State Of Dreaming
21 20 - Chá da (des)Culpa
Notas iniciais
P. O. V Valentina:
“— Pare de se sentir culpada: o que você fez foi o certo!
— Não, Eleazar, não foi! Eu perdi o foco, poderia ter matado a Cathy ou...
— Valentina, você não perdeu o foco: foi até lá para salvar sua irmã, e foi o que você fez! Você salvou a Cathy!
Estávamos conversando sobre o ataque contra Cupido e Phoebe na noite em que deveria ter sido o casamento de Lucas e Calipso. Eu me sentia profundamente mal por ter errado uma flecha e ferido minha irmã — mesmo que superficialmente —; em minha mente, a culpa era da falta de controle que eu tinha sobre os meus poderes divergentes — afinal, não há nada de normal em ter poderes, menos ainda em ter poderes ligados ao sol e a morte.
Felizmente, só eu pensava assim!
— O problema todo é esse seu medo bobo. Nada é por acaso, Maria Valentina, e certamente seus poderes não são!
— Eles são uma maldição! É como se minha vida fosse o inferno, e meus poderes os demônios: soltos por aí, destruindo tudo! Preciso prendê-los! — eu teria dito mais, porém Eleazar escolhe esse momento para me encarar com seus claríssimos olhos azuis.
Eu conhecia aquele movimento. Quando seus olhos focavam nos meus, e tínhamos muito espaço entre nós, era a hora em que ele falava sério. Não como namorado, mas como um amigo ou conselheiro.
— Valentina, você não é apenas humana: é uma semideusa! Você tem poderes e são eles que vão te manter viva, além de ajudá-la a proteger àqueles que você ama: não tenha medo de usá-los! Se eles são seus demônios, solte suas amarras quando precisar infernizar o inimigo! — ele dá um leve sorriso, levando a mão ao meu cabelo — É o que faço quando penso que posso perdê-la! Não posso deixar que ninguém te tire de mim... Não de novo!”
Teria sido ótimo que as palavras ditas por Eleazar há quase um ano tivessem sido o suficiente para não estarmos na atual situação.
Era fim de agosto quando Gregory enfim conseguiu entrar em contato comigo através de sonhos e me entregar o elixir e o recado de Eros — o que, confesso, não me surpreendeu: eu já desconfiava que meu pai e Ártemis eram um projeto de Afrodite — ou seriam um dia —, e sabia que aquela maldição jamais seria o suficiente para uni-los; só uma deidade ligada ao amor teria poder para tal coisa.
Eu também sabia que deveria entregar o elixir a Nico, mas a tentação de ser eu aquela que teria o amor de volta a minha vida... Era tão grande quanto não era natural, assim como não era saudável passar tanto tempo com aquele bendito “Livro da Discórdia”: se ele continha todas as histórias de Éris, a deusa da discórdia, receber conselhos dele não seria boa coisa!
Eleazar me pedira para arrancar as páginas que ele escrevera, porém, como era costume — um muito ruim por sinal —, eu não levei a sério, e agora, de alguma forma estranha, aquele livro se comunicava comigo. Era como se soubesse de tudo o que eu estava passando e ansiasse por me ver em maus lençóis.
Não sei ao certo em que ponto da minha paranóia eu acabei dormindo, apenas sei que em um minuto estava deitada no sofá e no segundo estava preparando chá. Mas eu não estava em nenhum lugar conhecido — não era minha casa no Canadá, ou o apartamento de Eleazar no Fairmont; também não era a casa de tio Klaus em Nova York, ou o chalé de Apolo; nem mesmo era a casa em que eu morava na maldição —, a única coisa que eu reconhecia era o frasco com o elixir de Eros... Além, é claro, do sentimento de culpa.
Eu estava prestes a por o elixir na xícara de chá, quando fui interrompida por uma voz que reconheceria até no inferno.
— Se está se sentindo tão culpada, por que raios está fazendo isso então?
P. O. V Catarina:
Viver em uma maldição deveria ser simples para mim, considerando tudo pelo que já passei, mas a cada momento eu me sentia mais confusa. Coisas normais não pareciam nos afetar enquanto estávamos ali — levou certo tempo até que notássemos que, tirando o sono, não sentíamos nada: fome, calor, frio... Caçamos por um tempo, além de aproveitar das árvores frutíferas a nossa disposição, mas nada daquilo nos era necessário depois de um tempo.
