State Of Dreaming
24 23 - The Front Line
Notas iniciais
P. O. V Valentina:
Eu já fiz muita loucura nessa vida. Muita coisa errada, e muita merda também. Mas nada tão arriscado quanto invadir uma casa que emanava tanto poder.
— Parece que estou sendo atraída por um ímã! — murmuro, esperando Thalia abrir a porta.
Sim, ela tinha a chave e estávamos entrando pela porta principal, mas ainda assim invadíamos: aquela não era sua casa, nem de ninguém que conhecíamos.
— Os cômodos que me lembro de ter estado estão limpos, sem passagem secreta ou qualquer indício de magia; mas tem lugares que não consegui entrar! — Thalia afirma, nos indicando os espaços revirados — O escritório é, sem dúvida, o que mais me chamou a atenção.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ou mesmo me aproximar, Nico passa por mim o mais rápido que poderia e leva uma das mãos a maçaneta: com desespero, ele tenta abrir a porta, e só depois de muito esforço nota ser inútil. Até mesmo tentar arrombar não adiantou muita coisa.
— Minha espada. Eu posso senti-la. — ele murmura — Como vamos passar por essa porta?
— Digitando a senha! — Thalia aponta para o pequeno painel de controle ao lado da porta de madeira maciça. — Eu já tentei de tudo: nossos nomes, o nome dos deuses, nome de música, de cantor, de série, de filme, e nada funcionou.
E jamais funcionaria, pensei. Senhas são tão pessoais quanto um poema de amor: só o eu – lírico consegue explicar a intensidade dos sentimentos, assim como apenas o autor de uma senha — especialmente uma senha alfabética, sem um número sequer — consegue entender o significado da mesma. Senhas nunca são números/caracteres/letras aleatórias, por mais que muitos pensem ser: elas sempre têm mais a revelar do que o simples objeto que guardam.
— Vamos pensar, gente! — tento animá-los — Não seria algo aleatório.
O foco de tudo aquilo com certeza eram Apolo e Ártemis, do contrário eles não estariam ali. Sabíamos bem que, depois da noite passada, caso voltássemos a nossa realidade, ou se algo a mais acontecesse, um conflito catastrófico teria início entre os olimpianos. A discórdia não teria fim.
— Discórdia... — murmuro, como se fosse Arquimedes murmurando Eureca.
Pude sentir claramente quando meus poderes voltaram a tona e flashbacks começaram a pipocar em minha mente. Primeiro os mais recentes, de dentro da maldição, como Apolo e Ártemis se beijando, Cathy e eu conversando com a tão familiar diretora do hospital; então vieram as lembranças de antes da maldição: o dia no parque, o mês de junho no Acampamento, os dias na escola, o apelidado livro da discórdia...
Quantas brigas eu não tivera desde que pusera as mãos naquele livro? Quantas brigas não provoquei entre meus amigos?
E então, uma lembrança que não me pertencia, e eu sequer gostaria de ver — afinal, semideus ou não, ninguém quer ver seu pai se agarrando com alguém —, mas que era essencial para nos livrar daquilo tudo.
Lá estava Apolo, sentado sobre uma cama, com uma morena em seu colo. Ela tinha exuberantes cabelos castanhos, trajava um vestido vermelho intenso — como o da capa de meu livro, como o da nuvem da maldição —, mas não era possível ver sua expressão enquanto ela mordiscava o pescoço do deus. Entretanto, algo dentro de mim pressentia que eu a reconheceria, o que de fato aconteceu quando Apolo a puxou pelo cabelo, para sussurrar-lhe sobre sua pele morena.
Era uma deusa, daquelas considerada menor, mas com poder avassalador, capaz de destruir tudo. Era também, naquela realidade, a gentil diretora do hospital em que tanto Apolo quanto eu estivemos internados.
E o nome... O nome dito pelo deus em minha visão... Certamente fazia parte da combinação.
— D. I. C. H. Ó. N. O. I. A. — Nico soletrou enquanto lia o que eu, de forma trêmula, digitava.
— A palavra grega para discórdia? — Thalia murmurou, e pelo seu tom de voz, sabia que ela estava erguendo uma das sobrancelhas. — O que isso quer dizer?
