Stars around my scars
2 Razão e Sensibilidade
Notas iniciais
Seu estômago embrulhava a cada solavanco do carro, em cada curva sentia que poderia vomitar todo o seu café da manhã; a viagem estava sendo péssima e ela só permanecia dentro do veículo por apenas dez minutos. Respirou fundo, levando a mão direita ao estômago e fazendo círculos com o polegar a fim de aliviar a dor que sentia. Era um combo de ânsia de vômito e dor de estômago que a afligia há dias, além do cansaço extremo e dos seios doloridos. No início pensou que seria apenas mais sintomas de sua tensão pré-menstrual, mas eles persistiram apesar do início de seu ciclo e continuavam a fazendo se sentir mal a cada dia que passava. Tentava não pensar logicamente, talvez fosse a primeira vez em sua vida que se recusava a compreender os sinais e ligar os pontos. A ignorância estava sendo uma benção, a negação sua principal arma contra uma mudança que a colocaria em uma situação ainda mais complicada.
Fechou os olhos, apoiando a testa contra o vidro frio da janela, inspirando fundo e expirando devagar com o intuito de controlar o que sentia. Se encontrava a caminho da casa de seus pais, os dois retornaram da Austrália após dois de residência, o período de adaptação à sua nova vida depois de recuperarem a memória foi doloroso e estressante. Hermione Granger enfrentou um desconhecido que a deixou paralisada por meses após encontrá-los em uma cidade tranquila na parte litorânea da ilha, eles estavam felizes em suas novas identidades e a conversa que teve após desfazer parte do feitiço foi tensa e regada por mágoa. Não conseguira desfazê-lo por completo, apenas recuperar pequenos pedaços de memória e sentimentos encapsulados; em relação à ela foi ainda mais difícil, por ter se apagado completamente da mente de seus pais, eles apenas sentiam a sua importância, mas não a reconheceram como filha até quase um ano atrás. O lembrete constante era que Dennis e Camelia Granger resolveram adotar seus nomes do período de fuga como segundos nomes, sendo assim, Wendell e Monica Wilkins ainda persistiam em permanecerem na vida de Hermione.
A dinâmica entre eles era ligeiramente tensa, mesmo após três anos da recuperação parcial de suas memórias. Seus pais não confiavam na magia, relutavam em vê-la praticando simples feitiços e faziam comentários indiretos que a deixavam ainda mais ansiosa a cada encontro. Talvez o enjoo que sentia fosse resultado disso ou do movimento do carro que se forçava a pegar toda vez que ia jantar com eles. Optou por não aparatar, mas aparecer em um táxi comum para deixá-los mais confortáveis. Também não podia negar que a sensação de observá-los pela janela enquanto chegava era reconfortante, tê-los à sua espera, de braços dados antes de recebê-la. Um momento de normalidade e carinho em meio a construção lenta de sua nova dinâmica familiar. Suspirou cansada, abrindo os olhos quando se sentiu sucumbir ao sono, não podia dormir naquele momento e perder a visão de seus pais. O que valeu a pena quando se viu dobrando a curva para a entrada da rua, vendo ao longe Dennis e Camelia se aproximarem, de braços dados e sorrisos contidos no rosto, porém, com um carinho palpável em suas expressões. Talvez este fosse ser um bom jantar e Hermione não precisasse encontrar alguma desculpa para ir embora mais cedo.
O jantar em si foi tranquilo, a conversa direcionada para a nova clínica de seus pais e da outra em que eles eram sócios de amigos antigos da Austrália. Hermione sorriu no momento apropriado e respondeu brevemente nos instantes de perguntas sobre seu emprego e apartamento: Sim, ela ainda trabalhava para o Ministério; Não, ela não estava namorando; Sim, ela irá continuar no mundo bruxo nas férias de fim de ano e não, definitivamente ela não irá passar o Natal com seus amigos na Austrália. Sua mãe não gostou da última resposta, mas ela preferia arrancar um braço a ficar na companhia de Sarah e Kevin, não que tivesse dito isso para seus pais, seria iniciar uma discussão desnecessária. O macarrão ao molho de cogumelos estava delicioso, o que fora um ótimo tópico para a conversa que se seguiu a sua recusa. Seu pai falou por vários minutos sobre a receita, ressaltando que a havia encontrado em um antigo livro que fora de sua mãe, uma mulher que ele não lembrava o rosto, mas que sabia ser muito habilidosa na cozinha. Hermione ignorou a alfinetada, resolvendo se concentrar na outra parte de sua fala e perguntou sobre o preparo, a escolha dos ingredientes e qualquer outro tema que os levasse para longe do tópico da memória.
