Steampunk: Do ferro ao sangue

6 C5 — Jogue-os para baixo


Notas iniciais
EDIÇÃO: 13/05/2015

Sentia-se nauseado. Se olhasse para baixo veria a imensidão que lhe esperava, se aproximando. Há alguns instantes poderia ter morrido se não tivesse percebido o que Desmond dizia do dirigível. Só teve tempo de se lançar ao ar.

“TEM UMA BOMBA, PULA!!!”

Abriu a porta da nave que estava em movimento e pulou rezando ao Grande Sábio e a Sacerdotisa que a distância não fosse muita e suas preces foram atendidas. Bem, isso não ia mudar muita coisa, pois ainda estava caindo, mesmo segurando firmemente a mão do loiro. Ainda estavam caindo.

O automóvel explodiu sonoramente quando atingiu as caldeiras do dirigível e agora eles caiam em uma velocidade surpreendente. Desmond estava tentando iça-lo para dentro, mas estava tendo muita dificuldade.

Olhou para baixo em um impulso e viu o campo verde se aproximar, engoliu em seco. Obviamente não queria morrer, havia muita coisa a fazer. Olhou para cima e se deparou com os olhos muito azuis do loiro, estavam lacrimejantes devido ao forte vento que a velocidade provocava.

Segurou mais forte as mãos dele e se viu sendo puxado para cima, olhou de novo para baixo, estavam mais perto do chão.

Não pensou muito no que fazer, olhou de novo para os olhos azuis de Desmond e o beijou.

Simples, fácil.

• •

— Mas que filha de uma puta...

Era muito raro ouvir Emília falando palavrões, mas nesse caso era aceitável. Estavam caindo, não sobreviveria ninguém se o dirigível se chocasse com o solo. E isso todos sabiam e temiam. Alguns dos integrantes da organização rezavam em murmúrios para o Grande Sábio. A ruiva apertava botões freneticamente tentando diminuir a velocidade do impacto sem obter resultados, ela se virou para Val com uma expressão séria.

— Val, você vai ter que descer... Os paraquedas de emergência, eles vão nos parar, e se não nos pararem teremos que entregar nossas almas para a Sacerdotisa Luna.

Valentina concordou, deu um abraço apertado na ruiva e se encaminhou para fora da sala de máquinas. A Steampunk estava um caos, pessoas corriam desesperadas para todos os lados em meio a fumaça que atrapalhava ainda mais a visão de Val. Consertou o tapa-olho e correu. Em poucos minutos o dirigível poderia estar atingindo o solo.

A organização, que tinha sua sede em movimento, sempre achou necessária uma medida de segurança para caso fossem atacados no ar. Claro, ninguém jamais pensou que um dia descobririam as rotas da Steampunk por que afinal eram decididas em uma reunião sigilosa.

Quando avistou o grande globo com o lema “Memento Mori” se apressou ainda mais, alcançou o corrimão da escada e pulou, alcançando um relevo na lateral do globo. Jogou todo seu peso para baixo e as cordas que o prendiam ao teto foram se arrebentando uma por uma e o grande monumento de ouro foi cedendo ao peso. Val via o mapa de Viskar desenhado abaixo de seus pés se aproximando mais até que ouviu um estalido.

Seus pés tocaram o chão e o globo do lema desceu junto com ela. Metais se deslocaram no teto abrindo um espaço circular revelando o céu acima deles. Mais um estalido e dois grandes pedaços de pano se abriram de encontro ao vento.

— Que Luna nos ajude.

• •

Na cabine de comando, Emília sentiu o súbito puxão, afinal tinha dado certo. Teria que manobrar o dirigível até encontrarem um espaço vago nas campinas para pousar.

“Que o Grande Sábio, nos dê sorte...”.

Da grande janela da cabine podia ver uma vasta colina verde, mas era íngreme de mais, se pousasse ali provavelmente os danos ao dirigível seriam muito maiores. Se pudessem ficar no ar só mais um pouco... Havia um campo... Logo após a colina.

“Só mais um pouco. Precisamos ser mais rápidos.”

Pegou um dos transmissores e rezou para que o salão principal tivesse algum rádio por perto.

Val olhou para o globo e percorreu a mão entre os entalhes escritos. Foi quando um chiado começou e logo a voz de Emília encheu o salão.

“Val, precisamos ir mais rápido! Tem uma colina... Temos que ultrapassa-la, há um campo logo depois. Corta uma das cordas... Corta...”.

