State Of Dreaming
2 1 - Great Clouds Roll Over The Hills
Notas iniciais
4 de Julho de 2014
P. O. V Autora:
Estava tudo pronto: a cesta de piquenique estava lotada com todas as guloseimas favoritas dela, os amigos a estavam levando para o local marcado – isso se já não estivessem lá –, e ele tinha dois trunfos em suas mãos... Ou melhor: ele tinha dois trunfos de mãos dadas com ele.
– O tempo não está meio estranho para um dia no parque? – a menina de oito anos pergunta, observando o céu nublado
– Pra mim está ótimo: os últimos dias foram muito quentes, e eu não sei se aguentaria ficar um dia todo fora do apartamento se o calor se repetisse hoje! – o irmão, muito mais velho, comenta.
Caminhavam pelo Central Park, procurando por uma árvore grande o suficiente que oferecesse uma boa sombra ao grupo que partilharia o piquenique. E foi a outra menina, a que tinha seis anos de idade, quem lhe apontou a árvore perfeita, bem a sua esquerda: um carvalho de longos galhos, cuja sombra estendia-se por metros ao redor e mal era possível ver sua copa. Realmente, era um lugar perfeito para comemorar um aniversário de três anos de namoro.
Estava com quase tudo pronto – o que foi rápido graças a ajuda das meninas, que estavam tão animadas quanto ele –, quando ele foi derrubado e uma cortina de cabelos castanhos toldou-lhe a visão.
– Sabia que não resistiria a uma surpresa, mas isso é fantástico, Eleazar! – e ele mal teve tempo de responder, pois seus lábios logo foram tomados em um beijo entusiasmado.
Era bom vê-la normal de novo, depois de toda a confusão que todos os livros estavam causando em sua vida.
Oh, espere, eu não contei essa história ainda!
Pois bem, tudo começou duas semanas após o Conselho Olimpiano em que Hades deu uma lição de moral em Zeus, e o fez perceber que não havia problema algum em seus filhos namorarem; naquela noite, Maria Valentina, uma talentosa filha de Apolo, sonhou com a deusa Atena. Estavam em um corredor de uma biblioteca que aparentava ser gigantesca, e a deusa lhe contava como as filhas mais novas do deus da música nasceram, na verdade, para servirem a outros deuses.
Quando a menina acordou, estava parada em frente à biblioteca da escola em que estuda, com uma chave em mãos. A chave, dizia na corrente que a acompanhava, era da biblioteca e se tem uma coisa que Valentina é, essa coisa é curiosa, então não tardou em checar se a informação era verdadeira. De fato era verdadeira, mas não era aquela biblioteca que abria, não eram livros mundanos que ela contemplou.
Era o corredor de seu sonho, repleto de estantes lotadas e artefatos misteriosos. Ela o percorreu por um tempo – um tempo logo, pois o corredor parecia infinito – até que, no fim deste, em uma curva, encontrou uma espécie de mini escritório, onde sobre uma mesa, havia o que julgou ser o livro mais grosso da coleção. Que foi o que mais lhe despertou curiosidade.
Sentou-se e leu, e talvez nunca tenha lido nada tão rápido e tão impressionante. E quando contou aos amigos, e os mesmos leram, tiveram de concordar: era algo impressionante e preocupante. Afinal: por que ela tinha em seu poder o “Livro das Discórdias”?
Puseram-se a investigar, e à medida que avançavam em suas buscas, a mente de Valentina se deteriorava: primeiro pesadelos vividos, que a faziam acordar gritando, depois alucinações, e então, sua presença pode ser sentida pelos monstros que se escondiam nos arredores de Nova York, e eles passaram a atacar a escola durante a noite.
Claro que os que estavam do lado de fora – como Eleazar, por exemplo – ficaram sabendo do que ocorria, e muitas vezes se juntavam a eles durante a noite, fazendo buscas no corredor ou em outras fontes de pesquisas que conseguissem, mas o fim das aulas chegou e ninguém descobriu nada. Mas não foi uma perda de tempo total: para o chalé de Apolo e para o filho de Bóreas, o fim do ano letivo era a melhor notícia que poderiam ter, pois significava que Valentina estaria longe de toda a confusão, que ela voltaria ao normal.
Como de fato estava.
