State Of Dreaming
22 21 - Prazer Sombrio
Notas iniciais
P. O. V Nico:
— O que realmente o traz tão tarde a minha casa, Nico? — Thalia interrompe o beijo que trocávamos... É claro que ela não engoliria o papo de estar sentindo sua falta: suas memórias foram aprisionadas, não sua inteligência.
Prestei atenção nela por um instante: Thalia tinha os mais belos cabelos negros que eu já vira, tão negro quanto o véu de Nyx, ou até mais. Cabelos esses, que só agora, eu percebera que tem leves ondas. Em seu rosto, o tradicional sorriso irônico me contemplava, mas eu não ligava para isso! Afinal, quem ligaria? Eu tinha duas nebulosas azuis que poderiam ler minha alma! Eu, certamente, me apaixonara pelo azul de seus olhos: não importava se estavam calmos, como hoje, ou tão tempestuosos ao ponto de terem raios neles. Seus olhos eram a coisa mais bela que eu já vira, e sempre me lembravam aquele velho ditado: os olhos são as janelas da alma. Bom, se isso é verdade, a alma de Thalia era bela e tempestuosa. E isso muito me agradava
E me fazia falta. A tempestade dentro dela era o que me conquistava!
— No outro dia, quando eu lhe disse que você me conhecia, só não lembrava: você acreditou em mim? — me forcei a perguntar: eu precisava saber que aquilo era algo que ela queria tanto quanto eu.
— Eu não deveria, sei muito bem disso, mas acreditei. Em algum lugar, no fundo do meu coração, eu sabia que você estava certo! — ela declara, e eu me esforço para não rir da idéia de Thalia usar a frase “do fundo do meu coração”: suas demonstrações de afeto eram sempre tão violentas. — Por que está me perguntando isso?
— Eu também disse que poderíamos achar um jeito de mudar isso... O que você diria se eu lhe contasse que, talvez, eu tenha esse jeito? — vou direto ao ponto, ansioso demais para usar de subterfúgios.
Ela me encara brevemente, respirando fundo em seguida. Eu tinha plena noção de que isso era um papo de maluco, que ela deveria sair correndo dali, porém Thalia parecia pensar seriamente no assunto. Como se eu estivesse lhe oferecendo a resposta de um complicado exercício de matemática.
— Eu diria que você tem que me contar detalhadamente sobre o que se trata. — ela diz por fim, e é a minha vez de respirar fundo.
Não poderia lhe contar tudo sobre o mundo dos deuses, afinal não queria assustá-la — mesmo que ela se lembrasse de quem realmente era tudo o que estava acontecendo recentemente era enlouquecedor e assustador. Até mesmo para ela, creio eu —, então editei o bastante para falar apenas sobre sua perda de memória e sobre o começo de nosso relacionamento. Falei de coisas que, na época, nem mesmo eu julgava importante, mas que enquanto lhe contava e via lágrimas ameaçando escorrer por seu rosto, notei como todo e qualquer momento ao lado dela havia sido importante.
— Eu amo o que estamos tendo ultimamente, mas não parece completo, Thalia! Eu quero te viver por completo! — sussurro timidamente, me dando conta da intensidade dos meus sentimentos.
— E para mim parece que sou uma louca, namorando um forasteiro desconhecido... — ela ri, aliviando a tensão — Se você diz que esse... elixir pode nos ajudar, acredito em você! — ela decide, destampando o vidrinho e tomando-o de uma só vez.
Esperava que algo mágico acontecesse — ela se lembrando de tudo instantaneamente, e nós comemorando com uma noite regada a vinho e sexo —, mas o máximo que consegui foi um bocejo saindo de seus lábios.
— Isso deveria me dar sono? — ela pergunta, apoiando o corpo contra o meu.
— Deveria ser tomado antes de dormir... Você estava indo dormir? — pergunto, erguendo-me do sofá e indo a levar a seu quarto.
— Sim! Não tinha nada para fazer, e eu estou cansada de ver TV quando estou sozinha... — a coloco na cama, sentando-me ao seu lado por um tempo. — Queria que pudesse ficar comigo...
— E por que não posso? — pergunto. Queria estar ali quando ela acordasse; queria saber se realmente funcionara.
— Porque minha tia ficaria furiosa ao chegar em casa, depois de uma noite de plantão no hospital, e descobrir que tem um cara no meu quarto! — ela murmura, quase dormindo. — Eu amo você, Nico!
Sorrio quando ela começa a ronronar em seu sono, especialmente quando ajeito a coberta ao seu redor.
— Eu também te amo, Thalia! — sussurro em seu ouvido. — E vou te amar ainda mais quando deixar de ser esse doce de pessoa, e voltar a foder com a vida dos nossos inimigos. — beijo sua têmpora antes de deixar seu quarto, e a casa.
