Steampunk: Do ferro ao sangue
10 C9 — Nostalgia
Notas iniciais
Miriam se encontrava mais uma vez na vasta sala do conselho. Alexei estava em uma das cadeiras mais altas e parecia animado. Falava dos planos, sim, finalmente despertariam Nixxa... Agora já possuíam a descendente direta e a chave do fogo.
— Enfim, o conselho de Luna prevalecerá sob a Steampunk. Finalmente vamos poder ter em nossas mãos algo que nos defenderá! O ritual será hoje, logo que a lua subir aos céus. E nós devemos tudo isso a Peter Armstrong e sua esposa. Obviamente, alguns tiveram que se sacrificar para isso, mas nós os honraremos... A Batalha se aproxima, meus companheiros...
Os olhos azuis da menina se voltaram para os únicos restantes na sala, Gian Bianchi estava mexendo com qualquer coisa na mesa, Peter Armstrong e sua bela mulher Amanda estavam se pondo atentos no que Alexei falava. Sorriu... Se Alexei soubesse que estava sozinho ali...
Já havia falado com os demais presentes no grupo. Não havia como dar errado, e quando a Steampunk atacasse, a organização também teria uma surpresa. Mais uma vez iria provar que o conhecimento e a estratégia eram mais fortes que a própria força bruta e o poder.
Alexei havia parado de falar e finalmente foram dispensados, Peter e Amanda saíram primeiro sendo acompanhados por Alexei. Sobraram apenas Gian e Miriam no recinto. A garota loira dos olhos azuis se levantou e foi acompanhada pelo garoto.
— Então, Milady Miriam. Ainda não compreendo seus motivos para tamanha vingança.
— Se não os compreende agora, Gian, não irá compreendê-los nunca.
— Não acha que chegou ao extremo? – Os olhos verdes se estreitaram e um sorriso debochado se desenhou no rosto do garoto
A loira sentiu uma dor de cabeça forte, e por um instante as memórias do dia em que matou sua irmã lhe voltaram à cabeça. Ele achava mesmo que isso lhe afetaria, riu baixinho.
— Gian, você pode ser muito perigoso. Ah, pode sim, por isso deveria ter apenas apagado você do jogo. Mas pode ser tão útil... Não me diga que está querendo mudar de lado?
— Isso está fora de questão, milady. Apenas estou curioso em saber qual o propósito disso tudo... – Miriam se virou e os olhos azuis se encontraram com os verdes e felinos do garoto – E lhe dar uma notícia que pode lhe agradar... Ou não...
A loira não esboçou expressão, apenas continuou olhando para os olhos verdes, esperando receber a tal notícia.
— Parece que um certo informante andou escondendo uma informação muito importante, milady. Logo após o trágico acidente do incêndio em que os seus pais morreram acharam um garoto perdido nas redondezas... E advinha quem o pegou, Milady? Sim, a Steampunk. Parece que seu informante lhe escondeu essa pequena parte. O seu irmão está vivo, senhorita, Joe Adaggio, certo? Ah, sim, ele vive... E serve á organização que você está tentando destruir. – Gian começou a andar deixando Miriam para trás – E diga ao seu informante que ele não deveria deixar a mente tão aberta quando tem uma informação assim tão promissora.
Miriam ouviu um riso irônico do garoto enquanto ele se afastava. Por um momento sentiu seus olhos se encherem de lágrimas... Mas não. Não havia como voltar atrás. Não agora. Se Joe estava vivo, agora ele não era mais o seu irmão, mas sim mais um membro da Steampunk.
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Corria o máximo que podia. Não acreditava no que o acampamento todo dizia. Tinha de ser uma mentira, apenas uma fofoca, só precisava que ele dissesse isso, que era tudo uma mentira.
Já podia avistar a tenda dele, onde haviam passado algumas noites juntos. Não podia se esquecer da sensação de estar nos braços de Desmond, será que ele havia se esquecido assim de tudo ? Tão fácil?
