State Of Dreaming
28 27 - Nobre Sacrifício
Notas iniciais
P. O. V Autora:
Embora fosse verão, fazia frio em Bayou Gauche, e a fogueira fez toda a diferença naquele fim de tarde. Steph, Nico e Thalia mantiveram-se, no entanto, um pouco afastados da cena principal: não deviam interferir no que estaria a acontecer para as gêmeas, apenas podiam torcer para que tudo desse certo.
Quando o sol começou a se por, as gêmeas apenas se entreolharam, sabendo que estava na hora de por seus planos em ação. Elas sabiam que as armas continham suas histórias, que faziam parte do que cada semideus era, porém Valentina não tinha uma arma que ligasse Eleazar a suas lembranças de semideus. Tudo o que lhe restara fora o pingente que ganhara dele quando foi pedida em namoro... E era naquele coração de cristal que ela apostava todas as suas fichas.
— Quando nos conhecemos, anos atrás, certa vez você pediu para ser meu. Eu deixei, porque o queria, porque o amava. Ainda amo! — Valentina suspira, tirando o colar que reconquistara recentemente, sem se preocupar se suas ações ou fala confundiam o rapaz — Na ocasião você me deu isso, e hoje eu quero que o receba de volta. — ela fazia uma força sobre-humana para não chorar, mas isso não impedia que sua voz saísse embargada — E vou dizer o mesmo que você me disse na época: meu coração é tão seu quanto esse pingente, embora não seja tão lindo e eu lhe peço que aceite os dois, pois gostaria de saber se posso ser sua eternamente. Gostaria de saber se posso ser sua de novo.
O ruivo estava confuso, não apenas com sua aluna, mas com si próprio também. No entanto, não hesitou ao aceitar o cordão que ela lhe oferecia — dava pra sentir o quão difícil aquilo estava sendo para a garota —, e gostaria de não hesitar em aceitar o que ela lhe pedia. Ele a amava, por mais errado e proibido que fosse.
“Sua de novo”... Maria vivia soltando coisas sobre ele que nem mesmo Eleazar sabia. E ela o fazia se sentir tão bem, que parecia um pecado.
Ela era seu pecado.
— Não precisa me responder agora! Só... Se um dia for responder, espero que seja o meu Eleazar e não essa versão que o substituiu! — ela lhe deu um sorriso triste e ficou na ponta dos pés para beijar-lhe a bochecha.
Um ato tão casto, tão diferentes de seus pensamentos sobre aquela garota... Tão diferentes das ações que eles tinham e que agora voltavam com tanta força que o fizeram perder o equilíbrio.
P. O. V Valentina:
— O senhor está bem? — pergunto ao ver Eleazar cambalear e se sentar no tronco em que antes estávamos.
O sol estava quase completamente posto, e minhas esperanças prestes a desaparecer.
— Senhor... Senhor... Que merda é essa que tá acontecendo e por que essa porra de colar tá esquentando? — ele pergunta, num tom tão baixo quanto um sussurro.
— DEU CERTO! — grito, caindo de joelhos na sua frente.
— O que eu bebi? Por que eu bebi? Por que eu bebo? — ele resmunga, pondo a cabeça entre as pernas — Argh, se eu lembrasse que ficar de ressaca era tão ruim, eu nunca mais beberia! E o que deu certo para você estar tão animada gritando, Marie?
— Espera... Você não lembra? — paro de comemorar e o encaro: todos que voltaram se lembravam do que estava acontecendo, por que ele tinha que ser o diferente? Seria a recessividade ruiva?
— Lembro, vagamente, de estar lhe dando aulas... Algum fetiche seu, talvez? — ele murmura.
Sento-me ao seu lado, me sentindo derrotada. Ao longe, pude ver Lorenzzo cumprimentar Nico, Thalia e Steph animadamente. Estavam todos de volta, todos bem e unidos, mas ali estava Eleazar, confuso, sem saber o que estava acontecendo.
— Onde estamos, Lolita? — ele pergunta, olhando ao redor, me sacudindo pelo ombro — E por que você está tão triste? Eu fiz algo de errado para você, meu amor?
Não pude evitar sorrir entre as lágrimas! Ele quem deveria estar sofrendo, e eu que estava ali, chorando como uma menor carente. Virei para abraçá-lo, enterrando meu rosto em seu pescoço que voltara a ser gélido, deliciando-me por estar de volta ao meu lar.
— Você não fez nada de errado, Elz! — eu sussurro em sua pele alva.
