Steampunk: Do ferro ao sangue
5 C4 — Queimando a Verdade
Notas iniciais
Joe sentia o cheiro pútrido das celas das masmorras só de pensar nelas. Ficavam na ala Leste do dirigível da Steampunk, muito perto da sala das caldeiras o que as fazia extremamente quentes. As masmorras comuns ficavam abaixo dos castelos e por isso eram frias e lá encontravam muitos ratos vivos. Nas Masmorras da Steampunk se encontravam ratos também, mas mortos.
Enquanto os guardas e ele desciam o lance de escadas o solo ia ficando cada vez mais quente e podia se dizer o mesmo do ar.
— Você se ferrou nobrezinho de merda.
O fato de ele ter o sangue do Conselho correndo nas veias com certeza não lhe ajudou muito na organização. Poucos membros lhe referiam a palavra e mesmo assim não havia ninguém ali que pudesse chamar de amigo. E agora estava passando pela humilhação de ser levado por aqueles que mais o detestavam.
— Anda nobrezinho, não temos o tempo todo pra gastar com você...
Joe apenas ignorava, se tentasse alguma coisa provavelmente o matariam sem nem hesitar. Sentia as gotas de suor escorrendo pela testa... Estavam chegando perto. Quando pararam ergueu os olhos os guardas estavam abrindo um imenso portão de metal e de lá de dentro ar quente saiu.
Empurraram-no para lá e enquanto ele e os guardas iam andando por entre as celas, o estômago de Joe dava voltas e voltas. Havia cadáveres em quase todas, muitos em decomposição já muito avançada, também havia ratos, poucos deles vivos. Faziam um calor infernal e parecia que uma luz vermelha emanava das paredes. Os cabelos de Joe grudavam em sua nuca.
— Mas que bela surpresa, temos uma visita.
Ele levantou o olhar para cela em que tinham parado. Havia uma sombra negra no fundo, era de lá que a voz vinha.
— Calado, lixo. Revistem-no... Rápido, aqui faz um calor desgraçado.
— Que sexy... – novamente a voz na escuridão da cela se manifestou.
— Eu disse pra ficar calado.
— Comandante Martha está com o meu único punhal, não tenho mais armas. — Joe se manifestou. O guarda olhou para ele e depois para os outros que o acompanhavam.
— É verdade senhor, a Comandante estava com o punhal do traidor.
— Bem, se é assim... Aqui está a sua cela, nobrezinho. Espero que te agrade.
Todos riram e quando pararam abriram a cela e jogaram-no lá. Os guardas deram meia volta e se encaminharam para a saída, ainda rindo e conversando a respeito. As vozes foram se distanciando cada vez mais até sumirem completamente. Ali no silêncio, o calor parecia ser mais do que insuportável.
— Ora, mas o que um belo e jovem rapaz faz por estas bandas...?
Joe encostou a cabeça na parede de metal, se sentia fraco e sua garganta estava seca. Ignorou totalmente o estranho colega de cela. Tudo ali parecia vermelho e quente. Se perguntava se trariam água ou algo assim... Pelo estado dos cadáveres achava que não.
— Se ouvi bem parece que foi acusado de traição... E me parece realmente um garoto muito mal, pois está escondendo uma arma dos guardas... Pretende fugir?
Voltou os olhos para a estranha figura encapuzada. Como ele sabia? O calor não parecia o estar afetando, pois continuava na mesma posição desde quando entrara, as mãos estavam ligadas a correntes que estavam entalhadas com várias letras de línguas que não conhecia.
— Mesmo que consiga abrir a cela, querido... Ainda há um portal de uma espessura considerável para você passar.
— Quem é você?
— O novato aqui é você, rapaz. Deveria ser eu a lhe perguntar... Mas se insiste...
O estranho jogou o capuz para trás. Os cabelos negros eram curtos e as pontas eram da cor de chamas de vermelho vívido, a pele era muito branca e isso contrastava com toda sua aparência, não parecia ter mais de dezesseis anos ou até menos e quando voltou os olhos para Joe, este poderia jurar que havia chamas crepitando em um azul arroxeado...
— Acaiah, filho das cinzas e encantador de fogo. E acho que seria mais que educado se você se apresentasse também... Rapaz bonito.
Ficou alguns momentos em silêncio encarando os olhos de Acaiah. Eram estranhamente atrativos. Não gostou do apelido que o outro lhe deu, mas não estava ali para caçar briga.
