State Of Dreaming
12 11 - Once Upon A Dream
Notas iniciais
P. O. V Gregory:
Tudo o que tio Eleazar me contara sobre seus amigos semideuses era bem pouco perto do que eu presenciava: sua cunhada era bem mais que “meiga e legal”, Catarina era linda ao ponto de me deixar sem fala; e seu concunhado ia muito além de “engraçado, ciumento e esquentadinho”, Lorenzzo me dava medo, muito medo... E eu sabia bem o que era sentir medo, uma vez que era cunhado de Phobos.
— Volta a fita e para tudo: como assim você está no chalé de Hera, vendo Sophia dormir? — Lorenzzo interrompe minha narrativa — O que você estava fazendo lá?
— Estávamos conversando e ela dormiu... Eu a levei para dentro e acho que dormi. — suspiro — E-eu não durmo há dias, isso tudo vem sendo estressante e... Bom... A presença dela me acalma. — confesso, evitando olhá-los.
— Awwn, que fofo: ele tá apaixonado! — ouço Catarina comentar
— Eu sei! E é aí que está o perigo! — o italiano resmunga, parecendo torturado.
Olho de relance para meu tio, e ele parecia tentar conter uma risada. Ele deveria tentar conter o amigo que parecia querer voar em meu pescoço, isso sim.
— Enzo, não seja tão chato: Sophia é filha de Hera! — vejo Catarina fazer um gesto de desdém, como se estivesse certa de o que quer que esteja em sua mente.
— O que isso tem a ver? — seu namorado pergunta, espelhando a confusão que sentíamos.
— Bom, da mesma forma que eu tenho talento para música, ela tem para encontrar o rapaz certo! — ela esclarece, e sinto meu coração falhar uma batida.
Será que Sophia sentia por mim o mesmo que eu sentia por ela? Quer dizer... O que eu realmente sentia por ela?
— Está dizendo que meu sobrinho é o garoto certo para Sophia? Você está vendo os dois juntos? Seus poderes estão funcionando de novo? — tio Elz a sacode pelos ombros, desesperados.
É preciso que Lorenzzo o segure para que ele solte Catarina.
— Bom, não... — ela suspira derrotada e os outros dois fazem o mesmo — Mas eu sou uma garota e minha intuição feminina é tão impecável quanto meus palpites. — ela sorri confiante.
Não a conhecia, mas poderia jurar que era tudo uma máscara para disfarçar seu desespero. Quem não estaria desesperado nessa situação, não é mesmo?
— Ta dizendo que eu devo confiar em algo que está sentindo, mas que não sabe se estará no futuro? — Lorenzzo pergunta, para rir com desdém quando recebe uma resposta afirmativa — Amor, sem ofensas, mas é da minha irmã que estamos falando.
— Amor, sem ofensas, mas se você não confia nisso, como confia quando digo que te amo? — e, sorrindo, ela se ergue e adentra a margem leste da estrada. Antes de desaparecer entre as árvores, no entanto, a vejo levar as mãos ao rosto.
— Touché, ragazzo! — tio Elz murmura para Lorenzzo.
Acabo me distraindo, pensando em como o tempo ali era confuso: eu estava a 10 minutos naquele lugar, mas parecia que uma hora havia passado. Não poderia perder mais tempo.
— Olhem, precisamos nos concentrar aqui, então prestem atenção no que vou falar. — digo e re-início minha narrativa sobre tudo o que aconteceu desde que eles desapareceram.
Conto-lhes como eles eram na outra realidade, sobre o suposto acidente que pusera Valentina e Apolo em coma e, principalmente sobre a façanha que o filho de Hades conseguira.
— Então, Nico conseguiu escapar... — Lorenzzo comenta
— Ele teve força suficiente para sair de lá, mas não foi rápido o bastante para escapar da maldição... Na verdade, pelo que ele contou a Aria, ele conseguiu escapar e veio parar num lugar parecido com esse, mas Eros apareceu e o mandou para onde a maldição está...
— Então Eros está por trás disso tudo?
— Não, senhor! Eros precisa da ajuda de Nico para algo, isso sim! Algo como se redimir pelo que fez com ele e Thalia... Sei lá, isso eu não tenho idéia, só sei que Nico escapou.
— Nico... Ele ia escapar com Thalia e nos deixar no carro?
— Não, Lorenzzo! Ele queria tirar todos de lá! Mas não pôde... Will me disse que...
— Se Nico fizer mais viagens pelas trevas, ele pode acabar não voltando mais. As trevas vão acabar consumindo-o! — Catarina completa meu raciocínio, voltando para o grupo. Seus olhos pareciam estar avermelhados, como se tivesse chorado, mas ninguém comentou nada a respeito — Nós o examinamos quando voltamos para o acampamento esse ano e é um milagre Nico estar vivo e eu não estar surda. Ele desobedeceu Will e viajou pelas trevas, trouxe um exército de mortos para lutar contra Phobos... Isso deveria tê-lo consumido, mas como não o fez, meu irmão aproveitou para gritar bastante com ele.
— Mas como ele não foi consumido? — perguntamos, em uníssono, tio Elz, Lorenzzo e eu.
— Creio que a presença de Thalia seja a explicação: amor puro engrandece as almas, Victor Hugo disse, e acredito que as fortaleça também. — Catarina mata nossa curiosidade.
— Quanto sentimentalismo... — Lorenzzo murmura.
— Meu “sentimentalismo” faz muito mais sentido que minhas visões. E já salvou tua pele centenas de vezes. — ela ergue as sobrancelhas.
— Apaguem nossas memórias, enviem nossas essências para um sonho constante, façam tudo, mas vocês nunca mudarão a forma Catarina de ser ou o quão irritantemente certa ela pode estar... — titio filosofa.
