Starlight
6 Proximidade
Notas iniciais
Proximidade
Ele estava na selva de novo. Tsukishima conseguia ver Yamaguchi perfeitamente, escondido atrás dos arbustos. Um calafrio percorreu-lhe a espinha enquanto ele assistia o alienígena se alimentar. O cheiro de sangue impregnava suas narinas, e chegava a ser um tanto enjoativo.
Seu coração batia forte em seu peito, e ele viu quando Kageyama errou o tiro. Seu timing não poderia ter sido pior. Yamaguchi avançou com toda a velocidade e força que seu corpo podia oferecer, derrubando o loiro e rasgando suas roupas. A sensação de cair na terra fora familiar para Tsukishima, assim como os gritos de seus companheiros. O terror, no entanto, paralisou o cientista, e tudo que ele podia enxergar eram os olhos ferinos de Tadashi e sua boca ensaguentada, que parecia curvar-se num sorriso vitorioso.
Suas patas traseiras pisavam em seu estômago e em uma de suas pernas, fazendo-o gemer de dor. No entanto, não era como se a fera se importasse. As garras dianteiras rasgaram facilmente o tecido de seu jaleco e da camiseta que usava por baixo, fazendo-o sangrar e expondo a sua pele clara. Não demorou muito para os olhos de Tadashi se fixarem especificamente em seu pescoço. Tsukishima engoliu a própria saliva por reflexo ao ver as pupilas do alienígena direcionadas para aquela região tão sensível e vulnerável, e sua boca se abriu, mas o loiro não encontrou palavras para gritar.
Estava tudo muito quieto. Onde estavam os outros? Será que não se importavam com ele e decidiram fugir para salvar suas próprias vidas? Por que Hinata não havia gritado para atrair a atenção da criatura, quando podia fugir com mais facilidade? Onde estavam Ryunosuke e Asahi, que tinham força física para ao menos tentar empurrá-lo e derrubá-lo para dar ao cientista uma chance de se levantar?
Por que Kageyama não tentou atirar novamente?
A pisada de Yamaguchi em seu ventre ficou mais forte, e Tsukishima grunhiu de dor. Ele quase podia sentir as garras tentando penetrar em sua pele através do tecido de suas roupas, buscando rasgar-lhe a carne, a gordura e seus órgãos internos. Seu corpo tremia, e ele não conseguia se mexer — por mais que sua mente soubesse que ainda tinha como tentar fugir, seus membros não respondiam a nenhum comando que não fosse ficar parado, como se por acaso isso fosse deixar a criatura desinteressada.
Sua visão estava embaçada, mas não era por não estar de óculos, e sim porque seus olhos estavam marejados. Algumas lágrimas desciam sem permissão pelo seu rosto, perdendo-se no chão da selva, e o loiro não conseguia pensar em mais nada que não fosse o fato de que ele estava de frente com a morte, que havia acabado de abrir a boca para mostrar os dentes afiados, vermelhos com o sangue de outra criatura e que iriam se sujar ainda mais com o seu.
Quando os caninos de Yamaguchi penetraram seu pescoço de uma única vez, ele acordou. Tsukishima não gritou por pouco, mas isso era porque estava aterrorizado demais para isso — era raro para o loiro gritar quando tinha pesadelos. Seu sofrimento era silencioso, porém evidente — seus olhos dourados estavam arregalados, seu coração batia forte, o corpo tremia mesmo que ele estivesse coberto e sua respiração estava descompassada.
O cientista teve que respirar fundo, piscar algumas vezes e se concentrar para lembrar-se do que havia acontecido. Tinha tido um pesadelo estupidamente vívido, e que o deixara incrivelmente assustado. No entanto, ele estava bem. Yamaguchi estava preso em sua cela, seu corpo estava intacto e ele estava na segurança de seu quarto. Nada daquilo era verdade — seus companheiros não o abandonaram, Tadashi não o matou e agora Tsukishima estava sentado em sua cama no meio da noite, acordado, um tanto assustado, porém seguro.
Isso não explicava porque suas roupas estavam frias e desconfortáveis. Agora mais calmo, o loiro passou a mão pelos lençóis e pelas calças do pijama, constatando que estavam molhados — e não demorou para ele entender como aquilo aconteceu. Aparentemente aquele pesadelo realmente o afetou.
“Era só o que me faltava…” Kei disse com um suspiro levemente irritado. Por mais que ele estivesse com vontade de se deitar e dormir de novo, ele não iria fazer isso sabendo que tinha molhado a cama. Estendeu o braço, pegando os óculos na mesa de cabeceira, e levantou-se, acendendo a luz do quarto. Seus olhos estavam desacostumados com a claridade, mas Tsukishima não ia ficar andando aleatoriamente no escuro — além disso, ele precisava pegar uma muda de roupa e lençóis novos.
