Steampunk: Do ferro ao sangue

9 C8 — Os anjos caem primeiro


Notas iniciais
EDITADO: 16/07/15

Observava com atenção as pequenas partículas geladas cobrirem todo o espaço á sua frente formando uma fina camada branca. Achava a neve a coisa mais bela em toda Viskar. Era maravilhoso ver todas aquelas paisagens verdes se tornarem brancas e frias.

Os olhos azuis de Miriam se viraram para o seu trabalho, finalmente pronto. A androide agora estava totalmente montada, ou pelo menos o seu “esqueleto”. Passou os dedos finos pelo metal frio e sorriu.

— Falta apenas o acabamento...

As palavras ecoaram pelo espaço amplo que era seu quarto. Um barulho abafado veio de um dos cantos escuros, lá estava a jovem de olhos verdes e cabelos de cor de ferrugem, amarrada e amordaçada, mesmo assim fazia certos sons que incomodavam Miriam.

— Apenas desista, não vai sair daí.

Seus olhos se voltaram novamente para a pálida paisagem que sua janela exibia e ali se firmaram, apreciando a cena de inverno.

• •

A neve caía fria em todos os presentes, mas quem a sentia mais ali era o moreno de olhos cor de âmbar. A música triste que ecoava no espaço a frente não lhe confortava. Não lhe confortava saber que todos estavam ali quando a pessoa que mais queria era enterrada em um lugar sem nome, sob a neve fria, para sempre.

Jaafar observava em silêncio enquanto a neve era removida e o corpo de sua Anne sumia. Em Mar Alto as mulheres eram jogadas ao mar com uma coroa de flores, mas alí, naquela terra sem nome, não havia mar.

Aquilo tudo não combinava com o espírito alegre e jovem dela.

Saiu dali e seguiu para a tenda que haviam montado para que pudesse repousar, disseram que não poderia ir até o enterro, mas foi assim mesmo. Não iriam lhe impedir de ver o rosto de sua Anne pela última vez.

Agora já estava dentro da cabana, mas não sentia menos frio ou menos solidão. Olhou em volta. Perto do criado mudo estavam as duas facas de Mar Alto entalhadas com runas antigas. Aproximou-se e as encarou firmemente. Haviam sido limpas do sangue e cuidadosamente entregues um dia depois da morte dela. Perguntava-se se o sangue que estivera ali fora do assassino que matara sua amada. Os dedos de metal encostaram-se ao relevo das runas, mas não podia senti-las.

Outra coisa que se perguntava era se Anne teria continuado com ele mesmo com aquela deformação. Ainda estava se acostumando ao fato de ter uma prótese de metal ligada aos nervos do braço, se acostumando com a dificuldade de movimentos. Se acostumando à perda, a perda de muita coisa...

• •

Estavam se reconstruindo, aos poucos, mas estavam. Estavam indo em frente. O dirigível estava em melhores condições que antes, agora só faltavam as turbinas e as caldeiras. Iriam conseguir. Mas não conseguia se acalmar, Jade havia sido levada. Não sabia por que e isso lhe dava um cargo enorme. Culpa.

Havia deixado a chave com ela, pois achava que era sob qualquer suspeita. Por quê? Por que haviam tomado Jane? Por que ela? Frágil, indefesa... Parou em meio ao corredor. Agora o conselho tinha as quatro chaves, Nixxa poderia ser revivida.

A reunião começaria em pouco tempo, finalmente saberiam a verdade, saberiam se o traidor havia sido Joe ou não. Mas estava com medo, medo de ser a culpada de tudo. De ter acusado alguém injustamente, de ter ferrado com a vida de Joe por algo que ele não fez...

Forçou-se a continuar o caminho até a porta de bronze. Quando a abriu o ambiente na sala era triste. Jaafar olhava para o balcão, os olhos de âmbar sem brilho e o braço de ferro em cima da mesa. Val, a encantadora, tinha olheiras profundas e o semblante entristecido. Desmond e Emília estavam perto um do outro, o loiro passara a noite com a ruiva, amparando-a. Pietro olhava para fora da janela... Para a neve.

Não se moveram quando entrou.

Depois do juramento feito, o espaço mergulhou em um silêncio profundo. Ninguém tinha a coragem de falar, nem mesmo ela, a comandante.

— Não foi ele...

A voz do moreno das Aldeias Vermelhas se fez soar dura e fria como o ferro. E o que Martha temia se concretizou. Havia sido injusta. Joe era inocente. Abaixou a cabeça. Não tinha força o bastante para encarar á todos.

— Sinto muito...

— Claro que sente. Obviamente sente por Anne também... — Val falou, ríspida. — Pelo que mais você sente, respeitosa comandante?

Quando se virou para falar com ela, a mesma já havia se levantado e encaminhado até a porta.

— Não vou ficar aqui com alguém que sente por algo que poderia ter evitado.

Logo após Valentina desaparecer Jaafar se levantou.

— Desculpe, comandante. Val tem razão.

E saiu.

Martha sentiu naquele momento que, acontecesse o que acontecesse, tinha perdido os dois. Não só como membros leais da Steampunk, mas como amigos.

