na mesa de duas cadeiras e fitou a cafeteira. Até perceber que Thadeu também a fitava, fitava Stella.
–Tu me olha tanto, rapaz... O que eu te fiz? — E riu.
–Não pude deixar de reparar na sua camisola.
–Ah. Direto você, não?
–Me chama de Thadeu.
–Ah tá... Agora sim. Oi, Thadeu. — E riu pois ficou sem graça.
–Faz tempo que você mora aqui, Stella?
–Não... Não tem nem um semestre. Mudei quando completei dezoito. Aí comecei a trabalhar, achei um emprego legal no centro e era aqui onde eu queria morar mesmo. Tenho paixão pelo Bom Retiro.
–Agora entendi porquê não gosta que te chamem de 'dona". É uma criança ainda.
–Ah, só porque tu é velho? Quantos vinte e cinco anos tu tem pra tá falando isso?
–Vinte e cinco? — Thadeu riu e coçou a barba. — Tenho vinte ainda.
–Vai mentir pra outro...
–É sério. É a barba né?
–Bonita inclusive.
–Obrigado. Seu decote também.
–Como??
–Sim, seu decote.
–Você costuma falar esse tipo de coisa pras meninas que tu conhece no mesmo dia?
–Bem, só pra aquelas que deixam um entranho entrar no seu quarto e fazem um café quando eu não tenho pó em casa.

Stella se viu fascinada pela sagacidade de Thadeu. Sorriu com o semblante espremido, não acreditando no que ouviu.
–Tu é folgado mesmo...
–Um pouco. — Sorriu ele.
–É... Deixa eu... Pegar. O café. — Stella se enrolou nas palavras e quase derrubou seu copo da mesa. Thadeu percebera sua timidez e resolveu abusar mais um pouco da sua astúcia.

Ela voltou com a jarra sustenta por um pano de prato. Serviu a xícara e depois o copo. Deixou a jarra em cima do pano para não queimar o plástico da mesa e trouxe em seguida, o adoçante e o açúcar.
–Pode tomar na xícara, eu não me importo. — Thadeu quis fazer uma gentileza.
–Não, cara. Eu tenho costume de beber no copo mesmo. Tem que ser americano, que lembra padaria. — E ela sorriu, com flashes dos café que tomara por aí.
–E você tem costume de oferecer café á estranhos?
–Na boa? Não. Aliás, eu nem sei porquê deixei você entrar.
–Gostou de mim?
–Se eu soubesse que tu era folgado assim...
Thadeu ria enquanto mexia o açúcar na xícara. — Não muda de assunto, vai.
–Ué, como posso dizer que gostei de você? Só quis ser legal.
–Percebi. Você não parecia legal de longe... Sempre foi assim? Doidinha?
–Fama de doida eu sempre tive. Se sou, já não sei. Eu sou eu mesma. O povo se incomoda com palavrão. Não vejo pica nenhuma de errado nisso.
Thadeu riu mais uma vez. De certo modo, também estava muito entretido com Stella.
–E você ri de tudo o que eu falo.
–Você é interessante. Além de bonita.
–Hm, tá me cantando.
–Tô nada.
–Uhum, você não pára de olhar pra porra do meu decote.
–Eu disse que era bonito. Não tenho culpa. A culpa é sua de descer de camisola e camisa de seda. Isso é sexy, sabia?
–Meu Deus... — E Stella gargalhou, pondo as mãos sobre o rosto, envergonhada.
–Já que você não quer responder a minha pergunta, eu é quem vou falar de você. Sim, eu gostei de você.
–Ah, que bom. Valeu.
–Só vai me dizer isso?
–O que quer que eu faça? Não, nem responde...
–Tá com medo da resposta?
–Você é meio louco... Tô com medo sim.
–Sua imaginação deve estar indo longe.
–Não! Você que fica olhando pro meu decote. É bojo cara... Não tenho peitos.
Thadeu gargalhou e levou as mãos a cabeça.
–Eu podia ver se você está mentindo ou não.
–Como assim? Tá maluco? — E Stella riu. Ela já nem se importava mais com o estranho no seu quarto.
–Palavras são falhas, atitudes são melhores. E muito eficazes. — E ele fixou seu olhar no dela. Ela desviou.
–Olha pra mim... Olhos verdes. — Falou mais baixinho.
–Você é maluco. — Stella cochichou envergonhada.
–Você não viu nada.
–Vai embora.
–Quer mesmo que eu vá?
–Não... — Stella miou. Thadeu riu, um pouco mais perverso.
Ele se levantou e ela se assustou.
–Tá com medo de mim, é?
–Não é comum um cara que eu conheci do nada me pedir café, entrar no meu quarto, fitar meu peito de mentirinha e ficar tirando da minha cara desse jeito. Volta amanhã.
–Sério? Não sei...
–Volta... É sério. — Stella tinha o mais belo sorriso do mundo.
–Vou pensar.
–Patifaria isso aí.
Thadeu riu mais uma vez. Abandonou a xícara e arrumou a cadeira em seu lugar. Stella o acompanhou até a porta e ficaram os dois ali pra se despedir.
–Ia rolar alguma coisa se você me deixasse aqui né?
–Fica quieto... Vai, tchau.
–Obrigada pelo café. Cadê meu beijo?
–Vai se foder. Até amanhã.
Thadeu sorriu e balançou a cabeça, deu as costas e foi embora, cruzar as escadas. Stella fechou a porta e não acreditou em nada daquilo. Sorriu, riu e suspirou. Foi se deitar muito mais que feliz e, dizia pra sí mesma que sua felicidade era por conta dos aparelhos de ar condicionado que chegariam na segunda-feira. Ela era tão mentirosa...

Notas finais
Agradecimentos ao Victor e ao Thadeu Meneghini, o melhor compositor do Brasil atualmente e, meu grande amor.