State Of Dreaming
30 29 - Sweet Beginings
Notas iniciais
P. O. V Gregory:
Muitas vezes haviam me contado sobre como a Guerra contra Cronos destruíra o Olimpo, porém, ao vê-lo naquele fim de semana, eu não conseguia acreditar no que me fora dito. A grama nos jardins era do mais belo e brilhante verde, o que dava destaque para as enormes estátuas que os enfeitavam; criaturas magníficas passeavam por ali, e por mais que a divindade do sol não estivesse presente, a luz e o calor do verão deixavam tudo ainda mais bonito. Era um belo dia para salvar o mundo.
― Ok, já sabe, não é? Vocês precisam passar ao mesmo tempo pela porta para dar certo! ― Aria repassa a mesma instrução pela milésima vez.
― Aria, não se preocupe! Vai dar tudo certo! ― tomo as sete chaves de sua mão e olho para o portal a nossa frente, pronto para atravessá-lo.
Todas as doze portas dariam para a enorme biblioteca no Monte Olimpo, porém apenas uma fora aberta naquele momento. O lugar era imenso, e eu enfim entendera a necessidade de doze guardiões, dois deuses, e inúmeros escribas: uma pessoa só, divina ou não, jamais daria conta de tudo; além disso, havia tanto poder por ali que ele chegava a pulsar no ar. Era preciso mantê-lo protegido, e afastado de todos: sabedoria demais, no fim das contas, pode ser perigoso.
Engolindo em seco, dei um passo em direção ao corredor que me fora indicado, atravessando a porta. Eu precisaria ir até onde a maldição ocorria para que o contra-feitiço fosse executado: eles necessitavam das sete chaves que tínhamos ― entre as quais estavam as de Atena e de Apolo ―, e também do meu sangue. Doze pessoas precisariam atravessar doze portas, e para que as contas estivessem certas, eu precisaria trocar de lugar com Steph.
― Acho que você deveria sempre ter estado aqui, e não eu! ― Steph diz, ao cruzar comigo pelo luminoso corredor.
― Na verdade, discordo completamente: eu precisava estar em Nova York, pois meu dever nessa profecia é levar as chaves até eles em segurança! E se você não estivesse aqui, eu não conseguiria isso! ― argumento, olhando atentamente para ela. ― Obrigada!
― Acredite-me: não tem nada a me agradecer! ― ela murmura amargurada, e volta a trilhar seu caminho para o Olimpo, enquanto eu sigo na direção contrária.
Certamente Stephanye tinha muito do que se arrepender, porém eu jamais a julgaria por suas ações, assim como jamais julguei Aria ou Júlia: as regras podem se perder quando se tem a intenção de salvar quem se ama, e, nos mais egoístas dos casos, a si próprio. Ainda havia muito no mundo dos semideuses que eu não compreenderia, mas se eu pudesse começar a me aventurar por ele sem julgar as pessoas, eu já me consideraria um sujeito feliz.
― Bem- vindo ao fim do mundo, Gregory Farli! O que acha de nos dar uma gota de sangue? ― a voz de Catarina me recebe quando atravesso a porta e me vejo em uma larga rua.
― Onde estamos? E por que eles estão amarrados? ― pergunto ao dar de cara com Apolo e Ártemis amarrados a cadeiras.
― Estamos no French Quarter, e é melhor mantê-los assim: muitas perguntas, muitas explicações que não conseguiríamos dar, e muito tempo que não teríamos para responder tudo! ― tio Eleazar responde, parecendo um pouco impaciente. ― Está pronto?
Olho para todos novamente, reconhecendo os semideuses com quem falei durante meses por Mensagem de Íris; todos pareciam cansados, exaustos, e não como adolescentes comuns. Eles pareciam mais do que preparados para dar as costas para aquela maldição, e eu estava mais do que pronto para ajudá-los a voltar a suas vidas normais.
Ou tão normais quanto a vida de um semideus poderia ser...
P. O. V Autora:
Jamais haveremos de saber como o feitiço foi feito, mas a forma como lançaram o contra-feitiço vos será contado. Todos têm o direito de saber como o reinado da discórdia teve seu fim em uma tarde de verão, no meio do French Quarter.