P. O. V Eleazar:
Não gostar do verão era algo normal e rotineiro para mim: minha natureza de filho de Bóreas proporcionava isso, e eu estava acostumado com tal coisa. Mas há três anos, pelo menos um dia no verão era bom e eu agradecia a todos os deuses por ele, pois fora o dia em que Valentina cedera a seus sentimentos e dissera sim ao meu pedido de namoro. Isso deveria ser motivo o suficiente para eu amar a estação toda, mas meu ódio se tornou parte de toda a ironia da vida quando descobri, há um ano, que Valentina era filha de Apolo.
Parei de expressar meu ódio pelo verão desde então, mas ainda era possível ver os efeitos negativos da estação em mim.
– Dizem que eu sou pálido, mas pelo menos a cor que ganho ao ficar um tempo sob o sol é mais normal do que a desse aí! – Nico comenta, sentado na grama ali do lado, usando óculos de sol enquanto lia um livro para minhas irmãs – Agora entendo porque chamam seu irmão de pimentão, meninas!
Claro que elas riram: as duas o amaram assim que viram, e Bella já estava pendurada em suas costas, trançando os seus cabelos. O mais louco disso tudo era o fato de ele não reclamar, e de Thalia estar fotografando tudo.
– Deuses, eu sentia falta disso! – Catarina, minha cunhada e irmã gêmea de Valentina, comenta, também jogada na grama – Dias ensolarados nunca estão em falta no Brasil!
– Podia ser pior, amor: você podia ter sido jogada num acampamento na Inglaterra, onde só tem sol umas quatro vezes por ano! – Lorenzzo, seu namorado, a provoca.
E mesmo que eu odiasse o verão, eu devia admitir que essa era uma estação viva. Todos estavam mais animados, mais felizes, e acho que ninguém era mais feliz naquele dia que eu.
– Olhe só para nós, Marie: três anos depois e ainda estamos aqui! Juntos! Nem mesmo eu acreditaria na minha sorte se me contassem! – suspirei, observando nossos amigos se divertindo.
– Eu tinha total certeza de que você seria meu: eu nunca jogo pra perder! – ela finge desdém, mas um sorriso a entrega enquanto come um morango. – Além do que, onde eu acharia outro ruivo para suprir minha loucura por vermelho?
De fato, o vermelho era a cor que ela mais amava, e eu fizera questão de mostrar que eu sabia disso: quase tudo exposto na toalha de piquenique era vermelho, exceto o que levava chocolate – embora a tigela de brigadeiro tenha acabado em dois tempos, depois que Cathy percebeu o que era. Garanti que nunca mais aprontaria uma surpresa onde os outros amigos tivessem que permanecer.
– Então, agora você admite que sempre teve outros interesses além de me usar, não é? – prendo Valentina entre minhas pernas, aproveitando para fazer cócegas nela – Sabia que sentia mais por mim do que apenas excitação!
– Sim, mas isso não significa que nunca tenha passado por minha mente na época! – ela ergue as sobrancelhas, e puxa um pirulito do bolso.
Eu definitivamente deveria ter pensado em algo mais privado para comemorar aquele dia: esperar por uma parada de rua, com uma Lolita em meu colo não era a coisa mais inteligente a se fazer. Principalmente agora, que ela chupava um pirulito.
Eu estava com inveja do pirulito.
– Val, quer brincar de pique esconde com a gente?? – Liv pergunta, tão vermelha quanto eu deveria estar, ofegando após correr.
– Claro! Vá se esconder: eu logo irei procurar vocês! – Val concorda, e minha irmãzinha corre para Thalia, que promete achar um bom esconderijo para as duas. – O dia que eles tiverem filhos, serão ótimos pais!
– Uhum! – foi a coisa mais inteligente que consegui murmurar, enquanto observava seus lábios carnudos saborearem o pirulito cor de rosa.
– Acho que já deu tempo de eles se esconderem! Vou brincar com eles um pouco, e depois procuramos um lugar para nós dois brincarmos! – ela pisca, e sai caminhando calma e provocativa.
– E é por essas e outras, querido, que quando formos comemorar algo, não chamaremos os amigos e muito menos faremos em público! – ouço a voz de Cathy zombar ali perto, despertando-me de meus devaneios nada castos.
