Steampunk: Do ferro ao sangue
8 C7 — Memórias de uma Tormenta
Notas iniciais
Sentia-se forte, confiante. Lá estavam eles, finalmente. O vento vinha forte de todos os lados e os olhos púrpuras de Anne fitavam os estranhos a sua frente. Havia um loiro sorrindo desdenhosamente, um garoto de olhos verdes cintilantes, quase felinos e por último uma mulher de cabelos ruivos escuros.
— Me deixa acabar com ela... — o loiro disse rindo logo em seguida.
Quem se aproximou, para a surpresa de Anne e de todos ali presentes, foi o garoto.
— Matteo, essa luta não é sua. Ouviu as ordens do mestre.
O loiro bufou e olhou com certa raiva para o garoto. A mulher ruiva apenas observava tudo em silêncio.
“ Anne...”
A voz do garoto ecoou em sua mente. Olhou para ele, mas não movia os lábios, apenas a olhava com uma expressão séria e com os olhos verdes cintilando.
“ Anne... Lute... Vingança... Você quer sangue... Sangue nobre...”
Os olhos dela se movimentaram rapidamente, não havia ninguém falando com ela. O garoto cada vez mais próximo. Empunhou suas duas facas e partiu ao ataque.
Pagariam por tudo.
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Os olhos azuis de Miriam se encontraram com os verdes de Jade e por alguns minutos o silêncio se instaurou no lugar.
— Não me lembro do meu passado. — Jade respondeu encarando a garota.— Fui adotada pelos pais de Martha, não me interessa quem me deixou naquela porta.
— Ah, mas a mim interessa. Sabe, Jade, você conhece os Deuses de Viskar ?
— Obviamente.
— Então sabe da história sobre Luna e o grande Sábio — Miriam sorriu — Mas aposto que não sabe da continuação... Sabia que o Grande Sábio não fora apenas “um grande amigo” de Luna? Sabia que havia outra pequena vida ali, escondida? E que o Grande Sábio preservou sua juventude por milhares e milhares de anos, até uma certa androide ter acordado de seu sono profundo e ter seguido as ordens de seu mestre ?
— O que você está querendo...
— Uma androide foi encontrada onde a chave de terra estava. — a garota loira olhou para a cama onde Jaafar estava. — A Steampunk foi mandada em missão atrás desta chave, mas nós do Conselho chegamos primeiro. Recuperamos a memória desta androide e lá um fato muito importante. Parece que o Grande Sábio tinha uma pequena filha, e que, antes de se envenenar, a protegeu da maneira que pôde em um procedimento muito difícil chamado “Guarda-Corpos”. O procedimento consiste em congelar um corpo e transferir a alma para uma das chaves, e parece-me que o elemento terra está em excesso no seu corpo. Suas pernas não funcionam, certo? Elas são feitas para se fixarem e não para andarem. Ele programou a androide para que a deixasse em segurança... Compreende o que digo, Jade?
— Eu sou filha de...
— Da Grande Sacerdotisa Luna, a harmoniosa, a grande portadora dos segredos e de seu fiel amante o Grande Sábio, dono da sabedoria infinita e criador das máquinas.
Jade se calou, seus olhos verdes encaravam com espanto a chave que portava em seu pescoço. Havia sido guardada ali, em uma pequena chave como aquela por mais de mil anos? Era filha de deuses ?... O que mais lhe intrigava era se Martha sabia daquilo tudo...
— Jade, eles esconderam de você, entende? Esconderam você do mundo, do seu passado, de nós. O Conselho de Luna, nós que fomos criados para proteger o mundo do caos... Entende?
Miriam percebia a confusão interna da garota de olhos verdes e se divertia internamente com isso. Obviamente Martha não sabia nada disso, só alguns do conselho sabiam. Só os que confiava.
— Tem de vir comigo... Para o conselho de sua mãe e não para o veneno que matou seu pai.
E essa fora a cartada final. Usar essa comparação foi a melhor ideia que já teve. Desta vez os olhos de Jade eram determinados.
— Irei com você, Miriam do Conselho de Luna...
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— VOCÊ NÃO PODE DEIXA-LA LÁ SOZINHA!
A voz de Valentina soou mortalmente alta. Sua expressão era de pura raiva. Não acreditava que Martha deixaria Anne lutar sozinha com aqueles monstros.
