Starlight
4 Empatia
Notas iniciais
Empatia
Assim que Tsukishima chegou no laboratório no dia seguinte, ele pode notar que Yamaguchi estava bem irritado. O alienígena rosnou para ele como uma maneira de lhe dar bom dia, e o loiro imediatamente suspirou, mas não sem antes rosnar para ele de volta. Pelo jeito aquele seria um dia difícil.
Como a última vez que ele comeu devia ter sido no dia anterior, o cientista foi logo atrás de outro pedaço de carne. Talvez isso fosse ajudá-lo a se acalmar. Assim que ele pegou o mesmo, Tadashi ficou mais ansioso, encarando a carne como se sua vida dependesse dela — o que, de certa forma, era verdade, considerando que ele realmente se alimentava daquilo.
“Tá todo zangado porque acordou com fome, foi? Relaxe, aqui tem quilos de carne crua só pra você.” Falou, pegando a chave da cela e parando na frente dela. Yamaguchi com certeza estava morrendo de fome, no mínimo, e pelo jeito Tsukishima teria que dar um puxão de orelha nos seus colegas para eles não esquecerem que tem um alienígena carnívoro vivo capturado e que ele precisa ser alimentado regularmente.
Ao menos eles não se esqueciam de limpar a cela.
O loiro abriu a porta, então, encarando Tadashi, que tinha os olhos fixos na carne. Ele a jogou, e novamente, o alienígena a pegou no ar, para logo começar a comer. Pela voracidade com que mordia e mastigava, realmente devia estar morrendo de fome. Tsukishima fechou a cela novamente, deixando-o em paz e indo fazer seu trabalho, até porque não era como se ele pudesse ficar ali observando-o o tempo inteiro.
Num impulso, porém, ele acabou por pegar o seu comunicador do bolso. O design era fortemente inspirado nos smartphones terráqueos, mas ainda assim o nome não era mais esse. Não era um “telefone esperto”, era um aparelho para comunicação com outras pessoas, mesmo elas estando em outros planetas, ainda mais porque não era como se telefones fixos fossem comuns atualmente — pelo contrário, eram uma raridade que apenas algumas pessoas se davam ao luxo de ter, por mais que não fossem utilizar. Basicamente, uma evolução natural. Era mais prático falar diretamente com a pessoa que se queria do que ligar para sua casa ou trabalho e esperar que ela estivesse presente.
O loiro aproveitou para tirar algumas fotos de Yamaguchi enquanto ele se distraia comendo, e gravou um pequeno vídeo dele assim também. Tsukishima acabou por sorrir um pouco enquanto fazia isso, já que de certa forma ele parecia bem fofo.
Após isso, o cientista mandou todos os arquivos para o seu irmão. Ele não sabia quando Akiteru seria capaz de vê-los, mas com certeza iria gostar do conteúdo. De qualquer forma, ele saberia, pois com certeza o irmão iria mandar-lhe no mínimo uma mensagem como resposta, o que era típico dele.
Após enviar os arquivos, o loiro voltou ao trabalho. Teoricamente ele nem podia fazer isso, mas considerando quem era Akiteru, ele era uma pessoa de total confiança. Enquanto esperava por uma resposta do irmão, Tsukishima voltou para suas análises, e por enquanto, Tadashi havia se aquietado, deixando-o trabalhar em paz. No entanto, ele não estava ali apenas para ser observado, e o loiro estava morrendo de curiosidade para pelo menos analisar o seu DNA.
Yamaguchi era basicamente um híbrido de humano com réptil. Não apenas isso, mas ele era completamente funcional — suas escamas, sua cauda, nada ali estava por puro efeito estético. Enquanto que as mutações fornecidas pela HQ Foundation eram de alta qualidade, elas tinham mais era efeito estético do que qualquer coisa — com algumas caras exceções. Talvez as respostas para alterações físicas mais efetivas estivessem ali, naquele alienígena.
Tsukishima se perguntava como a espécie dele evoluiu até ficar daquela forma. Em comparação ao que ele havia visto naquele planeta, com certeza eles deviam ser exímios caçadores. Ele se perguntava se havia algum predador que poderia competir com eles, porém — mas para saber as respostas disso, só explorando, coisa que o loiro achava que ficava melhor quando deixada para os especialistas. Não que ele fosse um fardo, mas sua falta de habilidades físicas não ajudava muito.
O cientista se lembrou, então, que eles deveriam sair daqui a poucos minutos. Se ele quisesse pegar uma amostra do material genético de Tadashi, precisaria de ajuda de um dos membros mais fisicamente capazes que ele. Hinata e Kageyama estavam fora de questão — o ruivo tinha mais velocidade e reflexos do que força física, enquanto que Kageyama e ele não estavam em bons termos no momento. Sobravam, assim, Azumane e Tanaka. Desses dois, o primeiro era a melhor opção, já que era alto, forte, mas ainda assim muito fácil de lidar.