Enquanto arrumava a própria bagunça, o loiro pensou no seu irmão. Foi ele quem o resgatou na última vez que aquilo aconteceu, anos atrás — Kei ainda era um garotinho, e chegou chorando no quarto de Akiteru, pois estava morrendo de vergonha de acordar os pais. O mais velho tinha sido extremamente gentil com ele naquela noite, e até o deixou dormir no seu quarto agarrado com seu dinossauro favorito depois de arrumar seu quarto e colocar a roupa de cama suja para lavar. Curiosamente, ele dormiu muito bem depois.
No entanto, Tsukishima era adulto agora, e seu irmão não estava ali para socorrê-lo. É claro, ele ainda estava um tanto envergonhado e frustrado com a situação toda, mas não iria se martirizar — ele teve um sonho realmente ruim, e seu corpo reagiu de uma maneira natural.
Vendo por um lado positivo, porém, aquele trabalho todo e as lembranças de Akiteru estavam ajudando-o a se focar em outras coisas que não seu pesadelo, e agora ele se sentia bem mais tranquilo. Quando terminou, estava até sorrindo, um tanto orgulhoso de seu próprio senso de organização. Agora ele só precisava botar os lençóis e a roupa suja pra lavar e enfim poderia se jogar na cama, dormir e esquecer que aquilo tinha acontecido.
Aquela era a hora ideal, já que ainda era de madrugada. Teoricamente, ninguém iria vê-lo andando por aí com sua roupa de cama molhada, e Tsukishima realmente não precisava que os outros ficassem sabendo disso — especialmente Kageyama, que com certeza usaria tal fato para fazer piadas até no seu funeral. O loiro pegou tudo e juntou num bolo, tentando ao máximo esconder as manchas incriminadoras, e saiu do seu quarto. Felizmente, o caminho até a lavanderia fora muito tranquilo, e ele teve sucesso em sua missão de passar despercebido pelos outros e colocar tudo pra lavar sem ninguém jamais saber.
Enquanto voltava para o quarto, porém, o cientista percebeu que não estava mais com tanto sono quanto antes, e uma certa curiosidade apareceu em sua mente. Por mais que tivesse tido um pesadelo com Yamaguchi, ele ainda assim queria saber como estava o alienígena. Seu senso comum dizia que ele devia estar dormindo a essa hora, assim como o resto da nave, mas outra parte de sua mente dizia que ele poderia estar acordado. E foi justamente essa parte que o fez andar até o laboratório.
Assim que chegou lá, Tsukishima escutou o que parecia ser um soluço. Sem querer chamar muita atenção, o loiro acendeu o mínimo de luzes possível, e mesmo estando longe, ele podia ver que Tadashi estava sentado no chão.
Devagar, ele se aproximou da cela do alienígena, e o que ele viu o deixou sem fala. Yamaguchi estava tremendo, e segurava suas pernas, ficando praticamente enrolado numa bola. Não apenas isso, mas ele estava chorando baixinho, com as lágrimas descendo pelo seu rosto enquanto ele soltava alguns soluços e fungava ocasionalmente. Não era necessário ser nenhum grande cientista para saber que ele estava triste.
De repente o assassino brutal do pesadelo de Tsukishima virou uma criatura digna de pena que precisava de um abraço.
“Tadashi…” O loiro falou baixo, chamando a atenção do outro. Este, ao perceber que o cientista estava de pé e olhando para ele, escondeu seu rosto entre os braços, evitando-o. Aparentemente estava muito envergonhado para encarar o humano.
Ao perceber isso, Kei se abaixou, ficando de joelhos próximo ao campo de força. Yamaguchi não prestou muita atenção em seus movimentos, concentrando-se em chorar, e mesmo sua cauda parecia querer enrolar-se ao redor de seu corpo.
“Tadashi, eu estou aqui.” Ele falou novamente, agora tentando ser mais gentil. O cientista era um tanto desajeitado em relação a essas coisas, mas estava tentando o seu melhor. Ao menos sua voz pareceu atrair a atenção do outro novamente, e Yamaguchi espiou por cima das próprias escamas, encarando o loiro com uma certa dúvida em seus olhos lacrimejados.
Tsukishima se perguntou o que deveria dizer agora. Ele pensou em perguntar se o outro estava chorando ou se estava tudo bem, mas as respostas para essas perguntas eram claras e ele se sentiria ridículo verbalizando-as. Era óbvio que ele estava chorando, assim como também era óbvio que não estava tudo bem. Ainda assim, o loiro não queria ficar encarando o outro em silêncio, já que não parecia que isso iria ajudar, sem falar que o deixava constrangido. Na verdade, sua falta de habilidade em lidar com situações emocionalmente delicadas como essa era uma das falhas de Tsukishima — se fosse com seu irmão, porém, ele com certeza saberia lidar melhor.
