State Of Dreaming
31 30 - Here For You
Notas iniciais
P. O. V Valentina:
Escapar de uma maldição e de um conselho olimpiano no mesmo dia era motivo para se comemorar em grande estilo, mas tudo o que precisávamos e queríamos naquele momento era reencontrar nossos amigos e familiares, fazendo questão de lhes mostrar que ainda estávamos ali. Que ainda estávamos vivos.
Foram três meses distante de tudo e todos; rever o rosto de todos os campistas era revigorante. Poder abraçar todos os meus irmãos me fez sentir segura e enfim de volta ao normal: os deuses que me impedissem e guardassem de viver em um mundo sem a presença de Will Solace.
— Deuses, é tão bom ver vocês de novo! — Will repetia pela milionésima vez. Estranhamente ele estava sem palavras naquele dia, porém todos o entendiam: a emoção era tanta, que vocabulário algum a compreenderia.
— Já deu tempo de você comprar um celular novo? — Nico sorri, perturbando o pobre Will.
Mas não havia espaço para briguinhas bobas como estávamos acostumados: a brincadeira foi seguida de um abraço, e um pedido de Will para que, se Nico um dia casasse, o chamasse para ser o padrinho. Isso deixou Thalia encabulada, e fez com que Jason arrastasse a irmã para longe; foi bonitinho, e engraçado ver os veteranos — Jason, Will, Nico, Thalia, Percy e Annabeth — reunidos e discutindo como antigamente.
— Graças aos deuses! — ouço a voz de Fleur, e não posso evitar sorri ao vê-la abraçar seus filhos. — Eu pensei que perderia vocês pra sempre!
— Não se preocupe, mãe: eu ainda vou ter perturbar por muito tempo! — Eleazar a tranqüiliza, mas era possível ouvir o embargo em sua voz.
Ele também pensara que jamais retornaria a ver seus familiares. Todos nós pensamos isso, e vê-los no Acampamento para nos receber foi uma das melhores sensações do mundo, especialmente para Isabella e Olivia: sempre soubemos que as irmãs de Eleazar também eram semideusas, mas jamais imaginamos que enfrentariam sua primeira missão/maldição ainda na infância. As duas estavam mais do que aliviadas em verem sua família e ouvirem que logo voltariam para o Canadá, que voltariam para casa.
Nossa surpresa apenas aumentou quando até mesmo Claire apareceu por lá, chorando, abraçando a mim e Catarina. Tio Klaus e Jasmyn trocaram sorriso ao verem a reação da que um dia chamávamos de megera — não que tio Klaus já tenha chamado a própria filha de megera, mas de qualquer forma...
— Sinceramente, vou ficar colada nas duas agora: se eu perder vocês, quem eu vou xingar?! — a voz de Claire se tornara ainda mais estridente por conta do choro, o que me fez rir em meio as minhas lágrimas. — Você cresceu tanto, Valentina!
Aquela era uma frase que eu não ouvia com freqüência, muito menos esperaria ouvir de Claire. Minha expressão deve ter ficado perfeitamente confusa, pois ela me abraçou outra vez antes de se afastar para explicar.
— Eu vi a Cathy crescer ao longo desse tempo, indo a todas essas missões malucas. E agora eu vejo você crescendo também! Você está mais madura, mais decidida: dá pra ver isso no seu rosto, Valentina! — Claire declara, me deixando em choque.
Sempre me considerei a pessoa mais fraca naquele grupo, a que sempre fora protegida de tudo e posta de lado; graças a esse pensamento, por muitas vezes pensei que fracassaria na missão, que jamais conseguiria resgatar meus amigos. Entretanto, ali estava eu, recebendo elogios de uma prima que eu jurava que odiava a todos.
— Eu disse pra vocês que não precisavam me proteger de tudo! — faço questão de apontar para Catarina e Eleazar, que simplesmente reviram os olhos.