— Viu, amor? Elz entendeu que não deve discutir comigo!
— Claro que entendi: eu gosto de estar vivo, e gosto mais ainda de estar com sua irmã. Se eu a contrario, você ou me mata ou me capa, e eu não gosto de nenhuma das duas opções. — meu tio fala, como se precisasse se defender.
— E Lorenzzo é um idiota por continuar a me contrariar, mas o que fazer se eu amo esse idiota? — ela murmura, sorrindo para o namorado que desvia o olhar, parecendo constrangido.
— Por favor, não se beijem. Eu não sei ser vela, apesar de ter cabelo de fogo. Eu...
Enquanto ouço meu tio reclamar sobre a situação, observo os arredores. Não era possível ver o sol através das nuvens rubras, mas elas mudavam de direção no mesmo sentido que o astro está suposto a girar, me dando uma boa indicação de que o tempo ali passava muito rápido. Eu precisava terminar de contar tudo antes que eu acordasse.
— Será que podemos nos concentrar aqui, senhores? — minha voz vai aumentando à medida que falo.
— Desculpe! — os três sussurram e eu respiro fundo.
— Vocês são mais experientes que eu nisso, então, por favor, alguma teoria para tudo isso? — peço, praticamente implorando.
Catarina e Lorenzzo negam, mas vejo meu parente ruivo olhar ao redor.
— Tio? — o chamo.
— Ela é imune! — ele murmura, perdido em pensamentos — Todos os que estavam lá são...
— Estavam onde? — Lorenzo pergunta.
— Você estava lá, Greg! Quando sua mãe deu início a tudo...
Eu sabia bem a que ele se referia: primavera de 2012. Quione, que até então era minha adorada mamãe, conseguiu uma maldição para enganar tio Elz: ela o fez acreditar que todos que ele amava estavam em perigo e que ele precisaria enfrentar os piores e mais temíveis monstros para resgatá-los. E ele lutou, e Quione achou que, se fosse ajudá-lo, ele a agradeceria da forma que ela queria: casando-se com ela e dando-lhe poder suficiente para reivindicar o trono de Bóreas.
Ela só não contava que alguém anulasse a maldição. Ela não imaginava que eu me compadeceria do sofrimento de Valentina e que usaria meu próprio sangue para impedir minha mãe de se tornar rainha.
“— Impediu-me de ter o trono uma vez, criança insolente. Impedi-lo-ei para sempre!” — estas foram suas exatas palavras antes de me aprisionar ao corpo e a mente de um menino de oito anos.
— Maldições se comportam como algumas doenças? — pergunto a meu tio, completamente confuso — Uma vez que você se protegeu contra uma, passou a imune por tal, não sentirá os efeitos de novas?
— Parece que estamos falando de vacinas... — Cathy murmura, mas tem algo mais urgente do que sua comparação acontecendo.
— Marie e minhas irmãs estavam sob a proteção de Bóreas, têm “sua benção” para sobreviverem a isso... Mas Marie sabe se defender...
— Já as meninas não... — completo o seu pensamento.
Precisávamos fazer algo para proteger as irmãs mais novas de meu tio, mas nenhum dos três — muito experientes em sair de enrascadas —, parecia saber o que fazer a seguir.
Felizmente eu sabia, e não tardei em contar-lhes minha idéia.
— Mas o que mandaríamos? E como? — Catarina pergunta.
— Aria disse que, quando quer transportar os objetos entre seu corredor dos sonhos e a realidade, costuma deixá-lo bem perto de seu coração, como se estivessem conectados... — lhe responde — Tio, eu vi o quanto ama aquela garota, tenho certeza de que pode levar algo para ela...
— Também acho, mas, pelo que nos disse, eu não estou exatamente próximo dela lá. — ele sorri, mas é possível ver a tristeza em seu semblante — Você, no entanto, cunhadinha, mora com a Marie e estão mais próximas do que nunca: confio em você para mandar-lhe isso!
E ele estende um grande livro para Catarina.
— Como... — ela parecia mais que surpresa ao ver o objeto. Atrevo-me a dizer que ela estava apavorada, como se tivesse de por as mãos em uma bomba.
— Eu tinha o tomado de Valentina no início do verão: ela estava obcecada com ele. Mas eu ia devolvê-lo naquele dia...
— Entendo... — ela respira fundo — Bom, já que vou mandar um presente para sua namorada, o que acha de deixar um bilhetinho?
P. O. V Autora:
Eleazar praticamente escreveu um novo capítulo no livro, mas foi bem específico ao pedir que Valentina arrancasse o “bilhete” depois de ler.
O tempo passou e a “noite” chegou à estrada dos sonhos eternos. Todos os que estavam ali, incluindo Greg, começaram a se sentir cansados, e não tardou muito para o sono fosse mais forte que eles e os impedissem de continuar a caminhar ou conversar.
— Vai aparecer de novo? — o tio pergunta ao sobrinho.
— Não sei... Mas vou tentar trazer Aria comigo da próxima vez... — Greg responde. — Ela entende tudo isso bem mais do que eu... Sou apenas um dos instrumentos dessa maldição!
Antes que Eleazar possa dizer mais alguma coisa, Greg desaparece, como se fosse, de fato, um sonho se desfazendo. O ruivo, então, vira-se para o lado, onde a cunhada já está adormecida e o concunhado a observa dormir.
— Espero que ela consiga! — Eleazar suspira.
Ele raramente duvidava da amiga, mas naquele momento, fé e esperança era o que ele menos tinha.
— Tenho certeza de que ela vai! — Lorenzzo sorri, beijando a testa de Catarina — Ela pode fazer tudo!
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