A sobremesa foi servida em seguida, um tiramisu polvilhado com raspas de chocolate, era lindo e ela fez questão de elogiar. Sua mãe sorriu carinhosamente e cortou um pedaço generoso para ela, porém, assim que o colocou já boca, o gosto amargo do café fez o pedaço do doce praticamente inchar em sua boca. Se viu tentando repelir o doce, o que a fez correr para longe da mesa em direção ao banheiro do térreo. Cuspiu a massa no vaso, dando descarga em seguida e prontamente enxaguando sua boca para retirar qualquer resíduo. O sabor mentolado aliviou o desconforto que a incomodava, com as mãos apoiadas no mármore frio, respirou fundo a fim de controlar os batimentos acelerados de seu coração. Ao levantar a cabeça, encontrou sua mãe apoiada na porta aberta, os braços cruzados e uma expressão preocupada no rosto.
- Pensei que você amasse tiramisu.
Deu de ombros, ligando a torneira para lavar as mãos e se ocupar com algo para evitar o olhar estranho que começou a perceber em sua mãe.
- E eu amo, mãe, mas não agora pelo visto.
- Hermione. — o tom foi dito com um toque de desconfiança, ela se forçou a continuar agindo casualmente. — Filha, você está bem?
Sentiu a palma quente em sua lombar, o que a fez respirar fundo antes de levantar o rosto para o espelho, encontro com firmeza o olhar de sua mãe. Ela sustentou por alguns segundos, torcendo para o sorriso em seu rosto não denunciar o medo que a dominava.
- Sim, deve ser alguma virose que peguei. — respondeu com tranquilidade, mas sabia que não a havia enganado.
Camelia a observou por mais alguns segundos, Hermione poderia muito bem estar se vendo nos olhos da mãe, o que a fez aumentar sua resistência e abriu um sorriso ainda mais despreocupado. A senhora Granger esperou por mais alguns segundos, mas logo assentiu derrotada ao perceber que ela não desistiria e, pressionando suavemente suas costas em um apoio mudo, retornou para a sala de jantar. Hermione fechou a porta rapidamente, a trancando e girando em seus pés para aparatar em seu apartamento. Correndo para seu quarto, se jogou de cara no colchão e gritou alto contra o travesseiro, gritou por frustração, externou sua raiva e decepção consigo mesma. Hermione Granger gritou por um longo tempo, até sua voz ficar rouca e suas lágrimas serem sugadas pela colcha. Por fim, sentou-se decidida, enxugando o rastro de lágrimas nos cantos de seus olhos e alcançando sua varinha. Era apenas um simples feitiço, uma confirmação ou negação dos seus medos e então ela poderia voltar para a casa dos seus pais e continuar com o resto da noite.
- Vamos, Hermione, você enfrentou coisas piores.
Se motivou, batendo a ponta da varinha contra o seu joelho dobrado, então, em um ímpeto de coragem, apontou a varinha para o seu estômago, recitou o feitiço claramente e esperou. Foram segundos eternos em sua mente, no qual um grande silêncio caiu sobre ela, a puxando para um vácuo no espaço em que o tempo não existia, porém, o mundo gira e as horas passam, o tempo não pausa por conta de seu medo e logo uma minúscula orbe brilhante se materizalou em frente ao seu estômago. A pequena esfera de cor roxa era tão brilhante que fez seus olhos lacrimejarem, naquele instante soube que estava tão ferrada, completamente ferrada e sem rumo. Lágrimas grossas logo fizeram caminho novamente por sua face, nublando sua visão e a forçando a morder o interior da bochecha a fim de evitar os soluços que queriam atravessar seu corpo. Lentamente deitou de lado, as pernas presas por seus braços enquanto se enrolava em uma bola de tristeza, medo e ansiedade.