Misteriosamente aquele lugar estava vazio, contando apenas com a presença de nove semideuses, dois deuses adormecidos e uma bruxa pronta para usar seus poderes para se livrar da encrenca olimpiana em questão.
― Para doze portas abrir, doze chaves e o sangue de três naturais são necessários. ― madame Ophelia recita o que todos ali já sabiam ― Para quebrarem o encantamento, precisarão banhar as chaves com o sangue de vocês. Irei declamar o contra-feitiço e então poderão abrir as portas e voltarem para seus lares.
― E quanto a Éris? Como ela...
― Foi um feitiço feito por ela: o contra-feitiço a atrairá. Não se preocupem! ― a bruxa interrompe as indagações de Valentina, dando início à cerimônia.
Quando as doze chaves foram depositadas em um pequeno vasilhame de barro, os três naturais se entreolharam por um instante, até que Catarina tomou a dianteira. Zeus costumava dizer que ela era a líder das revoltas, e pela primeira vez ela quis concordar com o avô, portanto pegou uma das facas que recebera de Ártemis e abriu um talho na palma de sua mão esquerda, apertando-a até que o líquido vermelho e viscoso caísse sobre as chaves.
Thalia seguiu o exemplo de Catarina, sentindo certa emoção ao por suas mãos sobre uma faca de caça, mesmo que esta estivesse lhe cortando a pele. Quanto a Gregory, a mão cortada foi a da direita.
― Um gauche entre nós. ― madame Ophelia murmura ao notar que o garoto de cabelos claros era canhoto ― Talvez isso explique porque um dos naturais não estava no grupo: você não pertence a esse grupo. É como eles, mas seu destino não é com eles.
― O que quer dizer? ― Gregory pergunta assustado.
― Essa é a primeira e única batalha que lutará ao lado deles. Talvez os chame de mentores, mas não mais de companheiros de missão. ― a mulher lhe responde, apertando ela mesma a mão direita dele. ― Afastem-se!
Sem que Madame Ophelia precisasse pedir duas vezes, os três voltaram para perto de seus amigos. Logo, a velha bruxa estava a entoar algo numa mistura de francês e latim, compreendido pela metade por Eleazar, Gregory e Valentina.
― Aquela que não pode amar àqueles que podem tentou destruir, mas em sua própria armadilha irá cair. Embora tenha triunfado, jamais sairá vencedora: sempre será a exilada. Não há alma viva ou morta que precise de seus poderes, que queira sua presença. Aqui se encerra o reinado da discórdia. ― um vendaval tomou conta do French Quarter, balançando as janelas dos casarões e levantando poeira das ruas.
O céu, antes claro e límpido, mais uma vez foi tomado pelo vermelho, em padrões diferentes do que todos ali se lembravam. Um raio cortou as nuvens rubras, e no espaço em que caiu, uma mulher enfurecida apareceu trajando vestes negras, acorrentada.
― Nunca poderão me vencer! Nunca poderão vencer nenhum de seus vilões: o caos, a vingança, o amor, a discórdia... Todos eles andam de mãos dadas! ― Éris rugiu por sobre o vento que a carregava até os semideuses.
― Banhadas no mais divino dos elementos, o sangue dos deuses, chaves consagradas ao retorno... ― um chiado ecoou por sobre o uivo dos ventos, e madame Ophelia olhou diretamente para Valentina.
Era chegada a hora. Enfim os enclausurados ― Catarina, Valentina, Thalia, Bella, Liv, Nico, Lorenzzo, Eleazar, Ártemis, Apolo ―, Gregory e Éris retornariam a seu verdadeiro ponto de origem.
Uma por uma as chaves foram coletadas pela guardiã, que enigmaticamente sabia onde encaixá-las em meio ao vendaval, ouvindo o clique de quando as portas divinas eram destrancadas, revelando a claridade e os sons que preenchiam o Olimpo.
― Como vamos... ― mas antes que Lorenzzo terminasse de questionar, as amarras que prendiam o deus do sol e a deusa da lua caíram, e seus corpos se dissolveram em luz.
