State Of Dreaming
32 Epílogo: Eclipse Over The Rainbow
Notas iniciais
P. O. V Autora:
Se o tempo dentro da maldição pareceu eterno, ali fora, de volta ao mundo normal, o tempo correra como nunca: as duas semanas dadas aos semideuses acabaram, e eles foram obrigados a voltar à escola. O que já seria suficientemente chato, mas apenas piorava pelo fato de que toda a cidade de Nova York havia adiado as aulas também.
— Aparentemente o “sumiço do sol” deixou o clima por aqui bastante louco, chegando até mesmo a nevar durante o verão... A volta às aulas foi adiada, o comitê de boas-vindas mudou, e adivinhem quem tem que ser o senhor bom dia? Isso mesmo: eu! — Nico resmungava naquela manhã de agosto, enquanto voltavam para a escola em uma das vans do acampamento.
— Nico, pelo amor dos deuses, não reclama: nem são sete da manhã ainda! — Thalia implora, encostando-se ao lado dele para continuar a cochilar antes que suas aulas começassem.
— Exato: eu não sei ser animado antes das dez da manhã, e eles esperam que eu seja um bom anfitrião? Francamente... — o filho de Hades resmunga, voltando a checar seu horário de aulas. — E ainda colocam matemática no meu primeiro tempo... Que ótimo!
As reclamações de Nico continuaram por todo o caminho, e o máximo que seus companheiros de escola faziam era rir de seu desespero. Até mesmo Gregory, que acabara de se juntar ao time de semideuses da Yancy, estava se divertindo com a situação, embora não estivesse em posição para isso: ele ainda tinha que se preocupar com suas tentativas de conseguir um encontro com Sophia, e em como não ser morto por Lorenzzo depois.
— Não se preocupe, Gregory: tudo vai dar certo! — Catarina e Valentina tentavam acalmá-lo, mas ele sequer sabia se elas se referiam ao ano letivo que se iniciava ou a sua tentativa de ter um romance.
Todavia, não era apenas em Nova York, entre os semideuses, que problemas desse tipo estavam acontecendo. Eu poderia falar também sobre como estava a situação de Will e Stephanye, porém Afrodite está me mandando focar em algo mais importante no momento....
Duas semanas podem parecer pouco para mortais, mas o tempo se torna confuso quando se tem a eternidade a seu dispor. Nesse período relativamente curto, os deuses puderam aprontar todos os tipos de coisa, desde as boas até mesmo a esconder seus segredos mais sujos e obscuros — como, por exemplo, o fato de Ártemis não ser mais castas: todos sabiam, mas ninguém tinha permissão para lhe contar... E quem contasse, podem ter certeza, não viveria para saber a reação dela. —; esse tempo também foi suficiente para que sentimentos aflorassem, e fizessem até mesmo que juramentos fossem repensados.
Em síntese, sem toda a sintaxe complexa com a qual escribas precisam usar para falar das criaturas do Olimpo: o plano de Apolo não deu certo, e sua querida irmã gêmea já não entendia mais o que realmente sentia por ele.
Ártemis nunca fora de ficar confusa, e sempre detestará não saber, o que a levou a tentar entender o que sentia: falou com Atena — que os conhecia muito bem —, mas essa apenas lhe disse que desse tipo de coisa ela não entendia; conversou com Afrodite, esta tão desolada que nem se deu ao trabalho de fazer uma piada profana a respeito dos gêmeos. Discutiu o assunto até com Hera, em quem não confiava muito — ainda guardava mágoa em relação ao que fizera com sua mãe —, e a deusa do casamento apenas a deixou mais confusa. Foi então, com a pessoa mais improvável, que conseguiu respostas.
— Você tem passado tanto tempo entre nós ultimamente, Ártemis: está tudo bem? — o rei dos deuses lhe pergunta certo dia, ao encontrá-la sozinha na sala dos tronos, encolhida sobre sua cadeira prateada, localizada bem em frente à de Apolo.
— Gostaria de dizer que sim, mas a verdade é que não sei. E para isso ele não tem respostas a me dar... Ou se tem, as trancafia bem longe: ele sempre teve a mente mais genial!
— Não diria isso: você tem uma coleção bem exótica de animais de estimação... — o pai comenta, sentando-se em seu trono.
