Steampunk: Do ferro ao sangue

3 C2 — Imaculada Perfeição


Notas iniciais
EDITADO NO DIA 20/12/14

O céu naquela parte de Viskar era de um tom marrom escuro, não se sabia o porquê, mas muitos diziam que a cidade onde o Grande Sábio havia sido criado caíra em desgraça logo após sua morte. A vida ali fora extinguida. Era um lugar lúgubre com cheiro de esgoto e ruas abandonadas. Não havia uma sequer alma humana, mas ouviam-se barulhos de passos e vozes constantemente.

Quando pisou na terra seca da estrada, logo soube que nada crescia ali fazia anos. Talvez por isso chamassem a antiga Bartron de Cidade Perdida.

— Conseguiu achar?

— Nem sequer um sinal. — disse Amanda Armstrong para seu marido.

O homem forte e de cabelos grisalhos voltou os olhos escuros para o amontoado de casas feitas de madeira e ferro. Havia muito entulho em quase toda a estrada. Autobots que não funcionavam mais, engrenagens enferrujadas e até alguns cadáveres em decomposição, mas estes estavam em tal estado que era simplesmente impossível reconhece-los.

— Vamos continuar andando, deve estar aqui em algum lugar.

Amanda não era do tipo de mulher que tinha medo de tudo. E exatamente por isso sempre precisou de um homem forte ao seu lado, não era raro se meter em problemas devido ao seu espírito de aventura. Sorriu ao pensar em seus três filhos que lhe esperavam em casa. Temia por eles... Estavam sozinhos com a babá pela primeira vez na vida, mas era para um bem maior. Para o futuro deles...

— Essas bonecas estão me dando calafrios. — disse Petric.

Olhou para as bonecas desfiguradas nas ruas vazias. Havia montes e montes delas, algumas sem cabeça, outras sem braço. Todas pareciam ter sido lindas no passado. A ruiva se agachou e pegou uma delas nas mãos. Era pequena e ruiva, os fios pareciam cobre de tão brilhantes, apesar do resto do corpo da pequena peça de pano não estar em tão boas condições.

— Se acalme homem, elas estão quebradas e, além disso, segundo o que o informante do chefe disse, a Steampunk está mandando algumas engrenagens para cá, temos que pegar a chave antes deles e as bonecas nos levarão até quem precisamos encontrar.

Alguns risos infantis ecoaram no local. Uma criança não assustava Amanda, havia três delas em casa. Ela e o marido seguiram caminhando na estrada deserta até chegarem perto da entrada de uma grande fortaleza. O Castelo das Nuvens tinha sido uma representação do grande poder da Cidade Perdida, era construído acima de longos e grossos pilares que lhe davam o efeito de estar flutuando por cima das nuvens.

Agora não passava de mais uma velharia abandonada.

Os portões de ferro enferrujado estavam abertos e uma grande passarela atravessava o vão em que os pilares foram erguidos levando até a plataforma onde estava o castelo. Amanda e o marido entraram sem hesitar. Andaram até a grande plataforma vazia e de lá o castelo parecia mais imponente do que de longe. Olharam em volta, mas não encontraram nada de mais. Apenas bonecas. Bonecas e mais bonecas. Enfileiradas de encontro à parede.

— Isso está estranho. – Petric disse com voz preocupada.

Quando abriram as portas velhas de madeira o salão principal estava pior que o resto da cidade. Havia bonecas sentadas em bancos, enfileiradas nas escadas, por todos os lados. Mas essas eram piores, pois estavam em perfeito estado. Todas vestidas com imaculados vestidinhos brancos e com cabelos cor de cobre, brilhantes. Nada assusta mais que a perfeição.

Petric puxou a mão de Amanda, mas essa não recuou. Estava ali havia um motivo, uma missão. Não sairia de lá até cumpri-la.

— O que desejam os visitantes?

De repente todas as bonecas de olhares perdidos se voltaram para onde estavam a ruiva e seu marido. Uma sombra se moveu nas escadas e desceu lentamente. A criança usava um vestido tão branco quanto o das bonecas e havia um véu lhe tampando o rosto. A voz era suave e a pele parecia tão branca quanto porcelana. Os cabelos lhe caiam em grandes cachos pelos ombros, havia algo brilhando intensamente perto de seu pescoço, algo não, uma chave.

— Estamos procurando uma das chaves de Luna, senhorita. Creio que pode nos ajudar.

Amanda não conseguia soar confiante, havia dezenas de bonecas lhe observando com olhos mortos e o som dos passos da garota lhe aumentavam o nervosismo. Uma onda de risos infantis ecoou pelo salão.

— Por que querem a chave? Não fiz mal a ninguém... Até agora. Precisamos dela para um experimento senhorita, e podemos lhe dar o que quiser...

Era difícil saber o que falar, não podia ver a expressão da garota, pois o véu branco lhe cobria todo o rosto. As bonecas continuavam a olhar os visitantes sem nenhum movimento, o silêncio pairava no salão.

— Não podem me dar o meu passado de volta.