Coisa parecida aconteceu ao corpo físico de Éris, porém ao invés de luz, a essência da deusa se decompôs em rubro, cobre e negro. Restavam agora nove pessoas para passar.
― Sigam em paz, heróis! ― Madame Ophelia disse, olhando de forma quase meiga para os semideuses.
― Só por garantia... ― Catarina sorri, tomando o vasilhame e a faca usados na cerimônia. ― Fique em paz também, Madame Ophelia.
Cada um atravessou uma das portas assinaladas, fechando-as ao passar. Não haveria saudades para sentir, e ninguém ali gostaria de visitar Nova Orleans tão cedo.
― Só por garantia... ― Valentina deu de ombros, repetindo a frase da irmã enquanto colocava o livro da discórdia de volta sobre a mesa em que o encontrara há meses. ― Agora, acredito que temos um conselho para irmos?
― Acertou, senhorita Reymond. E jamais fiquei tão contente em estar naquele salão.
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Talvez pela primeira vez em anos, Zeus não acusou semideus algum de ter aprontado. Para a surpresa de todos, inclusive dos deuses, ele os parabenizou e agradeceu. Era a segunda vez, em um mesmo dia, que Nico e Thalia se surpreendiam com algo, e tal sensação apenas piora quando todos foram dispensados e enviados de volta ao Acampamento Meio-Sangue.
― Olha, eu nem vou reclamar: já ouvi tanta reclamação, que não quero me arriscar a perder essa chance de escapar! ― Catarina é a primeira a se manifestar, olhando para Valentina e em seguida para Apolo.
As irmãs não precisavam de poderes telepáticos para saber que uma hora ou outra teriam que conversar com o pai a respeito de tudo o que acontecera durante o verão. Entretanto, sabiam que não seria naquele dia, muito menos em breve: muita coisa acontecera a Apolo, e ele precisaria de tempo para lidar com seus problemas antes de lidar com os filhos.
E seu maior problema, no momento, evitava a todo custo encará-lo, como se o culpasse mais uma vez por tudo o que estava acontecendo de errado. Parte de Apolo desejava que Ártemis não se lembrasse dos detalhes da maldição, mas se ele se recordava, estava claro que ela também se lembraria.
― Só mais uma coisa! ― Ártemis se ergue, impedindo a saída dos semideuses, que se viram para encará-la. ― Quero lhes agradecer pelos esforços feitos e por todo o empenho para nos trazer de volta ao nosso lar. No que depender de mim, terão minha benção até o fim de seus dias, a contar de hoje: são merecedores disso, e de muito mais. ― e a fim de seu discurso, a deusa deixa a sala dos tronos, antes que alguém pudesse levantar alguma objeção.
De seu trono, Apolo sentia a dor que tomava conta da alma de Ártemis lhe tirar o fôlego. Se em todos os dias de sua imortalidade havia a amado, adorado até mesmo, poderia afirmar que tudo se intensificara a partir de então, e senti-la tão triste era devastador. Era sua culpa, sim, no fim das contas.
Fora ele quem rejeitara Éris no ano anterior, ele quem deixara a deusa da discórdia para trás e correra para acalentar a deusa da lua. Apolo deveria ter se desculpado, compensado, feito qualquer coisa, mas ficara tão cego em seus problemas, que acabou esquecendo, deixando de lado. Mais uma vez o egocentrismo lhe custava caro.
― Você sempre soube, não é mesmo? ― mais tarde, naquele mesmo dia, Apolo pôde ser visto conversando com Afrodite. ― De todas as maldições que me foram impostas, a sua sempre será a pior.
― Não venha me culpar pelo que as Parcas tramaram para você, Apolo. ― a deusa do amor o repreende. ― Você, melhor do que ninguém, sabe que nem mesmo nós temos o controle das coisas que acontecem.
― Afrodite, isso dói! ― lágrimas escorrem pelo considerado um dos mais belos deuses.
― O amor é doloroso, Apolo! ― a voz de Afrodite se torna mais mansa, quase um sussurro. ― Certo ou errado, o amor dói.