— Tá no meu contrato salvar todo mundo, desculpa! — Cathy sorri sarcástica. — Mas, por mais que um dia eu me arrependa de dizer isso um dia, eu concordo com a Claire. Estou muito orgulhosa de você!
— Eu to totalmente nem aí para o que vocês pensam! — Eleazar empurra minha irmã para fora do caminho e me ergue do chão. — Eu não consigo parar de ficar louco por você! Eu te amo cada dia mais e mais!
E com aquele beijo, eu tive a certeza de que Afrodite sempre esteve certa ao nos dizer que amor era uma arma poderosa. Foi por amar meus amigos que me esforcei para superar meus medos, mas foi por amar meu namorado que dei meu melhor para derrotar Éris. Eu permitiria que qualquer um me atacasse por qualquer coisa, porém, em hipótese alguma permitiria que ficassem entre Eleazar e eu.
Eu o amava. E ele sempre saberia disso!
P. O. V Autora:
O verão acaba melhor ainda quando Lorenzzo e Catarina são flagrados juntos, a beira do lago, sendo apenas dois jovens normais, sem preocupações com missões e maldições, aproveitando o pôr do sol de uma linda tarde de verão.
— Então, como vamos aproveitar essas duas semanas que nos foram dadas? — o italiano pergunta, deitado ao lado da namorada.
De acordo com o calendário letivo de Nova York, as férias dos campistas haviam acabado há muito tempo, porém Quíron conseguiu interferir e lhes concedeu duas semanas de bônus. Era quase nada, se comparado com o tempo em que passaram presos e sofrendo dos efeitos do plano de Éris, porém era com isso que eles poderiam contar para descansar antes de retornarem a correria da vida “normal” como estudantes e trabalhadores.
— Ainda estou na dúvida... — Catarina suspira, encarando as águas cristalinas além da margem. — Eu quero ficar aqui, mas também quero ir ao Brasil, e ao mesmo tempo quero só ficar em casa, assistindo Netflix o dia todo... Tem mais de um ano que eu não tiro férias!
— E entre todos os planos, em qual deles eu me encaixo?
— Depende se você estará disponível para maratonas de séries de comédia na Netflix... — Catarina murmura, aproximando-se.
— Eu estou sempre disponível para passar um bom tempo na horizontal com você!
— To vendo isso! — ela ri, beijando-o levemente. Um simples roçar dos lábios cheios de Catarina sobre os de Lorenzzo, sem toda a voracidade com que estavam acostumados. — Como deve ser viver um namoro normal?
— Acho que deve ser um tédio! — ele ri, puxando-a para cima de si. — Consegue imaginar nós dois assim, simplesmente aproveitando um tempo em silêncio, sem mil preocupações na cabeça? Porque eu consigo: to a fim de viver um tédio com você, nem que seja por um tempo!
— Eu não dou três meses até você achar algo que te irrite! E quando isso acontecer, eu vou estar lá, para rir de você...
— Cathy, você é uma pessoa muito má...
— ... e te beijar até que se acalme de novo porque, embora eu ache que precise de um psicólogo, eu não consigo odiar esse seu lado explosivo! — Catarina o surpreende com sua singela declaração, deixando-o boquiaberto. — Eu amo você, Lorenzzo, mesmo com todos os defeitos, eu te amo! Enfrentamos os desafios mais perversos juntos, e acho que está mais do que na hora de enfrentarmos nosso temperamento também!
Não havia mais o que ser dito ali, palavras jamais conseguiriam explicar o que Lorenzzo e Catarina sentiam um pelo outro. Falta de lembranças, morte, términos e maldições: nada era forte o suficiente para separá-los, e se nada conseguiu ficar entre os dois, eles muito menos queriam ser culpados pelo fim do próprio romance. Portanto, Lorenzzo apenas concordou com a proposta de Catarina, selando tudo com um beijo.
