Steampunk: Do ferro ao sangue
4 C3 — Substancial
O local parecia deserto a não ser pela grande quantidade de bonecas jogadas ao chão em péssimo estado. Do outro lado os guardas haviam encontrado um braço e um androide parecido com uma garota humana, mas havia um punhal em suas entranhas e muito óleo espalhado ao seu redor.
“ Parece que Joe disse a verdade”
Martha circundava o local sempre com a mão sobre a espada. Olhava com atenção para todos os cantos, todo cuidado era pouco ali. Se aproximou da porta de madeira com cuidado e empurrou-a, o que viu não a agradou nem um pouco.
Havia dezenas de bonecas desanimadas no chão, todas praticamente intactas com seus vestidos de cor branca e os lindos cabelos de fio acobreado.
“ Lembram Jade...”
— Comandante, o que devemos fazer com o androide?
A voz masculina tirou Martha de seus devaneios. Olhou para o ser que os guardas carregavam, metade do seu rosto era perfeito, como o de um humano normal, com um espaço vago onde deveria ter ficado um olho e cabelos negros cacheados. Já o outro era totalmente automatizado, como se o esqueleto da garota fosse inteiramente feito de metal. O vestido branco estava manchado com óleo negro onde o punhal havia perfurado.
“ Nunca vi tamanha precisão em um trabalho. A pele me parece quase real...”
— Comandante?
— Levem-na para a Steampunk, consertem o núcleo e ponham-na para funcionar. De maneira alguma mexam no centro de memória dela. Preciso das informações que estão aí. Ah... Mas antes... – Martha se aproximou do androide e puxou o punhal, mais óleo foi expelido manchando a capa imaculadamente branca da Comandante – Isso fica comigo.
— Sim, Comandante.
Os homens se viraram e foram embora carregando com eles o androide em péssimas condições. Martha virou-se novamente para o grande portal de madeira. Se agachou e pegou uma das bonecas, pareciam simples, feitas de pano e fios de cobre. Esta em especial tinha os olhos de botão em uma cor verde viva.
“ Definitivamente, lembram Jade...”
•••
Miriam assistia a tudo de um canto da sala, uma das chaves, a que tinha o cabo encrustado de pedras azuis, estava posicionada em uma máquina perto de uma das plataformas. Um androide havia sido construído especialmente para esse experimento.
Haviam sido criados três tipos de vida mecânica em Viskar. Os Automóveis que eram engenhos mais simples e de baixo calão, geralmente crianças de sete a oito anos poderiam fazer um Automóvel com perfeição em qualquer lugar usando sucata e um pouco de energia, consistiam em mecanismos que se movessem, mas não tinham a habilidade de pensar ou sentir, faziam o que lhes era mandado. Os Autobots, eram mais sofisticados e podiam pensar e agir de acordo com o que fossem programados para fazer, geralmente eram vistos circulando por quase todas as cidades e vilas do mundo, pois serviam de ajudantes de açougueiros ou ferreiros.
Por fim vinham os Androides. Eles haviam sido proibidos de circular por Viskar por longos e longos anos. Mesmo que contrabandistas quisessem levar um ou dois para serem vendidos, era muito difícil criar um. Exigia precisão na mecânica e extrema habilidade em sua arte final, pois teriam que se parecer humanos, ou chegarem bem perto disso. Mas ainda faltaria algo...
“ Uma Alma... “
No salão, uma mulher chorava copiosamente enquanto era arrastada pelas mãos rudes de Petric Armstrong. Foi obrigada a se sentar em uma cadeira feita de madeira, para Miriam parecia um pequeno trono, onde ela fora atada e logo depois coroada com um capacete ligado a vários fios.
— O que vão fazer... Eu imploro... Piedade...
Petric sorriu de canto e saiu do pequeno recinto onde a cadeira se encontrava indo se juntar a sua mulher, a bela ruiva Amanda Armstrong.
Quem estava ao comando de tudo era o homem que não reconheceu no último conselho. O de meia idade e com cabelos negros como a noite, seu nome era Alexei Del Monte. Miriam tinha que confessar que ainda sentia medo dele pois, na sua percepção, ele não tinha nenhum ponto fraco.
Ele sorriu quando a mulher tentou se soltar do trono de madeira. Miriam achou que ele iria cair na risada quando a máquina de energia foi ligada e os cabos entre as têmporas da mulher despejaram descargas elétricas.
Quando os gritos da mulher se extinguiram e a máquina foi desligada a garota achou melhor não olhar as condições da mulher. Em vez disso voltou o seu olhar para a outra plataforma onde haviam colocado uma das quatro chaves... Havia apenas três em posse do Conselho e iriam testa-las até que tivessem todas as quatro. O próximo passo da experiência era captar um pouco da energia vital da pobre prostituta que havia morrido ali, Alexei sempre mandava buscar prostitutas na cidade, ele dizia que não fariam falta alguma no mundo.
