Stella
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O cara realmente estava afim. Ficou parado na porta dela com uma bandeja branca de madeira, com café starbucks, chocolates, manga e morangos picados e dois sanduíches com nutella. Gastou os últimos reais que tinham em sua conta corrente para comprar essas coisas, já que não consumia frutas e muito menos "comida de marca".
Respirou fundo, riu. Respirou mais uma vez e se sentiu idiota, só um pouco. Segurou a bandeja com uma mão e um joelho, sobre a perna direita levantada. Bateu rápido e forte na porta e se recompôs.
Stella se espreguiçou e sorriu. Já o esperava de tanta ansiedade. Levantou e pôs o cabelo pra trás, todo bagunçado e nem vestiu a camisa, descalça, foi abrir a porta com olhos serrados e cara amassada.
–Bom dia, musa dos olhos verdes. — Thadeu era, o galã de revista masculina. Seu hálito de menta, dentes brancos, a barba que matava Stella por pensamentos, enfim, tudo que colaborava pra aquela atração instantânea.
–Você é tão lindo quanto mentiroso... — Ela lhe retribuiu um envergonhado sorriso, amarelo. Com olheiras.
–Vou tomar como elogio. Posso entrar?
–Claro... E esse banquete?
–Pra você.
–Tá me comprando com comida?
–Ah... Não sabia se preferiria rosas brancas e...
–Shh... Você tá me comprando muito bem. Prefiro comida do que flores. Olha aí, chocolate, cara! — E gargalhou em seguida. Thadeu ficou um tanto sem reação e riu pela sorte de ter acertado mais uma.
Ele colocou a bandeja na mesa e puxou rapidamente a cadeira para Stella. Ela sorriu e quando sentou, ergueu os braços para recolher o cabelo escovado e bagunçado. Com a nuca a mostra, Thadeu não resistiu e deu-lhe um cheiro no cangote que fez a menina suspirar e pender a cabeça pra trás.
–Que perfume você usa?
–Um bem melhor que essa desculpa que você arrumou pra me dar uma cafungada dessas no pescoço.
–Você está me bombardeando hoje. — Disse ele, se agachando e se apoiando na beirada da cadeira onde Stella se sentou, á sua direita.
–Não... Por que te bombardearia?
–Talvez porque passou a noite toda pensando no beijo que eu queria ter te dado e você não quis.
–Eu não quis?
–Ah, então você quis?! — Ele sorriu.
–Pára! Você sempre me encurrala em alguma pergunta.
–É por isso que você está me bombardeando.
–Respondida a sua pergunta. Meu café vai esfriar. — E virou-se para a bandeja.
Thadeu sorriu e parou ali mesmo. Poderia ficar ali por horas, observando como os lábios dela se encaixavam no copo descartável do starbucks, e de como seus dedos longos tocavam o sanduíche de pão branco, tão quanto sua pele. Sentiu fome. Dela.
–Senta, menino!
–Vai me deixar te olhar?
–E tem como impedir? Teu olho não sai das minhas pernas e agora que tu vai sentar, vai ficar...
–Olhando seu decote? Não. Você errou.
–Mentira! Ah, que coisa surpreendente! — E riu, não conseguiu manter a pose sarcástica que exercia.
–Não é só seu colo ou suas coxas que me fixam o olhar.
–Hm... — Mastigando um morango, ela esperou mais.
–O modo que você olha pros lados tentando desviar o seu olhar do meu, o movimento meio leve dos seus braços e das suas mãos, escolhendo indecisamente o que comer, com medo de esbarrar em alguma coisa pra não pagar um mico na minha frente. E principalmente, as suas lindas maçãs corando enquanto eu falo de você.
–Pára... — Stella tomou o copo e o posicionou no meio da cara, de modo que o entreolhasse pelo canudo, escondendo seu sorriso mas, olhando nos olhos dele.
–Não precisa ficar envergonhada. Você devia saber que é incrivelmente linda.
–Ai meu Deus... — E gargalhou.
–Eu vou deixar você comer ok?
–Sem elogios.
–Eu vou tentar, não garanto nada.
Stella não sabia o que fazer. Olhou a bandeja novamente e disfarçou.
–Não quer, uma fruta pelo menos?
–Não gostou dessas?
–Gostei! Gostei, claro! Manga é a minha fruta favorita.
–Pelo visto já sei muito de você.
–Ah... Até parece. — Debochou.
–Ah é? Dona Stella?
–Dona não, caralho.
–Você se irrita quando te chamam de dona, Tem 18 anos e parece ser virginiana. Gosta de rock, tem olhos verdes incríveis, gosta de manga e café. O que não tem de seios tem de pernas fartas e durinhas, ri quando está envergonhada e gargalha quando muito nervosa. Esconde a cara pois tem vergonha do sorriso, morre com a sensibilidade na nuca e fala palavrão ainda em gestos de carinho.
–Parabéns... Mas acho que tá faltando alguma coisa. — Disse ela, arrumando a cadeira pra ficar na frente de Thadeu.
–Você é mesmo virginiana?
–Sim. De agosto. E minha melhor característica é o impulso.
–E por que não deixou ele falar mais alto ontem? — Falou baixo, se aproximando do rosto dela.
–Porque quando eu faço uma coisa, não consigo parar... — E os olhos se encontraram, até que o olhar dela baixou e seus lábios foram atraídos para os dele. O gosto de café casou com a menta e as mãos de Thadeu com as coxas de Stella.