— Joe foi absolvido, seja lá onde esteja. A chave de fogo foi roubada, temos que enfrentar o conselho de frente assim que o dirigível estiver pronto. Que o Grande Mestre nos ajude, estão dispensados...

Desmond e Emília saíram juntos, Pietro saiu depois ainda com o olhar perdido, antes de fechar a porta Martha o sentiu olhando para ela. Logo após ouviu o som da porta de cobre se fechando com um baque.

As lágrimas escorreram pelo seu rosto e pediu mil vezes que a perdoassem. Pediu em silêncio, não para os que tinham saído, mas para os deuses.

“ Me desculpem...”

• •

Estavam andando a tantos dias que não conseguia saber quanto tempo se passara desde que fugira da Steampunk. Os cabelos negros agora maiores que o normal, os olhos azuis mais ariscos e sérios. Agora mais hábil com o punhal, cortava carne e ossos de uma pantera d’água que lhe atacava. Eram animais ferozes de tom negro azulado com olhos totalmente brancos. Lembravam a gatos muito grandes e aquáticos. Nos pântanos eram muito comuns, e era bem ali que se encontrava.

Em um momento não viu a pantera pulando e desviando do ataque e pensou que seria mordido, mas antes que algo pudesse lhe acontecer o animal explodiu em chamas azuis.

— Pare de ficar brincando com os gatinhos aquáticos, rapaz bonito.

A voz veio de uma das pedras baixas e cheias de musgo do pântano onde deveriam passar para ir até os Profetas Perdidos. Já se havia passado muito tempo desde que ultrapassaram as Aldeias Vermelhas e entraram no Pântano Sem Nome. Um lugar húmido e mal cheiroso com muitos animais estranhos.

— Não estava dormindo?

— Você também não estava?

— Ouvi barulho.

— Eu também.

Um sorriso cínico se desenhou no rosto do mais novo. Os olhos eram duas labaredas azuis crepitando na noite escura. Às vezes Joe achava que tinha perdido totalmente a cabeça por acompanha-lo até os confins de Viskar atrás de pessoas desconhecidas, mas não podia evitar. Era como se Acaiah o enfeitiçasse todas as vezes que o olhasse. Talvez fosse isso mesmo...

Mas não se importava, não mais.

E mesmo se quisesse voltar, não podia. Já havia feito um pacto com o filho das cinzas, se o deixasse, morreria pelo fogo. E sabia só de olhar os restos da pantera d’agua que aquilo era verdade.

Um pacto. Jurado por fogo e sombras, pelas cinzas e labaredas, pelo vermelho e negro, pela luz e escuridão. Acaiah levou um tempo para lhe contar tudo, Joe levou mais tempo para assimilar o que lhe foi contado. Mas primeiro teve que jurar e fazer o pacto. O encantador de fogo não lhe impediu de negar, também não tentou convencê-lo a ficar. Apenas deixou que escolhesse. E o errante escolheu.

Joe se lembrava de pouca coisa, nunca foi apto para contar histórias. Lembrava-se do que eram os Profetas Perdidos, mas não dos nomes que o garoto falara. Os Profetas eram um grupo de elite treinado sobre os elementos. Não só fogo, água, terra e ar, também havia gelo, ferro, vapor, areia e outros. Muitos outros. Mas apenas alguns levavam consigo o nome de Profeta Perdido. Apenas os que conseguiam transformar o corpo em uma rota contínua de seu elemento.

Assim era Acaiah, príncipe e encantador do fogo e filho das cinzas. E esse era o destino de Joe.

Em cada humano havia um elemento predominante. Acaiah tinha o fogo. Com o treino iriam desenvolver este elemento. Joe não sabia qual era o seu, o filho das cinzas dizia que era o ar.

Enquanto pensava nisso o sol ia surgindo, muitas poucas vezes paravam para dormir na noite. Nos primeiros dias fora difícil ficar em pé, mas se acostumou. E agora estavam andando novamente.

Um pouco mais tarde a vegetação densa do pântano começou a ficar precária até desaparecer por completo. A terra antes húmida se tornou vermelha e áspera. Logo se encontraram perto da borda de uma grande cratera. Um obelisco se erguia da terra vermelha, grande e imponente.

— Bem-vindo ao lar dos Profetas Perdidos, rapaz bonito.

Os olhos de Acaiah brilharam.

• •

Valentina olhava para o teto de sua barraca. Um pano cor marrom encardido, muito simples, apenas algo provisório para quando pudessem restabelecer morada no dirigível. Não demoraria muito, o conserto das caldeiras já estavam se iniciando, em questão de um ou dois meses poderia finalmente voltar ao seu quarto com cheiro de metal.

Estava tudo uma bagunça. Quanto mais pensava, mais achava que a morte estava próxima de mais para ser ignorada. Havia visto a expressão de Jaafar no enterro de Anne. Tinha medo de, em breve, se sentir como ele se sentia.

Por isso havia decidido.

Havia decidido falar.

Naquele momento estava tomando a coragem necessária.