Após ter feito sua decisão, ele pegou seu comunicador, logo encontrando o nome Azumane Asahi na lista de contatos, para então selecioná-lo. Não demorou muito para o outro atender.
“O que foi, Tsukki?” Ele questionou logo de cara, e era assim que Tsukishima gostava, na verdade. Se não fosse para manter uma conversa mais casual, ele não gostava muito de perder tempo.
“Você tem uns minutos livres, Asahi? Eu preciso de um pouco de ajuda aqui no laboratório antes de você sair.” O loiro pediu, então, até porque ele sabia que não podia ficar segurando o outro lá dentro por muito tempo. Se ele já estivesse de saída, então seria melhor pedir mais tarde.
Felizmente, parecia que não era esse o caso.
“Tenho sim, já estou indo!” Azumane respondeu no mesmo instante, encerrando a chamada. Tsukishima guardou o aparelho, e poucos minutos depois o outro apareceu, como havia prometido.
“Obrigado por vir.” O cientista falou, sendo minimamente educado. Ele não sabia até onde o outro homem estava disposto a ajudá-lo, então no momento era melhor que ele o tratasse bem para evitar possíveis conflitos — o que havia ocorrido entre ele e Kageyama no dia anterior já gerava tensão o suficiente, e se tinha uma coisa que Tsukishima não precisava acumular eram inimizades.
“Não tem problema, os outros ainda estão arrumando as coisas. Com o que você precisa de ajuda, exatamente?” Asahi perguntou, então, e o cientista aproveitou para guiá-lo até a frente da cela de Yamaguchi. Nela, o alienígena estava sentado, mais esperando o tempo passar do que qualquer coisa. Sua cauda balançava um tanto impacientemente, mas pelo menos ele não estava fazendo barulho.
“Eu quero que você me ajude a tirar um fio do cabelo dele. Só um. É tudo o que eu preciso.” Kei falou, então, e no mesmo instante o sorriso no rosto do moreno se desfez, e ele logo estava demonstrando uma certa ansiedade em relação a tal pedido.
“E como você quer que eu faça isso? Tsukki, ele de pé tem a altura de uma pessoa. E ele é muito forte, e rápido…” De fato, os argumentos de Azumane eram bons. Muito bons, até — e completamente fundamentados. Eles dois já haviam presenciando, ainda que por um breve instante, todo o potencial que Tadashi tinha como predador, e este era maior que o de um ser humano quando se tratava de força física e agilidade. A espécie dele era melhor quando se tratava de combate, e ambos tinham plena consciência disso — especialmente Tsukishima, que teve que enfrentá-lo de frente e por pouco não saiu incrivelmente ferido ou morto.
Aquele com certeza parecia ser um pedido impossível, e o cientista sabia disso. Mas não era como se ele fosse desistir assim tão facilmente.
“Você também é muito forte. Só precisa imobilizá-lo enquanto eu arranco o fio.” O loiro retrucou meio que dando de ombros, como se por acaso aquilo fosse a coisa mais simples do mundo.
Yamaguchi virou a cabeça, sendo atraído pela conversa entre os humanos, apesar de não compreender exatamente o motivo por trás dela. No entanto, não era como se não houvesse uma certa curiosidade em seu olhar — nenhum dos dois homens, porém, pareceu notar isso, estando muito absortos na discussão.
“E depois?” Asahi apenas questionou, ainda que com um tom um tanto incrédulo. Ele com certeza não parecia estar muito convencido de que aquilo iria dar certo — na verdade, ele tinha certeza de que seguir em frente com tal plano seria algo arriscado para os dois.
“A gente sai correndo.” A resposta de Tsukishima com certeza provou que ele não estava pensando direito nas possíveis consequências daquilo. Por mais que o cientista fosse um homem racional, ele ainda podia tomar decisões erradas, e o outro sabia disso. Ainda assim, ele não podia deixar de achar aquilo no mínimo um tanto estranho, ao menos vindo da sua parte.
“Esse é o plano?” Ele perguntou, então, tentando alimentar a esperança de que, no fundo, Kei havia pensando em algo melhor, que fazia mais sentido e que não fosse tão perigoso e arriscado. Ter lidado com Yamaguchi no dia anterior com certeza já havia se provado experiência o bastante para fazê-lo criar um certo receio. Se não fosse pelo tiro de Kageyama, ele não sabia o que poderia ter acontecido, e era até melhor que não soubesse.
“Sim, a não ser que você tenha um melhor. Se bem que você pode distraí-lo caso imobilizar não seja uma boa opção.” O loiro falou, sem deixar de perceber a hesitação não apenas na voz como também na postura de Asahi. No entanto, não pareceu que isso foi capaz de convencê-lo.