Eles teriam duas semanas de paz, e aproveitariam cada dia como se fosse o último. Voltariam a viver sob o antigo lema de Catarina — Carpe Diem —, e quando os desafios voltassem... Eles estariam prontos para qualquer coisa.
— Ah, quase me esqueci: de noite eu vou voltar pra Manhattan com tio Klaus... Vamos ter algo mais íntimo, em família, aproveitando que Claire está tendo um momento de fofura e paz!
— E eu vou me encontrar com minha mãe e a Sophia! Aparentemente tem algo que minha irmãzinha quer me contar...
Para o completo deleite da filha de Apolo, uma visão toldou sua mente. Porém, dessa vez, ela não se assustou com o que via no futuro: boas coisas estavam por vir.
— Seja um irmão compreensivo e dê apoio a qualquer decisão que sua irmã tomar! — Catarina ordena, já sabendo do que sua cunhada iria falar naquela noite.
— Desde que a decisão não envolva destruir o mundo... — Lorenzzo brinca, lembrando-se da primeira missão dos dois. — Eu estou mudando, Cathy, não se preocupe!
— Bom saber, Lorenzzo... Bom saber!
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Will Solace estava feliz: suas irmãs estavam bem, seus amigos estavam bem. Há anos não havia mais baixas no chalé de Apolo, e talvez ele fosse o primeiro conselheiro chefe que poderia se gabar com isso. No entanto, toda a felicidade dava lugar a tristeza e raiva naquele momento, enquanto encarava os olhos então castanhos de Stephanye.
Ele nunca compreendera como as emoções afetavam os poderes de Steph, mas poderia jurar que aquelas cores opacas representavam o arrependimento. E ela não era a única a se sentir assim; Will se arrependia de um dia ter confiado nela, se ressentia por ainda amá-la mesmo depois da traição.
— Eu não vou pedir que me perdoe...
— Muito sábio de sua parte, pois sabe que não a perdoaria se pedisse! — ele a interrompe, tentando controlar suas emoções.
— E nem deve! Eu assumo toda a culpa por tudo que fiz, mas espero que saiba que ainda assim o amo... Eu só queria pro...
— Não diga que queria me proteger! Entregar meus amigos ao inimigo não é a melhor forma de me proteger!
— Fazemos coisas estranhas quando queremos manter seguras as pessoas que amamos. — Stephanye tenta se proteger, mas era com Will que ela estava lidando: deveria saber que não adiantaria
Will poderia ser a pessoa mais divertida do mundo, mas também tinha um senso de lealdade sem igual; para ele, proteger significa dar espaço para a pessoa crescer e desenvolver todas as suas habilidades por igual, guiar a pessoa em sua própria defesa. Talvez fosse por isso que ele não conseguia perdoar Aria: não apenas ela traiu os amigos, mas também impediu John de se defender e escolher se queria ou não ser salvo à custa de Nico e Thalia; talvez fosse por isso que ele ainda tivesse certa desconfiança de Lorenzzo e Eleazar, muito embora reconhecesse que os dois estavam mudando de comportamento e sabiam aceitar a verdade sobre Catarina e Valentina: elas eram heroínas, assim como eles.
— Se você realmente me ama, ou algum dia amou, deveria saber que eu sei me defender, Stephanye! Eu estive em duas guerras, vi mais mortes do que gostaria. Vi inúmeros irmãos meus padecerem, e jamais, em hipótese alguma, pensei em entregar uma vida em ordem de salvar outra! — Will discursa. — Seu ato não passou de covardia e falta de confiança, e essas são coisas que eu não consigo perdoar.
— Então é um fim mesmo?
— O que você esperava? Flores? — o loiro soa sarcástico. — Eu sou grato pelos bons tempos que tivemos juntos, e por ter ajudado no resgate de minhas irmãs, mas não acho que conseguiria voltar a te encarar sabendo do que fez.