— Não vou mandar ninguém até lá, Val... Não adianta... Pode ser uma armadilha para que possamos nos desestabilizar... Não compreende que há mais que uma vida em risco?
— Não compreendo como pode ser tão incapaz diante uma situação dessas, Comandante... Se é que devo chama-la assim...
— Já basta, volte ao seu lugar!
Val mordeu o lábio inferior com força. Não podia compreender por que ela não mandava apenas alguns guardas para lá! Só para protegê-la...
Virou-se e andou até onde o primeiro esquadrão de batalha se encontrava. Emília a olhou com preocupação crescente.
— Vão ajuda-la?
— Não.
Dirigiu o olhar para a colina, onde uma figura baixa e outra alta estavam se movimentando rapidamente. Rezou mentalmente para os dois deuses, para que eles cuidassem de Anne.
Estava inquieta. Cansada de esperar por um ataque que não viria, cansada de esperar ordens. Pegou a arma que Emília havia feito para ela e se virou para todos os homens e mulheres armados ali.
— OUÇAM! Eu vou para a colina. Anne, a sombra, está batalhando sozinha. Se qualquer ataque acontecer, obedeçam a Emília. Ela tem as instruções!
— Não vá até lá! A Comandante mandou... — Emília disse aflita. Houve burburinhos e comentários e Val se virou para a ruiva.
— Que ela se foda, e que se fodam a suas regras, não a deixarei morrer sem ter feito nada! Espero poder contar contigo...
— Sabe que pode... Sempre...
Val sorriu, se aproximou de Emília e segurou seu rosto com as mãos, beijando a testa da garota e se encaminhando para a colina logo em seguida. A colina era íngreme, difícil de subir. Esperava que ela se mantivesse viva até que chegasse.
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Anne era rápida, desviava dos ataques do garoto com facilidade. Mas sua mente estava cheia. Vozes continuavam a falar e falar e falar... O garoto, mesmo não conseguindo acerta-la com os dois punhais, era tão rápido quanto ela e por ser pequeno era mais difícil de acertar.
Mas logo veio. O sangue.
O primeiro a ser ferido foi o garoto de olhos felinos. Um corte no braço, não muito, mas renovou as esperanças de Anne. A partir desse golpe começou a ataca-lo sem parar. Quando as duas armas se encontravam o metal soava e soltava faíscas tamanha a força que era aplicada nos golpes. A mente de Anne ainda estava cheia, mas seu ódio cobria todas aquelas vozes perturbadoras. Podia se concentrar. Precisava fazê-lo cair. Mais uma vez seus olhos se moveram rápido e ali viu uma pedra. Logo atrás perto do loiro.
Começou a atacar mais rápido desta vez direcionando para pedra. O garoto sorria cada vez mais, como se soubesse de tudo que iria acontecer, e Anne se perguntava se ele sabia mesmo. Tinha medo da resposta.
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Pietro não sabia ao certo o que estava acontecendo. Olhou para a colina e viu sombras batalhando. Lá estava provavelmente Anne. A comandante deu ordens de não abandonar os postos, pois aquela luta poderia muito bem ser uma armadilha, mas Pietro não conseguia se sentir bem com aquilo. Estava inquieto. Não sabia ao certo se era por ver uma amiga batalhando sozinha ou pelas lembranças da outra noite. Não conseguia nem sequer encarar Desmond nos olhos.
Olhou para o lado onde podia ver os cabelos loiros refletidos pela lua. Olhava fixamente para a colina quando começou a correr em direção a linha de frente onde deviam estar Emília e Val.
Pietro achou estranho. Quando sua visão recaiu sobre a colina havia mais uma sombra se mexendo, estava subindo em direção a batalha.
“Droga... Val... Se atacarem a gente não vamos ter organização. Uma parte do exército não vai ter comando... Desgraça.”
Não a culpava. Anne era amiga de todos ali. E Valentina nunca deixaria alguém morrer sem ter podido ajudar. Mesmo que Anne derrotasse um deles os outros a fariam em pedacinhos. Sabia disso. Val sabia... Até a Comandante sabia... Ali estava a sentença de morte de Anne se Val não chegasse a tempo. Todos sabiam.
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Quando sentiu que acertara o ar seu coração parou. Olhou para baixo e o garoto de olhos felinos estava deitado na grama e o punhal havia voado para longe. Sorriu, não pensou duas vezes e atacou o garoto. Fechou os olhos, sentiu as lâminas perfurarem roupas, carne e ossos. Gotículas de sangue espirraram em seu rosto.