Era um verdadeiro saco estar ali, especialmente com Lorenzzo e Eleazar: além da preocupação em que estávamos pelos nossos amigos, os rapazes se sentiam extremamente entediados, sentindo falta da ação; e eu os compreendia completamente.
— Já vai dormir? — eles me perguntaram enquanto treinavam.
Abri um dos olhos, vendo-os sem camisa. Não era uma visão que eu costumava rejeitar — embora eu visse Eleazar como um irmão, e não como um ruivo com músculos bem definidos —, mas depois de tanto tempo ali, tendo apenas eles como companhia, seus corpos seminus me pareciam bem normais.
— Quando voltarmos a nossas vidas normais, eu volto a bater no Eleazar e a atacar o Lorenzzo no campo e na cama; aqui, eu vou só dormir! — anunciei, recebendo uma camiseta na cara. — Obrigada, amor: o sol estava mesmo me atrapalhando! —pus a camisa de Lorenzzo sobre meus olhos e carinhosamente lhe estendi o dedo do meio.
Pensei ter o ouvido murmurar algo para Eleazar, como “nem parece que ela me ama”, mas simplesmente não consegui abrir a boca para revidar. Em um instante eu estava acordada, e no seguinte minha mente tinha sido arrastada para uma cozinha desconhecida, onde uma garota de cabelos escuros preparava chá. Ela se sentia culpada, e eu sentia o que ela estava sentindo.
Podia até mesmo ler seus pensamentos: ela sabia que se fizesse o que planejava, teria o que queria, mas afastaria seus amigos. E sabia que a culpa não iria ser superada pela alegria.
— Se está se sentindo tão culpada, por que raios está fazendo isso então? — perguntei, não agüentando mais assistir aquilo em silêncio.
Qual não foi minha surpresa ao ver Valentina me encarando...
— O que está fazendo no meu sonho? — minha gêmea me pergunta, tampando um frasco clássico de poções.
— Seu sonho? Eu que estou dormindo, evitando dois semideuses seminus, o que é loucura, mas... Meus Deuses! — exclamei quando notei o que estava acontecendo. — Então isso é o estado dos sonhos?
— Eu não tenho certeza... Sempre imaginei que onde suas consciências estão é o estado dos sonhos, mas considerando que sua...
— Consciência está aqui, e a sua também...
— O estado dos sonhos é qualquer lugar em que nossas consciências se conectem e formem uma linha de comunicação! — completamos o raciocínio ao mesmo tempo, correndo para nos abraçar.
Um minuto juntas e já tínhamos decifrado uma parte da profecia. Eu sentia falta de Valentina mais do que poderia descrever, ou mostrar com minhas lágrimas.
— É tão bom te ver sem você ser uma piranha! — ela diz e me afasta — É tão bom ver minha gêmea skatista crítica de séries de novo!
— Que papo é esse de piranha, maninha? Explique tudo. Agora! — exigi, sentando-nos à mesa que havia naquela cozinha.
Rapidamente ela me conta tudo o que conseguiu absorver nesses últimos meses em que nossa vida não mais nos pertencia, e o que eu entendi foi: ela está vivendo seu clichê de aluna apaixonada pelo professor — sendo que o cara era o namorado dela, e não se lembrava disso —; Thalia e eu disputamos um novato na região e eu era uma grande vadia que estava pegando e transando com o italiano dono do bar — que era meu namorado, mas nenhum de nós se lembrava disso —; papai era um médico, Ártemis enfermeira, Nico surgiu do nada.
— Porra, isso é mais confuso do que as peças que a Agatha escreve! — comento ao fim de seu relato. — Acho que se focar nisso, vou enlouquecer mais do que o normal...
— Então não foque! Foca nisso aqui! — ela me entrega a poção — Isso é um elixir feito por Eros para desbloquear a memória de Thalia...
— E o que está fazendo com você? — a interrompo — Não deveria estar com Nico?
— Gregory só conseguiu entrar em contato comigo através do “estado dos sonhos”... Nico está se dedicando à Thalia, estejam acordados, estejam dormindo... — ela suspira — Toda vez que ela está perto de se lembrar, desmaia e esquece tudo... A única coisa que ela não esquece é que o ama desesperadamente, o que me faz parabenizar você: fez um ótimo trabalho ao juntá-los.
— Isso já estava nos planos das Parcas... A primeira visão que tive foi do Nico contando para a Thalia sobre... — me calei. Não sabia se Thalia ou Nico haviam contado à Valentina sobre sua paixão errônea, ou sei lá como ele chamava o que acontecera.