A transmissão falhou, um chiado horrível se fez soar e logo depois silêncio. Val tinha entendido, olhou para cima, para as cordas que seguravam o globo do lema. Teria que subir por elas para poder cortar a do paraquedas.

— Maldita colina do inferno.

Valentina olhou para os lados e gritou para que alguém lhe trouxesse um punhal ou algo do gênero. Quem apareceu por lá foi Sunny e seus grandes óculos, desta vez mais apavorado do que o de costume, lhe entregou uma faca e saiu correndo com medo.

Val começou a subir pelas cordas do melhor jeito que podia, com a faca na boca. O tapa-olho lhe atrapalhava bastante a visão, mas logo sentiu o vento forte no rosto. Estava em cima do dirigível e os dois pedaços de pano funcionavam bem, quando se virou pôde ver a colina.

“Ok... Corte a maldita corda e saia.”

Emília sentiu a velocidade aumentando. Quando ultrapassaram a colina urrou de alegria, o pouso seria complicado, mas a campina estava ali, verde e plana. Quando a velocidade diminui bastante se atreveu a descer e quando o fez o dirigível começou a afundar na terra fazendo um terrível barulho.

“ESTAMOS SALVOS”

• •

Joe sentiu, não era bem dor, mas sentiu o calor das chamas passarem por ele e Acaiah. Pensou que iria morrer, que a dor o consumiria assim como ao garoto, mas nada tinha acontecido a eles quando abriu os olhos. As paredes de ferro estavam totalmente queimadas e fumegavam, o chão estava no mesmo estado. A sensação térmica foi às alturas depois daquela explosão.

O filho das cinzas sorria com orgulho. Segurava a mão de Joe com força e este sentia o calor emanar do corpo do garoto. Ele havia lhe salvado a vida e agora estava em dívida com ele.

— Acho melhor nos mexermos, rapaz bonito. Seja lá o que aconteceu a Steampunk parece que paramos.

Joe havia percebido isso, não se movimentavam mais. Teria o dirigível sido atacado? Não havia muito tempo para pensar, ele e Acaiah já estavam correndo por escadas e corredores procurando qualquer saída.

Por todos os corredores não havia nem sequer um guarda ou mesmo alguém que fazia parte da Steampunk. Nem uma alma viva. Quando alcançaram certa parte do dirigível Joe puxou Acaiah em outra direção. Por ali ficavam as plataformas de saída, poderiam escapar por lá.

Esgueiraram-se pelas paredes de ferro e espiaram para fora da plataforma. Era um caos. Havia muitos feridos sendo carregados em macas e tendas improvisadas em um vasto campo. Muita fumaça se espalhava pelo ar deixando o céu em um tom cinza.

“Quer dizer que o traidor deu a localização...”.

Acaiah colocou as duas mãos nos seus ombros e se aproximou da sua orelha, sussurrando baixo.

— Tens certeza que quer vir comigo? Juro-te que não farei nada bom... Um rapaz que presa a própria honra não deveria ir com um encantador de fogo...

— Você mesmo disse, filho das cinzas, não posso esconder minha natureza.

O garoto riu, agarrou uma das mãos de Joe e passaram por todos como sombras se esgueirando pelos cantos e pela fumaça que cobria o local. Em pouco tempo estavam saindo do acampamento improvisado da organização.

— Para onde vamos? – Joe perguntou curioso.

— Vamos procurar os meus, rapaz bonito.

— E quem são os seus, filho das cinzas?

— Os profetas perdidos, para lá das Aldeias Vermelhas...

Acaiah sorriu e Joe apenas olhou para a vasta colina e a verde floresta que a cercava. Seja lá o que fossem esses Profetas Perdidos, só pensava em uma coisa. O ódio que sentia pela Steampunk.

• •

A Comandante Martha estava chocada com o que aconteceu. Se encontrava em sua tenda montada no centro da campina. O dirigível estava tomado por fumaça que poderia intoxicar qualquer um que entrasse lá, haviam tirado todos os feridos e os doentes que estavam na enfermaria, mas ainda estava profundamente preocupada com Jade.

Seus olhos percorreram o mapa de rota a sua frente. Era um mistério o fato de terem achado o dirigível, as rotas eram mudadas todos os meses para diferentes lugares de todo o mundo. Só a comandante tinha acesso a eles.