— Desculpe informar, mas eu fiz sim! — sinto sua voz se tornar mais leve, e me afasto para ver aquele adorável sorriso cínico que eu tanto amava. — É óbvio que eu lembro tudo o que aconteceu, Marie: especialmente de certas coisas... — ele ergue as sobrancelhas, sorrindo maliciosamente.
— Corre! — respiro fundo, dando um sorriso forçado — Apenas corre!
Mas não sou obedecida. Apenas recebo um sorriso, que precede um abraço singelo. Não era preciso muito mais que isso para que ambos sentíssemos o mesmo: estávamos em casa. Éramos o lar um do outro.
P. O. V Catarina:
Eu já aceitara que uma história de romance fofa, estilo comédia romântica, não seria o que eu teria em minha vida. Pelo menos não ali, na adolescência. Talvez no futuro, e mesmo que prevê-lo fizesse parte de meus poderes, eu jamais saberia até vivê-lo.
Eu já havia aceitado essa perspectiva de vida, e apenas a confirmei quando me vi discutindo estratégias com Lorenzzo, enquanto Valentina e Eleazar apenas se abraçavam e viam as chamas da fogueira tremularem.
— O que foi? — Lorenzzo chama a minha atenção, ao notar que estou completamente aérea, pensando sobre qualquer outra coisa, exceto em como sair dali.
— Nada demais! — suspiro, balançando a cabeça na tentativa de clarear meus pensamentos. — Sobre o que falávamos?
— Sobre como jamais seremos como aqueles dois, mas que isso não influencia no quanto gosto ou não de você! — ele respondeu, e eu tive que sorri: havia me esquecido de que ele poderia ler minha mente. Eu quase não conseguia bloqueá-lo. — Realmente fica pensando nessas coisas, Catarina?
— Na verdade, raramente penso em romance: na maior parte do meu tempo foco apenas em manter vivos aqueles que eu amo! — respondo, notando o quão verdadeiro aquilo era.
Antes de qualquer insinuação romântica entre Lorenzzo e eu, ele foi salvo por mim, e me ajudou em minha primeira missão. Então, quando começamos a ter algo mais sério, fui obrigada a apagar sua memória para nos proteger, e mais uma vez reiniciamos o ciclo de nosso relacionamento. Eu sabia que quando Afrodite quer, ninguém a impede, mas eu também sabia que há forças capazes de destruir algo que a deusa do amor constrói. A morte, por exemplo, era uma força capaz de devastar tudo.
— Mas, quando não tá pensando em como salvar vidas, você está pensando se...
— Estamos mesmo em um relacionamento, ou se somos apenas bons parceiros de batalha! — suspiro, sentindo-me mal por revelar tais conjecturas.
O problema, no entanto, é que eu não sentia mais nada. Depois de tanta confusão, de tanta descarga emocional, tudo o que eu mais queria era me deitar em uma cama, me cobrir e dormir, sem ligar para namoro, amizades, família humana, família divina, ou o possível fim do mundo. Meu coração e corpo estavam cansados, e eu já não conseguia mais me controlar.
— Posso te confessar uma coisa? — Lorenzzo pede, e eu assinto, tentando enxugar as lágrimas que eu nem notara que estavam caindo. — Eu amo você, Catarina. Tenho amado a mais tempo do que pode acreditar, tenho amado desde muito antes de sonhar com você. Tenho amado você desde que era apenas um rosto belo, emoldurado por cabelos loiros, na tela de um computador fotografado. Tenho amado você desde que Valentina não sabia que era sua irmã, Eleazar não fazia faculdade, e eu não sabia que era semideus; desde quando Thalia ainda devia estar na caçada, e Nico ainda tinha apenas Will como amigo. — ele suspira, mirando seus olhos verdes em mim — Você é a única coisa que me leva a lutar, e pode fazer com que eu me renda.
Sua declaração me deixa de boca aberta. Fez com que eu me lembrasse de um dia em Nova York, tempos atrás, bem antes de eu saber sobre minha verdadeira natureza; eu estava com Aria, Valentina e Eleazar, e todas nós implicávamos com o ruivo, que aproveitou o momento para me contar sobre um conhecido seu que me achara linda ao ver uma foto de mim. Na época julguei o ruivo por não ter o contato do sujeito, mas hoje notei porque tudo teve de acontecer: o destino me traria aquela pessoa no momento certo, e ali estava Lorenzzo hoje, sentado ao meu lado, ouvindo minhas inseguranças.
— Agora entendo como você e Elz se dão tão bem: você é o carinha que viu minha foto...