“Não seria mais fácil usar uma arma de choque nele?” O moreno simplesmente retrucou, e por algum motivo Tsukishima se viu sendo contra tal medida. Era mais fácil, rápida e até mesmo eficiente, mas ele não estava disposto a usá-la. De certa forma, parecia errado submeter Tadashi a tal tratamento, por mais que fosse algo comum e que ele já tinha feito com tantos outros animais de outras espécies naquele mesmo laboratório para deixá-los quietos por motivos puramente profissionais.
No entanto, não era como se ele soubesse explicar suas razões para isso, até porque nem ele mesmo sabia de onde essa resistência vinha. Yamaguchi era apenas um alienígena, uma criatura selvagem como tantas outras. Ele não precisava ficar com receio de tratá-lo daquela forma, mas ainda assim… Ele não queria. Não soava como algo bom. E Tsukishima sabia que, se o fizesse, acabaria por se sentir culpado, o que era um sentimento um tanto raro para ele vivenciar.
“Eu… Não quero. Prefiro deixá-lo em paz.” Respondeu, ainda que com certo receio. Asahi notou o tom menos confiante em sua voz, assim como a maneira que o cientista olhava para aquela criatura com escamas que estava dentro da cela. Com certeza havia alguma coisa ali que estava atrapalhando a racionalidade brilhante de Kei.
“Você está com pena dele, Tsukki? Ele quase te matou.” Disse, usando aquele argumento para tentar fazer o outro voltar para a realidade. Talvez, se ele se lembrasse disso, o loiro deixaria seus sentimentos conflitantes de lado e voltaria a se importar com o trabalho de novo, do jeito que costumava fazer.
“Não é necessariamente pena. Eu só não acho necessário que ele passe por isso de novo.” Talvez fosse pena, Tsukishima não sabia. A única coisa que ele tinha certeza era de que não gostaria de machucar Yamaguchi desnecessariamente.
Azumane suspirou, vendo que o outro não estava mesmo entendendo o que estava acontecendo ali.
“Você está sentindo pena, Tsukki. Nunca te vi falando essas coisas sobre outras espécies. Acho que é porque ele parece uma pessoa, não é? Vai ver isso te tornou um pouco mais empático.” Ele explicou, apontando para Tadashi. De fato, nem mesmo ele podia negar o quão humano ele parecia, especialmente em relação ao rosto. A estrutura era a mesma, seu olhar era expressivo, e ele podia facilmente demonstrar qualquer emoção. No entanto, Asahi tinha em mente que, por mais humano que ele parecesse, ele ainda era uma criatura de outro planeta. Sua aparência inusitada tinha sido apenas fruto da evolução, e por pura coincidência, sua espécie parecia com a dos tripulantes.
Tsukishima ficou sem responder. Ele sabia que o outro homem tinha razão com suas palavras, e por isso mesmo não retrucou — mesmo o loiro era capaz de reconhecer quando faltavam-lhe argumentos.
“Olha, eu entendo se você não quer fazer isso. Eu mesmo posso tirar o fio por você, mas com a arma. Não vou enfrentar ele num combate corpo-a-corpo. Eu sei que ele parece muito com uma pessoa, mas ele não é, Tsukki. É um alien. Não é como a gente. Por mais que você simpatize com ele, tem coisas que precisamos fazer, e eu tenho certeza que você sabe disso.” Sim, o loiro sabia muito bem do que Asahi estava falando, e sabia que aquela era uma verdade que ele não gostaria de ouvir. No entanto, não era como se ele fosse impedir o outro de fazer aquilo, já que parecia não haver jeito de convencê-lo do contrário. Além disso, ele estava ali por livre e espontânea vontade. Tsukishima não tinha autoridade alguma para mandá-lo fazer o que queria.
Azumane andou até onde as armas de choque ficavam, pegando uma pistola pequena. O choque dado por ela era de uma intensidade menor que das armas utilizadas por Kageyama quando eles iam explorar, justamente porque estas últimas eram designadas para fazer o alvo desmaiar por um bom tempo, enquanto que as do laboratório visavam apenas a imobilização temporária sem perda da consciência. Não que isso também não parecesse doloroso, na sua opinião.
Ele apenas observou enquanto o outro homem abria a cela, disparando um tiro no torso de Yamaguchi, um pouco abaixo das escamas de seu ombro direito, e manteve o gatilho pressionado, deixando que a corrente continuasse a passar pelo seu corpo. Tsukishima tentou ignorar o grito agudo de dor que o alienígena soltou, e também como ele pareceu perder o controle de seu corpo, ficando no chão enquanto Asahi puxava um dos fios de seu cabelo. Após isso, ele saiu da cela, fechando-a, e só então soltou o gatilho para que o choque pudesse parar.