— Eu sei! — Valentina afirma — Vi no passado dele pouco antes de ir bater em Cupido! — ela sorri. — E é isso o que me faz sentir culpa: esse elixir pode desbloquear a memória de qualquer um, e como Thalia já sabe o que sente por Nico...
— Você pensou em usar em Eleazar... — completo, pois só poderia ser assim como Valentina se sentiria.
Minha irmã e meu cunhado tinham uma história longa juntos, cheia de controvérsias e obstáculos; parecia que, quando enfim estavam aproveitando um tempo calmo, algo de ruim acontecia. A maldição começou quando completavam três anos de namoro: não poderia ser pior.
Eu adoraria ver os dois juntos de novo — por mais que, para bem da verdade, não seria eu quem os veria —, sacrificaria até mesmo minha felicidade — o que não estava necessariamente ligada a Lorenzzo: eu o amava, mas sabíamos que nossa felicidade era além de nós; valorizávamos nossas famílias muito mais do que a nós. — para que isso acontecesse, mas eu jamais sacrificaria a chance de acabar com tudo aquilo.
— Você vai me dizer que tudo isso é um grande erro... — ela murmura, escondendo o rosto nas mãos.
Abraço Valentina da mesma forma que ela me abraçou quando rompi com Lorenzzo na primavera anterior: como se pudesse juntar cada pedacinho de seu coração partido e tirar toda a dor que ela sentia. Ela não merecia sofrer mais do que já sofrera.
— Você já sabe o que tem que fazer, Valentina! Se você sabe que eu vou dizer que é errado, é porque você sabe que é errado! Se a Thalia já se lembra que ama o Nico, ela precisa voltar por algo mais importante, ela... — parei e me afastei de Valentina, vendo em seus olhos a compreensão que estalava em minha mente.
— Você deveria ser a heroína da profecia, não eu! — ela afirma.
— Mas eu sou! Junto com você: essa história nunca foi só sobre você, ou só sobre mim! É sobre nós, as gêmeas de Apolo! — digo convicta, só então percebendo que estava certa.
Antes que eu soubesse o que era, Valentina e Eleazar lutavam no Canadá para sobreviver e me ajudarem, e um ano depois era eu quem lutava junto a Lorenzzo para ajudá-los. Lutamos juntos para ajudar nossos amigos, e agora lutaríamos de novo, eu sabia.
— Não é hora de nenhum de nós voltarmos. E se você acha que precisa do Eleazar para sair dessa, faça o favor de bater a cabeça na parede até pensar o contrário. — a seguro pelos ombros, colocando-nos de pé — Entregue o elixir ao Nico, coloque a Thalia no jogo: é o jeito certo de se vencer isso!
— Acho que não é do Eleazar que eu preciso, mas da minha gêmea! — ela me abraça — Eu te amo, Cathy! Acho que nunca disse isso...
— Nunca precisou: eu sempre soube! — a aperto mais forte por um momento antes de o sonho se desfazer, e eu voltar a encarar meus fiéis escudeiros em batalha.
— Algum motivo para você estar abraçando essa bolsa carteiro? — Eleazar pergunta, erguendo uma sobrancelha para mim.
— Você nunca vai acreditar com o que eu sonhei... — me sento, puxando ele e Lorenzzo para se sentarem ao meu lado enquanto eu narrava o estranho chá da tarde que não tomei com minha irmã.
P. O. V Valentina:
Pensei que tivesse sido a força da minha consciência e a de Cathy que nos tivesse acordado, mas eu acordei mesmo foi com Apolo sacudindo meu ombro. Meu pai estava elegantemente vestido com uma camisa social cobalto e jeans; a camisa fazia seus olhos se destacarem ainda mais.
— Aonde você vai? — pergunto, com a voz ainda grogue de sono.
— Vou sair para jantar com a Ártemis — ele diz, sem rodeios ou formalidades — Meu bem, você passou a tarde dormindo no sofá...
— Hã?! — a tarde toda? Mal parecia que alguns minutos tinham passado...
— Vou te ajudar a ir pro quarto antes de sair! Sua irmã já está dormindo e seu amigo também! — papai diz, me ajudando a levantar. — Que livro é esse?
— Hum... Cathy o achou no sótão! — menti, torcendo para que ele acreditasse.
— Estranho... Parece que já vi esse livro antes... E não gosto nem um pouco dele! — como se tentasse comprovar isso, Apolo estremeceu enquanto subíamos a escada.
