State Of Dreaming
6 5 - Don't Know What To Do
Notas iniciais
P. O. V Autora:
Não sabia ao certo o que o despertara: o sol ofuscante ou o suave canto dos pássaros; mas sabia que havia algo errado.
Para início de conversa, estava jogado à beira de uma estrada rodeada por árvores, embora se lembrasse de estar sentado, ao lado da namorada, no banco de trás do carro de um amigo. Lembrava-se de que corriam para o Acampamento, e procurou olhar em volta para checar se havia chegado ao destino, e se surpreendeu quando notou que uma tristeza sem igual tomou conta de si: não havia Colina, não havia Acampamento Meio-Sangue por ali.
Na verdade, não havia nada por ali! E Nico nunca se sentira tão perdido antes. Nem mesmo quando viajava pelas sombras e se via no limbo da Escuridão, onde duvidava que o Batman quisesse continuar com o título de Príncipe das Trevas.
Trevas: fora para elas que correu quando tentou salvar a si e a namorada. Gostaria de ter salvado aos amigos também — todos eles —, mas jamais recuperara totalmente seus poderes desde que transportara a Atena Parthenos.
“Então, além de guia turístico do submundo, você também é entregador e agora disputa com Hermes o ramo de Logística! Nico di Angelo, o senhor é um SENHOR namorado, viu?” — Thalia brincara com ele, rindo da forma como só ria com ele.
Ela se tornara tudo para ele! Tomou conta de seu coração de forma tão repentina, que às vezes perdia a razão e agia por puro instinto... Como fizera naquele dia.
“— O que está fazendo? — Thalia sussurrara para ele, quando subitamente foi abraçada
—Não vamos conseguir, e eu não posso tirar todo mundo daqui: tenho que salvar pelo menos você!”
Ele tentara, mas nas atuais circunstâncias, sabia que não obtivera sucesso. Pelo menos não total: aparentemente ele escapara, mas e ela? Onde estava Thalia?
— Ah, Lia! Se você tiver virado uma dessas árvores, eu vou enlouquecer mais do que Dionísio em dias de vinho liberado...
— Eu diria que já enlouqueceu: está falando sozinho, deitado a beira de uma rodovia! Só faltava estar cantando Ride, ou sei lá... Total Eclipse Of The Heart... — uma voz, vinda do meio das copas das árvores, o interrompe. — Normal você não pode ser.
A rapidez com que se levantou e se pôs na defensiva surpreendeu até a ele! Reconhecera a voz, e ela apenas despertava más lembranças.
— Não deveria estar morto? — pergunta, sem se importar em mascarar o desdém.
— Deviam perguntar isso a você que, se duvidar, deve ter visto Mussolini ao vivo e a cores! — a voz responde, no mesmo tom — Mas não se preocupe: vim em paz e tenho até Cookies para provar! Mamãe quem fez! — e o dono da voz se revela.
Em nada se parecia com o anjo perverso que confrontara: o cabelo negro foi substituído por uma vasta cabeleira loira e cacheada, o brilho de sagacidade se apagara dos olhos, onde agora a gentileza tinha vez.
— Agora você parece os caras das pinturas. Botticelli te pintou? Encontrou com ele por aí, e ele te deu dicas de estilo? — Nico continua, surpreso com sua própria petulância.
— Já entendi que você me odeia, Nico, e nem vou tentar me desculpar, pois sei que não adiantaria. — o deus suspira — Mas realmente vim em paz e esses cookies estão realmente bons: quem diria que Afrodite cozinhava tão bem assim? Não me lembro de ela ter feito algo do tipo quando eu era criança...
— O que você quer afinal? Não estou no clima para conversas fiadas...
— Você nunca está! — Eros suspira — Enfim, eu vim porque talvez eu tenha feito algo errado, e você é um dos poucos que pode me ajudar.
Nico o encara e pisca duas vezes, absorvendo o que ouvira.
— Então ache esses outros poucos, porque eu estou fora! — o semideus diz, caminhando sem destino pela rodovia estranhamente vazia — Tenho uma namorada e alguns bons amigos para achar.