A energia vital da prostituta havia sido pega por um pequeno engenho que foi colocado na cadeira. Miriam sabia que quando se falava em energia vital era a respeito da alma que se referiam. Pegar uma alma inteira era simplesmente difícil de mais para apenas uma chave, mas um pedaço não. Até certo tempo atrás Miriam pensava que almas não poderiam ser pegas, mas isso estava totalmente errado.
Pois a alma, segundo os alquimistas e o próprio Alexei, eram feitas de substâncias.
— As almas, meus senhores, não são nada mais, nada menos do que substâncias que nos fazem ser como somos. Fazem nossa personalidade... Nosso poder... – disse ele calmamente naquela sua voz gutural que ecoava por toda a sala do conselho no mesmo dia em que foram reunidos pela primeira vez para falar sobre o assunto – As chaves de Luna servem apenas para coleta-las e coloca-las em outro corpo, e quando uma alma é transferida para outro corpo, a pessoa que o colocou automaticamente ganha seu poder... E é exatamente isso que quero fazer. – Gian, o garoto franzino de olhos verdes parecia querer se pronunciar, mas antes que pudesse dizer algo Alexei interrompeu – E antes que os senhores perguntem, vou lhes lançar uma charada sobre qual alma quero trazer de volta... Aposto que todos saberão de quem estou falando logo após lhes mostrar isso.
Foi aí que todos concordaram imediatamente com o que Alexei pretendia.
Primeiro, Miriam teve que aprender mais sobre os Deuses de Viskar para poder entender o que Alexei pretendia. Gostava de aprender então não teve muitos problemas com os livros enormes do castelo onde o conselho estava hospedado. Encontrou as respostas em um livro só chamado “As grandes aventuras e desventuras de Viskar”. Achou o nome engraçado então resolveu folheá-lo
O Grande Sábio fora, antigamente, um grande homem que inventou muitos dos engenhos primários. São os mecanismos que usamos como básicos como as Engrenagens, os Olhos e a Memória. Talvez o mais importante seja a Memória. Segundo o Grande Sábio o corpo humano não era mais que uma grande e complicada máquina. Ele foi aprimorando cada vez mais as suas criações até chegarem a uma quase réplica perfeita do corpo humano, o primeiro androide. Dizem que era uma bela donzela por qual a imagem se apaixonou perdidamente.
Mas não conseguia fazê-la amar.
Dedicou mais da metade da sua vida para fazer com que a donzela tivesse alma. Tivesse sentimentos. Mas todas as suas buscas foram inúteis até que, um dia enquanto vagava procurando respostas, encontrou o Templo Sagrado de Luna.
A Sacerdotisa lhe deu água e comida e lhe perguntou por que exatamente estava ali. Ele lhe contou a sua estória e sobre seu estudo sobre almas e a Sacerdotisa, que também era estudiosa de almas, resolveu lhe ensinar um pouco do que sabia.
Foi então que lhe foi ensinado sobre do que as almas eram feitas e como era possível capta-las através de supostas chaves mágicas. Em realidade, as chaves não eram mágicas. Se tratavam de quatro chaves forjadas com matérias raras que podiam transportar as substâncias de que as almas eram feitas. Cada uma construída com um elemento diferente. Almas não podiam ser criadas, pois algumas substâncias apenas o próprio corpo do humano em questão poderia criar, mas poderiam ser transportadas. O Grande Sábio se contentou com as respostas. Voltou para sua casa e guardou com cuidado e carinho a bela androide que havia construído.
Alguns anos depois um grande mal assolou Viskar. Uma grande peste matou pessoas e mais pessoas, e logo a Sacerdotisa ficou terrivelmente doente. O Grande Sábio ficou enlouquecido quando soube da notícia, e logo se encaminhou para o Templo de Luna. Quando encontrou a Sacerdotisa esta estava em condições deploráveis. Mas o Grande Sábio se lembrou de que era apenas o seu corpo e não sua alma que estava naquele estado.
Logo depois desta visita, o Grande Sábio voltou até sua casa e buscou a sua androide levando-a até o templo. Onde fez o ritual das quatro chaves...
Que deu terrivelmente errado.
Quando retirou a alma da Sacerdotisa Luna e a colocou em seu androide, esta despertou totalmente diferente da bondosa mulher que o tinha recebido. Havia tanta maldade em seu ser que era difícil acreditar que um dia ela fora uma sacerdotisa. Alguma substância que estava em sua máquina entrou em contato com as da alma de Luna, criando o mais maléfico dos seres.
A chamaram de Nixxa, a imperatriz da noite. E como era uma alma recaptada simplesmente não poderia morrer. A menos que o seu criador morresse
Foram décadas e décadas de terror. O Grande Sábio não conseguia controla-la e em segredo tentou de todas as formas encontrar a cura para a imortalidade. Mas não havia outro jeito. Ou havia, apenas tinha medo de encara-lo.
