State Of Dreaming
8 7. Memories, Where Did You Go?
Notas iniciais
P. O. V Autora:
Sempre que as via, uma dor profunda lhe atingia o coração. Uma dor metafórica, mas tão sôfrega quanto um tiro no estômago: corroendo-o aos poucos, matando-o de dentro para fora, num decorrer do tempo, num piscar de olhos.
Há muito tempo, costumavam ser uma família feliz, ou pelo menos era nisso que ele acreditava. Seus pais estavam juntos, e ele era apenas o irmão mais velho daquelas duas meninas adormecidas. Mas, tão repentino como o vento, tudo acabou: o pai se foi, cansado da falta de aventuras, e a mãe foi atrás, incapaz de se privar de seus caprichos.
Eleazar não entendia como o ser humano chegava nesse ponto: abandonar os filhos a própria sorte, contando apenas um com o outro, apenas para não se negar algo. O amor passional poderia mesmo superar o carnal, ou isso só acontecia com seus pais? Ele não se lembrava de uma única vez que a mãe não tenha arriscado a vida dos filhos, só para continuar ao lado do marido... Tampouco entendia como os pais chegaram a três filhos: eram tão opostos quanto fogo e gelo: ela morrendo de amores, ele distante e inalcançável.
Ele prometera, a partir de então, nunca abandonar a pequena família que lhe restara, e preferiu mergulhar numa mentira a magoar as irmãs: elas seriam suas filhas, sem mãe, pois esta morrera ao dar a luz a mais nova das meninas... O que não era uma mentira de fato, considerando que todas as situações que ele considerava imagináveis começaram quando Olivia nasceu.
Ele não se lembrava mais do amor da mãe, mas ela lembrava. Ela lembrava coisas demais.
— Liv, Liv! — chamou baixinho pela irmã, que dormia na cama ao lado, muito tempo depois de o irmão ter saído do quarto.
Elas nunca dormiram no mesmo quarto, por mais que fizessem tudo juntas.
— O que foi, Bella? — a irmãzinha pergunta, esfregando os olhos.
— Você se lembra de alguma coisa? — pergunta, aflita, fitando a porta do quarto.
O irmão. Ela venerava o irmão da mesma forma que ele venerava deuses. Ele era seu deus, mas estava agindo como um humano errôneo. Por que as chamava de filhas? Por que não estavam no seu apartamento ou na casa deles no Canadá? Onde estava aquele irmão engraçado que ela tanto amava?
— Lembro do Nico! E da Lia! — Liv responde, e ela suspira de alívio.
Bella sempre fora tomada como a inteligente da família — o irmão era o mais corajoso e abnegado, enquanto a irmã era a conquistadora: ninguém resistia ao charme de Liv, ninguém. —, mas só naquele momento se sentiu assim. Todos os livros lidos e conversas com a mãe serviram para alguma coisa.
— Por que o maninho tá tão estranho?
— Eu não sei, Liv! — ela suspira, sentando ao lado da irmãzinha.
Ela queria uma idéia, um jeito de sair da situação em que estavam, mas por mais esperta que fosse aos 8 anos de idade, ainda era uma criança... Era uma menina, e, segundo a mãe, não teria poderes legais como o do irmão.
Ah, sim, Isabella Campbell sabia a verdade sobre sua árvore genealógica. Sabia quem era seu progenitor, e até mantinha contato com o sujeito, por mais que não confiasse muito nele — o pai gostava de enviar o irmão à lugares distantes e perigosos... Nenhum pai deveria fazer tal coisa com os filhos —, e ansiava pelo dia que descobriria que tipo de poderes teria. Ela detestaria ser apenas a filha de um “monarca”, sem poder fazer algo por onde morava... Não queria ser uma princesa alienada, mas uma guerreira.
Como Valentina, Catarina, Thalia, e, sua principal fonte de inspiração...
— Vem comigo. — ela dá a mão para a irmã, e as duas seguem silenciosamente pela pequena e aconchegante casa.
O irmão se encontrava na sala, com um livro em francês jogado sobre o corpo adormecido no sofá. Não que a cena fosse estranha, mas geralmente ele ficava coberto por lentes, câmeras, filmes de fotografia, e uma foto da namorada. Sempre tinha uma foto de Valentina por perto... No entanto, a única foto dela que havia naquele lugar estava no quarto em que elas estavam, e era uma foto antiga, pelo menos de dois anos antes.
Uma das características de Bella era sua memória. Ela nunca esquecia algo, e a prova disso era o número que agora discava.
— Pra quem as mocinhas pensam que vão ligar?
As irmãs não conseguiram evitar pular de susto ao ouvir a voz sonolenta do irmão. Dias atrás elas precisaram pular nele e empurrá-lo para fora da cama para que ele fizesse o café da manhã, e hoje ele estava ali, desperto como nunca.
— Ninguém! A gente só queria brincar. — Bella mente, rezando para que Liv não diga nada comprometedor.
— Isso não é hora de brincarem. Vão já para cama, ok?!