Esperava que na próxima que entrasse naquela casa, Thalia Grace estivesse um pouco mais furiosa, e menos carinhosa: amá-la assim era a melhor coisa do mundo. Além do que, ser carinhoso era o meu papel na relação.
P. O. V Autora:
Há alguns meses Ártemis jamais acreditaria que estaria naquela situação, mas no momento ela pouco se importava. Todos os seus pré julgamentos foram jogados ao vento, e ela se divertia naquele encontro.
A lua cheia tomava conta do céu do French Quarter, assim como turistas embebedados tomavam as ruas. Igualmente bêbados, segurando uma garrafa de vodca, estavam o doutor Apolo Reymond, e sua ex-enfermeira.
— Você acha que, como especialistas em saúde, deveríamos mesmo estar nesse estado? — ela pergunta, tomando a garra das mãos do loiro.
— Eu acho que, além de nossas profissões, somos humanos! Temos o direito de fazer qualquer coisa, inclusive ficarmos bêbados! — ele ri. — Não estamos fazendo nada de errado.
— Será? Até onde eu sei, você ainda deveria estar tomando remédios... — a ruiva ri também, girando enquanto segurava uma das mãos de Apolo. — E eu deveria estar me certificando que estivesse tomando seus remédios corretamente.
— Deveria... Mas se me lembro bem, despedi a enfermeira Ártemis nessa tarde! — ele a puxa para si, prendendo-a em seus braços — Então relaxe, e deixe seus instintos te comandarem!
E Ártemis não precisou pensar duas vezes antes de seguir o conselho: jogou seus braços ao redor do pescoço de Apolo, e tomou os lábios dele nos seus em um beijo nada casto. Ela ainda se lembrava do sonho que tivera enquanto ele ainda estava internado, e naquele momento sentia o mesmo calor que sentiu ao acordar naquele dia.
Apolo era quente e não demorou a corresponder ao toque da ruiva, apertando-lhe a cintura enquanto sua língua passeava pela boca de Ártemis, sentindo o sabor natural de seus lábios e o sabor da vodca que dividiam. Mordeu-lhe o lábio inferior, abrindo seus olhos para encontrar os esverdeados dela.
— Onde é seu apartamento mesmo, Ártemis?
P. O. V Valentina:
Foi sábio de nossa parte não esperar nem por Nico, nem por Apolo, acordadas: na manhã seguinte, apenas o filho de Hades havia voltado para casa, e dormia na sala assim como Catarina e eu. Acordei me sentindo muito bem pela primeira vez desde que a maldição começara.
Caminhei pela casa, indo até a cozinha na intenção de preparar um café, mas jamais cheguei a fazê-lo: havia algo mais importante do que cafeína naquele cômodo.
— E aí, colega de quarto: sentiu minha falta? — Thalia me ofereceu seu melhor sorriso irônico, e eu não sabia se a batia ou abraçava. — Por favor, não chore, eu juro que te dou um autógrafo depois!
— Vadia! — murmuro e me decido por um abraço — Meus deuses, eu realmente senti falta de sua cara irritante.
— Também senti falta da sua fofura e amor por mim! — ela ri, retribuindo o abraço. — Não sentia falta da ação, no entanto...
— Não vou negar que odeio essa parte também, mas Thalia Grace negando a chance de bater em alguém? Duvido, viu?! — a solto, a tempo de ver Nico cambalear na direção da cozinha.
— Que merda ta acontecendo aqui? Deu para falar alto sozin... — ele se interrompe quando enfim vê a namorada. Nico busca por seus óculos, mas estes estavam longe, restando-lhe apenas uma forma de se certificar da verdade — Thalia?
— Em carne, osso, e trevas! — a mesma responde — Quer que eu cante The Sound Of Silence para confirmar? Eu realmente pretendia acordá-lo cantando hello darknes my old friend, mas sabemos bem que somos muito mais do que amigos...
Thalia tagarelava enquanto Nico permanecia estático no mesmo lugar. Parecia estar em estado de choque, embora houvesse um belo sorriso em seu rosto.
— Você que é filha de Apolo, sabe me dizer se choque causa isso nas pessoas? — Lia me pergunta, olhando preocupada para Nico. Ela esta próxima a ele, próxima o bastante para que ele precisasse apenas se inclinar para beijá-la.
— Ele tá mais do que chocado! — rio, passando por eles para voltar para a sala — Ele tá tão feliz, que nem sabe reagir! Boa sorte aí!
Deixo-os a sós, feliz pela decisão tomada: entregar o elixir a Nico me deixou mais feliz do que eu ficaria se tivesse usado-o em Eleazar. Enfim eu estava entendo as belezas do altruísmo!