De repente se levantou. Estava na hora. Olhou para o relógio tiquetaqueando em cima de alguns livros. Oito horas em ponto. Provavelmente ela estaria no laboratório mecânico. Passou pela entrada da tenda e sentiu o ar gélido noturno de inverno em sua pele. Quando viu que em uma pequena parte da campina, onde a neve ainda não havia tocado, lindas violetas cresciam sorriu e pegou uma.

Cada vez que se aproximava da grande estrutura de madeira montada em improviso mais seu coração acelerava. Mas não havia tempo a perder, ou melhor, já havia perdido tanto tempo...

Encostou-se à porta áspera de madeira cortada e mal tratada. Respirou fundo duas vezes e encostou os dedos na maçaneta, abriu-a devagar quando ouviu o que não queria ouvir.

— Emília, por favor, case-se comigo.

Congelou. Conhecia a voz. Conhecia-a muito bem. Mas ficou parada para ouvir a resposta.

— Eu... Desmond... Acho que...

— Não temos tempo a perder! Hoje vi Jaafar olhando para a própria namorada sendo enterrada! Não há tempo entende...

—... Ah... Desmond eu... Não tenho o que dizer...

— Diga que sim. Você se lembra? Dos beijos, das noites... De tudo...

Beijos? Noites? Havia sido cega todo este tempo? Apertou a mão na madeira da porta, sentiu a dor das farpas entrando em sua pele.

— Lembro... Como poderia esquecer. Então, sim, minha resposta é sim.

Tomou coragem e entreolhou pela fresta que havia aberto na porta a tempo de ver os dois se beijando. Por um momento achou que os olhos azuis de Desmond lhe olhavam com um ar de superioridade enquanto beijava Emília.

“Já basta.”

Deu meia volta. Sua mão direita estava arranhada pela madeira mal cortada, mas o que doía mais era sua alma. A flor que havia levado consigo se perdeu em algum lugar no caminho até sua tenda.

Provavelmente levada pelo vento.

O vento frio e cruel do inverno.

• •

Lá estava seu espelho. Sua irmã gêmea. Sua outra metade.

Ria e conversava sozinha como sempre fora seu costume. Nem sequer reparou quando entrou no salão.

— Líliam?

Pôde ver a cara de susto de sua pequena irmã se transformar em um sorriso largo e acolhedor.

— Irmã! Você me assustou!

— Sinto muito! Posso saber com o que você está a se divertir?

— Com minhas bonecas! – seu sorriso aumentou quando mostrou a Miriam as duas bonecas que ganhara de algum dos membros do Conselho.

— Posso brincar junto?

A loira, que estava sentada no chão com as duas bonecas de porcelana nas mãos, quase pulou de alegria.

— Oh, mas é claro! Você não pede para brincar comigo desde quando o papai e a mamãe morr...

Líliam interrompeu-se. Miriam sorriu. Agachou-se e pegou uma das bonecas de porcelana.

— Não vamos falar sobre isso certo irmã? Vamos até meu quarto. Lá há mais espaço para brincarmos.

Líliam sorriu e com a ajuda de Miriam se levantou e foram até o quarto. Quando os olhos azuis claros da garota pararam no canto e viram Jade amarrada e amordaçada, se remexendo e tentando gritar, uma expressão séria recaiu no rosto dela.

— Ela não vai brincar com a gente né?

— Não, não vai, maninha. Vem aqui, tem suco pra você.

Ela voltou o rosto a sorriu para a irmã pegando o copo de cristal onde se encontrava um líquido cor alaranjado. Olhou com os olhos brilhantes para a Miriam e virou o suco todo de uma vez engolindo.

— Adeus... Espelho meu.

Líliam não entendeu. A visão começou a se tornar turva até desaparecer completamente. Sentiu a garganta se fechar e largou o copo instantaneamente fazendo o cristal se quebrar de encontro ao chão.

— Leve-a, pode tirar os materiais. Não quero o cabelo, se não ficará muito parecida comigo, mas a pele... Os globos oculares... E a boca, sim a boca é perfeita.

Ouviu a voz da irmã ficar cada vez mais distante assim como o ar.

Miriam via seu espelho sendo carregado por Petric Armstrong. Optou por fazer assim, a irmã morreria pura e inocente em seu próprio mundo. Não veria o sofrimento e o terror que reinariam em pouco tempo.

Seus olhos recaíram sobre Jade que esperneava de encontro ao muro e a cadeira, chorando.

— Não se preocupe minha cara. Logo será sua vez.

Voltou-se para a janela onde a neve continuava caindo e encobrindo tudo. Tão claro e tão obscuro.

Notas finais
{ NOTAS DA AUTORA} ME DESCULPEM!!! Não queria ficar TANTO tempo sem atualizar a história! Com essa época de chuvas a minha casa alagou, ou seja, tive que limpar minha casa TODA! Isso atrasou o capítulo, não só dessa fic mas sim de um monte de projetos e de outra fic que escrevo!! Sinto muito! Sinto muito mesmo! Estamos chegando ao final da temporada!!! Me doeu escrever esse capítulo... Sério... Ninguém sofre mais que o próprio escritor para escrever algo de ruim com certos personagens! Continuem lendo e comentando!!! Até mais ♥