— Eu escolheria outra pessoa, mas ela está inacessível no momento... Assim como seus amigos e sua preciosa Thalia — o deus joga verde...
— Explique-se! — e colhe maduro.
Eros usa os próximos minutos para explicar a Nico o que acontecia: eles estavam certos ao presumir que a nuvem era uma maldição, e que se estivessem sob o domínio de um deus, não seriam atingidos. Agora, o deus explicava que uma maldição bloqueava os deuses que estavam fora dela.
— Às vezes bloqueia semideuses também, mas depende da vontade do autor da maldição.
— Esse, pelo visto, tem algo contra deuses e Nicos! — o garoto suspira, levando o deus aos risos.
— Eu estava ajudando minha mãe em algo, mas acabei fazendo algo errado... Creio que se a maldição acabar antes que o que fiz se concretize, tudo ficará bem.
— E como pretende fazer isso?
— Te mandando para ajudar a concluir a profecia! — e antes que Nico pudesse argumentar, o cenário ao seu redor desaparecera.
Estava, mais uma vez, envolto pelas trevas, mas não sentia nada além de tédio: aquele salto parecia mais longo do que qualquer outro. Porém, da mesma forma súbita que começara, terminou, e o ambiente era mais aconchegante que o anterior.
Mas não teve tempo para reparar em nada, exceto o par de olhos azuis que o fitavam.
P. O. V Valentina:
Quando saímos do hospital, Cathy dirigiu até uma linda casa no meio do nada. Não havia vizinhos, como os que tínhamos em Manhattan, exceto os que estavam a cerca de um quilômetro dali.
— É aqui que moramos? — pergunto, soando o mais confusa possível.
— Sim. Pelo menos recentemente, sim: morávamos na cidade, mas desde que nossa mãe morreu, papai decidiu trocar a cidade pelo campo, e agora moramos aqui, na antiga fazenda da família... Agora papai é médio e criador de gado... E você não se lembra de nada, não é?
— Não, sinto muito! — suspiro, saindo do carro.
Minha mente ainda estava dando voltas, sempre voltando ao ponto que eu me lembrava: o último 4 de julho, o aniversário de 3 anos de namoro, Eleazar! Ele parecia tão feliz naquele dia, mesmo sabendo que...
— Bella e Liv...
— Lembra-se delas? — Cathy pergunta, bem perto da porta.
Eu me lembrava das meninas, duas lindas garotinhas ruivas, fofas e inteligentes. As mini-morangos, minhas cunhadinhas... Entretanto, eu não tinha idéia de como elas eram ali, naquele mundo onde eu morava em uma casa amarela de fazenda, extremamente parecida com a da avó da Chapeuzinho Vermelho.
— Vagamente... Elas são ruivas, não é?
— Sim, puxaram ao pai...
Pai?! Que pai? Eleazar nunca tivera certeza da filiação das irmãs, embora desconfiasse...
— Pai?! — questiono verdadeiramente curiosa, entrando na casa de decoração rústica.
— É! O professor de francês, Monsieur Campbell!
E depois dessa informação, resolvi que podia aproveitar as ordens do doutor e resolvi segui-las naquele momento: pedi a Cathy que me mostrasse meu quarto, e lhe disse que descansaria um pouco. Minhas cunhadas virarem minhas enteadas era demais para mim. Se bem que...
— Cathy, por acaso eu me dava bem com elas?
— Claro. — ela sorri — Você era a babá delas! — e aponta para um porta retrato sobre o criado mudo.
Na foto, Bella, Liv e eu estávamos sentadas num píer. Eu tinha uma vara de pescar em mãos e olhava para a câmera por sobre o ombro. As meninas — uma de cada lada meu — estavam totalmente viradas para o fotógrafo, que eu sabia ser Eleazar: a foto fora tirada no verão de 2012, um ano depois que começamos a namorar, quando passamos um dia no lago.
— Eu era? E por que não sou mais?
— Aparentemente, você e Monsieur discutiram feio há alguns meses e ele a demitiu! — ela dá de ombro, como se não fosse grande coisa — Vou ao restaurante aqui perto, comprar algo para comermos. Não vou demorar, mas se precisar de qualquer coisa ou se sentir qualquer coisa, é só apertar o número dois do telefone: vai ligar pro meu celular e eu volto correndo, ok?