— Não percebem? Desde que achei aquele livro, isso é tudo o que há em nosso grupo: discórdia pura. — murmuro, vendo a porta se abrindo. — É isso que ela quer, é por isso que ela nos mandou para cá, junto com os deuses. Ela sabia que, cedo ou tarde, daríamos um jeito de sair daqui, e ela esperava que quando isso acontecesse, já fosse tarde e mais uma desavença acontecesse.
— Dessa vez entre olimpianos... — os dois completam meu raciocínio, e eu sabia que estavam entendendo. — Quer dizer que...
— A energia maligna que Thalia sentia era fruto dos pensamentos mesquinhos da deusa da discórdia. — confirmo — Tudo isso é obra de Éris!
— Agora percebo porque Atena a escolheu, guardiã: você é sensata, sabe do que fala... Não acusa sem provas! — uma voz feminina nos surpreende, e não preciso me virar para saber de quem se trata. — Finalmente resolveu o enigma.
— Éris! — praticamente rosno, tamanha era a raiva em minha voz quando me virei para encará-la.
Parecia mais pálida que o normal, mas isso não me assustava: deuses podiam aparecer em vários locais ao mesmo tempo, e eu não tinha dúvidas de que ela estaria em outro canto daquele território amaldiçoado.
— Semideuses... A que devo a honra da visita? — ironiza ela.
— Nada demais. Só viemos buscar nossas armas e estamos indo. — Nico finge pouco caso, fazendo um sinal para que Thalia e eu entrássemos na sala secreta.
— Ah, mas isso é abusar de minha hospitalidade! — Éris soa ultrajada. — Não pensem que podem sair daqui sem uma boa luta! Afinal, para que servem as armas, não é?
Por sobre o ombro, Nico nos encara, com seu mais belo e mortal sorriso. Ele apresentava também aquele brilho familiar em seus olhos, que aparecia toda vez que ele estava prestes a fazer algo incrivelmente genial. Ou terrivelmente estúpido. Eu tremi ao olhá-lo, sentindo verdadeiro medo.
— É uma luta o que ela quer?! — ele ri. — Sem problemas: eu trouxe uma guerra completa! — e ao fim desta frase, ergueu o braço, atraindo sua espada que foi direto para sua mão. — Eu vou destruir seu reinado de discórdia, Éris!
— Isso é o que veremos, filho de Hades! — Éris debocha.
O que antes era uma casa transformou-se num turbulento campo de batalha. Quantitativamente, deveríamos ganhar: três fortes semideuses contra um terço da essência de uma deusa. Porém, por mais dividida que estivesse, Éris ainda era uma deusa.
Um terço dela ainda podia acabar conosco.
P. O. V Autora:
Não há muito que se fazer quando sua consciência está presa em um espaço constante, onde nada acontece e não há ninguém além de você e seus amigos. Eventualmente o tédio acontecerá...
— Era uma vez uma linda sereia, que morava no fundo do mar...
— Cara, o que ela ta cantando? — Eleazar pergunta a Lorenzzo, observando Cathy deitada no chão, cantarolando.
— Alguma música infantil brasileira. Ela tem essas manias de vez em quando! — o italiano dá de ombros, sorrindo ao encarar a namorada. — Ela podia cantar em um idioma que entendamos.
Embora parecesse desatenta, Catarina ouvia a conversa dos dois, e rapidamente muda seu repertório.
— I can see the writing on the wall, I can’t ignore this war, at the end of… — porém ela sequer teve tempo de finalizar o refrão de Who Am I Living For.
Ao abrir seus olhos, não era ao “nada” que ela observava, muito menos Lorenzzo e Eleazar lhe faziam companhia. Ela lutava, ao lado de Nico e Thalia, sentindo os golpes em si, mas sem revidar corretamente. Ao piscar, a cena desapareceu, mas a sensação dos golpes continuou, talvez até mais intensa...
― Preciso que lutem comigo! Agora! ― Catarina diz, com urgência, erguendo-se ― Lutem como se eu fosse a vilã!
― O quê? Por quê? ― Lorenzzo questiona, recusando-se a espancá-la voluntariamente.
Já haviam lutado antes, e costumavam treinar com freqüência, mas Lorenzzo rapidamente perdia o controle: cedia a seus poderes e temia machucá-la. Por mais que discutissem, ele a amava e não conseguia feri-la...
― Estou sentindo... Valentina! ― Catarina murmura ofegante, curvando-se para frente ― Ela está lutando... E perdendo... Eu preciso ajudá-la! ― e olhar da filha de Apolo cruza com o do filho de Bóreas, como se selassem um acordo.