Quando abriu a tenda Emília estava lá. Desmond assustou-se com a entrada repentina de Pietro, mas logo voltou a sorrir.
— Ah, Pietro! O que faz aqui?
— Posso... Falar com você... Sozinho...
Emília achou estranho o tom de voz do amigo, olhou para o noivo que fez um sinal com a cabeça. Em poucos minutos estavam apenas Desmond e Pietro na tenda.
— Me diz que é mentira...
— Não há mentira, vou me casar com a mulher que amo – Sorriu ao dizer isso, o estado de Pietro era deplorável, havia olheiras em seus olhos onde lágrimas começavam a se formar.
— Como pôde fazer isso comigo? – disse entre soluços
— Que piada, você achava mesmo que aquilo tudo era de verdade? – Riu sonoramente – Era apenas diversão, meu querido. Apenas um passa tempo... Você foi um bom brinquedo, muito bom por sinal, mas está na hora de ser sério, certo?
Sentia suas pernas tremerem e as lágrimas quentes lhe escorrerem pelas bochechas. Brinquedo? Era isso que tinha sido para ele esse tempo todo? Apenas um brinquedo... ?
— Cruel... VOCÊ É UM CANALHA, CRUEL... – andou alguns passos e desferiu um tapa com toda a força que tinha no rosto do loiro.
— Mas o que está acontecendo aqui? – Emília entrou na tenda nesse exato momento. Quando viu as lágrimas nos olhos de Pietro se assustou.
O garoto não ficou mais ali nem um segundo, saiu correndo, esbarrando em Emília e fazendo-a cair. Correu, correu o máximo que pôde, até o alto da colina que escondia parcialmente o acampamento da Steampunk. Ali ninguém o veria, poderia chorar o tanto que quisesse sem se importar com o que os outros pensariam...
Por que era assim sempre tudo tão difícil? Por que não podia simplesmente ser feliz?
— Se é apenas isso que você quer... Então tenho uma solução...
Assustou-se com a voz, achava que estava sozinho. Quando se virou empalideceu, lá estava um garoto de olhos extremamente verdes. Não era da Steampunk, tinha certeza... Então só podia fazer parte do Conselho.
— Meu nome é Gian, e acho que posso te ajudar... Pietro.
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Finalmente estava pronto. Martha se encontrava perto das caldeiras, o dirigível estava totalmente restaurado. Finalmente poderiam atacar e resgatar Jade e as chaves de Luna... Finalmente...
— Acionem os motores!
Alguns membros da Steampunk colocaram mais carvão nas caldeiras fazendo o fogo aumentar. Logo os balões começaram a se encher de ar e os motores e propulsores que movimentavam o dirigível fizeram um barulho alto. Em minutos a sede móvel da organização estava no ar. As cordas que o mantinham imóvel repuxaram e Martha se sentia forte novamente.
— O DIRIGÍVEL ESTÁ PRONTO! PEGUEM AS SUAS COISAS! VAMOS EMBARCAR! — Anunciou para todo o acampamento improvisado da Steampunk.
Uma série de palmas e vivas se fez ouvir. Assobios e gritos de felicidade, a Steampunk havia voltado, e agora poderiam agir e virar o jogo a seu favor.
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Miriam se encontrava agora em seu quarto. Faltavam menos de duas horas para o despertar de Nixxa e sentia a adrenalina lhe correr pelas veias, mal podia esperar o momento. Mas por hora teria que esperar outra coisa. Havia convocado uma reunião para tratar dos últimos requisitos para o plano.
Os olhos azuis se viraram para Jade. A garota não se debatia mais, não tentava gritar. Miriam achava que ela havia se conformado com o fato que logo iria morrer.
A porta se abriu de repente e viu os Armstrongs entrarem. Peter sempre com seu porte forte e sério e Amanda, bela e sedutora.