— Certo! — ela sussurra, e Will mais uma vez precisa se segurar para não dar para trás em seu plano de ser forte. — Não se preocupe,Will Solace: nem você, nem mais ninguém, irá ouvir falar de mim de novo; estou voltando para Los Angeles hoje mesmo. Espero... Espero que sejam felizes e tenham uma boa vida.
— Queria poder dizer o mesmo! — Will dá as costas para Stephanye, seguindo noite adentro sem voltar a lhe dirigir o olhar.
Ele não tinha o dom da clarividência, e tampouco era um dos melhores cantores ou arqueiros, era quase uma fraude como filho de Apolo; Will era o melhor curandeiro, mas nem mesmo ele sabia como iria curar a ferida que causara em seu coração.
P. O. V Nico:
Eu gostava da quietude que somente as noites poderiam proporcionar. De minha cama no chalé de Hades eu podia ver as estrelas, e me perguntava quando voltaria a ver as luzes de Nova York. Eu sentia falta da cidade, e da bagunça que a escola poderia ser.
Eu estava refletindo sobre a proposta de Quíron quando ouvi o que só poderia ser o retesar de uma corda e o silvo de uma flecha cortando o ar. Até aí tudo bem: do chalé eu sempre ouvia os treinamentos de arco e flecha; porém a flecha lançada se perdeu na escuridão e o arqueiro que a lançara praguejou alto o suficiente para que eu reconhecesse a voz de Will.
Do contrário de suas irmãs mais novas, Will não costumava dormir tarde, e isso despertou minha curiosidade. Descalço, saí do chalé 13 e segui até os alvos que ficavam ali por perto. Mesmo na escuridão era possível ver os cabelos loiros de Will, e de longe eu podia ver também dois pares de olhos prateados. Catarina nos observava, eu sabia, e provavelmente queria que eu descobrisse o que estava acontecendo.
— Hey, o que ta fazendo acordado há essa hora? — pergunto despretensiosamente. — Escutei as flechas fugindo de você!
— Acabou, Nico! — Will suspirou, jogando-se no chão. — Steph e eu... Acabou tudo.
Eu estava um tanto decepcionado, mas não surpreso com a notícia: depois que Stephanye revelou ser uma agente dupla, eu já esperava que esse tipo de coisa acontecesse. Porém eu jamais previra que Will ficaria abalado ao ponto de tentar treinar arco e flecha: ele não tinha a melhor das miras, mesmo que tivesse uma visão aguçada.
— Você provavelmente não deve saber o que dizer, e a Cathy também não, porque ela ta ali observando e não tagarelando. — ele abre um sorriso amargo. — Mas ta tudo bem: contos de fadas não são reais, e eventualmente tudo acaba!
— Sinto muito, cara! — aperto seu ombro, sentindo-me triste por ele.
Will era um dos meus melhores amigos. Talvez o primeiro que realmente considerei amigo, e vê-lo naquele estado era terrível. Agora eu conseguia entender como ele se sentia ao tentar me manter sempre alegre, e eu continuava o afastando.
— Ela vai embora amanhã. — ele continua os relatos, e eu apenas assinto, sentando-me ao seu lado. — Não vai voltar para Yancy, e sim para sua casa em Los Angeles.
— Ela poderia ir para o Acampamento Júpiter... Reyna não se incomodaria! — solto, embora não soubesse ao certo qual seria a reação de Reyna caso eu lhe propusesse tal coisa.
— O lugar dela não é entre nós! Não a quero perto de meus amigos! — a voz de Will sobe algumas oitavas, mostrando que apesar da tristeza aparente, a raiva também estava ali.
— O que você vai fazer? — pergunto, provavelmente sofrendo de alguma epifania. — Términos significam recomeços, sabe...
Will me encara, e eu gostaria que ele tivesse disfarçado a surpresa ao me ouvir tão otimista. Sim, eu não era o cara que acreditava em finais felizes, mas se eles nos são oferecidos, nossa melhor chance é segurá-los em nossas mãos até que se esgotem e tenhamos que voltar a lutar.
