State Of Dreaming
18 17 - Mea Culpa?
Notas iniciais
P. O. V Valentina:
A situação ficava cada vez mais estranha: depois de Ártemis ter saído, e de Nico ter me contado seu sonho/encontro com Thalia — e o mesmo ter ido se encontrar realmente com ela —, não me restou muita coisa a fazer além de lavar a louça e pensar.
Apolo ficou particularmente afetado com a súbita saída de Ártemis, o que certamente teria a ver com o beijo da outra noite, mas o que a fez se sentir tão mal a respeito? Parte de mim gostaria de acreditar que ela estava se lembrando das coisas, mas uma parte muito maior sabia que não era isso. E só havia um jeito de descobrir do que se tratava.
— Preciso que me leve ao apartamento de Ártemis! — exijo a Catarina, que se encontrava na sala, mexendo no celular.
— O que? Por quê? — ela retruca confusa, mas eu não a culpava: era um pedido estranho mesmo.
— Eu queria conversar com ela... Talvez ela tenha ficado com uma má impressão do que aconteceu entre ela e papai, e eu queria falar com ela sobre isso: não podemos perdê-la, Cathy! — fiz minha melhor cara de "ela é o melhor para a recuperação de papai" que pude.
— Eu não posso ir, Maria: papai não pode ficar sozinho! — ela murmura — E você não deveria ir também!
— Por que não? — me faço de inocente.
— Você não está bem e sabe disso! Desde que voltou tem dito e feito coisas estranhas: me chama de Cathy, tem um amigo italiano com quem vive de segredinho e... E coisas estranhas também andam acontecendo: desde quando livros se materializam depois de sonhos?! — minha irmã discursa com fervor.
— Catarina, respira fundo! — peço, sem saber ao certo o que fazer.
Sempre tive em mente que, mais cedo ou mais tarde, a situação ficaria confusa, mas jamais pensei que seria em um momento em que eu estivesse sozinha, sem os conselhos de Nico. Ele conseguia contornar qualquer questionamento, e eu só sabia tremer.
— Não adianta respirar fundo se for pra continuar não sabendo das coisas! — ela declara, e é a minha vez de respirar fundo.
Há anos, quando ainda morava no Canadá e descobri ser uma semideusa, sempre me pegava reclamando por não saber nada sobre mim. Tudo o que eu sabia era o que ia descobrindo aos poucos, com a ajuda de Eleazar. Ao ouvir Catarina naquele momento, percebi que devia ser assim que ele se sentia quando era eu quem exigia respostas: perdido, porém desesperado para contar o que sabia.
E foi mais ou menos o que eu fiz!
— Catarina, sente-se aqui! — aponto para o sofá, me sentando ao seu lado após ela me obedecer — Eu não quero esconder as coisas de você, mas não sei até que ponto posso te contar sem que surte.
— Por favor, Valentina: não sou tão frágil quanto pareço! — ela revira os olhos.
— Não é mesmo! Dentre nós, você sim é a valente, não eu! E é por isso que precisa saber que isso aqui não é nossa vida real. — digo de uma vez.
— Co-como assim, Maria Valentina? Nós moramos em Nova Orleans desde que nascemos! Morávamos no French Quarter até que mamãe morreu e papai não conseguia mais ficar em nossa casa, e então nos mudamos para cá, a antiga fazenda dos McKennedy, e...
— Irmã, você pelo menos lembra o nome da nossa mãe? — a interrompo, antes que suas palavras pintem falsas lembranças em mim.
Tudo ali era bastante influenciável, e eu precisa me lembrar, constantemente, as coisas que me faziam falta: Eleazar, meus amigos, meus irmãos do chalé 7, e várias outras pequenas coisas que compunham minha vida.
— Claro que sim, ela se chamava... Chamava... — e a voz de Cathy se cala, antes de ela me encarar aterrorizada. — Oh céus!
— Seu nome era Melissa Reymond. E você não foi criada por ela, nem pelo papai. Eu fui criada por ela, e sofri muito. Eu tinha 12 anos quando minha vida começou a mudar, e tínhamos 15 quando tudo se transformou. O que estamos vivendo aqui não é nem um reflexo do que somos de verdade: lá, Nico é um de seus melhores amigos, e Monsieur Campbell não é meu professor, mas sim meu namorado e fotógrafo sonhador. E mais importante: lá, você é Catarina de Lyra, a mais corajosa filha de Apolo, namorada de Lorenzzo il Magnifico, e não Catarina Reymond, a garota que usa drogas e dorme com um dono de bar sem sequer ser namorada dele.