Timidamente, Stella pousou as mãos o mais delicadamente que conseguia, no rosto de Thadeu, mais propriamente em sua barba. Acariciou seu rosto e afastou os lábios.
–Eu não acredito que isso tá acontecendo.
–Você vê algum problema?
–Não sei.
–Não complica.
–Mas eu não te conheço, filho da puta!
–O que você quer saber?
–Me dá uma breve descrição de quem você é que eu assumo que quero ir pra cama com você.
Thadeu sorriu, corou e pensou no que ia dizer.
–Thadeu, vinte anos, colunista da Folha, metaleiro, escritor de contos nas horas vagas, já noivei, quase matei, não sei cantar, gosto de video-game de todo tipo, sou viciado em literatura estrangeira, faço humor negro e gastei o resto do dinheiro do cartão pra te comprar o café da manhã. E quase te trouxe uma flor. Tá bom pra você?
Stella se desprendeu dele e foi pro banheiro. Ele a seguiu.
–Desculpa. Eu fico nervosa quando fico em saias justas.
–Eu sei, já percebi e te falei.
–Ah! Que droga!!! — Disse ela histérica, pondo a pasta de dente na escova.
–O que foi, criatura?
–Você é perfeito, que inferno! Eu não te conheço. Mas você é perfeito... — Se complicando pra falar enquanto escovava os dentes.
–Eu, perfeito? Ta aí uma coisa que você tá muito enganada.
–Pra mim cara, pra mim é!
–Por que?
–Você me entende de uma forma... Talvez porquê já pegou mulher demais nessa vida, você me entende além de acertar a minha fruta favorita mas, você é incrivelmente detalhista. Eu amo os detalhes e quem os repara. E você não pára de me olhar o tempo todo! — E cuspiu. — Você é perfeito.
–Então quando você terminar de enxaguar a boca, termina tudo o que você quer fazer comigo. — Thadeu ficou sob o olhar de Stella, contra a luz, encostado na porta do banheiro. Stella secou o rosto na toalha e agarrou o colarinho da camiseta dele.
–Me dá um bom motivo pra eu não me apaixonar por você.
–Nossa. Agora você me pegou.
–Tarde demais. — E deu-lhe um beijo estonteante. Se enroscou nos braços dele e se virou de modo que ainda beijando, conduzisse-o andando pra trás, pra cama.
–Você é apressada.
–Impulsiva.
–Louca.
–Isso não é novidade e você ainda nem viu as coisa que eu faço.
–Na cama?
–Na vida. Não é só com o síndico que eu falo alto. — E o empurrou, pondo-o sentado na beira contra a cabeceira.
–Uau. Vai falar alto comigo?
–Não. Aliás, não vou falar mais nada porquê não gosto de falar, me saio melhor fazendo. Se é que você entende.
–Continua. Sou seu.
–Já falei que você é tão lindo quanto mentiroso... — Tirou a camisola e ficou parada na frente dele. — Disse?
Thadeu ficou sem palavras. Riu e balançou a cabeça.
Stella se curvou e novamente acariciou a tão adorada barba. Com cuidado e carinho aparente, Thadeu a trouxe mais pra perto, fazendo-a sentar no seu colo e se encaixar perfeitamente no seu abraço. As mãos dele se aconchegaram entre os cabelos dela, assim como a boca já sabia que caminho percorrer no seu queixo, pescoço e seios. Ao se deitarem, Stella desconcentrou-se do seu prazer e mudou o semblante. Thadeu percebeu e mais, entendeu.
–Apesar de tudo isso aqui, eu só quero que você saiba que eu não vou cruzar a porta cantando vitória porque fiquei com você. Vou cantar pra mim, e não vou fugir. Aliás, eu vou deixar meus números só pra te provar que eu quero te conhecer ainda mais. Quero mais detalhes e tudo mais que eu puder extrair de você, de boa maneira. Confia em mim. Eu sei que eu tenho o maior ar de canalha, mas quero sua confiança.
–Se chegamos até aqui...
–Você quer que eu pare?
–Só não me dizer aquela clássica frase de "eu não vou fazer nada que você não queira"... Isso me assusta.
–Mas eu não vou fazer nada que você não queira. — Disse ele, de propósito. E ela gargalhou, fechando os olhos de vergonha. Novamente ele colou o rosto no dela e a abraçou, fazendo-a repousar a cabeça um pouco acima de seus ombros. No pé do ouvido, ela começou a sussurrar.
–Sério que você não tá me achando uma vadia?
–Por que acharia?
–Eu não entendo mais os homens.
–Você não precisa entender. Eu pelo menos gosto de atitude e você tem de sobra. Se vê de longe.
–É que eu achei que...
–Você tem que parar de tentar adivinhar o que os outros pensam sobre você. Você é você e acabou.
–E por que você consegue adivinhar e eu não?
–Você aprende. É muito murro na cara, da vida.
–Já levei alguns.
–Eu vários... — E riu.
–Então... — Stella se colocou em cima dele mas não afastou o olhar e muito menos a boca. — Me deixa tirar um pouquinho dessa tua dor de tanta porrada. Deixa?
Thadeu sorriu sem malícias. Se sentiu confortável e que Stella também era quase pura em suas palavras.
–Já disse, sou seu.
Consolidou-se o início dos dois. Thadeu e Stella a partir daqui escreveriam uma história divertida, ás vezes complicada mas, sempre marcando de pouco em pouco as páginas da vida um do outro. Ainda haviam muitos palavrões á serem ditos por ela, muita astúcia da parte dele e um romance simples, ao mesmo tempo especial.
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