— Sim! — ele concorda — Você era apenas um rosto na tela de um computador fotografado, mas fez meu coração palpitar. Sinto isso toda vez que te vejo, ou penso em você, em nós. Eu só não sei demonstrar isso.
— Droga! — praguejo, fungando — Eu prometi que não choraria por você esse ano!
Escutá-lo rir foi uma das melhores sensações que tive, perdendo apenas para o beijo que ganhei em seguida. Parecia ter um carnaval dentro de mim, com todas as escolas de samba desfilando por ele enquanto eu sentia as mãos dele me puxarem para mais perto, e seus lábios se apossarem suavemente dos meus; pude sentir todo o caos e a confusão deixarem Lorenzzo, e automaticamente baixei minhas guardas.
Jamais viveríamos um romance digno das sessões da tarde de minha infância, mas viveríamos o que quer que o destino nos desse.
P. O. V Gregory:
Receber uma mensagem de Íris, e ver o rosto de meu tio nela foi uma das melhores coisas que poderiam acontecer naquele fim de agosto. Todo o tormento daquele verão valeu a pena naquele momento, e eu enfim tive esperanças de que as coisas fossem melhorar.
― Não fique tão surpreso por Atena ter escolhido a Bella para ter uma das chaves: ela é uma criança muito inteligente apesar da pouca idade! ― Aria defende sua prima quando Eleazar nos conta sobre como Valentina conseguira uma das chaves.
― Você tem razão, Aria! Eu só fico assustado em ver que meus pensamentos estavam certos e que elas também são filhas de Bóreas...
― E eu que minhas tias ainda estão no jardim de infância! ― murmuro, conseguindo descontrair a todos que assistiam a conversa. ― Mas o pensamento que eu gostaria de ver se realizando é aquele em que descubro onde estão as chaves.
― Eu também! Ás vezes me pergunto até que ponto teremos de ir para encontrá-las... ― uma caçadora ali perto murmura.
― Não precisam ir muito longe para encontrarem o que desejam, caçadoras! ― para nossa surpresa, Quíron se aproximou, carregando em suas mãos uma caixa de bronze. ― Sempre me perguntei o que isso abria, e enfim terei minha resposta.
Ao abrir a caixa, o velho centauro nos deixa cara a cara com mais uma das chaves. Aquela parecia diferente das demais: era mais antiga, como as de um cofre do século XIX, ou sei lá de que época. Para simplificar: em nada se parecia com aquelas chaves de porta que estamos acostumados.
― Será que todos nós temos uma chave dessas e não sabemos? ― ironizei, porque apenas isso descreveria o momento.
Primeiro Sophia me aparecia com uma chave, que não havia se revelado até então, depois Bella, com apenas 8 anos, também é uma das guardiãs, e agora Quíron, que sempre possuíra uma, mas jamais soubera para que servia ― imagino que ele tenha tentado abrir muitas portas, e falhado tragicamente ―; estava a ponto de conferir se eu mesmo não tinha uma chave.
― É possível que alguém tenha essas chaves sem saber: lady Atena trabalha de formas misteriosas e bem arquitetadas. Duvido muito que ela tenha todas as chaves, se bem que... ― o centauro se interrompe, coçando a barba, com expressão séria enquanto encarava o chão a seus pés ― É claro... Por que não pensei nisso antes?!
― Nisso o quê? ― Aria pergunta, fazendo eco ao meu questionamento interno.
― Apolo e Atena são os guardiões supremos da biblioteca divina... Eles organizam os volumes ali contidos, até escrevem alguns. Aquele lugar é um santuário para ambos... Eles precisam ser capazes de entrar, então...
Não foi preciso que Quíron falasse mais: chegamos à conclusão de que os dois deuses possuíam chaves no mesmo instante em que Atena surgiu em nossa frente. No timing perfeito.
― Então sim: meu irmãozinho e eu temos chaves da biblioteca divina, como vocês têm chamado! ― a deusa concorda, depositando uma chave tão antiga quanto a de Quíron nas mãos de Aria. ― O que lhes deixa sabendo do paradeiro de 10 das 12 chaves da maldição.
Eu gostaria que aquilo fosse o suficiente para comemorar, mas estávamos correndo contra o relógio: por tudo que nossos amigos trancafiados falaram, a proximidade entre Apolo e Ártemis estava beirando o perigo, e isso não seria nada bom quando eles voltassem. Certamente a deusa da caça não gostaria de saber que não era mais casta, muito menos iria gostar em saber que andava dormindo com o próprio gêmeo. Haveria uma grande discussão entre os dois, Afrodite seria colocada no meio da confusão, os deuses se intrometeriam, e o resultado seria apenas um: guerra! De novo! Dessa vez provocada pela discórdia, o que daria mais poderes a Éris, que sairia de toda a confusão como a grande vencedora, sem sequer ter sujado suas mãos com sangue de semideuses.