“Eu não vou te machucar.” Aquela foi a primeira frase no mínimo decente que passou pela sua cabeça, e por isso mesmo ele resolveu dizê-la. Demorou um pouco, mas com o tempo o cientista percebeu que Yamaguchi não estava mais tentando se enrolar numa bola — sua cauda se afastou um pouco, assim como suas pernas e braços relaxaram, e ele passou a olhar para o humano de uma maneira um pouco menos desconfiada.
Se aquilo havia sido um efeito de suas palavras ou de como ele as falou, Tsukishima não sabia — no entanto, apenas aquilo já era o suficiente para fazê-lo se sentir um tanto vitorioso.
“Está tudo bem. Vai ficar tudo bem. Você… Você não vai ficar preso pra sempre.” Ele não sabia se o outro estava realmente entendendo o que ele estava dizendo, ainda mais agora que ele estava se esforçando para não se atrapalhar com as próprias palavras. Na verdade, Kei sabia muito bem que podia simplesmente se levantar e ir embora, mas ele não tinha coragem para tal ato — além disso, ele não estava com sono e não tinha nada de importante para fazer que justificasse qualquer saída.
“Eu sei que você deve sentir falta… De estar lá fora. Eu me sinto meio mal por ter que te deixar assim, na verdade. Sei que você não entende o motivo, e que também não sabe porque todos esses aliens esquisitos estão te machucando, mas não é por não gostarmos de você.” O loiro resolveu continuar, vendo que havia conseguido capturar a atenção de Yamaguchi. Por um momento ele se perguntou se não estava sendo ridículo por conversar com um alienígena, mas ao menos ele era um bom ouvinte.
Além disso, parecia que sua voz e presença estavam sendo capazes de acalmá-lo, e Tadashi não estava mais chorando tanto quanto antes. Algumas lágrimas ainda saiam de seus olhos castanhos, e estes ainda estavam molhados, mas agora ele não estava soluçando tanto, e seu corpo não estava tremendo.
“Eu também sinto saudades do meu planeta. Da minha casa, da minha família… Eu não sei se você tem uma casa ou família lá fora, mas eu sei muito bem como é se sentir tão longe do que é importante pra você. Então… Eu acho que te entendo, um pouco.” Tsukishima não sabia se tinha sido apenas impressão dele, mas Yamaguchi pareceu assentir levemente com a cabeça. Se aquilo tinha sido consciente ou não, o loiro era incapaz de dizer, mas ele não pode deixar de achar aquilo no mínimo interessante.
Ele passou alguns segundos em silêncio, sem saber mais o que dizer. Seus olhos dourados analisaram o alienígena, tomando nota de tudo o que ele não tinha percebido antes — das sardas em sua pele, que se concentravam mais em alguns pontos do que em outros, do reflexo da luz baixa refletida em suas escamas, dos fios bagunçados de seu cabelo verde. Se andasse por aí com roupas, poderia ser confundido com um humano rico que pagou para ser meio réptil, mas ele já nascera assim.
Era tão esquisito. Ele estava sendo tratado daquela maneira só por ter nascido diferente e em outro planeta.
“Não se preocupe, Tadashi. Daqui a alguns dias você vai poder voltar pra casa. Eu prometo.” Suas palavras fizeram o outro se aproximar mais da grade da cela, devagar, ficando de frente para Tsukishima. O cientista notou que Yamaguchi estava imitando sua pose, sua boca abriu levemente quando ele viu o outro secando as próprias lágrimas do rosto. Ele não estava entendendo muito bem o que estava acontecendo ali, mas parecia que o alienígena estava tentando se aproximar dele, de certa forma.
O loiro ficou em silêncio, e ambos se encararam intensamente. Por trás de seus óculos, Kei mal conseguia encontrar vontade para piscar. Parecia que o olhar de Tadashi era capaz de penetrar a sua alma, mas não de uma maneira feroz e cruel como em seu sonho, mas sim de uma bem mais leve — quase como se ele pudesse ler seus pensamentos, sua ansiedade e suas dúvidas, e ainda assim compreender tudo aquilo. Era profundo, até, por mais que ele não compreendesse bem os motivos para isso.
Por trás de Yamaguchi, Tsukishima conseguia ver sua cauda balançando levemente. Talvez ele estivesse mais feliz agora, e aquele movimento era algo inconsciente. Era suave, como o balançar de ondas num mar calmo, e seguia um ritmo estável — se o cientista se concentrasse, poderia até mesmo ficar hipnotizado.
Sem nenhum sinal, Tadashi começou a mover o braço direito, passando-o por entre as grades. Quando suas garras encontraram o campo de força, ele deixou sua mão tocá-la, ficando com esta aberta na frente do cientista. Tsukishima sabia que se não fosse pela tecnologia, Yamaguchi podia muito bem tentar se esticar para tocá-lo, e ele mesmo estava numa distância muito próxima dele.