Ela nem discutiu, apenas seguiu para o quarto com a irmã. Quem sabe tudo não fosse parte de um sonho, e ela acordaria em sua cama no Canadá?!
— Quando a gente vai ver a Valentina de novo? — Liv pergunta de mansinho, se enroscando ao lençol.
Se ela soubesse o quanto o irmão se recusava a responder a pergunta, que, naquele pesadelo, ele ansiava apenas para permanecer longe daquela garota.
— Amanhã! — ele responde, contudo, mantendo-se fiel a sua promessa de não desapontar sua família.
Se era Valentina que elas queriam, assim elas teriam.
P. O. V Nico:
Há quase sete anos que eu convivo com o impossível, o extraordinário e o divino. Deuses, monstros, batalhas e poderes eram coisas do cotidiano para mim. Estava acostumado com trevas e a encarar boas doses de inimaginável por dia... Mas nunca tivera sonho tão impossível quanto aquele.
Havia um homem a porta que Aria acabara de abrir. Um homem alto, aparentando uns trinta e tantos anos, com cabelo loiro cortado bem curto, e trajando uma curiosa camisola hospitalar... Daquelas que não têm a parte de trás.
— Ai minha santa Atena! — Aria murmura estrangulada, diante da visão de Apolo seminu.
Talvez porque não era daquele jeito que as garotas imaginavam ver Apolo seminu... Ninguém imaginava Apolo daquele jeito.
— Oh, droga! — o deus murmura, estalando os dedos, substituindo o modelito “livre, leve e ao vento” por um conjunto de calça de flanela, chinelos e uma camisa. — Perdoem-me pela aparição súbita, mas não temos muito tempo.
Ele então entra no corredor e fecha a porta atrás de si, como se estivesse se escondendo de alguém. E, provando que o chalé 7 realmente tinha problemas, desanda a falar:
— Sabem, tudo isso é um grande e absurdo erro. E eu nem sei a quem culpar, porque um monte de gente tem culpa no cartório: Cronos, Luke, Percy, os deuses, Gaia, Cupido, Afrodite, Phoebe, eu, Nico, Thalia, Catarina, Valentina... Ah, Valentina é a mais culpada, Eleazar, minha amada irmã Ártemis, Aria, Éris, Hécate... — conforme fala, vai organizando as pilhas de livros nas estantes vazias.
— Vão fazer uma versão Olimpiana de Orange Is The New Black? — não resisti, e soltei.
— Quem me dera! — o deus ri, trocando a ordem de alguns livros por ali. — Na verdade, estou usando o que me resta de forças para evitar uma grande catástrofe.
Estava prestes a lhe informar que ele chegara um pouco tarde, mas vejo Aria fazendo sinal para que eu ficasse quieto. E, considerando que ela era a única ali que não estava presa na maldição, achei melhor acatar as ordens dela.
— Senhor, como veio parar aqui? — Aria pergunta, passando livros aleatórios para ele, que os distribuía nas prateleiras como se estivesse muito acostumado com tal trabalho.
— Essa biblioteca é parcialmente minha: achá-la não foi difícil! Entrar, no entanto... O que Atena tem de sábia tem de desorganizada... Não é a toa que vai perdendo suas estátuas por aí.
Aria me manda um olhar do tipo “esses deuses são todos loucos”, e eu respondo com um olhar de “eu venho falando isso há anos”.
— É o senhor quem organiza os livros?
— Ah, não! Mas se eu não arrumar esse corredor em tempo recorde, as coisas vão ficar mais feias do que já estão. — Apolo responde, e nos apontas estantes diversas, indicando quais volumes colocar nelas.
— Afinal de contas, o que está acontecendo?! — pergunto, sem paciência para subterfúgios.
— Pelo que entendi no que vi, essa maldição além de apagar nossas memórias, exclui tudo o que condiz com amor passional: por isso Thalia não lembra de você, Nico! — ele informa, e é desnecessário dizer que senti uma pontada de dor e raiva. — Vi pessoas sem esperanças e com ódio no coração, e desejei mais que nunca ser capaz de não ver o futuro!
— Mas... No que isso interferiria? Quer dizer, não é como você fosse a causa de todo esse estopim... — Aria murmura
— Talvez eu seja, talvez não: nunca tenho certeza quando se trata do meu próprio destino. — ele afirma como se fosse uma revelação dolorosa. — De qualquer forma, por mais que eu saiba o que fazer, não terei tempo para tal coisa.
— O quê? Como assim? — era a primeira vez que via um deus se intromete em “negócios” mortais, e ele se intrometia para dizer que não tem tempo?! Que loucura é essa?
— Se vocês se assustam com o que acontece com Rachel a cada profecia que ela proclama, vocês deveriam ver o que acontece comigo a cada profecia que vejo. Quanto mais forte elas são, piores as conseqüências para mim... Mas viver com almas fragmentadas ocupando seu corpo e tomando posse de sua mente tem dessas conseqüências. E, graças a isso, minha última visão tirou quase todas as minhas forças, e consumiu Ártemis em preocupação, nos arrastando junto com vocês para essa confusão.