– Anotado e compreendido, capitã! – e Lorenzzo se junta a ela na brincadeira, ambos rindo de mim.
– Até parece que são santos! – murmurei sorrindo, antes de me deitar sob a sombra.
Aquele parecia ser um dia que eu jamais esqueceria.
P. O. V Catarina:
Embora estivesse um pouco nublado, o sol ainda conseguia ultrapassar a camada de nuvens e tocar nossas peles, dependendo de onde estivéssemos. Isso era bom, e eu apreciava até mesmo o mormaço ao redor, mas tinha gente por ali que precisava de um refresco.
– Quando chegarmos ao três, eu viro! – Lorenzzo propõe a barganha, com um sorriso travesso nos lábios.
– Enzo, até o três ele já vai ter percebido que estamos muito perto e vai acordar: faça isso logo! – eu me controlava para não rir, mas isso se tornou impossível quando meu namorado deu de ombros e simplesmente virou um balde cheio de água sobre a cabeça de Eleazar.
Ver o ruivo despertar como se estivesse se afogando foi hilário, e mesmo que ele estivesse nos xingando de todos os nomes impossíveis, nos três idiomas em que era fluente, eu ainda não conseguia parar de rir.
– Deuses, obrigada pelo namorado genial e diabólico que me deram! – gritei entre os paroxismos de risos, agarrando a cintura do mesmo em busca de equilíbrio.
– Eu esperava por idéias desse tipo vindo dela, mas nunca de você! – Eleazar reclama, tentando torcer a camisa que usava. – Não vão me deixar entrar no aeroporto desse jeito, e aquelas duas ali têm que... Vocês nem ao menos estão me ouvindo! – ele grita, ao perceber que Lorenzzo e eu estamos rindo como loucos e tentando nos equilibrar de maneira precária.
– Você estava... Parecendo um peixe fora d’água! – expus meus sentimentos mais sinceros – Devíamos ter filmado isso! Pra posteridade, pra caridade, ou sei lá pra que merda se filma esse tipo de coisa.
– Francamente, esconderem duas garotinhas e depois irem se pegar em um arbusto: quantos anos acham que têm? Treze? – Valentina marchava em nossa direção, com Liv em seu colo e Bella de mãos dada com ela. Nico e Thalia seguiam atrás, ora dando risadas, ora tentando parecem inocentes. – E você ta molhado por quê?
– Achamos que ele precisava tomar uma fresca e... – me encolhi quando dois pares de olhos azuis me encararam – E eu vou ali, recolher as coisas, porque to sentindo uma tempestade se aproximando; já estou até vendo os dois gritando comi...
– Olha, maninho: nuvens de ketichupi e mustardar! – Liv aponta seu dedo gordinho para o céu, inclinando-se para trás no colo de Valentina.
– Olivia, não existem... – Eleazar fica boquiaberto ao olhar para o céu, o que leva todos a fazerem o mesmo.
As nuvens cinzentas que antes bloqueavam o sol deram lugar a nuvens vermelhas, da cor do sangue. Raios brilhavam entre elas, mas sua cor se aproximava mais de um amarelo leitoso do que de um azul brilhante.
– Só posso dizer que Zeus não tem nada a ver com isso! Eu saberia se uma tempestade de verão viesse: geralmente, a culpa é minha e de Nico! – Thalia comenta, baixando o olhar
– Amore, vamos evitar falar de nossa vida... Amorosa, para os amigos! – Nico murmura – Vamos tentar entender o que é aquilo...
– Coisa boa não é! Certeza! – chuto, baixando os olhos também.
– Não mesmo! – Eleazar concorda e se abaixa para pegar Bella no colo – Vamos embora: precisamos chegar ao Acampamento bem rápido.
Ninguém discutiu: quando o semideus mais velho fala, todos os outros apenas seguem! Principalmente se ele diz que o Acampamento é mais seguro! Experiência conta mais do que dúvida, e Acampamento nunca era uma palavra ligada à dúvida. Então, logo estávamos correndo na direção dos carros.
Nico, Thalia e eu fomos para o carro de Lorenzzo, enquanto as meninas e Valentina ficaram com Eleazar. Seguíamos o ruivo, e eu nunca o vi dirigir tão rápido, nem mesmo quando estava correndo para salvar a vida da namorada.