Foi assim que o Grande Sábio fez um veneno para si próprio. Um veneno que matava assim que a pessoa em questão colocasse uma gota nos lábios. Um veneno chamado Steampunk. Logo após a sua morte a alma da Sacerdotisa se extinguiu dentro da androide.
Não se sabia o porquê da morte do criador significar a morte da alma deslocada, talvez esse fosse o único elo mágico na transposição de alma.
Voltando a alma da prostituta, não era apenas por que ela era uma dama da noite que fora escolhida. As chaves de que o Conselho estava em posse eram as de Terra, Vento e Água. Por isso quando Petric saia pelas ruas olhando prostitutas e mendigos ele procurava características desses três elementos.
Dessa vez a chave a ser testada era a de Água.
E como deu errado.
A androide apenas liberava lágrimas, mas não parecia falar ou fazer outro movimento depois do ritual da chave. Todas as experiências que faziam eram da mesma forma improdutivas, pois faltava um dos elementos principais... O fogo. Poderiam usar Terra, Água e Ar separados ou juntos, mas ainda faltaria o fogo.
Ao final das semanas, apenas achava que Alexei queria ver as pobres prostitutas sofrendo enquanto não conseguia a chave.
“ Oh... Comigo poderia ser tudo tão diferente... Se eu estivesse no comando... “
Mas tinha apenas quinze anos...
Todos achavam que crianças como ela e sua irmã apenas estava ali por que tinham sangue nobre.
“ Ledo engano...”
•••
Quando abriu o olho a primeira coisa que viu foi um vulto ruivo passar pela cama. Logo depois percebeu que havia outras pessoas ao seu redor. A visão embaçada foi melhorando com o passar do tempo, ou quase.
— Meu olho... – Fez menção de levar a mão ao olho esquerdo, mas logo Emília a impediu.
— Não Val... Ainda ‘tá com os curativos.
A voz dela soava triste e preocupada. A outra pessoa que estava lá era Pietro, os dois braços enfaixados e a expressão séria de sempre.
— Que bom que você acordou Val...
Estava na enfermaria da Steampunk e só conseguia enxergar pelo olho direito. Lá também estavam Pietro e Emília e... Desmond. O loiro estava com os braços entorno dos ombros da ruiva.
— Estou tão feliz que tenha acordado Val... Dormiu por três dias... Achei que... Achei... — A garota saiu dos braços de Desmond e lhe abraçou com força, sentiu as lágrimas dela caindo por cima dos lençóis e afagou os espessos cabelos ruivos com carinho. Pietro fez um gesto pra que ele e Desmond saíssem e sorriu pra Val. Com certeza era um ótimo amigo.
— Vamos pequena, tá tudo bem. O que aconteceu com... Meu olho?
A ruiva levantou o olhar, se recompôs e se sentou na cama. Explicou a Valentina que os médicos fizeram de tudo para não ter de tira-lo, mas... Havia uma espécie de veneno na arma que a havia atingido. Se não retirassem o olho provavelmente morreria...
— Bem... Um olho a menos é melhor do que morrer... – Val sorriu de maneira sincera – Sempre quis usar um tapa olho... Tipo os piratas... Você acha que vai ficar bem em mim?
— Claro... Claro que vai. – Emília disse voltando a chorar – Tudo fica bem em você...
Val não se sentia bem em ver a outra chorar, mas algo em toda aquela preocupação a fazia imensamente feliz. Quer dizer que Emília sofreria com sua perda, sofreria se algo acontecesse a ela.
— Se acalma O’ Clock... Não é como se um olho me fizesse falta...
A ruiva sorriu ao ouvir o apelido de tanto tempo atrás ser usado agora. Val sorriu de volta. Perguntava-se se ela havia estado ali esperando todos os dias que ficou desacordada. Com certeza havia ficado sem dormir muitas noites pois terríveis olheiras lhe contornavam os olhos.
— E os outros? Como eles voltaram... Da missão?
— Jaafar... Ele perdeu um braço e muito sangue. Está desacordado até agora... Anne está desesperada...
Se surpreendeu. Jaafar era um garoto forte de dezenove anos e com a saúde em seu melhor estado. Se lembrava dele sorrindo e se agarrando com Anne pela Steampunk a fora... Pensar nele em uma cama de hospital lhe dava calafrios.
— Joe foi... Acusado de Sabotar a missão.
Val ergueu o olho para Emília. Joe? Sabia que havia sido sabotagem o que ocorrera, mas... Ok... Estava certo... Joe era o mais próximo de um traidor que conseguiram achar na Steampunk apesar de não acreditava fielmente nisso.
— Foi levado para as masmorras?
Emília confirmou com a cabeça. Ficava triste por Joe, mas a Comandante não iria declara-lo culpado a menos que tivessem provas concretas. Bem... Só restava esperar.
— Enfim quando vou sair daqui?
Fale com o autor