Steampunk: Do ferro ao sangue

11 C10 — A Batalha Dos Dois Deuses P1 — Quem é ela ?


Notas iniciais
FINALMENTE.

Miriam arrumava as últimas coisas em sua pequena mala. Dois vestidos, um par de sapatos negros, roupas de baixo, um pente e um espelho, era tudo o que levava dali. Em breve a guerra começaria, por isso havia decidido pedir para que Gian e Pietro lhe acompanhassem para fora do forte Meia Lua, caso algo desse errado...

“ Não tem como dar errado...”

Bem, ninguém nunca havia morrido por precaução, certo? Fechou a mala e a colocou com certa dificuldade no chão. Quantas vezes achou que não era capaz por não ter força? Pensar nisso agora lhe dava vontade de rir.

Olhou ao redor...

Aquele havia sido o quarto que dividira com sua irmã, ainda havia algumas bonecas ali, dispostas uma ao lado da outra. Obviamente, todas eram da sua falecida gêmea. Os olhos vazios fitavam o nada e a porcelana branca que as compunha parecia tão fria como a neve. Bonecas eram estranhas.

Duas batidas na porta de madeira fizeram-na sair de sua divagação. Voltou os olhos azuis para de onde vinha o som e deu permissão para entrar. Logo Gian se fez presente no quarto, perguntando cordialmente se estava pronta.

Gian era perigoso, por isso tinha que mantê-lo o mais próximo que podia. Fez que sim com a cabeça e o garoto andou até a mala e a pegou, não parecia ter dificuldade em fazer a ação.

Quando já não podia mais ver Gian pelo corredor, se aproximou de uma das bonecas e pegou a que mais lhe chamou a atenção. Uma loira com olhos azuis e uma expressão alegre. Lembrava-lhe sua pequena irmã.

Carregou-a consigo e fechou a porta do quarto assim que saiu. A sua frente a escuridão do corredor do castelo se estendia. Não tinha medo, havia perdido a fobia da escuridão há muito tempo. Era apenas mais um caminho até o que queria.

• •

Estavam todos ansiosos. Cada um na Steampunk sentia a pressão daquela missão. Muita coisa estava em jogo, havia vidas em risco ali. Inclusive as suas próprias.

As barracas haviam sido recolhidas e agora o colossal dirigível da organização sobrevoava o local. Uma imensa sombra se formava em cima dos grupos que iriam ficar em solo firme. Não sabiam os planos do Conselho, não sabiam se haviam chamado reforços ou qualquer outra coisa para poderem sair vitoriosos, não sabiam se já haviam dado a vida a Nixxa. Esperavam pelo melhor ou pela sorte.

Decidiram que, por causa dessa total falta de perspectiva da situação, iriam procurar proteger a organização de todas as maneiras. Havia por volta de duzentas pessoas em solo e mais de quinhentas a bordo do dirigível.

Se algo se aproximasse do local, agiriam. Se não, menos mal. Então o trabalho ficaria para os grupos isolados.

Eram dois que mais tarde se subdividiriam em três. Foram designados para essa missão apenas os melhores cadetes da organização.

Estes grupos isolados seriam mandados para Forte da Meia Lua, um castelo feito de pedra que fora construído há muito tempo pelos antigos membros do Conselho de Luna. Até hoje os participantes dessa irmandade se reuniam lá quando necessário.

O castelo podia ser velho tanto quanto sua história, mas não era fraco. Feito de pedras brancas maciças e com torres que poderiam alcançar facilmente as nuvens. Um verdadeiro titã. Ficava a alguns quilómetros para o leste, em cima de uma colina que terminava em um desfiladeiro, com apenas o mar atrás. Diziam que a própria sacerdotisa Luna havia estado ali há milhares de anos no passado.

Para lá se dirigiam nesse momento, através de um atalho pela floresta, os dois grupos. O primeiro era destinado ao resgate de Jade. Era composto pela própria comandante Martha, por Jaafar e por mais três membros da Steampunk. Entrariam pela porta dos fundos, se tivessem guardas a enfrentar a ordem era matar. Procurariam primeiro nos quartos superiores, onde Martha achava que deveriam estar os membros do conselho. O segundo grupo iria até as chaves, ou possivelmente até Nixxa. Emília, Desmond, Val e mais dois recrutas que tinham experiência com armas eram designados para este trabalho.