“Alguém entrou aqui...”.

— Comandante! Precisamos de mais tendas... Não há espaço para todos os feridos.

— Corte o tecido dos paraquedas... Quantos mortos até agora?

— Dez mortos, Três por intoxicação e o resto devido ao impacto da nave com o solo, o impulso foi grande.

— E Jade?

— A senhorita Jade se encontra estável, inalou certa quantidade de fumaça mas nada que deva preocupar ninguém...

Martha respirou fundo, deu mais algumas ordens e voltou a se encontrar sozinha com o mapa de rotas.

“Maldito traidor... Maldito Conselho de Luna.”

Estava cansada de toda aquela armação. Saiu da tenda e olhou o campo. O dirigível estava em péssimas condições, a parte dianteira estava intacta, mas o lugar onde se encontravam as caldeiras estava totalmente danificado. A base estava soterrada e com vários cortes no metal. Demoraria meses para serem consertados...

Voltou o seu olhar a maior das tendas, a da enfermaria. Dirigiu-se até lá com certa pressa, queria desesperadamente aquietar a sua preocupação com Jade. Não ficaria tranquila até vê-la.

Adentrou a tenda e viu que havia muitas camas e macas no chão. Os médicos corriam de um lado para o outro atendendo seus pacientes da melhor forma que podiam e ali no fundo em uma das camas havia uma garota deitada, aparentemente inconsciente.

Ela era a sua irmã adotiva, fora abandonada na porta de sua casa e a tinham chamado Jade, devido aos seus olhos muito verdes. Tinha apenas dezenove anos e uma doença que paralisava as suas duas pernas. Quando Martha se tornou Comandante da Steampunk ela a trouxe consigo para poder ser tratada e não ficar sozinha no mundo.

Os médicos da organização tentaram de tudo. Até alguns engenhos para substituir as pernas que não funcionavam, mas nenhuma máquina se adaptava ao seu corpo. Apesar disso, Jade sempre fora uma garota otimista e alegre e em muitas das vezes em que a Comandante se encontrava em apuros, recorria aos seus conselhos.

Ela estava com uma expressão calma quando Martha se aproximou e lhe tocou gentilmente o rosto deveras pálido. Os fios de cabelo acobreado estavam aninhados graciosamente no travesseiro e não parecia estar sentido qualquer tipo de dor.

Perguntou ao médico a que horas ela iria despertar, ele disse que dormiria por algumas horas. Não podia esperar para ver os olhos verdes de Jade se abrirem, mas assim que tivesse tempo faria uma visita.

Havia outros rostos conhecidos ali, como Jaafar que ainda se encontrava em coma e sua amada Anne que velava seu sono dia e noite. Havia grandes olheiras no que fora o lindo rosto da menina. A tristeza havia deixado marcas profundas em sua aparência.

Saiu da enfermaria e voltou a olhar o campo. Agora a noite estava caindo e a fumaça parecia se dissipar a medida que as estrelas iam surgindo no céu azul escuro.

“Amanhã será melhor... A Steampunk se reerguerá... E o conselho padecerá...”.

• •

Matteo chutou com força o corpo inerte de Marie. Estava visivelmente irritado. Havia dito ao conselho para não mandarem uma menininha imprudente fazer o trabalho de homens experientes.

Ao seu lado Gian apenas observava tudo com seus olhos extremamente verdes e sua expressão séria e fria de sempre.

— Aqueles malditos... Sabem que eu estava certo... Perdemos todo nosso tempo...

Gian olhou para o loiro. Sabia que Matteo tinha o pavio curto e pouco cérebro na cabeça. Não conseguia ver nas entrelinhas. É claro que Alexei não tinha pretendido nada com aquilo, Marie fora apenas um peão.

O garoto olhou para baixo com olhos felinos que prestavam atenção em tudo e viu o corpo de Marie. Havia fraturas expostas por muitos lugares no seu corpo e o os olhos abertos estavam sem vida.

— O que é aquilo?

Gian levantou o olhar para o rastro de fumaça que havia no céu e se prolongava até depois da colina. “Então o velho conseguiu o que queria.”

Ele precisava de um alvo fixo. Com a Steampunk se movimentando pelo céu seria difícil ataca-los uma só vez e resgatar a chave. “Precisava que alguém lhe deixasse uma localização”. E Marie foi o preço a pagar para tê-la. Não foi um preço muito alto.