— Ok! — sorrio para tranqüilizá-la — Imagino que meu celular tenha sido destruído, certo?
— Nem foi achado! Mas não me importo: fico feliz que esteja em casa! — ela sorri mais uma vez e sai.
Segundos depois, ouço seu carro se afastar e me ponho em ação. Eu tinha uma vida toda para redescobrir, mas ela podia esperar enquanto eu tentava retomar a antiga.
Disquei os números tão familiares, rezando para que os deuses me ajudassem. Eu precisava de um milagre.
— Will? — pergunto baixinho, quando atendem a ligação.
Ouço apenas a interferência e o silêncio do outro lado da linha, durante tanto tempo que quase desisti. Porém, logo um “shiuu” se faz ouvir, antes de meu irmão falar.
— Valentina?! É você mesmo? Onde você está? Onde está Catarina? Como vocês estão?
Respondo ao bombardeio de perguntas, chorando de alívio, frustração e solidão: eu não tinha idéia de onde estava, e nem certeza de como estava. Sentia-me fisicamente bem, mas mentalmente instável. Quanto a Cathy... Eu nem sabia responder quem ela era agora.
— Papai está aqui, Will! Ele está em coma, assim como eu estava, e Ártemis está cuidando dele! — respiro fundo. — Eu nem sei como explicar isso: estou tão perdida!
— E os outros? Tem notícias deles?
— Não! Além do Eleazar, eu não ouvi sobre mais ninguém.
— Pelo menos ele está aí com você, não é? — eu sentia que Will queria dizer algo, mas sua preocupação o fazia protelar.
— Quem me dera! — suspiro, e lhe conto rapidamente o que Cathy dissera — Alguma idéia sobre o que tá acontecendo? Aceito qualquer teoria...
— Teoria eu não tenho, mas meia profecia... — ele então suspira e começa a me contar tudo o que ocorrera depois que fomos engolidos pela nuvem maldita.
Meia profecia, desmaio de Rachel, a volta de Ari. Seu sonho idêntico ao meu. A chegada de Gregory e Sophia.
Eu estava a ponto de lhe perguntar a relevância disso quando um clarão me chama a atenção e eu corro até o corredor.
Meu milagre chegara na forma de um lindo adolescente de 17 anos.
P. O. V Nico:
Encontrar com Cupido... Eros, já era chocante o bastante, mas ser transportado e acabar no corredor de uma casa, para logo em seguida saber que se tratava da casa de Valentina... Isso era demais até para mim.
— Nico?! Oh, deuses, como veio parar aqui? — lágrimas rolavam por seu rosto delicado.
— Não vim: fui atirado aqui pelo seu primeiro cadáver...
— Cupido? — ela engasga.
— Eros! — levanto, aceitando sua ajuda — Aparentemente ele quer se redimir e veja só quem ele escolheu como ferramenta! — faço um gesto, indicando a mim mesmo.
Mas ela nem está prestando atenção em meu drama. Já está, de novo, ao telefone, gritando que eu me lembrava, que ela não estava só no mundo. Ela responde a algumas perguntas e promete que vai retomar a ligação, e então desliga.
— Você não tem idéia de como estou feliz em vê-lo, Nico! — ela comenta, ainda chorando e me puxando para o que parecia ser seu quarto.
— O que, pelo Elmo das Trevas, está acontecendo? E desde quando você é grunge? — era impressionante como ela estava vestida.
Se me dissessem que ela vestira uma cortina, eu acreditaria sem pestanejar.
— Tudo é um pesadelo vivido, inclusive essas roupas. Mas vou lhe contar tudo o que descobri, e quem sabe você não me ajude com toda essa loucura?!
Ela me conta, sem subterfúgios, tudo o que soube desde que acordou em uma cama de hospital naquela manhã. Contou-me até mesmo o que Will lhe dissera pelo telefone, sobre a profecia, mas não fiquei tão chocado com isso como fiquei quando a ouvi dizer o que acontecera com seu namorado e com suas cunhadas. Era triste ver que aquele casal tão bonito estava sendo danificado por seja lá quem fosse o responsável por tudo aquilo.