Val tentou argumentar com Martha, mas acabou cedendo. A comandante tinha razão. Havia mandado os cinco mais habilidosos para o grupo, era de extrema importância que, se encontrassem Nixxa, a destruíssem. Esperava-se que o próprio mestre do conselho estivesse com a androide, se por acaso a encontrassem, pois Nixxa apesar de pensante não podia agir sozinha, precisava de ordens.

“ O Mestre do Conselho, Alexei Del Monte...”

Deveriam matá-lo assim que o vissem. Ele seria a única esperança para a destruição de Nixxa.

• •

— Estamos na posição, mande a águia, Mei. Aí poderemos entrar. Lembrem-se a ordem é matar. — A voz de Val soava firme.

Mei, a garota de cabelos negros trançados deslizou os dedos pela penugem da águia albina, uma espécie não tão comum em Viskar. Mei cuidava dela desde que tinha seis anos e agora todo aquele treinamento serviria de algo. Na pata da águia prendeu um pequeno bilhete e logo a majestosa ave voou sobre o céu cinzento de inverno.

— Tudo livre, nem sequer um guarda.

A voz grave do segundo recruta se fez ouvir. Zachary acabava de voltar do portão principal do Forte. Era um rapaz alto de olhos azuis e pele clara, muitas das vezes era visto com Emília no laboratório de batalha criando novas armas para a organização.

— Então estamos prontos. Mei e Zachary vocês vem comigo procurar as chaves nos cômodos inferiores, vocês três para os calabouços... — Val olhou diretamente para Emília que se encontrava com Desmond e com um outro recruta — Martha e os outros estarão na parte superior do Forte Meia Lua á procura de Jade.

O olhar de Val e Emília se encontrou por segundos, segundos dolorosos demais. O recruta que acompanharia a ruiva e Desmond era o mais jovem entre eles. Mattia tinha pouco mais de dezesseis anos. Os seus cabelos eram da cor da neve e possuía olhos de um verde escuro muito parecido com a coloração que o musgo adquire depois de algum tempo. Estava em sua primeira missão, parecia um tanto quanto nervoso, mas era um ótimo atirador.

— Boa sorte á todos e que o Grande Sábio nos ajude.

Dito isso Valentina e os outros saíram do pequeno arbusto e se dirigiram para o Forte sombrio e coberto de neve. Ouvia-se o mar batendo contra o rochedo atrás da imensa construção e o frio era terrível. Mas a pior sensação era estar ali, ao lado da mulher que amava, e não poder nem sequer se despedir dela.

Realmente, o recruta Zachary não mentia. Não encontraram sequer um guarda e quando conseguiram abrir os portões nem sequer uma alma viva estava á espera deles no salão. Valentina se sentiu estranha, mas não recuou.

Ali se separariam.

Mei e Zachary logo se afastaram e o outro grupo também começava a seguir seu caminho. Val olhou uma última vez para o emaranhado de cabelos ruivos. Desejava abraçar a garota e olhar para os olhos claros dela mais uma vez, mas não o faria.

Virou-se e seguiu com os dois companheiros pela escuridão do lugar.

• •

“ Nixxa... Nixxa... Você está aí? Nixxa...”

Ouvia claramente a voz feminina na sua mente. Seus olhos se voltavam para as colinas brancas cobertas de neve, sentia o vento frio de inverno lhe balançar o cabelo, mas sua pele não se arrepiava.

Atrás de si, no quarto quente, uma música era ouvida enquanto as vozes de homens conversavam animadamente sobre planos. Planos que sabia, não ocorreriam.

Encontrava-se sentada no alambrado da varanda, suspensa a muitos metros de altura, suas pernas balançavam e sua saia esvoaçava de acordo com os movimentos. Gostava das coisas vistas do alto, lhe lembrava de algo distante, um sentimento não reconhecido, algo ainda não provado.

“ Nixxa, está na hora, filha. “

A voz de sua criadora ecoou pela sua mente e permitiu seus lábios de se curvarem em um meio sorriso. As pernas pararam de se mover, seus olhos se fixaram entre as duas colinas principais onde um ponto em questão se elevava no céu.

“ Nixxa, sabe o que fazer, como planejamos, querida. “

“ Como quiser, mãe. “

Seus olhos se fecharam por um momento e pôde ouvi-los. Eram muitos e pensavam alto. Seu alvo seriam os de baixo, não todos, uma parte. Escolheu os mais fracos, os que tinham medo, ou melhor, os que eram covardes.