― Damas primeiro! ― Eleazar dá de ombros, ficando em posição de defesa.
― Então comece, cunhadinho! ― Catarina sorri mordaz, sentindo a adrenalina correr por suas veias ― Eu nunca fui uma dama!
O ruivo desfere um soco, errando-a quando a cunhada desvia para a direita no último momento e tenta derrubá-lo, chutando-o. Não era a primeira vez que se viam em tal situação, no entanto era a primeira vez que tudo era sério: eles se uniam por Valentina!
― O que você vê, Cathy? ― Eleazar pergunta, soando sério como nunca antes.
― Nada! Eu só sinto... Esquerda! ― ela grita repentinamente, e ele a ataca, permitindo um contra ataque efetivo.
― Concentre-se, Catarina! Sinta, feche os olhos e esqueça que estamos aqui! ― o cunhado instrui.
Lorenzzo, assistindo a tudo, não poderia deixar de admirar a namorada: ela lutava com bravura e graça, como se dançasse. Bloqueava e atacava como se vivesse em perigo... O que, de certa forma, de fato fazia.
― Certa vez você me disse que veio para nos salvar, para nos ajudar, Catarina! ― o italiano entra na dança/luta ― Ajude sua irmã a nos tirar daqui! Ajude a si mesma!
A garota, enfim, abre os olhos e estes não estão mais azuis, mas sim dourados. Não sabiam bem o que acontecia para que mudassem de cor, apenas que tal coisa não era bom sinal. E de fato não foi!
Eleazar tinha muito mais experiência em batalha do que seus companheiros, porém Lorenzzo tinha a herança genética: ser filho de Marte certamente o tornava ótimo em lutas, ou pelo menos melhor do que a namorada, entretanto, como de costume, Catarina os surpreendeu! Seus movimentos tornaram-se mais rápidos, precisos e fortes; seus comandos tinham mais clareza, como se os treinasse.
Ela espiralava ao redor de si mesma, dispersando chutes e golpes nos amigos como se estes fossem seu pior inimigo. E então, tão subitamente como começara, parou, desabando de costas no chão.
― Cathy! ― os dois ensangüentados e cheios e futuros hematomas, correm até ela.
― Amor? Cathy, ma bella, stai bene? ― Lorenzzo pergunta, desesperado.
― Dolorida, mas sim... Acho! ― a garota resmunga, aceitando a ajuda do namorado para levantar. ― Foi horrível!
― O que você viu? ― Eleazar pergunta, ajoelhado a sua frente.
― Valentina, Nico e Thalia...
― Thalia? ― Lorenzzo questiona.
― Estavam tentando recuperar nossas armas. ― suspira a menina ― Eu senti tudo como se fosse comigo! Eu me conectei com minha irmã! ― e Catarina desmaia, preservando um sorriso em seus lábios.
Lorenzzo a acomoda melhor em seus braços e lhe beija a testa. Assustava-o vê-la naquele estado, por mais que significasse boas notícias.
― Ainda temos chances, Enzzo! ― Eleazar murmura ― Ainda poderei ter minha vida de volta.
Em nome da grande amizade que tinham, Lorenzzo esperava que sim!
P. O. V Valentina:
Não teríamos vencido a breve luta contra Éris sozinhos, eu sabia disso ― afinal, não precisei de muito esforço para sentir a presença de Catarina. Não sabia como aquilo ocorrera, mas esperava que significasse uma mudança no cenário.
― Vejamos: temos minha lança e meu escudo, a espada de Nico, as facas de Catarina, e o que quer que seja essa corrente... ― Thalia faz nosso inventário de armas, sentada sobre o que sobrara de uma mesa de madeira.
Parte da casa foi destruída, e eu nem queria começar a imaginar em que os mortais pensariam quando a vissem... Se a vissem... Éris podia muito bem disfarçá-la com magia.
― Bom... E agora? ― Nico pergunta.
Nico fora um demônio durante a batalha. Mal consegui acompanhar seus movimentos, apenas sei que devia a ele o fato de ainda estarmos vivos ― mais uma ironia da vida: dever a vida ao filho do deus dos mortos...
― Agora que temos Thalia de volta ao jogo, e temos as armas, precisamos achar os outros. ― afirmei.