— Cara, dá até orgulho saber que eu ajudei a mudar você! — ele murmura, fingindo secar lágrimas em seu rosto. — Que coisa linda que criei!
Trocamos olhares por alguns segundos antes de começarmos a gargalhar. Ríamos tão alto que fiquei surpreso por não termos chamado a atenção das harpias de limpeza.
— Eu falo sério, Will. Você merece ser feliz: é um cara genial, dá ótimos conselhos, e é o melhor curandeiro que poderíamos pedir. Sinto que nem todos te dão o valor que merece, mas eu sou seu melhor amigo e to te falando: você vale muito! — discurso, fazendo uma breve pausa para respirar. — Se seu destino é ser feliz ao lado da Steph, eu não sei, mas antes de ser feliz ao lado de alguém, você precisa ser feliz consigo!
— Disse o cara depressivo, anti-social, e que mudou depois que começou a namorar... — ele revira os olhos, tirando todo o crédito do meu discurso de “melhoras, Will”.
— Mas eu era feliz antes de conhecer a Thalia. Eu a conheci há sete anos, e naquela época eu era feliz! Ok, atravessei momentos sombrios em minha vida, mas, agora eu vejo, tive amigos ao meu lado que me ajudaram a não sucumbir. E adivinha só? Você também tem esses amigos! Você tem a mim, a Cathy e muitos outros dispostos a se sacrificarem por sua felicidade!
— Mas se vocês se sacrificarem, aí mesmo que não terei pelo que ser feliz! — ele suspira, erguendo o olhar. — Eu vou voltar pra faculdade: cuidar das pessoas me deixa feliz. Eu poderia ficar preso aqui, curando os campistas, mas quero um pouco mais que isso. Sei lá, quero me perder no Coachella e sair de lá morrendo de rir.
— Então vai! — Catarina enfim se junta a nós, jogando-se aos nossos pés. — Poderia me oferecer pra ir, mas aposto que ir solteiro pro Coachella deve ser mais legal.
— Não te vi animada assim quando terminou com o Lorenzzo ano passado. — Will comentou.
— Isso porque eu tinha que trabalhar para Afrodite, e ela não me deixaria “estragar seu casal perfeitinho”. — Cathy revira os olhos. — Lorenzzo não é o primeiro cara que namoro... E quando os outros casinhos acabaram eu não me deixei abater: valemos muito mais do que alguém que nos desrespeita.
— Eu não vou me deixar abater! — Will afirma, e enfim volto a ouvir a confiança quase arrogante em sua voz.
— Ótimo! — Cathy e eu murmuramos, trocando um high-five.
Depois de mais algum tempo conversando, eles resolveram voltar para o chalé sete, e eu voltei tranquilamente para o sombrio chalé de Hades, que ainda faria Annabeth redecorar. Preto é legal em roupas, não em paredes.
— Que coisa linda que o Will criou! — a voz de Thalia se faz ouvir no escuro, e eu quase infarto devido ao susto. — Calma, Nico! Sou só eu!
— Agora eu sei, mas quem é que chega no escuro assim de surpresa? — pergunto, tateando em busca de claridade.
— Geralmente você chega assim! — Thalia responde, acendendo uma lanterna que tinha em mãos.
— É meu papel fazer isso: eu sou o Rei Espectral! — conto vantagem, subindo na cama. — O que a Pára-Raios faz aqui? Sabe que é proibido ficarmos sozinhos no mesmo chalé.
— Eu só queria fazer uma visitinha pro meu namorado, mas se incomodo... — não a deixo terminar, logo tomando seus lábios nos meus em um demorado beijo.
Desde que ela recuperara a memória, quando ainda estávamos presos naquela maldição que eu gostaria de esquecer, não tínhamos passado um tempo juntos sendo apenas namorados. Mais parecíamos co-capitães de time do que dois adolescentes, então eu estava aproveitando aquele momento para puxá-la para mais perto, apertar suas curvas contra mim e saborear seus lábios sem um pingo de delicadeza.