Quando reabriu os olhos não via mais as colinas brancas, mas os pontos de vista de cada um que havia controlado. Como eram uma boa quantidade percebeu que seria melhor apenas fechar os olhos e comandá-los sem ver os resultados. Já não ouvia mais a voz da sua criadora, mas o silêncio que logo seria quebrado por gritos de dor.

Esta palavra tão sonora, tão bonita: Dor.

• •

A visão era ameaçadora. Não sabia ao certo como tudo aquilo havia começado, quando percebeu, o caos reinava abaixo do dirigível. Os olhos rubros de Marco estavam apavorados.

Um dos grupos que foram designados para guardar a Steampunk, o norte, estava duelando contra si mesmos. Quando Hanna apareceu na cabine mal pode acreditar em suas palavras, teve que olhar através do binóculo e quando o fez preferiu que fosse uma mentira.

Aos poucos os outros grupos, leste e oeste, vendo a confusão que se formou, se juntaram para defender os colegas, o resultado foi uma terrível bagunça. Ninguém sabia quem era o inimigo, não sabiam quem atacar, o que fazer. Estavam sendo dizimados por si mesmos.

— O que vamos fazer, Marco? Não consigo contatar a comandante...

A voz desesperada de sua irmã lhe fez tremer. O que fariam? Enquanto olhava o caos lá fora viu algumas manchas vermelhas se espalharem pela neve, alguns corpos caídos e muitos outros lutando pela sua vida.

— Não sei, minha irmã. Eu... Realmente não sei.

• •

Faltava apenas um quarto para ser checado, Martha, Jaafar e os três cadetes se encontravam bem na frente da porta branca de madeira. Um deles tentou abri-la, porém se encontrava trancada. Nenhuma novidade.

— Jaafar e Liam, quebrem. A madeira é fraca, não deve aguentar muito. – A comandante disse, sua voz era firme apesar de preocupada com a vida de Jade.

O moreno dos olhos da cor do âmbar se posicionou junto com o outro garoto á frente da porta e agora a música que era tocada pelo gramofone podia ser ouvida por todos. Ali na pequena sala se encontravam dois homens sentados em cadeiras confortáveis.

Alexei deixou a taça de chá cair quando a porta foi derrubada, expressando sua melhor cara de horror. Não sabia o que estava acontecendo, o que ELES estavam fazendo ali?

— O que vocês estão fazen... — A voz de Alexei sumiu ao ver as armas apontadas para seu rosto.

Além de Alexei também havia outro homem na sala. Conde Stonem, o tio de Desmond. Os olhos exibiam as cicatrizes feitas por Val e o seu rosto estava lívido de pavor.

— Quietos! Onde estão as chaves e onde está Jade?! – Martha não vacilou em seu tom de voz e logo os dois homens engoliram em seco.

Um baque surdo se ouviu.

A comandante desviou o olhar para Jaafar e este apresentava uma intensa expressão de dor. A sua arma havia caído no piso de madeira.

— Acho que é tarde de mais, minha querida... — Apesar de nervoso Alexei continuou em seu tom irônico — Por que não dão as boas vindas a nossa convidada?

Uma forte dor atingiu a cabeça de Martha. Os outros recrutas já haviam caído e Jaafar lutava para se manter em pé. Logo atrás de Alexei surgiu uma garota, alta e bonita, seu porte real era indiscutível. Era ela, era Nixxa.

A dor aumentou, seus dedos puxaram o gatilho da arma seguidamente, esperando acertar Alexei mesmo com sua vista se tornando cada vez mais escura, até que sentiu o seu próprio corpo cair de encontro à madeira fria.

• •

Emília respirava pesadamente, o ar ali era húmido e quente. Os calabouços de Forte Luna tinha um forte cheiro de mofo que lhe causava enjoo. Desmond andava atrás de si, sem fazer muito ruído e ao seu lado estava Mattia, alerta como um cão de caça prestes a achar a sua presa.

Mesmo estando com seu futuro marido, não conseguia se sentir bem. Pensava nas palavras de Val, fazia isso muito frequentemente depois da conversa que tiveram. Queria revê-la, mas mal podia contar com a sorte para que voltasse viva...

— Bem, aqui está bom.

A voz de Desmond ecoou pelo calabouço. Miriam se virou estranhando a frase do loiro. Mattia parecia igualmente confuso.

— Como?

O loiro carregou a arma enquanto a expressão de Miriam mudava da confusa para a surpresa. Por que estava fazendo aquilo?

Em menos de segundos, Desmond atirou em Mattia que agora caía no chão sujo. Emília tentou gritar, mas sentiu sua boca sendo tampada pelas mãos fortes do homem que seria seu marido. Logo um baque em sua cabeça a fez desmaiar.