— Nico, eu me sinto tão perdida! Ele e eu, nós sempre estivemos juntos nessas situações, ele sempre foi o pilar que me sustentou: não sei o que vou fazer... Não sei...
Eu estava prestes a interrompê-la, pedindo que se acalmasse, pois estava ali para ajudar a quebrar a maldição, mas antes que eu pudesse pronunciar uma única palavra, a porta é abruptamente aberta e uma força da natureza passa por ela, deixando-me surpreso.
— Vi o carro da vadia da sua irmã passando e, como soube que a gatinha está de volta, vim me certificar de que esteja bem, antes que aquela vagabunda biscate volte!
Contralto: o timbre de voz feminino mais forte, aparentemente difícil de encontrar... Pelo menos eu achava. Combinava perfeitamente com um barítono... Diziam que tal combinação era uma dádiva, uma graça concedida pelos anjos. Meu timbre feminino favorito, pertencente a dona de meus segredos e desejos mais profundos: Thalia! Thalia Grace!
Mia Grace, que para minha surpresa, e total pavor de Valentina, lhe dava um selinho.
— Ma Che cazzo? — grito, antes que pudesse me conter... Na verdade, não tinha como me conter.
— Eita, arrumou um boy magia importado, amiga? — Thalia ri, jogando-se na poltrona que havia no quarto. — Não se preocupe, gato: sou uma seladora da paz. Se quiser um selinho também, é só dizer... Mas só se sua garota deixar!
Eu não queria um selinho, queria bem mais que isso. Muito mais, mas, de novo, não tinha como me conter e muito menos necessidade de perguntar a minha garota, pois ela, ao que tudo indicava, se transformara numa maníaca beijoqueira.
Isso a classificava como ninfomaníaca?
Enfim, dei meu melhor sorriso de lado e dei de ombros, como se deixasse a seu bel-prazer. Não me aborreci quando ela se aproximou, apoiou suas mãos em minhas pernas, e as apertou quando selou nossos lábios, demorando-se muito mais do que quando beijou Valentina, tempo suficiente para que eu, fraco em meus desejos, puxasse-a para perto, aprofundando o beijo, sem me importar com maldições ou o caralho a quatro: eu tinha Thalia em minhas mãos, e só isso importava.
Se fosse julgar pelo entusiasmo do beijo, eu diria que não havia nada de errado. Pelo contrário: por mim estava tudo certo ela deslizar suas mãos sobre mim, apertando minhas pernas e seguindo mais para cima; também estava tudo certo morder meu lábio inferior ou entortar meus óculos... Enquanto ela não reclamasse de minha mão sob o tecido de seu short curtíssimo, estava tudo certo... Estaria mais certo ainda se estivéssemos a sós e se ela não estivesse sendo impedida pelo tecido de meu jeans.
— Eu diria “arranjem um quarto”, mas já estão em um, e acho que estou sobrando em meu próprio quarto... Se quiserem continuar, eu saio numa boa... — Valentina nos interrompe.
Desvencilho-me, a contra gosto, de Thalia... Eu realmente queria continuar a trabalhar sob aquele shortinho.
— Amiga, acho melhor procurar outro boy magia importado: esse aqui veio com infidelidade no pacote! — Thalia se afasta, voltando para sua poltrona.
— Ele não é infiel! Até porque não temos nada além de amizade. — Valentina fala, como se aquela fosse nossa normalidade — Este é Nico di Angelo, um amigo de Veneza.
— Bom saber! — a maluca beijoqueira pisca para mim. — Mas então, gata, como você...
— VADIA!
E tudo foi tão rápido que não tive tempo de interferir: a próxima coisa que vejo são duas forças da natureza em guerra, uma menor que a outra e mais destrutiva também. Entre Cathy e Thalia 2.0, não sabia qual era pior, apenas sabia que elas se odiavam.
— Pois é Valentina: você não é a única que não sabe o que fazer
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