“Pronto. Pode fazer o que quiser com ele agora. Eu devo estar atrasado, então… A gente se vê mais tarde.” Ele disse, entregando o fio longo e esverdeado na mão do cientista. No entanto, antes de sair, ele se virou, olhando para o loiro novamente, e acabou por acrescentar mais uma coisa.
“Eu não vou contar pra ninguém. Não se preocupe.” Afirmou, para então ir embora sem esperar uma resposta — ele estava mesmo atrasado.
Tsukishima ficou ali parado, com o fio de cabelo em mãos, olhando para Tadashi. Este havia se recuperado um pouco do choque, mas não parecia nada contente com isso. Se olhasse bem, era possível notar que seus olhos estavam marejados, e ele soltava pequenos grunhidos de dor de vez em quando. Era uma visão que, de fato, fazia o cientista sentir pena, como afirmou Asahi.
“Desculpe.” Ele sussurrou baixinho, como se aquilo fosse adiantar em alguma coisa. Não era como se ele pudesse voltar no tempo e impedir o outro homem de ter feito aquilo com ele — e, ainda assim, Azumane fora compreensivo. Se ele tivesse chamado outra pessoa, aquilo poderia ter evoluído para uma discussão ainda maior, e que ele não estava pronto para encarar.
Yamaguchi soltou um grunhido baixo de dor, mas de certa forma, foi como se ele tivesse compreendido o pedido de desculpas do cientista. Tsukishima ficou olhando para o fio de cabelo escuro que segurava, imaginando o que poderia encontrar ali, ao mesmo tempo que relembrava o que o alienígena tivera que passar para que pudesse obtê-lo — e aquilo era tão errado.
Com um suspiro, o loiro resolveu voltar ao trabalho. Tirou os óculos, usando o braço para tirar as lágrimas que estavam no canto de seus olhos. Ele não ia chorar, não por causa de uma criatura que nem humana era. Se chegasse a esse ponto e alguém o visse… Isso seria patético.
Ninguém podia saber.
Após ter certeza que não iria chorar, ele voltou a sentar-se longe o suficiente de Yamaguchi para poder analisar o fio de cabelo. Afinal, não podia deixar aquilo tudo acabar sem valer nada, ainda mais depois de todo aquele esforço.
Com o tempo, ele passou a se sentir um pouco melhor, assim como Tadashi. Era bom saber que ele se recuperou logo do choque, e alguns minutos depois estava agindo da mesma forma que no dia anterior, apesar de ainda parecer estar um tanto para baixo — o que era compreensível.
“Não se preocupe, eu entendo.” Tsukishima falou, sem saber se era mais para si mesmo ou para o alienígena. De qualquer forma, serviu para animá-lo um pouco.
Além disso, não era como se analisar o DNA do outro não fosse algo interessante — pelo contrário, era algo impressionante e complexo, que fazia o cientista ficar fascinado. Yamaguchi era mesmo uma criatura incrível, um exemplo de como a evolução podia resultar em espécies tão diferentes.
Ele tinha parte de sua estrutura muito parecida com a de um humano, mas por outra parte havia uma grande influência dos genes originários de répteis ali, o que explicava sua aparência no mínimo exótica. Ao que tudo indicava, sua própria espécie era um híbrido que deu certo, e que tinha a capacidade de se reproduzir, o que era um feito no mínimo notável. Com certeza, ele devia ser uma das espécies de alienígenas mais avançadas que ele tivera a oportunidade de observar a níveis tão profundos.
Tsukishima se perguntava como ele ainda não era tão civilizado — talvez os seus membros ainda não haviam se reunido por tempo o bastante para pensar em grupo, e por isso eles viviam de maneira solitária, talvez se encontrando apenas para se reproduzir, cuidar dos filhotes e então se separarem, cada qual vivendo sua vida independente. Isso com certeza explicaria o motivo de Tadashi ter sido encontrado comendo sozinho, sem nenhum outro membro da sua espécie por perto, e talvez explicasse como ele parecia disposto a proteger sua caça, que ele mesmo matou.
De qualquer forma, isso não tirava o mérito de Yamaguchi em ser tão fascinante. Na verdade, ele mesmo parecia ser muito inteligente, e o loiro se perguntava o que poderia acontecer com ele caso o deixassem conviver na nave com o resto da tripulação, como se por acaso fossem aceitar tal proposta.
Afinal, ele era apenas um animal selvagem na visão dos outros.
O comunicador apitou, e Tsukishima checou para ver o motivo. Era uma mensagem de seu irmão, que havia visto as fotos e os vídeos.
“Minha nossa, isso é incrível, Tsukki! Ele com certeza deve ser fascinante de se ter para estudar!” De fato, Akiteru acertou em cheio na sua simples descrição. Tadashi era exatamente isso: fascinante.
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