— Joe Adaggio
O que ele disse era verdade, mesmo abrindo a cela não conseguiria passar pela porta de metal maciço. Provavelmente nem sequer lhe dariam um julgamento, o deixariam ali até morrer. E pior, ninguém daria à mínima, pois achavam que Joe Adaggio já havia sido morto a muito tempo.
“ Desgraçados... Maldita Steampunk”
— Então, rapaz bonito de nome Joe, sua traição deve ter machucado bastante pessoas.
— Sou inocente. — Ouviu a risada de Acaiah ecoar pelas celas.
— Ah eu também sou, acham que fui eu que queimei aquelas vilas... Parece que ignoram alguns fatos apenas para acharem os culpados, certo? Sabe que eles não vão dar a mínima para você, certo? Você será apenas mais um cadáver aqui em questão de dias... Mas não te culpo pela sua humanidade... Eu também estaria em apuros se o fogo não dominasse meu corpo.
— Como ?... A quanto tempo está aqui ?
— Tempo o bastante, Joe... Tempo o bastante... Que tal me ajudar a sair? Posso te recompensar...
Joe riu, encostou-se à parede e ouviu as caldeiras funcionando a todo vapor... E fogo. Suas roupas estavam pregando, não entendia como o garoto do outro lado da cela continuava com aquele capuz. Estava com vontade de tirar todas as peças que usava no corpo e mesmo assim tinha certeza que o calor não se dissiparia. Fechou os olhos.
— Ah vamos rapaz bonito. Tenho certeza que além de beleza há também inteligência aí. Sabe muito bem que não vamos sair daqui vivos... Você pode durar menos que eu, mas meu corpo também precisa dos outros quatro elementos, certo?
A voz dele circulava pela sua mente. Não havia dito nada errado, mas ainda havia sua honra a ser testada. Não iria soltar um criminoso.
Honra?
— Cale-se.
Quando abriu os olhos encontrou os de Acaiah. Estavam mais perto do que antes. O garoto estava engatinhando em sua direção. As mãos ainda presas pelas algemas com inscrições em línguas desconhecidas e um sorriso perverso desenhado em seus lábios.
— Longe de mim...
— Vai me machucar com o punhal?
Ele riu como se tudo não passasse de uma piada. O garoto se pôs de joelhos e encarou Joe com seus olhos flamejantes. Eram tentadores, assim como o fogo. Pareciam chamar por ele...
— Vamos Joe... Eu sei o que você quer... Você pode ter sido um dos bonzinhos por alguns anos, mas não pode esconder sua natureza, pode?
Acaiah colocou os seus braços em volta do pescoço de Joe e sentou no seu colo. A pele dele era como brasa ardendo, não tinha forças pra afastá-lo ou machuca-lo e sabia perfeitamente disso. Também sabia que mais uma vez que só falava verdades que queria esquecer, mas quando os olhos azuis arroxeados se aproximaram viu claramente o que queria.
“ Que queimem todos...”
O primeiro que viu sucumbindo às chamas foi Pietro, incompetente insuportável, falava muito, mas agia pouco e o culpava sempre que algo dava errado. Logo depois todos os malditos guardas que o haviam jogado ali. Por fim aqueles que haviam acabado com sua família... Suas irmãs, seus pais... Todos queimando nas chamas do ódio que lhe consumia.
As chamas só aumentaram e quando voltou a si parecia que a cela em que ele havia sido trancado estava em chamas. Os lábios do garoto lhe tocavam gentilmente a orelha sussurrando indecências e mordiscando lascivamente.
— Se você me soltar eu posso te tirar daqui... E como você é um rapaz bonito, posso lhe recompensar de outra forma... Ainda mais se sairmos daqui vivos.
Sentiu a língua dele descer até seu pescoço deixando um rastro molhado de saliva. Quando Acaiah voltou a encara-lo as duas chamas azuis estavam vermelhas. Era sua única esperança... E não era bem do tipo mocinho.
Joe tirou o punhal da calça. O metal brilhou com a luz vermelha das masmorras. O filho das cinzas estendeu as mãos seladas e ele colocou a ponta afiada do punhal onde havia a fechadura.
— Conhece engrenagens, rapaz bonito?
— Joe... Já te disse meu nome. E sim, as conheço muito bem.
Alguns segundos depois um sonoro clique ecoou pelas celas. As algemas se abriram como mágica e caíram das mãos de Acaiah que sorriu de modo maligno. Este se levantou e caminhou até as grades do pequeno espaço em que se encontravam e tocou cada uma gentilmente. Foi o bastante para que começassem a se derreter. Joe olhava surpreso para aquilo tudo.
— Agora vou te recompensar...