P. O. V Thalia:
A sensação de liberdade que senti ao acordar foi indescritível. Era perturbador estar em meu corpo, sentir tudo o que eu fazia, e não ter controle de nada: se eu pudesse estapear a minha versão da maldição, certamente teria feito; ela parecia uma jovem do colegial apaixonada, olhando para Nico como se ele fosse um grande prêmio.
Odeio ter de admitir, mas eu sentia ciúmes de mim mesma.
Quando abri meus olhos e pude comandar cada movimento, pude escolher qual roupa usaria — e notar a falta de peças pretas naquele guarda-roupa —, senti-me imediatamente feliz. Porém incompleta: estar sem aegis era como estar sem meu próprio braço. Eu precisava encontrá-lo logo, e por isso não demorei muito em casa: tomei meu banho, vesti a roupa que mais se adequava ao meu estilo, e caminhei até a casa em que sabia que encontraria meus amigos... Dirigir teria sido mais rápido, porém junto à consciência, o medo também voltou.
Entrei pela porta da cozinha, que estava destrancada, e vi os três dormindo na sala; sorri ao me lembrar das inúmeras vezes em que todos nós pegávamos no sono na sala comum da Academia Yancy. Queria acordá-los ao mesmo tempo em que queria manter aquele momento para sempre em minha memória: não sabia quando teríamos um momento de paz novamente. Acabei voltando para a cozinha, pensando em conseguir algo para comer enquanto esperava.
Mas a espera não foi tão longa quando pensei: Valentina acordou, e logo depois Nico também. E ele ainda estava ali, de pé na minha frente, completamente parado.
— Eu realmente não queria fazer isso, mas... — dou de ombros antes de tocá-lo e enviar uma leve descarga elétrica por seu corpo.
— Au! Obrigado! — ele murmura, esfregando o ombro desnudo — Bom saber que está de volta!
— É bom poder eletrocutar algo! Ou melhor, alguém! — sorrio, ajeitando seus cabelos rebeldes — Buon giorno, Nico di Angelo! Dormiu bem?
— Não muito, mas acho que minhas noites serão mais tranqüilas a partir de agora! — ele me puxa para perto, repousando sua testa na minha — Pronta para eletrocutar alguns inimigos por aí?
Sorrio em sua direção, virando nossos rostos para a janela da cozinha. Do lado de fora, uma nuvem de tempestade, tão escura quanto seus olhos, cobria o sol. Raios a iluminavam, e trovões ribombavam pelo céu. Senti os lábios de Nico tremerem quando ele riu em minha pele.
— Eu já nasci pronta, meu amor! — murmuro, virando-me para beijá-lo nos lábios.
P. O. V Autora:
Eles não precisariam se esforçar muito para lembrar o que acontecera na noite passada: nem mesmo a tempestade que se armava lá fora seria suficiente para impedi-los de repetir o ato, uma vez que seus corações estavam tão agitados e acelerados que o som de seus batimentos encobria os ruídos dos trovões.
Dessa vez eram os lábios da ruiva que passeavam pelos músculos bem definidos do loiro. Mesmo depois de tanto tempo em coma, mais o período em que não pôde andar, o corpo de Apolo continuava impecável; aqueles músculos se contraiam a cada beijo que recebiam, ou a cada arranhão que as mãos delicadas de Ártemis deixavam. Ela o estava marcando, e ele adorava a sensação de posse.
— Você vai me torturar, Ártemis? — ele pergunta entre suspiros, ouvindo a risada quase maníaca da ruiva.
— Vou fazer exatamente o que você fez comigo, Apolo! — ela sussurra em seu ouvido, puxando-o pelos cabelos não tão longos.
— Não dessa vez, querida! — ele devolve o sussurro, derrubando-a na cama.
Mais uma vez os lábios quentes de Apolo deslizavam sobre a pele salpicada de sardas de Ártemis, mordiscando-lhe o pescoço antes de seguir com os beijos para a clavícula, descer até os seios e abocanhar um deles enquanto massageava ao outro. Ele sabia o que ela realmente queria, e demoraria o bastante para dá-la: ele gostava mesmo de torturá-la, de ouvi-la implorar.
— Apolo! Por favor... — murmura a ruiva entre gemidos, levando-o a sorrir.
— Eu adoro quando diz meu nome. — ele admite, mirando-a com olhos famintos de prazer — Fantasio esse momento mais vezes do que você possa acreditar!
Se ele soubesse dos sonhos que ela tinha...
Se eles soubessem que, enquanto exploravam o corpo um do outro, estavam deixando a desarmonia tomar conta do jogo e vencer um dos rounds. Por mais prazeroso que fosse aquele momento, as conseqüências dele poderiam ser dolorosas.
Especialmente para eles.
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