– Por que sinto que Eleazar sabe de algo que não sabemos? – Nico murmura
– Porque é algo óbvio, e eu acho justo que ele nos conte! – Lorenzzo comenta, virando bruscamente em uma esquina. – Ligue pra sua irmã, e tente descobrir o que é!
E foi o que fiz: liguei para Valentina, e antes que ela pudesse perguntar o que era, a fiz por na viva-voz e perguntei sobre o que se tratava toda a pressa.
– Bom, da última vez que vi nuvens de cores estranhas, elas eram roxas. Púrpuras como minhas asas, e a experiência não acabou nada bem!
– Primavera de 2012? – ouço Valentina interromper Eleazar
–Exato! Valentina escapou ilesa porque ela estava esperando por mim em minha casa, sob os domínios mágicos de Bóreas; mas eu fiquei preso em uma das armadilhas de Quione: ela conseguira uma maldição que me fez crer que todos estavam em perigo, e eu lutei contra os piores monstros à toa! Quase morri, e quando despertei estava bem longe de casa, deitado em uma maca na enfermaria do Acampamento, com Will e Aria debruçados sobre mim, tentando fechar os rasgos em minhas costas.
– Uma maldição? – olhei para o céu, que mais parecia um rio de ketchup – Que tipo de maldição essa nuvem pode ser?
– Qualquer coisa! Maldições geralmente seguem o que os lançadores desejam, e nunca os atingem. Regra clara! – ele afirma, e muda a direção do carro: já estávamos na estrada de Long Island, logo chegaríamos – E também não atingem os que estão sob proteção de um deus, então...
– Ir para o Acampamento significa proteção de Dionísio, mesmo que ele não desconfie! – murmuro, agradecida pela lógica.
– Desconfiar ele vai, mas não pode se ausentar do Acampamento sem a permissão de Zeus! Então, estaremos bem! – ele pausa e suspira – Mas preciso que alguém de dentro esteja lá para autorizar a entrada de minhas irmãs: não haverá tempo para descer do carro. Vamos entrar com tudo!
– Vou ligar para Will! – desligo, ligando para meu irmão logo em seguida.
– A parada tá tão parada, que resolveu me ligar para escutar piadas? – Will pergunta, sua voz límpida cheia de diversão.
– A parada ta bem agitada, isso sim! Preciso que pare tudo o que está fazendo e que vá para a entrada do Acampamento! Você precisa liberar a entrada das irmãs de Eleazar.
– Ok! A coisa tá ruim mesmo! – ouço o barulho de algo metálico sendo largado, e uma porta batendo – Qual o nome delas? O que está acontecendo?
– Steph sabe o nome delas, pergunte a ela! E eu não sei o que tá acontecendo, mas estamos fugindo de uma nuvem vermelha que parece ter vida própria, e que está nos seguindo por toda Nova York, e acabou de dobrar a esquina atrás de nós.
– Vou buscar a Steph e já vou para a entrada! Por favor, Cathy, corram! – ele pediu, antes de desligar.
E estávamos correndo, mas aquela maldição parecia disposta a nos seguir. Felizmente, estávamos perto, menos de vinte minutos de distância.
– Eleazar pediu para que cheguem mais perto! Temos que passar ao mesmo tempo, tecnicamente! – Valentina projeta seus pensamentos para mim.
– Mais rápido! Precisamos passar quase ao mesmo tempo! – informei a Lorenzzo.
No banco de trás, ouço Nico tentar acalmar Thalia. Ela nunca ficara nervosa em carros antes, mas quando olhei para trás vi lágrimas correndo por suas bochechas. Ela devia estar lembrando o fato de sua mãe ter morrido em um acidente de carro, e na velocidade que seguíamos, seria um milagre se conseguíssemos frear antes que um acidente ocorresse.
Estávamos quase lá, eu quase podia ouvir Will gritar seu nome completo ao tentar dar autorização para que as meninas entrassem, mas era tarde! Nenhuma velocidade jamais nos salvaria, máquinas criadas por humanos jamais serão páreas para a vontade dos deuses.
A última coisa que vi, antes de o vermelho tomar conta de minha mente, foi o rosto de meu irmão e minha cunhada, congelados em expressões de puro pavor.
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