O alienígena não se moveu, e o cientista ficou a observar a palma e garras dele, que vistas daquele jeito, não eram muito diferentes de sua mão humana. Ele não parecia ter a menor intenção de atacá-lo, e sim de tocá-lo, por pura curiosidade. Tsukishima sabia que, se tocasse no campo de força, este iria ignorá-lo, e sua mão tocaria facilmente a do outro.
Por um momento, o loiro perguntou-se se tomar tal ação seria prudente. Ele estava sozinho no laboratório, na calada da noite, e tinha passado uns bons minutos dedicando-se a confortar um alienígena que estava chorando. Visto por esse ângulo, apertar-lhe a mão parecia algo até mesmo lógico de se fazer.
Ainda que com uma certa hesitação, Tsukishima estendeu seu próprio braço, envolvendo os dedos de sua mão pelos espaços entre as garras de Yamaguchi, fechando-os. Pela primeira vez ele pode sentir as escamas do outro tocando-lhe a pele, e ele não pode evitar de mexer um pouco os dedos apenas para desfrutar mais um pouco da textura, que era melhor do que imaginava. O alienígena também fechou suas garras, mas em momento algum chegou a arranhar ou machucar a pele sensível e clara do loiro, e seu toque era tão suave que nem parecia que ele era perigoso.
Kei ficou um tanto extasiado com aquele toque. Eles pareciam tão íntimos, e era quase como se ele pudesse sentir Tadashi depositando nele sua confiança através daquele simples gesto. Eles não falavam a mesma língua, mas não era como se precisassem dizer qualquer coisa para entender a linguagem corporal. Mesmo a cauda do outro estava balançando um pouco mais rápido agora, como que para demonstrar o quão satisfeito ele estava com aquilo tudo.
Sua pegada ficou mais firme, mas ainda assim não era forte o bastante para machucar. Ele apenas queria continuar a sentir a mão do humano por mais tempo, e ficar junto com ele. Suas lágrimas já haviam parado de cair, e seus olhos não estavam mais tão molhados. Em seu rosto, inclusive, Tsukishima podia ver o que parecia ser um esboço de um sorriso simples e verdadeiro.
Talvez aquele tinha sido o jeito que Yamaguchi encontrou para agradecê-lo por tudo.
“Tadashi… Muito obrigado.” Ainda assim, o próprio cientista fez questão de agradecer, ainda que não fosse necessariamente sua obrigação. Nem mesmo ele sabia o motivo de sua gratidão; talvez tinha sido por ele ter afastado os seus próprios demônios que o rondavam desde que acordou.
Ambos permaneceram assim por mais alguns segundos, até Tsukishima sentir o aperto de Tadashi enfraquecer, até ele soltar sua mão, voltando a ficar com o braço dentro da cela. Então ele se deitou no chão, cansado de ficar de joelhos, mas seus olhos castanhos ainda admiravam o cientista.
“Você deve estar cansado. Vá dormir… E boa noite, de novo.” O loiro disse, vendo o outro dar um leve bocejo. Parecia que o sono havia mesmo chegado, agora que estava mais tranquilo. Na verdade, ele mesmo também deveria estar dormindo, e agora que Yamaguchi tinha decidido tomar a iniciativa, ele devia ao menos voltar para seu quarto.
Tsukishima se levantou, com os joelhos um tanto cansados por ter ficado um bom tempo naquela posição. Ele desligou as luzes do laboratório, deixando o ambiente o mais escuro possível, e saiu de lá, seguindo direto para seu quarto.
Todos aqueles últimos acontecimentos foram tão inusitados que pareciam até mesmo surreais. No entanto, Kei sabia muito bem diferenciar o sonho da realidade, e que, após acordar mais tarde, ele não se esqueceria do que tinha acontecido naquela madrugada — desde o momento que acordou assustado até o seu incrível encontro com Yamaguchi, que o surpreendera da maneira mais positiva possível, fazendo-o até mesmo sorrir.
Por um momento Tsukishima se perguntou se destino existia e tudo fora orquestrado para ele se encontrar com o alienígena daquela maneira. Ele não era muito espiritual, no entanto, e filosofia não era algo muito interessante, então o loiro logo descartou tal teoria como sendo apenas uma feliz coincidência.
Quando chegou no seu quarto, ele mesmo bocejou — o cansaço e sono de Yamaguchi pareciam ter sido transferidos para ele também. Em poucos instantes, já estava deitado na cama novamente, pronto para dormir, sabendo que agora teria um resto de noite mais tranquilo, sem pesadelos ou acontecimentos. Seja lá o que estivesse reservado para seu futuro, ele descobriria de manhã quando acordasse novamente.
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