•••

A Steampunk estava agitada naquela manhã. Na plataforma de embarque e desembarque do dirigível havia muitas pessoas. Técnicos e Mecânicos se moviam rapidamente entre as máquinas de cor acobreada que usariam para sair da organização.

Eram achatadas e cabiam dentro delas apenas dois ocupantes, todas feitas em metal maciço e recobertas com uma fina camada de cobre. Eram uma tecnologia bastante avançada mesmo para o povo de Viskar. Elas eram impulsionadas com a força do fogo e iriam voar direto para os seus destinos. Emília os havia projetado há dois anos atrás e os ferreiros da organização haviam se apressado em fazê-los e testá-los. A garota estava tão animada em vê-los sendo usados que não se contentava em apenas ficar pulando de um lado ao outro da plataforma de embarque, tinha que chatear os outros ao redor.

— Você acha que funcionarão, Val?

— Espero que funcione... Não quero despencar daqui de cima, sabe...

Emília riu nervosamente e se direcionou aos homens que carregavam os suprimentos para dentro das naves.

— Pelo Grande Sábio, quando você vai falar com ela o que sente?

Valentina quase pulou pelo susto, Pietro tinha essa feia mania de se esgueirar pelas sombras e chegar de surpresa em qualquer lugar.

— Quando VOCÊ vai falar de SEUS sentimentos para ele?

— Quando choverem engrenagens.

— Digo o mesmo.

Val observou o rosto do garoto esboçar um fraco sorriso. Ele era assim, sempre foi. Poucas... Digo, raríssimas vezes havia visto Pietro Doomhigh sorrir. Em parte entendia-o, pois sofria do mesmo irreparável mal, um mal chamado amor não correspondido.

Afinal por que um jovem elegante e refinado como Pietro não teria uma dama para acompanha-lo? Oras, por que o feminino não lhe atraia. O que lhe atrai está na frente de uma das máquinas achatadas tentando coordenar os nervosos técnicos mecânicos. E o pior, tinha apenas dezessete anos.

— Estão todos prontos, podem embarcar.

O chamado cortou os pensamentos de Valentina. Pietro foi o primeiro a se afastar para entrar em uma das máquinas e logo depois Anne entrou com sua ajuda, era uma bonita moça de olhos púrpuras vinda do oriente, mais precisamente das Terras de Mar Alto, sua pele era de um tom de pele acobreado e seus cabelos quase tão negros quanto os seus. Antes de entrar viu Anne se despedindo de Jaafar com um demorado beijo.

Ah... Como queria se despedir assim de Emília.

Mas se limitou a apenas acenar para a ruiva enquanto as janelas de vidro se fechavam. Desmond iria comandar o veículo, a Comandante Martha havia treinado um de cada equipe para poder dirigir até o destino de cada dupla.

Segundo as pesquisas da própria Steampunk as chaves haviam sido espalhadas pelos quatro extremos de Viskar. Uma delas havia sido encontrada pelo Conde Stonem no extremo Leste nas Ilhas Remotas. As próximas localidades seriam respectivamente o extremo oeste na Cidade Perdida, o extremo Sul na Cidade do Templo da Meia-Noite e o extremo norte nas Florestas de Elegy.

— Pronta para partir, Val? — disse seu parceiro na viagem, Desmond.

— Estou pronta desde que nasci.

Desmond sorriu e deu a partida na nave, sentiram um forte impulso e começaram a levantar voo. Logo os portões principais se abriram e o céu azul salpicado de nuvens apareceu à frente. Em pouco tempo já tinham ganhado velocidade e se moviam em linha reta pela plataforma até alcançarem o céu. Val sorriu com a vista privilegiada que tinha, um céu imenso. Tinha certeza que nesse momento Emília estaria pulando de alegria.

•••

A primeira coisa que os olhos cor de âmbar de Jaafar avistaram foi o Castelo das Nuvens que parecia flutuar por cima de toda aquela cidade desfeita com o tempo. Joe não parecia reparar na grande e imponente construção, afiava as suas adagas com fúria. Jaafar se perguntava se estaria pensando em Pietro enquanto passava a pedra de amolar pela extensão da faca. As vezes desejava apenas voltar para a sua terra natal com sua amada, lá onde tudo era pacífico no complexo amontoado de pequenas casas nas Aldeias Vermelhas.

Passaram direto por toda a cidade em menos de três minutos e logo alcançaram o grande vão onde o castelo havia sido construído, pousaram logo mais a frente onde se erguia uma grande porta de madeira.

— Acho melhor checarmos os arredores. — disse o moreno das Aldeias Vermelhas.

Joe concordou. Pegou os dois punhais e começou a andar na direção oposta a de Jaafar. O moreno olhou para a porta de madeira, sentia que algo ali estava errado. Olhou pro outro lado e pegou uma de suas armas. Ele mesmo as havia feito. Não havia nada de estranho nessa parte, apenas os muros do castelo vazio. Quando voltou a olhar para trás havia algo agachado a sua frente.

— Olá?

Percebeu que não era humano. A metade do rosto era toda feita de metal e o olho era apenas uma lâmpada quebrada de luz amarela. A outra metade parecia ser feita de pele humana, mas faltava um olho.

— Eles levaram... Levaram tudo...