Não era para ser assim, seu futuro não deveria ter tomado um caminho tão distante dos seus planos. Ela deveria tentar reatar com Ron, casar eventualmente e fazer parte da família Weasley, tendo pequenos ruivos de cabelos cacheados no futuro. Apesar de terem terminado em moldes não tão certos, o tempo que passaram juntos foi seguro apesar das constantes discussões. Ele ainda estava solteiro e se dependesse de Molly logo a encontraria novamente, afinal, só haviam terminado há quatro meses atrás. Não era um tempo suficiente para esquecer tantos anos de companheirismo e paixão, mas pelo visto era o bastante para criar uma nova vida que a impediria de retornar aos seus planos. E eram tantos. Cada passo seu estava devidamente programado e em meio a sua tentativa de retorno deveria subir no Ministério, fazer seu nome para além da melhor amiga de Harry Potter e se tornar a mais nova Ministra da Magia em uns dez anos adiante. Ela deveria ser grande, não uma mãe solteira com uma criança pequena aos vinte e dois anos de idade.
Hermione Jean Granger ainda estava tentando se entender, passar por seus pesadelos e viver com seus traumas. A guerra mal havia completado cinco anos, o mundo bruxo ainda se recuperava de suas perdas e agora que ela estava começando a ter um contato saudável com seus pais. Morava sozinha em um apartamento no centro bruxo, perto do seu trabalho e dos seus amigos mais próximos, vivia em uma rotina corrida em que seus fins de semana eram recheados de papeladas e reuniões de última hora. Mal tinha tempo para viver quem dirá para uma criança pequena. Suas sessões de terapia estavam atrasadas, doutora Lídia a contatava através de um telefone trouxa e a incentivava a voltar no seu tempo. Viu? Ela era péssima, mal estava se cuidando, não poderia lidar sozinha com um bebê!. Além do mais, precisaria tirar férias, se afastar do trabalho e sabia que os meses distantes seriam a sua ruína, a atrasariam em seu plano geral e a colocariam para trás naquele lugar que ainda era permeado por uma cultura bruxa machista. Ah, Merlin, ela estava realmente ferrada.
Soltou o ar pesadamente pela boca, seus lábios secos pelo choro forte, seu corpo mole pela perda de energia. Precisava de um plano, algo objetivo e realista para conseguir passar por aquilo. Porém, a primeira coisa a ser feita era ter certeza sobre a presença do pai de seu bebê. Ela sabia que não conseguiria passar por aquilo sozinha, seus amigos estariam ao seu lado e seus pais talvez fossem amar um neto. Ela teria ajuda, mas precisava de alguém no mesmo barco. Sua decisão já estava tomada desde o instante em que viu a pequena orbe roxa, ela ficaria com aquela criança, mas não a queria privar de um pai. Hermione sabia como era viver sem seus pais por perto, desconectada de quem deveria estar sempre lá, mas as lembranças dos momentos juntos foram o que a mantiveram forte em sua decisão. Não queria ser a responsável por seu filho crescer sem pai, então contaria tudo e esperaria a sua resposta.
Ela era uma mulher madura, mas se encontrava assustada, então ele seria o único que iria saber sobre essa criança por um tempo. Talvez ela contasse em algum momento na próxima semana ou no próximo mês, mas não seria naquele noite. Ela precisava voltar para os seus pais e encontrar uma boa desculpa, então voltaria para casa e iria dormir pelo resto do fim de semana. Então depois, quando estivesse bem, se estivesse bem, ela iria encontrá-lo e dar a notícia. A partir de sua resposta iria organizar um plano, traçar objetivos e ter algumas certezas. No momento, ela flutuava à deriva em um mar de não resoluções, perdida sem remo e sem vento para guiá-la para qualquer lugar seguro possível. Deitada de costas na cama, olhava para o teto escuro, o breu invadindo seu coração, a deixando assustada, e com um rápido movimento da varinha fez minúsculas estrelas cintilarem, um pequeno manto do céu em seu quarto. Sentiu a pele do braço esquerdo formigar e o puxou em direção ao seu peito para aliviar o desconforto enquanto piscava rapidamente para se concentrar no brilho acima. Nas estrelas para decorarem suas cicatrizes.
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