E nesse momento apenas conseguia pensar no rosto triste de Val.

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— Onde estou? — As palavras pareceram ecoar no espaço frio e vazio em que se encontrava. — O que aconteceu?

“ JAAFAR!”

O grito feminino lhe provocou arrepios. Conhecia aquela voz agonizante... De onde vinha? Virou-se encarando o escuro, tentando saber onde estava ou para onde ia, mas pareceu se perder ainda mais.

“ JAAFAR! SOCORRO! ME AJUDE!”

A mulher gritava mais alto e os ecos iam se acumulando no espaço, alguns outros sons foram acrescentados, eram correntes. Pareciam se arrastar pelo chão, gemidos de dor desconexos preenchiam o ar.

Corria.

Corria para lugar algum. Seguia os gritos conhecidos, a voz que, ao mesmo tempo, trazia desespero e curiosidade. A aflição tomava conta de sua mente e depois de vagar pelo que pareceram horas na escuridão, encontrou.

— Anne...

Os braços acorrentados foram erguidos sobre uma barra de metal, a cabeça pendia para baixo escondendo atrás dos cabelos o rosto de sua amada. Cortes, hematomas, profundas queimaduras cobriam seu corpo nu. Correntes também prendiam os pés e faziam com que a mulher ficasse de joelhos, curvada sobre a própria dor.

O rosto pendente fazia um esforço tentando erguer o olhar, e quando conseguiu completar a ação, o moreno dos olhos cor de âmbar caiu de joelhos. Os olhos eram os mesmos, as duas pedras de ametista pelas quais havia se apaixonado. O sorriso triste era desenhado em seu pálido rosto.

“ Você não me salvou...”

O lugar escuro tomou uma forma diferente. Havia lembranças se movimentando pelo ar, como neblina. Eram todas sobre ela, a garota que havia lutado por ele, a garota que não pôde proteger.

• •

— Nada.

Val chutou um pequeno criado-mudo. Era o último quarto. As chaves não estavam ali e a frustração e o medo começavam a lhe tomar a cabeça. Será que os outros haviam tido mais sorte?

— Val... Olha isso... — A voz de Mei soava curiosa.

Virou o rosto e percebeu que a garota estava observando uma estante. Se aproximou e seu coração parou por um segundo. Zachary percebeu que ambas olhavam fixamente para um ponto no quarto e se aproximou também.

Era um crânio. Não um normal, humano. Era feito de metal maciço e ouro, as órbitas eram negras e a mandíbula podia ser aberta e fechada facilmente. Aquilo significava apenas uma coisa. O androide estava pronto.

Um baque na janela tirou a atenção de todos. Os três membros da Steampunk empunharam suas armas e apontaram para o lado luminoso do cômodo. As batidas continuavam e logo Mei reconheceu sua águia albina.

Correu e abriu as vidraças deixando a ave apavorada entrar e voar por toda a extensão da sala. Após certo tempo caiu ao chão fazendo barulhos terríveis.

— Estela! O que houve!? Se acalme, sou eu... — A garota se aproximou do animal e tocou em sua penugem. Havia algo errado ali.

— Hey, Mei, o que aquilo na pata dela? — Zachary apontou para o papel enrolado e bem preso na águia.

Valentina se ajoelhou aos pés da ave, juntamente com a dona da mesma, com muito cuidado desamarrou o papel da pata da águia albina e se afastou novamente se pondo ao lado de Zachary para ler a mensagem.

“ A Steampunk foi atacada por ela mesma, há mais traidores. Dei ordens de...”

No meio do bilhete a caligrafia mudou, obviamente haviam adulterado a mensagem. O resto do bilhete era ainda mais ameaçador que o seu início e o coração de Val apertou-se em angústia.

“ Estou com Emília. Traga as chaves ou ela morre.”

O papel caiu das mãos da veterana. Ela se virou observando os olhos apreensivos de Zachary e a expressão chorosa de Mei. Sua ave em seus braços, morta.

“Filho de uma puta maldito... “

• •

Notas finais
Sim, eu tive que dividir o último capítulo em duas partes. Enfim, escrevi o penúltimo capítulo! Wiii... Sim, eu estou sendo cretina com minhas fics, demorando ANOS pra atualizar, mas se acalmem leitores! Próximo capítulo sai mais rápido que esse ( ESPERO ). Até por que, não vejo a hora de começar a segunda temporada.Deixem reviews ♥ Té mais!