Havia choque e pânico em seus olhos. Tanto terror que, se eu tivesse contado mais coisas, ela provavelmente teria morrido. Confesso que aquela não era a reação que eu desejava: pensei que, talvez contando, ela se lembraria das coisas... Porém ela apenas me encarou e começou a chorar.
— A culpa é minha! Eu não deveria ter discutido com você naquele dia! Não deveria ter ficado pra trás naquela noite. Talvez... Talvez você não estivesse assim! — ela lamenta, escondendo o rosto em suas mãos.
— Calma, Catarina! — sussurro, afagando suas costas. — O que isso tem a ver?
— Você descobriu que eu estava me drogando! Você descobriu naquele dia e tivemos uma briga feia. Cheguei a desejar que você tivesse morrido no lugar da mamãe e você simplesmente ignorou isso e me deu um ultimato, pedindo que eu contasse tudo ao papai! Depois disso eu resolvi não ir com vocês alugar a casa e papai deixou você dirigir porque estava cansado... Você saiu daqui transtornada e chovia tanto... — ela se interrompe, chorando — Eu sinto muito por te ver assim!
Imediatamente me ressinto por ter contado. Catarina ficou mais do que triste, ela ficou desestruturada. Meu desespero para escapar da responsabilidade me fez não pensar nos meus atos, e agora Cathy chorava desesperada, achando que eu enlouquecera.
Tudo o que pude fazer para acalmá-la foi abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem.
E ficaria mesmo, se dependesse de meus esforços.
P. O. V Nico:
A participação extra profética de Claire me assustava, mas não havia nada que eu pudesse fazer além de esperar que desse certo. E, enquanto esperava, resolvi fazer o que Thalia me pedira em sonho...
— O que está fazendo aqui? — Thalia me pergunta, quando abre a porta de sua casa.
Uma casa muito grande por sinal. Grande demais para uma pessoa só.
— Você mora sozinha? — solto antes que possa me controlar.
— Boa tarde, Nico! — ela ri, me convidando a entrar — Não, eu não moro sozinha! Moro com uma tia minha, que no momento está no trabalho! — explica, revirando os olhos — A que devo a honra?
— Bom — começo —, você não vai acreditar, mas sonhei com você na última noite!
— Só acredito porque também sonhei com você! — Thalia retruca abismada.
— Verdade? E o que você sonhou? — ergo uma sobrancelha, acariciando seu pescoço. Ela cora rapidamente, o que me faz sorrir
— Estávamos em um quarto branco... E nós... Nós nos...
— Nós nos? — a incentivo a falar, intensificando o carinho.
— Nós nos beijávamos! — ela suspira, apertando as laterais de minha camisa.
— E como foi? — sussurro em seu ouvido.
— Foi bom para um sonho!
— Então farei o real ser ainda melhor! — digo antes de beijá-la, pegando-a de surpresa.
De início ela sequer reagiu, mas aos poucos suas mãos foram subindo por minhas costas e seus lábios se moviam em simetria com os meus. Mesmo sem a memória, mesmo parecendo que eu tinha de conquistá-la novamente, o beijo parecia certo e como era normal entre nós: desesperado, sedento e apaixonado.
Eu quase tinha medo do quanto amava Thalia! Eu quase confessei isso em voz alta e quase me sabotei.
Foi preciso muito esforço de minha parte para não lhe dizer que a amava, especialmente quando ela tira minha camisa e começa a arranhar minhas costas, a arranhar com força. Porque eu não resisti a isso, não resisti e a fiz subir em meu colo, deixando-a cruzar as pernas ao redor de meu quadril enquanto eu a carregava para a mesa da sala de jantar; não parei quando lhe arranquei a blusa, notei que ela estava sem sutiã e me pus a beijar sua pele até alcançar seus seios.
Eu esqueci que estava em uma maldição no momento em que tomei um deles em minha boca e a senti segurar meu rosto ali, soltando um suspiro sôfrego. Deitei-a delicadamente sobre a mesa, ainda mordiscando seus seios enquanto desabotoava seu short e permitia meus dedos a traçarem um caminho até sua intimidade úmida, que eu não perdi tempo em adentrar.
— Oh, céus! — ela geme e eu a beijo, sentindo tudo multiplicando: o amor, a saudade, o desejo.
Sempre havia preliminares criativas entre nós, mas naquele momento demora e charme era o que eu menos queria: lembrava-me muito bem de ter preservativos em minha carteira — dados pela própria Thalia, quando ainda estávamos em Nova York e nossa intimidade era piada para nós —, e logo tratei de vestir um e de tomá-la para mim ali mesmo, sem mais delongas. Eu estava desesperado de saudades e, como se lembrasse de tudo, ela parecia sentir o mesmo: cravava suas unhas em meus ombros e entrelaçava suas pernas ao redor de mim, permitindo mais contato.