Era raro, até mesmo para os deuses, ver Zeus sendo amigável. O deus não demonstrava os sentimentos, mesmo que os tivesse, com medo de que isso mostrasse suas fraquezas. Ele mostrou certa vez, e isso quase lhe custou à felicidade. Mas jamais desejaria o mesmo aos filhos, embora às vezes fosse severo demais em desejar isso, passando dos limites.
Todavia, ele já esteve no lugar em que Ártemis estava agora: presa entre o que diziam ser certo ou errado, entre o desejo sobre-humano e o que era considerável abominável pelos mortais. Ele estivera perdido entre o certo e o inexplicável, o sentimento que se encarnara na forma de mulher. E era desolador ver mais uma de suas filhas assim.
Ele já impedira tantos outros de ter felicidade, por puro medo do que poderia acontecer, que sentia que chegara à hora de mudar. E nada melhor do que aproveitar a deusa que mais tinha faces e fases para isso.
— Sabe, há muito tempo, eu também me sentia assim. Parecia que algo me esmagava de dentro para fora, e cada vez que eu me dizia que tudo passaria, mais forte se tornava. Eu negava, negava e negava, e tudo só se tornava mais forte a cada vez que nossos olhares se encontravam. Eu comecei a pensar que, se tentasse com outras, as coisas mudariam e poderíamos conviver em harmonia... Mas nós só somos harmônicos juntos, mesmo quando discutimos. Mesmo quando eu a desaponto ou quando ela se vinga de mim, porque eu sei que posso contar com ela. — o rei vira seus olhos muito azuis para a mais bela de suas princesas — E você sabe que, quando tudo desmorona é com ele que você conta.
Ela sorvia as palavras do pai, tamanha a intensidade delas, contudo não as entendia. Não claramente.
— Está me dizendo que...
— Eu tentei impedir que muitos aqui fossem felizes, mas Hades me ensinou uma ótima lição, como todo irmão mais velho faz: acima de qualquer trono, qualquer reinado, eu sou um pai, e devo almejar a felicidade de meus filhos. — ele se levantou, caminhando para fora da sala, deixando para trás apenas um sussurro no vento: — Seja feliz, minha filha!
E com tal permissão, ela já estava feliz. Só precisava ficar assim por mais tempo.
Mas não apressou as coisas. Não por falta de vontade — ela sempre soube o que era desejo, e seu corpo a consumia com isso agora que tinha certeza —, mas porque Apolo era um verdadeiro cavaleiro: ele a permitia em sua cama, que ela lhe oferecesse sinais — sutis ou não —, que ela lhe tocasse com toda a delicadeza que ele dedilhava sua lira de ouro, mas jamais arriscava ir além. Jamais tocara lhe os lábios, embora sua fronte, seu pescoço e suas costas recebessem constantes carinhos daqueles lábios tenros e quentes: bastava que ela lhe desse as costas enquanto estavam deitados ou sentados, para que ele se aproximasse, puxasse-a pela cintura e a presenteasse com seus beijos calorosos.
E ele era tão gentil, que de vez em quando irritava. E a irritou tanto, que decidiu por tudo em panos limpos.
— Você sabe muito bem o que está acontecendo aqui, eu não preciso explicar-te tal coisa, então pare com tamanha gentileza e faça o que tem que ser feito! — foi preciso reunir uma coragem absurda para dizer tal coisa, que ele ouviria de qualquer forma muito em breve.
Estavam pertos do Eclipse, e suas mentes se conectavam completamente nessas noites. Não só as mentes, como os corações e as almas. Era a junção de duas partes de um todo.
— Eu não... Eu não quero arriscar o que temos agora: não quero perdê-la! — ele comenta, distribuindo beijos por todo o rosto delicado, como se estivesse compondo uma nova melodia em sua pele.
— Você nunca me perderia: — ela o afasta, focando seus olhos nos dele — eu sou sua!
Não fora choque ou espanto que o fizera parar: fora o sentimento de realização, quando você conquista o seu maior sonho. E ele nunca pensou que seu maior sonho era ter a lua, tampouco pensou que sempre a teve, mas agora que sabia, não tardou em reclamá-la.
E quando seus lábios se juntaram naquela noite pré-eclipse, estando os dois livres de influências malditas, a magnificência do ato atingiu a todos. Deuses, semideuses, criaturas divinas e humanas desfrutaram de uma paz tão profunda e inenarrável que eu, uma simples narradora da situação, jamais saberei explicar a profundidade de tal ato.