— Vamos ter que esperar o pirralho-encantado? – disse a mulher mordendo o lábio inferior logo após.
— Receio que sim... Mas desta vez o atraso de Gian é perdoável... Ele nos trará a encomenda.
Peter segurou com força a cintura de sua mulher. Não gostava de saber que haveria outro homem no recinto, mesmo sendo “aquele tipo de homem”. Amanda se virou ao sentir o puxão em sua cintura e sorriu para o marido.
— Bem, por favor, sentem-se e fechem a porta. Vamos começar a reunião sem ele. Quero saber, já trocaram os androides?
— Sim – a voz de Amanda se pronunciou primeiro enquanto fechava a porta – Alexei não desconfiou de nada, jogamos o outro no rio, sem deixar trilhas...
— Ótimo, apenas nós saberemos quem é o verdadeiro criador de Nixxa, pelos menos até a hora certa... Agora só temos que esperar a Steampunk agir... Apenas esperar...
A porta se abriu novamente, mas desta vez quem estava do outro lado era Gian acompanhado de uma figura mais alta.
— Trouxe a encomenda, milady...
Pietro levantou o olhar, mas havia algo errado ali. Os olhos haviam perdido todo seu brilho, havia uma névoa espessa lhe encobrindo a visão.
— Bem-Vindo á nossa pequena família Pietro... Aqui você será bem vindo... Sempre. — Miriam sorriu um sorriso doce e seus olhos expressavam verdadeira alegria.
“ Parece que você perdeu seu posto de informante, Desmond “
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Cheiro de metal. Sentia-se tão bem por ter voltado ao seu velho quarto, era como se nada a afetasse ali. Se tudo desse errado, ainda teria aquele quarto com cheiro de ferrugem para lhe acolher...
Mas às vezes, o metal não era suficiente.
Ainda sentia a dor de ter sido deixada pela pessoa que amava. Tentava se esquecer daquela noite, mas tudo que conseguia era pensar sobre isso. A muitas noites não dormia... Desmond sabia de sua paixão por Emília. Por que ele fez isso? Fora que, Pietro havia lhe contado que estava saindo com o loiro... Por quê?
Perguntava-se se o amigo estaria sofrendo tanto quanto ela naquele momento.
— Val? Está aí?
Ouviu as batidas na porta de metal e a voz de Emília a fez pular da cama. Não estava preparada para encarar a ruiva, mas não havia como dizer não.
— Entra.
Quando viu os olhos verdes dela sentiu o coração doer. Ela estava tão feliz... E isso a irritava. Pois sua felicidade não era dirigida a Val.
— Ahn... Bem... Faz tanto tempo que nós não conversamos certo? – Emília parecia encabulada por algum motivo – E... Bem... Acho que você já sabe, certo? Eu lamento, não ter te contado sobre... Mas é que... Bem, vamos partir amanhã... E...
— Emília, vai direto ao ponto – Estava irritada e não conseguia esconder isso.
— Ahn... Desculpa, eu... Só queria te fazer um convite... Martha combinou o ataque amanhã, então eu e Desmond nos casaremos logo após... Então, eu queria muito que você... Fosse minha madrinha...
— Cai fora daqui... E leva teu convite de merda.
A expressão de espanto no rosto de Emília doeu, mas nada lhe dava mais ódio que a ignorância da garota. Como ela podia simplesmente ignorar todos os sentimentos que Val sentia assim? Machuca-la ainda mais...
— Não quero ser sua madrinha, peça pra qualquer um menos pra mim...
— Ah... Por que está sendo assim, Val? Eu... Eu não entendo... — A felicidade de Emília havia se esvaído e agora parecia prestes a chorar.
— Por que eu te amo, porra. Será que não entende? Não está óbvio? Por Luna, sai... Eu não quero te ver mais...
— Val... Eu...
— SAI!