― Não estou disposto a enfrentar dores. Não por isso!
Afrodite teria abraçado Apolo se o mesmo não tivesse sido abençoado ― ou talvez amaldiçoado ― por uma idéia insana. Sem explicações, ele simplesmente se transportou através do Olimpo até se ver cara a cara com Ártemis, adormecida em seu leito de prata. Movendo-se o mais silenciosamente possível, Apolo a ergue da cama e volta a se transportar, voltando para o ponto de partida de toda a confusão.
Hécate não precisava de um oráculo ou de magia para saber que aquela visita ocorreria. Apolo conseguiria viver com a mentira, pois essa já era uma velha amiga sua de qualquer forma. Porém ele jamais seria capaz de viver sem Ártemis. E entre tê-la a seu lado como apenas irmã a não tê-la, ele preferia engolir os sentimentos que nem sabia que existiam a ficar sozinho.
— Você tem certeza de que quer isso? — a deusa da magia lhe pergunta, a voz transbordando de compadecimento.
Não tinha; não exatamente. Mas era o certo.
— Eu jurei que nunca mais deixaria que a machucassem, sequer pensei que eu seria, mais uma vez, a pessoa que mais a feriria. Ela vai ficar infeliz sabendo a verdade, vai achar que perdeu o respeito que lutou tanto para conquistar. — ele fez uma pausa, acariciando a fronte da ruiva, que ressonava calmamente sobre o divã em que fora depositada. — Ela vai me odiar, Hécate. E com isso eu não posso lidar. Isso eu não consigo suportar.
Se os olhos da deusa pudessem expressar o que ela sentia, só se veria tristeza neles.
— Foi isso o que viu no futuro, Apolo? — perguntou, pois não conseguia se forçar a fazer tal coisa.
Devia ser imparcial, mas se sentia tão culpada por tal situação estar ocorrendo que não conseguia se distanciar do evento. Ela tinha que fazer algo para remediá-lo.
— Se me ajudar, ela vai continuar me amando: eu sempre vou ser o irmãozinho dela. — ele sorriu melancólico.
Como Hécate poderia acabar com tal coisa? Não cabia a ela dizer o que era ou não era amor, mas ela não era cega: ninguém via os mistérios por trás de seus olhos negros, mas estes enxergavam todos os mistérios do universo. Se aqueles dois estavam nos planos de Afrodite, no plano das Parcas, ela jamais se atreveria a tirá-los.
No entanto, achou justo aliviar, mesmo que temporariamente o sofrimento de Apolo. Ele queria uma poção que apagasse tudo o que aconteceu durante o tempo em que estiveram sob o domínio de Éris, que apagasse tudo da mente de Ártemis: que ela jamais se lembrasse do amor que os dois viveram em meio a discórdia. Ele queria poupá-la de humilhação ou qualquer sentimento ruim que pudesse atingi-la.
Hécate podia lidar com poções protetoras, anuladoras e muitas outras. Mas nada que ela desse à Ártemis a faria se esquecer do sentimento mais profundo e antigo. Então, qual era a necessidade de realmente lhe dar algo do gênero? Por que não apenas lhe dar um paliativo?
Algo que a pouparia de tudo de ruim que aconteceu durante o domínio da discórdia, como se tudo não tivesse passado de um pesadelo, e que a fizesse acordar não somente fisicamente, mas emocionalmente também. Afinal, não era a lua um dos símbolos dos apaixonados? E o conto do sol e da lua um dos mais amados?!
— Com isso — ela dizia calmamente enquanto derramava um líquido colorido sobre os lábios róseos de Ártemis —, ela ficará segura. E você também, Apolo. — sorriu, o que ela queria que fosse um sorriso compreensivo, mas que sabia ser assustador.
Nem mesmo o mais sensível dos deuses entendia a magia. Ninguém jamais a entenderia ou saberia bem como usá-la: o preço a ser pago por tal coisa era muito caro, e ninguém viveu tempo o suficiente para pagá-lo por completo.
— E você, meu caro deus das profecias, música e do sol: descanse também! — Hécate o aconselha, mesmo sabendo que seria em vão.
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