Eu sabia que suas essências/consciências estavam presas em uma paisagem impossível de existir no mundo real, mas também sabia que havia semelhanças entre onde estavam mentalmente, e onde nós estávamos fisicamente. Havia algo em minha mente começando a aparecer, e eu esperava que desse certo.
This test is my own cross to bear (Esse teste é a cruz que tenho que carregar)
― E o que tem em mente? Procuramos por todos os cantos, tanto aqui quanto em Long Island... ― Nico aponta, referindo-se a nossos amigos que trabalhavam do lado de fora da maldição.
― Estamos em Nova Orleans, afinal: a cidade alagada, repleta de magia. Consegue imaginar quantas bruxas há aqui?
― Está pensando em um...
― Feitiço de localização? Bom, se nossos campistas de Hécate podem produzir um, aposto um fim de semana na melhor suíte do Fairmont que qualquer bruxa daqui também pode!
― Olha ela apostando as coisas do namorado sem permissão... ― Thalia murmura, já arrumando as armas, distribuindo-as entre nós.
Senti-me ainda mais conectada ao ter em mãos as facas de Catarina, um presente dado a ela por Ártemis. Eu sabia que a corrente pertencia a Lorenzzo, e adoraria ter algo que me lembrasse Eleazar, mas eu não precisava disso: havia memórias dele, de nós, o suficiente para me darem forças para lutar.
Standing on the front line (De pé na linha de frente)
When the bombs start to fall (Quando as bombas começarem a cair)
― Acredite-me: ele vai ficar mais do que feliz com essa aposta assim que voltar a ser o nosso Eleazar de sempre!
P. O. V Autora:
Arrependimento nunca matou ninguém, mas desde que aquela maldição começara, Stephanye Wayne se sentia mais morta do que viva. A sempre exuberante filha de Íris, que expressava seus sentimentos sem temor, e de forma tão distinta ― afinal, poucas são as pessoas cujo cabelo e olhos mudam de acordo com o que sentem ―, passou a se distanciar daqueles que mais amava, e se tornou algo que não era ela. Tornou-se uma simples peça em um jogo sem vencedores, algo descartável... Uma pária.
It’s never easy to be chosen (Nunca é fácil ser a escolhida)
Never easy to be called (Nunca é fácil ser chamada)
Quando é de vingança que se fala, mesmo aquele que se salva não sai vitorioso. Todo mundo perde algo, e Stephanye perdeu sua identidade. A diferença, nesse caso, foi que ela recebeu uma segunda chance.
Aquela que não pode amar, uma promessa agora cobra; dissera a profecia, e a promessa fora mesmo cobrada: há anos, quando Steph ainda sofria nas mãos da tia em Las Vegas, ela clamou pelos deuses. Sempre soubera a verdade sobre si, e achou ser à hora de usá-la a seu favor; porém nunca imaginou no que isso daria.
“― Mas lembre-se, semideusa: nós a trouxemos aqui, e é conosco que sua lealdade repousa. ― a deusa, dona de exuberantes cabelos castanhos e olhar impiedoso, a alertou.
― Não ameace à coitada... ― Hécate tentou amansar a barganha, mas era tarde demais: Stephanye já havia aceitado.”
Ela sabia que, uma hora ou outra, uma das deusas exigiria sua ajuda, porém nunca imaginou que seria usada contra seus amigos. Nunca imaginou que seria uma peça num tabuleiro de guerra pelo motivo mais antigo e ridículo do mundo: vingança por vaidade.
I can’t ignore this war (Eu não posso ignorar essa Guerra)
At the end of it all (No final de tudo)
Who am I living for?(Por quem estou vivendo?)
Quando Hécate lhe ofereceu uma segunda chance, não demorou a aceitá-la. A chance de ajudar seus amigos, a qualquer preço, não era nada se comparada com o quanto à traição a estava consumindo. Mesmo que saísse machucada, mesmo que morresse, valeria a pena no fim das contas.
I know there will be sacrifice (Eu sei que haverá sacrifícios)
But that’s the price (Mas esse é o preço)
Após se revelar no Acampamento, ela tinha noção de que todos já sabiam a verdade sobre ela. Ela podia vê-los falando sobre si, podia ouvi-los chamando-a por nomes perversos, e não podia, nem queria, culpá-los: era a verdade!
O que ela podia, e faria, seria ajudar a salvar seus amigos.
Ela só não sabia que não seria tão fácil!
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