Era o que ela queria, e eu já tinha visto algo parecido: Quione fizera praticamente a mesma coisa no ano anterior, vingando-se de Eleazar. Dessa vez, contudo, Éris queria se vingar de Apolo... Nada melhor do que usar Ártemis, a pessoa que ele mais amava, para conseguir isso!
― Lady Atena, somos muito gratos por estar nos ajudando nisso, mesmo que sua atitude contrarie as regras olim...
― Meu caro filho da guerra, minhas atitudes não contrariam a mais nada! ― Atena interrompe Lorenzzo, que tentava se comunicar através da mensagem de Íris. ― Estamos cansados dos ardis desses deuses menores buscando vingança, estamos cansados de guerras! Pode não parecer, mas quando um semideus cai isso nos atinge também! E quando o ataque é contra um de nós, não há regras: Éris mexeu com os deuses errados! ― a determinação da deusa me deixa arrepiado, e vejo todos ao meu redor prenderem sua respiração.
Como num jogo, estávamos nos momentos decisivos. Estávamos prestes a ouvir as últimas orientações de nossa treinadora, e ela era a mais sábia de todas!
― Sendo a deusa da justiça, eu não deveria ajudá-los a decifrarem onde estão as duas últimas chaves, porém posso lhes dar algumas dicas! ― a deusa se dirigia diretamente aos semideuses presos. ― Vocês já sabem que uma das chaves está com Apolo...
― O problema é como encontrá-la: quando viemos para cá, todas as nossas coisas desapareceram! ― Thalia reclama, sem se incomodar por estar interrompendo a deusa.
― Nada desapareceu, Thalia, só está escondido! Mesmo daqui, há quilômetros de distância, posso sentir as três últimas chaves clamarem por mim! Vocês sempre as tiveram, é como Quíron disse: eu trabalho de formas misteriosas. No entanto, cá estou eu, sacrificando minha nobreza para ajudá-los!
― Mãe, corta esse papo de sacrifício e nobreza e diga logo os donos das chaves: eu realmente gostaria de ver minha melhor amiga antes do fim das férias! ― Annabeth Chase, a bela e lendária filha de Atena, se aproxima de nós.
Que ninguém nunca saiba, mas eu, Gregory Farli, tenho um fraco por super heroínas e ali estava eu na presença de muitas. Quem precisa da Mulher Maravilha quando se pode falar com Annabeth Chase e Thalia Grace?
― Assim você me decepciona, Annabeth! Eu já disse quem tem as chaves, mas só para deixar claro: foi graças a tanto sacrifício e nobreza que muitos aqui foram salvos. Eles formam uma dupla e tanto! ― e como uma adolescente, Atena pisca para nós, evaporando no ar.
Obviamente eu não era o único confuso por ali, mas ainda assim podia ver a compreensão nos rosto de alguns.
― Aria, você tem alguma idéia de quem nossa mãe estava falando? ― Annabeth pergunta a minha companheira de missão.
― Tenho sim, Annie! Felizmente tenho sim! ― Aria sorria, olhando diretamente para a mensagem de Íris.
Nela, um par de olhos azuis mirava um par de olhos esverdeados. Os dois sorriam cúmplices, como se tivessem desvendado um complicado enigma.
― Quando chegarmos em casa, o que acha de uma pequena disputa no muro de escalada, Lorenzzo?
― Você é quem manda, Catarina de Lyra! ― Lorenzzo sorri novamente, virando-se para nós ― Logo estaremos aí, pessoal. Só precisamos encontrar as chaves de casa primeiro! ― e piscando, ele desfaz a mensagem de Íris.
Pude ouvir gritos ao meu redor, e senti braços me envolvendo. Braços delicados, ligados a uma pessoa não tão delicada assim.
― Obrigada, Greg! ― Sophia murmura, ficando na ponta dos pés para sussurrar em meu ouvido.
― Eu não fiz muita coisa por aqui, So! ― sorri sem graça, ainda me lembrando da véspera de Natal.
― Foi o suficiente! ― e, como se fizesse de propósito, ela me dá um selinho antes de se afastar para comemorar com os demais.
Quando toda aquela confusão acabasse, meus problemas apenas teriam começado. Eu estava pronto para lidar com a deusa da discórdia, mas não estava nem um pouco preparado para lidar com o burburinho de emoções que eu sentia quando via Sophia Dansky.
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