— Você dizia...? — pergunto esbaforido, afastando-me um pouco para respirar.
— Que se eu vim até a droga desse chalé, foi para conseguir a droga que são seus beijos! — ela murmura, voltando a me puxar contra si. — Aliás, você fica uma graça quando ta ajudando seus amigos.
— Nesse acampamento só tem espaço para um cara triste, e esse cara sou eu mesmo, Nico di Angelo! — passo a língua em seus lábios, descendo para o pescoço, sentindo-a se arrepiar contra mim.
— Você realmente quer fazer isso agora? — ela suspira, e eu só consigo soltar uma risada antes de voltar aos seus lábios e lhe dar um beijo mais calmo.
— Talvez! — assumo, me afastando. — Mas o que você quer?
— Ficar com você aqui! — ela responde simplesmente. — Foi um dia longo, e eu só quero dormir. Mas não quero ficar naquele chalé sozinha: é assustador.
— Você não precisa ficar sozinha, Thalia! — digo, deitando nossos corpos na cama de novo. — Você tem a mim!
— Eu sei! E eu amo isso, coisa linda de Thalia! — ela ri, quase quebrando o clima romântico. — Eu te amo, Nico.
— Eu também te amo, sua boba! — sorrio, voltando a beijá-la. — Durma bem, moré!
— Dormirei com um anjo: não tem como isso ser melhor! — ela se aconchega em meu abraço, escondendo o rosto em meu peito.
Minutos depois, Thalia já dormia, e eu continuava a observar as estrelas. Eram centenas, inúmeras, mas elas jamais seriam equivalentes ao quanto eu amava a garota que estava em meus braços.
— Tu sei mia principessa, Thalia! — sussurro, acariciando seus cabelos escuros — Uma princesa guerreira, mas ainda assim uma princesa nobre e que eu amo! E admiro muito!
Posso jurar que a ouvi murmura algo, ou talvez ela já estivesse dormindo, porém não fazia diferença: estávamos bem, e isso era tudo o que me importava.
P. O. V Autora:
A noite já caía quando o quarto se encheu de som novamente. Apolo estava deitado ao lado da deusa da lua e tentava não se mexer enquanto lia. Ele perdera a conta de quantos livros havia lido na tentativa de não ficar pensando no que fizera — tudo em vão, é claro. Humanos podiam não saber como usar todo o potencial do cérebro, mas ele, sendo um deus e, principalmente, sendo o deus da razão, o usava com louvor —, mas tampouco se importou mais quando a ouvi falar.
— Hum... Ok, o que eu estou fazendo aqui, deitada na sua cama, dormindo nos seus braços? — ela pergunta, na defensiva, se afastando dele.
— Fala isso como se já não tivéssemos feito isso várias vezes antes. Eu me lembro de um tempo em que a deusa da lua adorava as festas de Afrodite e vivia dando luais bem loucos, com muita vodka e umas ervinhas legais... Na verdade ilegais, que conseguia com Dionísio. — ele desconversa, tentando bolar uma mentira boa o suficiente.
Ele podia conviver com mentiras, desde que elas fossem bem planejadas.
— Não muda o foco, bolinha de gás flamejante, me responda: por que estou na sua cama? E POR QUE ESTOU USANDO SUAS ROUPAS?
Isso, por que ele não pensou nisso antes?! Ele podia tê-la trocado, não é mesmo? Era só estalar os dedos — literalmente —, ou tê-la deixado usando as mesmas roupas que usava quando a levou até Hécate.
— Ahn... Se eu disser que não sei, você vai acreditar? — ele arrisca, enquanto tentava formular uma resposta plausível, que só lhe rendesse tapas e não flechadas.
— Tá achando que eu sou o que? Burra? Idiota? Uma das suas namoradas? — ela pergunta retoricamente, estranhando a si própria.