O garoto de olhos verdes tirou a sua capa negra e jogou por cima do corpo destroçado da garota. Tomou a dianteira de Matteo e se dirigiu a colina.

— Onde pensa que vai pirralho?

Não respondeu. Idiotas não mereciam suas palavras. Queria ver a situação da organização, feridos, mortos, o estrago que Marie poderia ter feito à nave.

“O importante é que os fez cair.”

• •

Estava em sua tenda olhando para o pano que deixava a luz da lua transparecer. Haviam-no chamado alguns momentos antes para o jantar, mas não estava com a mínima fome. Ainda mais por que sabia que teria de encontrar Desmond.

“Não devia... Ter feito aquilo...”.

Amaldiçoava-se desde que o loiro o havia puxado para cima e o abandonado depois do beijo, sem nem sequer uma palavra ou olhar. Mas apesar de tudo tinha medo. Muito medo. Medo de tudo.

Medo de Desmond não lhe dirigir a palavra novamente. Medo do mesmo contar às pessoas o que era realmente. Medo dos olhares que as pessoas lhe dariam. Medo da rejeição. Medo de ser fraco, de não suportar mais uma vez ser expulso de onde tinha aprendido a considerar como uma casa.

E ali na escuridão chorou. Não podia contar com ninguém, sabia disso. O Pietro que todos viam era forte, sério... Do que chamariam seu comportamento?

“Blasfêmia aos Deuses? Talvez me expulsem da Steampunk...”.

Virou-se na cama e olhou o cômodo com as lágrimas ainda a escorrerem pelas bochechas. A foto ainda estava lá, uma das poucas coisas que lhe importava naquele quarto. Na verdade não sabia bem o porquê a guardava, talvez para se lembrar de como fora expulso de seu lar, de sua família.

— Pietro?

Por um instante pensou ter sido sua imaginação, virou-se lentamente a entrada da tenda e ali a sombra pairava esperando uma resposta. Não sabia se deveria deixá-lo entrar ou expulsá-lo. Apenas respondeu por que precisava.

— Entre.

O loiro abriu uma fresta na tenda e entrou deixando os olhos azuis pararem em Pietro. Este por sua vez gelou. O que Desmond queria? Explicações provavelmente. O que diria? Daria uma desculpa qualquer... Mas não sabia qual...

“Por Luna...”

— Desde quando?

Levantou os olhos, conseguia ver a figura do loiro devido à luz da lua, mas ainda era apenas uma sombra disforme. Mesmo sendo uma pergunta curta, entendeu-a muito bem.

— Muito tempo.

Sem que quisesse as lágrimas voltaram aos seus olhos. Ainda se perguntava por que Luna o punia desse jeito. Ouviu passos arrastados na grama. Ele se aproximava. O que faria? Provavelmente um tapa ou dois, insultos, palavras de desprezo... Já havia se acostumado a isso, sabia que doeria, mas passaria... Com o tempo, passaria.

Mas ele não o fez.

Sentou-se a sua frente, na cama. Não levantou a mão, não lhe ameaçou com olhares. Passaram longos minutos silenciosos até que Desmond se pronunciou.

— Olhe para mim.

Não soava como uma ordem, mas como um pedido. Pietro levantou o olhar ainda molhado pelas lágrimas salgadas. O loiro levou uma mão ao seu rosto retirando a franja que havia lhe caído nos olhos, sorrindo.

O beijo veio logo em seguida. Não foi rápido como o outro, mas lento e molhado. O coração de Pietro batia rápido enquanto sentia a língua do outro adentrando sua boca.

Suas mãos agarraram os cabelos loiros de Desmond e o beijo foi intensificado. Separaram-se ofegantes e o loiro deitou Pietro na cama e sorriu novamente.

“Acostumei-me a dor, não ao amor.”

Notas finais
{ NOTAS DA AUTORA } Olá leitores! Eu sei eu sei demorei ANOS pra postar o capítulo mas... Infelizmente... As aulas começaram 8D E provavelmente demorarei uma ou duas semanas pra escrever os capítulos :D MAS NÃO DEIXEM DE ACOMPANHAR! Checo os Reviews todos os dias e.e mesmo só respondendo quando posto capítulo (assim aviso os leitores que tem capítulo novo)! Fiquei com dó do Pietro nesse capítulo D: Até o próximo capítulo e deixem reviews ♥