Acaiah se aproximou novamente e empurrou Joe no chão de metal, sentou-se em cima do seu quadril e se inclinou para o mais velho tocando em uma mecha cor de ébano, logo deixou seu dedo resvalar até o queixo dele. Aos poucos foi se aproximando, ainda com o sorriso perverso desenhado no rosto, até seus lábios se encontrarem com os de Joe que abriu os seus lentamente e num impulso levou a mão até a nuca de Acaiah inserindo sua língua naquela boca quente.
Tudo naquele espaço parecia estar queimando enquanto beijava o filho das cinzas. A sensação da língua de Acaiah se movendo dentro da sua era muito gostosa e quando se separaram ambos estavam ofegantes e excitados.
O mais jovem se moveu rápido retirando o manto negro que o cobria e fez o mesmo com a camisa de Joe e novamente devorando a boca do mais velho.
O quadril de Acaiah movia-se, pressionando seu próprio membro contra o abdômen do outro, gemendo baixinho enquanto fazia isso a fim de provoca-lo. Havia passado muito tempo preso e contido naquela cela, agora não podia mais controlar o fogo em sua personalidade. E com esse pensamento, voltava a se esfregar, até que apertou seu corpo contra o pênis de Joe, levantando e abaixando o seu dorso, simulando a penetração.
Joe atacou a jugular do filho das cinzas, mordendo e chupando, tentando controlar seu desejo. A necessidade de sentir mais prazer retirava qualquer pensamento decente da sua cabeça. Sua mão continuou apertando a carne macia do mais novo que gemia lascivamente contra sua orelha. Seus dedos continuaram a avançar até que chegou ao meio de suas nádegas, passando o seu dedo do meio por ali para depois começar a penetrá-lo.
Inverteu as posições ficando por cima de Acaiah que gemeu em protesto. Joe riu e começou a retirar a sua calça revelando o falo ereto e pulsante. O mais novo mordeu o lábio inferior. Se ajoelhou na frente de Joe e lambeu a extensão e começou a chupar a glande e logo depois colocou o volume todo na boca chupando com gosto.
Joe gemia descontroladamente. Sua mente estava vazia, apenas sentia a boca quente e molhada de Acaiah. Um arrepio correu pela sua espinha e gemeu mais alto derramando seu sêmen na boca do garoto.
— Que rude... Nem me avisou – o garoto comentou dando uma risadinha em seguida.
Acaiah se levantou e prensou Joe contra a parede de metal quente sussurrando no seu ouvido.
— Primeira parte da recompensa está paga... A outra vem quando sairmos daqui...
O garoto riu em seguida. Joe não pôde deixar de se sentir descontente, mas concordou. Tinham que sair dali primeiramente.
•••
Havia muitas pessoas correndo para todos os lados, Pietro era uma delas. Corria rapidamente em direção à plataforma norte onde todos os membros principais da organização haviam sido chamados com urgência e bem... Agora que estava ali podia ver que era realmente uma emergência.
Um balão movido a gás flutuava graciosamente no céu azul e na borda do cesto que este carregava havia uma garota de olhos incrivelmente púrpuras e de cabelos de um tom castanho ferrugem que usava um pequeno chapéu enfeitado com engrenagens da mesma cor. Um sorriso debochado lhe enfeitava o rosto muito pálido enquanto balançava as pernas para lá e para cá.
Pietro se aproximou mais da borda do dirigível passando por todo o tipo de integrante da Steampunk até se juntar a Valentina e o resto dos colegas.
— Parece que o traidor deu a rota do dirigível...
— Maldito.
Quando a garota viu que todos estavam reunidos olhando-a o seu sorriso debochado se alargou. Pegou um estranho engenho e começou a falar por ele, parecia que funcionava para propagar as ondas da voz dela.
— Olá a todos da Steampunk. Aqui quem vos fala é Marie La Vie, mais conhecida como Mad Hatter. Venho falar em nome do Conselho de Luna e pretendo não lhes fazer mal algum, claro, se colaborarem comigo.
A garota vasculhou no cesto atrás de si e levantou uma grande engrenagem enferrujada que parecia estar equipada com mais alguns engenhos.
— Isto aqui, senhores, é uma especial invenção que foi feita pelo mestre do nosso Conselho. São engenhos que explodem, carinhosamente chamados de bombas. Elas tem o mesmo efeito que a dinamite, senhores. Não querem imaginar o estrago que faria se caíssem em um dos seus motores. – Mad Hatter se virou novamente e guardou com cuidado a engrenagem – Então sugiro que me entreguem logo o que quero, e eu sei que vocês sabem o que eu quero.