Sempre tivera ciúmes do irmão. Muito! Mas não jogava tal coisa na cara dele: só o faria se gabar mais.
— Relaxa criatura: estávamos apenas fazendo uma maratona de Arrow quando você caiu no sono... Disse que era muito chato e que era melhor que qualquer carinha vestido de verde. — a mentira viera, e ele agradecia mentalmente a suas filhas por, de fato, estarem assistindo ao seriado, seguras na casa dos Reymonds.
— Isso ainda não explica por que não estou vestindo meu confortável pijama da Victoria’s Secret...
— Pensei que não gostasse desse tipo de coisa... — ele murmura surpreso, achando essa atitude digna de Afrodite, não de Ártemis.
— Eu sou a deusa da caça, mas não significa que eu não goste de um luxo de vez em quando...
Ele riu, não agüentando mais manter a postura de irmão irritante. Ele riu como pensou que nunca mais riria. Estava certo em pensar que não agüentaria ficar sem ela por perto.
— Você realmente queria que eu saísse do Parnaso para pegar um pijama da Victoria’s Secret, sendo que minhas camisas estavam a uma porta de distância? — ele virou aqueles olhos mutáveis para ela, soando um pouco irônico.
Mas ela não ligou para a ironia, ou para as cores nos olhos dele, embora não conseguisse parar de fitá-los.
— O que estava lendo? — ela se inclina para pegar o livro que ele segurava na mão direita, no lado oposto ao dela.
— Ah não, senhora! Você não tem permissão para ler esses livros. — ele a prende pela cintura, impedindo-a de conseguir pegar o livro.
— Ah,entendo: mais um dos livros que você só pode ler com Atena! — ela revira os olhos, mostrando todo o desdém que sentia pela situação.
Ele sorri e se afasta, levando o livro consigo até o outro lado do quarto. Ela não conseguiu ver o que ele fez com o livro, mas percebeu que, enquanto ele caminhava de volta para a cama, estava com as mãos vazias. E sem camisa. E ela, enfim, entendeu o que Thalia quis dizer ao afirmar que ele era quente... Não que ela não desconfiasse... Apenas não pensava nele daquela forma. E não deveria começar a fazer isso agora.
— Por que está balançando a cabeça como louca? — ele pergunta, sentando com cuidado na cama.
— Afastando maus pensamentos. Funciona com os humanos, deve funcionar comigo também...
— Sabe, isso é apenas metafóri...
— Pelo amor de nós mesmos, homem: apenas volte a se deitar! Eu ainda estou com sono e hoje é noite de lua nova: não vou mesmo ficar naquele palácio sozinha!
— Você fica sozinha porque quer: sempre lhe disse que viesse para cá!
— Nunca achei que você fosse precisar de dez mulheres alimentando seu ego! — ela murmura ácida, referindo-se as musas. — E nem tente defender aquelas loucas: não sei por que as treinei, de qualquer forma... Mas talvez descubra depois de uma boa noite de sono... — só faltava ela assoviar para lhe mandar uma indireta mais clássica.
Entretanto, como ele vivia/existia apenas para vê-la feliz, não tardou em se deitar e puxá-la para seus braços. Para sua surpresa, ela não resmungou ou o afastou, pelo contrário: se aconchegou mais a ele e passou uma das pernas sobre as dele, num movimento de posse.
— Tente não roncar! — ela o provoca.
— Tente não me matar quando acordar!
— Jamais faria isso: você é o que mais amo no mundo! — ela o olhou nos olhos ao dizer tal coisa, seus lábios tão próximos que se tocavam, levando-a a sentir uma vibração correr por suas veias, aquecendo seu coração.
— Você não sabe o quanto isso é recíproco, Ártemis! — ele a beija.
Um beijo casto na bochecha, que ela sempre aprovara e gostara. Mas que agora parecia insuficiente vindo dele. E ela não tardaria em pôr essa situação a seu favor.
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