— É, é um livro muito estranho e um pouco apavorante! — digo, jogando o livro longe ao chegar ao quarto. — Obrigada, papai!
— Sem problemas! — ele beija minha testa — Como eu estou?
— Quente! — rio, ao me lembrar de uma história que Thalia me contara. — Está bonito para um cara da sua idade, papai!
— Um cara da minha idade... Essa é boa! — ele revira os olhos — Não me espere acordada e, se não for dormir agora, tente evitar que sua irmã fuja pela janela: ela pensa que eu não reparo, mas sei bem que passa noites longe de casa.
— E você não se preocupa? — ergo a sobrancelha: Apolo, nos bons tempos em Nova York, se preocupava demais com suas filhas amaldiçoadas.
— Eu tenho noção de onde ela vai, Maria Valentina... Assim como sei para onde você ia antes de todo esse acidente...
— Eu... O que... Você...
— Depois a gente conversa sobre isso! Deseje-me sorte! — e depois de me dar mais um beijo na testa, Apolo sai para sua grande noite.
Ainda um pouco atordoada, saí do meu quarto para falar com Nico; fiquei surpresa ao encontrá-lo no quarto de Cathy, jogando cartas com minha irmã.
— O que vocês...
— Estamos tentando aprender a ler cartas de tarô, mas sua irmã acha que seria interessante tentar usá-las como um baralho comum. — Nico responde à minha pergunta não feita.
— O que é impossível, pode falar! — Catarina larga as cartas sobre a cama. — Vou embaralhá-las e tentar ler seu futuro seguindo esse livrinho aqui!
Não pude deixar de sorrir ao me lembrar dos tempos em Yancy, quando Catarina e John inventaram de ler as mãos de todos. Ela leu sobre Thalia e Nico e jamais esteve tão certa... Me perguntava o que ela poderia ver nas cartas.
— Como foi com Thalia hoje? — perguntei a Nico, sentando-me junto a ele.
— Tranquilo: fomos passear pelo bayou, e eu tentei não mencionar sobre os anos em que ela era um pinheiro... — ele ri, tentando disfarçar a amargura que sentia.
Como pude pensar em negar aquele elixir a ele? Depois de ouvi-lo, não pensei duas vezes antes de lhe entregar o frasco e passar rapidamente as instruções dadas por Eros.
— Ela ainda ta acordada! — ele confirma, após receber uma mensagem em resposta a que mandara para Thalia.
— Então vai! Pega o carro da Cathy e corre para lá: eu distraio a minha irmã!
— Obrigado! Você é um anjo, Val! — ele me abraça, e a culpa em minha apenas aumenta.
— Não sou, não! Eu pensei em usar esse elixir com o Eleazar... Foi preciso certa intervenção para...
— Eu entendo! Eu fiz a mesma coisa quando tentei escapar do carro com Thalia... Sei como se sente, mas acho que nenhum de nós deveríamos nos sentir culpados: nada é por acaso. — ele diz, se levantando — Boa sorte com as cartas, Cathy!
— Onde você pensa que vai, menino? — Catarina finge ultraje. Ou talvez realmente se sentisse ultrajada.
— Resolver um negócio aí com a Thalia... Não me esperem acordadas! — ele acena, e sai do quarto.
Minutos depois ouvimos o som do carro de Catarina acelerando, e eu só pude rir da cara de minha irmã ao notar o que estava acontecendo.
— Vou ter mesmo que passar a noite jogando cartas? — ela pergunta, não sei se a mim, ou a si mesma.
— Ou a gente pode ver alguma série... Vai ter maratona de Arrow hoje... — sugiro, e ela me encara por meio segundo antes de dar de ombros.
— Eu levo os cobertores e os travesseiros pra sala.
— Ótimo! Eu preparo o chá! — me empolgo.
— Chá? — Cathy para no meio do caminho — Tipo chá de desaniversário da Alice?
— Tipo isso, mas com a minha gêmea! — aperto a ponte de seu nariz antes de ir para a cozinha.
— Sabe que está ficando cada vez mais estranha, né? — ela grita do segundo andar.
Sim, eu sabia que ela estava me achando cada vez mais estranha, e eu só esperava que as coisas mudassem na manhã seguinte. Afinal, seria uma manhã especial.
Thalia Grace estaria de volta, pronta para eletrocutar alguns inimigos para longe do nosso caminho. E eu não perderia isso por nada no mundo.
Nem mesmo uma maldição!
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