Não era algo apenas físico, de dois lábios se encontrando, se reconhecendo, e então se encaixando em um perfeito quadro. Era algo arrebatador, que faz sua alma querer cantar... E, sendo uma das almas a do deus da música, atrevo-me a dizer que ouvi um cântico por ali sim.
— Como a noite está bonita hoje! — Thalia comentara, sentada sobre o gramado da Yancy Academy. Os semideuses combinaram de se encontrarem para assistirem ao eclipse juntos. A idéia era de seguir para o telhado, mas acabaram desistindo em consideração a Thalia. — Bonita e...
— Calma! — Catarina suspirou, atraindo a atenção de seus amigos. — Algo me diz que teremos paz por um bom tempo! — a filha de Apolo murmura, piscando para sua irmã, que sorri ao entender o recado.
— Ah, que bom: eu odiaria largar uma prova de matemática pela metade para poder salvar o mundo! — Nico debocha, arrancando risadas de todos, que pareciam compartilhar das sensações que Catarina expressara.
Não era preciso muito para saber que se referiam a Apolo e Ártemis, que se redescobriam um no outro naquela noite.
E na próxima.
E na seguinte.
E em muitas outras que se sucederam.
Contudo, não se enganem meus queridos: posso até estar parando, aqui, a narração dessa aventura desse grupo, mas ainda tem muito por vir. Afinal, se há eternidade para os deuses, há problemas eternos para os semideuses. Especialmente quando um destes, após fazer um pacto inquebrável, se arrepende amargamente de suas decisões.
P. O. V Valentina:
Certa vez, Catarina havia me dito que eu havia crescido. Obviamente ela não se referia à altura, mas naquela época eu não fazia ideia que ela se referia à minhas habilidades e até mesmo ao meu amadurecimento. Embora ela fosse a gêmea mais nova, Cathy sempre me pareceu a que tinha os pensamentos mais ordenados, enquanto eu ainda tentava escapar de algum conto de fadas criado por mim mesma.
Desde que eu enfrentara Eros, eu vivia nas ruínas do meu palácio de sonhos. Eu vira que amor nem sempre é a resposta, nem sempre releva as coisas e, no momento, eu tinha mais uma prova disso. Por mais que eu fosse feita para amar, e amasse intensamente, eu ainda era filha de Apolo, e meu racionalismo falaria mais alto em algum momento, assim como o racionalismo de Will falara e nos levara até ali.
Estávamos em Los Angeles, em meio ao recesso de ano novo, aproveitando o pouco tempo que tínhamos livres de nossas atividades como simples estudantes de Nova York. Sempre imaginei que ele chamaria Cathy, Nico, ou até mesmo Alexia, para tal missão, contudo foi em mim que Will confiou quando precisou que alguém o acompanhasse até L.A em sua difícil tarefa de falar com Stephanye.
Ela se afastara completamente de nós no último verão, porém não parava de aparecer em nossas lembranças, sonhos e visões. Algumas vezes parecia bem, em outras parecia ser a encarnação de uma vida miserável. Doía ver tais coisas, mas não havia nada que pudéssemos fazer.
Por mais que lhe fossemos gratos pela ajuda no final, que a tenhamos desculpado por ter jogado ao lado de Éris — movida especialmente pelo medo —, sabíamos que não voltaríamos a ser uma família. Nunca mais.
— Você tem certeza de que quer fazer isso, Will? — perguntei, vendo-o apertar o pequeno frasco em mãos.
— Não é o melhor jeito, mas é uma boa forma de agradecer por tudo que ela passou nos ajudando. — ele responde seriamente, o que lhe era quase incomum. — Já está tudo acertado com Reyna: assim que sairmos do campo de visão, os campistas romanos virão para ajudá-la. Vai ser o melhor.
Eu achava aquilo uma loucura completa. Se apagar a memória de alguém fosse sinal de que as coisas fossem melhorar, a guerra dos titãs não teria acontecido... Eu sequer sabia quem realmente era na época, mas depois de ouvir a história, dá pra se chegar a algumas conclusões, como a de que mentiras não ajudam ninguém.
Mas Will estava determinado, portanto deixei que ele me puxasse para dentro da loja em que Steph trabalhava para a tia, e foi com choque que entendi porque ele queria desesperadamente apagar as lembranças dela e ajudá-la: nossa amada Steph, sempre tão radiante e cheia de vida, era agora a imagem do desespero e desamparo.