Eu me sentia péssimo por fazer aquilo ali, por tanto a levei para o sofá, imaginando que, se os quartos fossem em outro andar, eu não conseguiria nos levar até lá. Simplesmente me sentei no sofá, e a deixei comandar, como gostava, permitindo-me a beijá-la e sussurrar em minha mente que a amava. Porque sabia que se dissesse as palavras, estragaria tudo.
Porém, quando ela desabou sobre mim, não pude mais permanecer quieto.
— Você é minha, Grace! — a beijo — Era e vai voltar a ser!
— Fico feliz, Nico: porque já te considero muito meu! — ela sorri sobre meus lábios, retribuindo o beijo — Você é meu e eu quero repetir isso... Repetir até ouvir o que você disse em meu sonho.
— E o que eu te disse, Thalia? — saboreei dizer seu nome, da mesma forma que saboreava seu inconfundível sabor de morangos.
— Eu te amo! — ela disse, fazendo meu coração falhar uma batida. — Você disse “eu te amo”, e eu acreditei.
Não pude deixar de sorrir: havíamos acabo de fazer amor e agora ela estava envergonhada.
— Então continue acreditando, Thalia. Por que eu te amei no sonho e continuo te amando aqui e em qualquer outro lugar que nos mandem! — declaro, distribuindo beijos por seu rosto.
— Nico, é maluquice minha te amar? Amar você e te conhecer tão pouco? — ela pergunta e eu reprimo o riso.
Thalia era a que melhor me conhecia por ali: quase sete anos ao todo; eu havia contado todos os meus segredos, e não havia coisa alguma em mim que ela desconhecesse. Exceto, talvez, o medo de perdê-la... Isso era novo até para mim.
— Maluquice seria não nos amarmos! — sorri — Você me conhece, Thalia. Só não lembra, mas não se preocupe: podemos mudar isso juntos!
— Eu adoraria! — ela sorri, com lágrimas em seus olhos — Eu amo você, italiano desconhecido.
— Eu amo você, Thalia Grace! Minha conhecida e adorada Grace!
P. O. V. Autora:
Ártemis não se importava por ter beijado seu paciente, o que a assustava era o fato de querer mais. Isso a deixava confusa, e tudo o que ela mais precisava era uma boa conversa.
Geralmente seria com Eleazar, seu irmão de criação, que ela conversaria, mas não era com um garoto que ela gostaria de conversar.
— O que foi, querida? — a diretora do Hospital pergunta preocupada, lhe servindo uma xícara de café.
— Senhorita Beaumont, acho que estou faltando com minha ética profissional. — Ártemis diz, e conta sobre seus sentimentos para sua supervisora. — Eu me senti tão culpada quando o beijei, mas ao mesmo tempo eu só queria continuar aquilo.
A diretora sorri, admirada com a inocência de Ártemis.
— Muitas aqui matariam para estar em seu lugar! — a mulher afirma.
— A maioria aqui não tem princípios! — a ruiva se defende.
— Não é uma questão de princípios, querida, mas sim de desejo: até quando vai mantê-los sob rédeas firmes? Apolo é um cara gentil, adorável e, dizem, bom no que faz: tem certeza de que quer se negar isso?!
Ártemis encara a diretora por um tempo, mal acreditando no que sua supervisora lhe aconselhava tal coisa. Mas se ela não ligava para a ética, quem era Ártemis para ligar?!
— Obrigada pela conversa, senhorita Beaumont! — a ruiva se despede, preparada para voltar para a velha casa de fazenda.
— Não se preocupe, Ártemis! Sempre aqui para lhe ajudar! — a diretora se despede, lhe dando um beijo na bochecha.
A enfermeira ruiva sorri antes de partir, sem saber que, talvez, não fosse ajuda que tenha conseguido, mas sim um passaporte para mais confusão ainda.
Enquanto isso, em Nova York, completamente ignorantes a respeito do que se passava no coração de Ártemis ― que se encontrava completamente ignorante sobre sua verdadeira natureza ― Aria, Gregory e Claire se preparavam para sair do Acampamento e ir à busca de Eros. Não seria uma tarefa difícil, eles sabiam ― certamente o encontrariam no Olimpo ―, difícil, porém seria ele confessar o erro que cometera sem intenção, e perceber o quão fundamental fora para o caos que se instalara entre os deuses.
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