Jaafar engoliu em seco e apontou a arma para a criatura.

Do outro lado do castelo Joe se sentia horrivelmente estranho. Havia dezenas de pequenas bonecas de pano por todos os cantos. Todas em um terrível estado. Ouviu o grito de sua dupla e se alarmou, começou a correr para o lado oposto do castelo e o que encontrou foi apavorante.

Jaafar estava ao chão, havia sangue por todos os lados e uma criatura do tamanho de uma criança jazia acima dele. O que o assustou é que o braço direito do moreno estava do lado oposto a de onde ele estava.

“ Droga...”

A criatura olhou para ele e não parecia ser uma aliada. Começou a gritar, e Joe teve de tapar os ouvidos.

— ELES A LEVARAM!

Viu o monstro se mover rapidamente indo em sua direção e quando ela pulou sentiu um sonoro clack onde o seu punhal a perfurou. Ela caiu ao chão expelindo óleo.

— Você não é humana. — Joe disse com a voz trêmula.

— Erro seu... Eles a levaram... Eu era... Era... Humana.

A criatura cuspiu mais óleo negro e alguns segundos depois a luz que iluminava o olho não humano se extinguiu. Joe não prestou atenção nisso. Aquilo cheirava claramente a emboscada. Foi até Jaafar, ainda estava vivo. Carregou o amigo até a nave pelo braço que lhe restava e deu a partida. Não sabia como dirigir a nave, mas daria um jeito.

“ Tem um espião na Steampunk.”

•••

Caos. Era o que Emília via naquele momento. As naves tinham voltado quase todas menos de seis horas depois que partiram. Todas trazendo feridos. O pior estado até agora era o de Jaafar. Havia perdido o braço inteiro e muito sangue. Quando Joe saiu da nave intacto todos pensavam que talvez eles tivessem sido sortudos, mas logo retiraram Jaafar e Anne enlouqueceu.

— TRAIDOR!!! TRAIDOR!!! COMO VOCÊ OUSA ENTRAR NA STEAMPUNK!!!

A garota teve que ser controlada por dois dos enfermeiros que cuidavam dos ferimentos dela. Desmond e Valentina demoraram mais para chegar, o que só aumentou o nervosismo de Emília. Não conseguia contato pelo rádio que havia instalado nas máquinas. Quando chegaram a sua alegria desvaneceu assim que viu o estado dos dois.

Val caiu da nave assim que a porta se abriu. E Emília gritou. Desmond também estava ferido, mas Val estava em condições deploráveis. Seu olho esquerdo estava gravemente ferido e algo havia atravessado o seu abdômen perfurando-o de um lado a outro.

Mas ainda assim o estado de Jaafer ainda era pior. Pela falta de sangue, o moreno provindo das Aldeias Vermelhas entrou em coma. E sabia que todos pensavam a mesma coisa.

O único a voltar intacto para lá fora Joe.

A Comandante Martha fora chamada as pressas. Todos foram reunidos, menos Valentina e Jaafar que ainda estavam na enfermaria, na sala de cobre e assim que o juramento foi feito, Pietro não se segurou, ele e Anne haviam voltado com sérios cortes na região das pernas e braços.

— TRAIDOR! ESTÁ NA CARA QUE FOI UMA EMBOSCADA! — Pietro apontou para Joe com sua espada, este se levantou e apontou um dos seus punhais para outro.

— Continue fazendo acusações impensadas e perderá sua cabeça em menos tempo do que pensa.

— CHEGA! — O grito de Martha ecoou pela sala.

Os dois olharam para a Comandante. Pietro com uma expressão indignada. Joe com sua expressão fria de sempre.

— Joe, não há nada que nos faça crer que a traição não existiu...

— Não estou dizendo que não houve traição! Estou dizendo que não sou eu o culpado...

— COMO NÃO É O CULPADO? TODOS NÓS VIMOS O ESTADO DE JAAFAR! — Anne se descontrolou novamente, rompeu em lágrimas enquanto gritava as palavras. Emília foi até lá consola-la. A Comandante estava em uma difícil decisão.

— Comandante... – Todos olharam para Desmond. Havia muitos curativos pelos braços do garoto. – Creio que... Deveria agir apenas como contra medida, espere... Até acharmos mais provas da culpa ou inocência de Joe.

Martha confirmou com a cabeça. Olhou para Joe com uma expressão de desapontamento. Pegou o seu distintivo com o símbolo da Steampunk e olhou para o centro da mesa com pesar.

— Aqui, perante as engrenagens da Steampunk, declaro que Joe, o errante, vai ser proibido de usar o nome e distintivo de engrenagem da organização e que vai ser mantido preso até que seja declarado se é ou não culpado de traição.

Quando Emília voltou os olhos para Joe a expressão fria havia desaparecido, agora só o ódio reinava em sua alma.

Notas finais
{ NOTAS DA AUTORA } E aqui estamos com mais um capítulo! Aí vocês " Pô Vick, deixando personagens sem braço/cegos no segundo capítulo" SUHDHSAUDHUSADHISD :3 Espero que deixem Reviews por que só posto quando tiver pelo menos um ahahaah :D