Emília engoliu o choro, e saiu batendo a porta de metal com força. Droga, o que havia feito? Não podia mais conter a dor, estava em seu limite... Jogou-se novamente na cama e chorou como há muito tempo não fazia.
• •
Os olhos estavam embaçados, via pouca coisa. Sabia que estava sendo carregada por braços fortes, mas não conseguia distinguir o rosto do homem. Á frente dele havia uma figura pequena, mas altiva, os cabelos eram borrões loiros e parecia estar vestindo algum vestido de tom preto.
— Ponha-a ali, sim... Na cadeira...
Ouviu a voz feminina ordenar ao homem que a carregava e logo foi posta sentada em uma cadeira de madeira, grande. Ao seu lado havia outra pessoa, pelo menos achava que era uma pessoa, sentada na mesma cadeira de madeira. Alguns fios foram colados em suas têmporas e suas mãos e pés foram atados.
— O que vão... — tentava falar, mas os lábios não se mexiam — ... Fazer... O que vão... Comigo...
Viu outra figura se aproximando, outra mulher. Havia muito vermelho nela, vermelho como sangue.
— Se acalme querida, não vai sentir nada, certo? Usamos algumas drogas em você, logo você estará dormindo...
Ouvia claramente, mas não podia pensar no que diziam. Acabaram de atá-la á cadeira e logo as figuras se afastaram. Já não conseguia distinguir mais nada e sua visão ia se tornando escura, até já não poder enxergar coisa alguma.
“ Martha... Por favor... Me salve...”
• •
— Senhores e Senhoras do conselho. Estamos aqui para, finalmente, despertar a única que nos fará vencer a Steampunk e salvar assim a geração de Luna...
Enquanto Alexei falava, Miriam se sentia nervosa. Ali estava seu tão bem feito androide, lá podia ver os olhos azuis da irmã e sua boca perfeita, a pele macia e alva. Poderia ser facilmente confundida com uma humana normal se não fossem as partes de metal que lhe cobriam alguns dedos e uma parte do braço e perna. Fora isso, era perfeita. Do outro lado estava Jade, sua aparência era frágil e estava desacordada devido às drogas que lhe deram. Não a queria ver sofrer, ela não tinha culpa de ter sido a única filha de Luna.
Em breve iriam começar o ritual. Calculava que não demoraria muito até a Steampunk vir de encontro até o conselho. Estava esperando por isso, esperando ansiosamente.
— E agora daremos início ao ritual! Por favor, as chaves!
Já havia visto aquilo acontecer muitas vezes, mas eram só testes com prostitutas e androides incompletos... Havia esperado tanto por isso... Finalmente despertariam Nixxa. Gian entrou na sala carregando as quatro chaves, e cada uma foi colocada na máquina que daria início ao transporte de almas.
Alexei se dirigiu a alavanca e a empurrou sem nem pensar. Logo a energia se voltou toda para as têmporas de Jade, começando uma série de convulsões na garota. As chaves começaram a brilhar e a energia oscilava. Miriam se afastou mais... Não, a energia não poderia falhar agora. Alguns segundos depois e a energia pareceu aumentar, o brilho das chaves era insuportável e os olhos azuis se fecharam.
Segundos, intermináveis segundos.
A energia caiu. Fez-se escuridão e apenas a lua iluminava a sala.
De repente as luzes voltaram a se ascender e se depararam com uma cena horrível. Jade tinha o rosto e parte das mãos totalmente queimadas e desfiguradas. Mas não era isso o importante. Os olhos de Miriam foram até o seu androide, e lá estava ela. Os lindos olhos azuis tão semelhantes aos seus estavam abertos e seu peito subia e descia levemente, indicando que respirava.
— Finalmente... Bem-vinda, Nixxa... Minha rainha...
Ninguém viu, mas os olhares de Miriam e Nixxa se encontraram saudando uma a outra.
“ Seja bem-vinda, filha...”
“ Obrigada, Mãe...”
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