Mas quando abriu os olhos se sentiu desnorteada.
Seu punhal não havia acertado o garoto. Era alto e forte. Loiro. Parecia loiro. Sua visão a confundia, como se algo estivesse controlando sua mente. E quando seus olhos se levantaram para encarar sua vítima já não havia mais o homem loiro ali, mas sim um moreno que conhecia tão bem. Que havia amado tão bem.
— Jaafar... Eu... Não queria...
O garoto sorria enquanto seus olhos passavam da cor verde para um púrpuro escuro e sombrio.
Anne andou alguns passos para trás, largando a faca de mar-alto no homem que pensava ser Jaafar enquanto este caía ao chão cuspindo sangue. Lágrimas escorreram pela face pálida e doente da garota e ela se deixou cair na grama verde da colina. Ouviu a voz do garoto em um tom de cinismo.
— Amanda... Por favor... Acabe com a dor desta pobre alma...
— Como quiser.
A mulher ruiva surgiu das sombras atrás de Anne e pegou um dos punhais do garoto que haviam sido arremessados quando este caíra. Sem muito esforço segurou a garota pelos cabelos e os puxou com força.
Anne não fazia som algum. Só havia lágrimas correndo sem cessar pelos seus olhos. Nenhuma emoção, nenhuma palavra.
— Mentes e memórias são coisas perigosas.
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Enquanto era carregada gentilmente por um homem muito grande e forte Jade pensava se estaria fazendo a coisa certa. Queria saber mais sobre seu passado, quem em sua situação não queria? A chave que guardava em seu peito era dela por direito, mas como havia prometido a Martha a protegeria. Seu rosto se virou enquanto era carregada para fora da tenda da enfermaria e seus olhos verdes encontraram outros que eram cor de âmbar. O moreno observava com uma expressão estranha no rosto. Jade se sentia feliz por ele, por ele e por aquela mocinha que sempre vinha visita-lo, deviam se amar muito.
Quando saíram o vento frio da noite fez sua pele arrepiar. Olhou para frente e viu a pequena Miriam andando pelo caminho escuro. Sem medo.
Jade pensou que ela deveria ter tido uma vida muito dura para não sentir mais medo de nada. Afinal era uma criança. Crianças eram feitas para ter medo de tudo, pois eram pequenas e indefesas.
Olhou para a lua e para aquela noite que parecia fria e inquieta. Algo devia estar acontecendo, algo importante. E enquanto se perdia em seus pensamentos não via a figura eminente do castelo negro se aproximando. Cada vez maior e imponente, sombrio e escuro. Cheio de segredos.
E Jade se perdia entre as estrelas. Perdia-se no seu passado.
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Quando Val chegou ao topo da colina seu coração se apertou em desgosto.
“ Tarde de mais...”
O corpo de Anne se encontrava a alguns centímetros mais afastado que sua cabeça, banhado em sangue. O vento soprava frio enquanto descia a colina e quanto avistou os olhos ansiosos de Emília não teve como falar.
E mesmo assim ela entendeu.
Desmond abraçou a ruiva e ela começou a chorar copiosamente entre os braços do loiro. Pietro chegou pouco tempo depois e logo que ficou sabendo da notícia foi embora. Val sentou na grama ali no acampamento e olhou para o céu...
Quando as pessoas foram dispensadas aos poucos e o corpo de Anne foi levado para a Steampunk, Valentina continuou lá. Ninguém veio chama-la. Emília foi embora acompanhada de Desmond e Pietro não foi visto mais. Foi quando a notícia foi dada. Muitas notícias foram dadas.
Primeiramente a chave de fogo havia desaparecido. Junto com ela uma jovem moça chamada Jade. Alguns especulavam que Jade havia sido sequestrada para que pudessem pedir quantias de dinheiro como resgate. Mas isso não assustava Val.
O que lhe assustou foi a última.
Jaafar havia acordado de seu coma.
Esta notícia fez Valentina se levantar e correr até a enfermaria. Quando seus olhos encontraram os do homem, abertos e molhados pelas lágrimas, sentiu-se culpada. Culpada por não ter salvado Anne, culpada por ter deixado a garota sozinha enquanto sofria. Culpada...
— Eu tentei.
— Sei que tentou...
E ali permaneceu, com o moreno, naquele lugar cheirando a doença e morte. Chorando pela alma de Anne.
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