Olhei para Aria, em total desespero: se aquela maldição era forte o suficiente para atingir dois olimpianos poderosos — principalmente juntos —, o que nós, simples semideuses, poderíamos fazer contra ela?
— Na verdade, acredito que essa seja a última vez que me verão como o deus que bem conhecem... Pelo menos por um bom tempo... Não que estejam realmente me vendo: estou usando minhas últimas forças para projetar esse estado de sonhos e tentar explicar o que fazer! O que está sendo impossível nessa bagunça feita por Atena: fala sério, não há discernimento no caos!
E mesmo em uma versão utópica, Apolo ainda era categórico. E organizava os livros tão rápido quanto um maestro rege sua orquestra.
— Para doze portas abrir, do sangue de três necessitará. A exilada, o herdeiro e a guardiã... Não se deixem enganar por esses versos: não estou no total domínio de minhas faculdades mentais quando escrevo essas profecias; às vezes, não fazem sentido nem para mim.
— Elas são mesmo confusas... Mas costumam ser menos confusas quando as profecias estão completas. — Aria resmunga.
— E essa está. Você a sabe. Só não se recorda. — ele suspira, caminhando para as poltronas. Arrumara o corredor em tempo recorde. Só restava um livro fora do lugar, que ele segurava como se fosse algo muito precioso.
Apolo parecia derrotado.
— Eu sei por que está aqui, Nico di Angelo. — ele fala, baixíssimo — Eros, como sempre, ferrando a minha vida... Mesmo sem saber! E pondo outros para fazer o trabalho sujo por ele.
— Por... Por que estou aqui, senhor? — pergunto temeroso. Aprendi que, quando uma cria de Apolo fala misteriosamente, coisa boa não estava por vir... Imagina o que estava por vir quando era o próprio deus quem falava misteriosamente?!
Ele focou bem os olhos em mim, dois orbes azuis perfurando minha alma. Não como Thalia, que enxergava o melhor de mim, ou Catarina e Valentina, que sabia muito ao passo que nada entendiam. Ele me olhou como se averiguasse se eu era capaz de fazer o que me era pedido.
— Para me salvar! — ele responde, abrindo uma nova onda de perguntas na minha mente.
Que jamais seriam respondidas por ele, que se desfez, levando o sonho consigo.
P. O. V Aria:
Acordei não ofegante, mas assustada e, em certo ponto, aliviada. Fora uma noite de descobertas, mesmo sendo findada com mais perguntas — afinal do que Apolo precisava ser salvo?!
De qualquer forma, Nico mostrara uma forma de mantermos contato, mesmo que eu duvide que ele tenha notado tal fato. “Sonhos lúcidos” não era algo que todos podiam desencadear, mas eu daria um jeito nisso: eu encontrava livros, então podia encontrar meus amigos também.
E, ao fim de suas forças e do sonho, Apolo me deixou um ótimo presente: a profecia completa. Era o último livro, que ele não pôs no lugar e que, de alguma maneira que eu jamais entenderia, estava em minhas mãos agora.
— Assim, eu entendo que esteja sentindo falta do meu tio, mas eu realmente acho meio incômodo sair do banheiro e dar de cara com a senhorita aqui! — salto da cama em que estava, dando de cara com Gregory enrolado em uma toalha.
— Oh deuses, estou sendo campeã em ver caras seminus! — reclamo, virando de costas para ele, e fechando os olhos.
Por que o chalé de Eleazar é coberto de espelhos? Eu realmente queria saber a resposta?!
— Desculpe-me: não tenho idéia de com vim parar aqui, mas de certa forma é bom!
— Por que você quer tirar minha virgindade? — Gregory arrisca, e sinto vontade de tacá-lo contra um dos espelhos e fazê-lo ultrapassá-lo.
Infelizmente, minha força estava na mente.
— Se você é mesmo o herdeiro da profecia, fique feliz: acabo de recebê-la do próprio Apolo! — me vanglorio, levantando e tentando seguir em direção a porta.
Considerando que, quando Valentina sumiu e Eleazar veio para o Acampamento, eu passei uma boa quantidade de tempo naquele chalé, ouvindo-o chorar, eu me sentia bem apta a achar a saída sem precisar abrir os olhos.
— Nem vou perguntar como conseguiu isso...
— Não pergunte! Apenas se vista e me encontre na Casa Grande.
Saí sem esperar por uma resposta de Greg — que parecia ter puxado o dom de fazer piadinhas, assim como Eleazar —, correndo para encontrar Quíron e, com sorte, achar Will e Rachel no meio do caminho.
Não fui parada e nem achei quem procurava, mas de longe vi um par de olhos castanhos me observando e, apesar da distância, podia sentir todo o desprezo contido neles. Toda a raiva.
Silenciosamente prometi que os olhos de Sophia voltariam a me olhar com a admiração que eu conhecia. Eu os traria de volta e redimiria meu erro do passado.
Afinal, agora eu sabia como agir!
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