Ela estava tão magra, que era possível ver seus ossos, e seus cabelos e olhos estavam castanhos opacos, sem o brilho e a vivacidade de sempre. Ela estava debruçada sobre o balcão da loja, limpando-o, e parecia que sobre seus ombros estava o peso do mundo. Ela envelhecera 6 anos em menos de 6 meses.
O plano de Will consistia em distraí-la e lhe oferecer a água do Rio Lete sem que ela notasse. Literalmente dopando-a. Mas ao ver Stephanye naquele estado, eu não tive coragem em cometer tal ato... Jamais tivera, para ser sincera. E foi nesse momento que entendi o quanto e como havia crescido.
— Precisamos conversar! — anunciei, tomando o frasco da mão de Will e pulando o balcão recém limpo, sem me preocupar com o que os escassos clientes pensariam.
— O que estão fazendo aqui? Se minha tia os verem... — Steph sussurra apreensiva, olhando por sobre os ombros enquanto me empurrava por uma porta.
— Will teve uma ideia louca, que eu não posso compactuar 100%, mas admito que possa te ajudar! — e rapidamente me pus a explicar o que meu caro irmão havia planejado.
Vi, aos poucos, a esperança voltar aos olhos de Stephanye, como se ela visse o sol nascer pela primeira vez depois de muito tempo. Eu jamais imaginei que aquela ideia a faria sorrir, mas era exatamente isso o que acontecia naquele momento.
— Você... Concorda com isso? — perguntei, por via das dúvidas.
— O que fiz foi um erro, Valentina. Viver com minhas lembranças, e longe de vocês, é o meu castigo eterno. — ela explica calmamente — Esquecer é um presente, uma dádiva, que eu não mereceria de jeito algum, mas me está sendo ofertada. Não aguento mais conviver com a dor de minha decisão, com a dor de não vê-los... Esquecer vai ser melhor.
Ponderei sobre seus motivos e os motivos de Will, assim como pensei na forma em como ela estava agora, e como nos contara como era viver com a tia. Nada naquilo era natural, e se restara algum carinho em nós por ela, aquela era a única e última forma de lhe mostrar tal coisa.
Havia lágrimas em meus olhos quando deixei a loja horas mais tarde, depois de ver Steph tomar da água do Rio Lete. Ela não nos reconheceu, e nos tratou como se fossemos clientes normais, desejando-nos boa viagem em nossa volta para Nova York. Eu ainda chorava quando vi a própria Pretora de Nova Roma apareceu para levar Stephanye para o Acampamento Júpiter: a filha de Íris não se lembraria de nós, porém jamais esqueceria quem de fato era.
— Como consegue ver tudo isso assim, sem chorar? v perguntei a Will, assustada com sua frieza momentânea.
— Não posso chorar quando a vejo tão feliz! — ele murmura, olhando na direção que Stephanye seguia ao lado de Reyna. — Eu pensei que afastá-la de tudo e todos seria o certo, mas deixá-la aqui, sem poder ser quem realmente é, seria desumano da minha parte. Jamais pensei que diria isso, mas Nico estava certo: não importa se meu destino é ser ou não feliz ao lado de Stephanye, e sim ser feliz comigo mesmo. E agora eu consigo isso... Sei que ela também conseguirá agora. — ele se vira para mim, com um belo e autêntico sorriso em seu rosto. — Término também é um recomeço, e é a vez de ambos recomeçarmos. Somos filhos da luz: ela da mensageira dos deuses, eu do poeta; nossa existência não pode ser cercada por amargor.
Eu passara muito tempo ouvindo conselhos de Will, porém aquele sem dúvida fora o melhor de todos. Havia toda sua sinceridade e carinho naquele discurso, mostrando que mesmo em meio ao racionalismo, havia amor.
— Agora vamos: temos que voltar pro aeroporto antes que nosso avião decole. Estão nos esperando em Nova York. — ele me oferece a mão, e eu não hesito em segurá-la.
As moiras, enfim, pareciam dispostas a nos dar um tempo de descanso. Há meses que nenhuma missão grande nos era designada, há meses que nenhum monstro tentava nos matar. Estávamos vivendo em paz, como adolescentes e jovens adultos normais.
E, enquanto deixava Los Angeles para trás, eu senti que libertar Steph de seu pesadelo vivo fora o passo decisivo para que todos pudéssemos viver em paz por um bom e longo tempo.
Até quando os deuses quisessem.
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