Todos ficaram petrificados. A Comandante Martha logo apareceu e ordenou que todos ficassem atentos e se dirigissem aos próprios dormitórios. Ficaram na plataforma apenas Anne, Desmond, Val, Emília e Pietro.
— Não podemos dar a chave para ela! – Emília disse com uma voz aflita — Se eles tiverem as quatro chaves será o fim de Viskar.
— Eu sei, Emília, mas há muitas vidas em jogo aqui.
— Parece que as bombas estão no balão. Apenas temos que a fazer cair. Podemos mandar alguém que seja silencioso comandar uma das máquinas de Emília e se aproximar o bastante para que possa perfurar o balão.
— Talvez seja uma solução...
— Eu vou.
Todos olharam para Pietro, era de fato o mais silencioso dos membros. Mas era uma missão arriscada... Se conseguisse furar o balão de ar teria que sair do local o mais rápido possível, pois o contato do gás e do ar provavelmente faria alguma explosão ocorrer.
— Você tem certeza? – a voz de Desmond soou preocupada e Pietro sentiu o coração disparar por alguns segundos.
— Sou o mais ágil daqui... Não vai ser tão difícil.
— Então está decidido, Pietro você irá sair pela plataforma lateral assim ela não poderá te ver, vai atravessar o dirigível por baixo e surpreende-la por trás... Ok? Emília irá com você para a plataforma.
— Entendido.
Quando se separaram Pietro olhou de relance para Desmond e seus olhos se encontraram com os dele por alguns segundos, o bastante para vê-lo lhe sorrir. Emília logo o chamou e teve que desviar os olhos do loiro. Se encaminharam para a plataforma onde os veículos estavam postos em linha reta, um atrás do outro. A ruiva olhou para Pietro com preocupação.
— Assim que estourar o balão de gás... SAIA RÁPIDO. Há muitas chances de explosões acontecerem.
— Tudo bem, não se preocupe Emília, cuide da Val direitinho se eu morrer.
Emília sorriu melancolicamente. Pietro entrou na nave. Sem muita dificuldade começou a flutuar e se dirigiu para a imensidão azul. Quando saiu, percebeu que o céu estava se tornando cinza aos poucos. Iria chover.
Como lhe foi dito, se direcionou para baixo e atravessou a extensão do dirigível até ver o fundo do cesto que o balão carregava. Quando viu que estava a certa distância começou a subir lentamente.
Lá em cima Val estava com a maleta da chave nas mãos. Haviam dito que a entregariam para não poder levantar suspeitas, mas na verdade não havia nada lá dentro. Tentou se aproximar o mais lentamente possível, até ver a nave que Pietro comandava surgir atrás do balão.
— Me dá... Passa pra cá, rápido.
Val estava na beirada de ferro que a impedia de cair do dirigível, e quando a maleta estava roçando nas mãos de Marie ouviram uma sonora explosão.
— Mas o que está...
A garota se desequilibrou puxando a maleta e viu que Pietro saiu em disparada com a nave para o outro lado do dirigível.
— Bastardos... – Mad Hatter riu enquanto agarrou uma das bombas que tinha no bolso e a lançou em direção à nave em que Pietro estava. Logo em seguida soltou a maleta e caiu.
— PIETRO!
Na nave Pietro sorria, havia conseguido. Tinha diminuído a velocidade da máquina. Foi quando sentiu um impacto atrás da nave. Olhou para a janela e viu Desmond do outro lado, no dirigível, fazendo sinais com as mãos, alarmado. Estava quase perto das caldeiras.
“ Mas o que diabos está acontecendo ?”
•••
Um barulho pavoroso veio das caldeiras. Joe e Acaiah já haviam se recomposto e saído da cela. Agora Acaiah estava derretendo as camadas de metal.
— Vai mais rápido... Tem alguma coisa de errado lá em cima.
— Não é como se fosse fácil derreter uma porta de metal maciça, sabe, rapaz bonito.
— É JOE...
Acaiah riu. Começou a sentir que o aço estava bem mais fino e em poucos segundos viram as escadas do outro lado. Quando o fogo derreteu o metal o bastante, passaram apressados. Outro barulho de explosão e dessa vez incrivelmente perto.
— A Steampunk está sendo bombardeada?
— Na melhor das hipóteses é só a Emília fazendo experiênc...
— Acho que não.
Acaiah apontou para as labaredas de fogo que se alastravam pelo corredor subindo em direção a eles. Não daria tempo de fugir, as chamas eram rápidas de mais. Sentiu os braços do filho das cinzas lhe envolverem a cintura.
— Quietinho, rapaz bonito, do fogo cuido eu.
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