Stalker

37 Traindo os sentimentos


Mio entrou em choque quando viu a figura de Kame deitada no chão em meio a tantas garrafas de vinho vazias, que imaginou que ele estivesse morto. Depois de um breve momento sem acreditar no que seus olhos mostravam, ele finalmente reagiu, jogando a mochila no chão e correndo para socorrê-lo.

Colocando ele em seu colo, ainda deitado no chão, pensou se deveria ligar para sua mãe e pedir ajuda ou se chamar uma ambulância seria melhor. O rosto de Kame estava pálido, mas Mio ficou tranquilo ao perceber que ele pelo menos respirava. Seus olhos pareciam inchados, será que ele andou chorando? Ficou com dúvidas, Kame não parecia um homem que chora facilmente, então achou melhor acreditar que era efeito de tantas bebidas. Depois de estapeá-lo, para que acordasse, ele começou a demostrar sinais de vida. Quando abriu os olhos, Mio estava quase chorando.

— Você está bem? Você me deixou preocupado,cara!

— Ai, que dor de cabeça... O que faz aqui? — disse tentando se sentar, mas uma tontura forte fez ele voltar a encostar a cabeça no colo de Mio novamente.

— Havíamos combinado de passar o final de semana juntos, esqueceu? Você mesmo deu a ideia, mas quando eu chego a porta está aberta e você caído no chão em volta de tantas garrafas.

Sem responder, ele tentou levantar novamente, dessa vez conseguindo. Meio atortoado, foi tirando a camisa suja de vinho e a calça, ficando nu sem cerimônia na frente de Mio e indo para o banheiro, ignorando sua pergunta. Mio correu para segui-lo termendo que ele caísse no meio do caminho, pelo estado que se encontrava.

— Não me siga, sei tomar banho sozinho. — queixou-se Kame rudemente — Volte para sua casa, não precisa mais passar o final de semana comigo, você deve ter coisas melhores para fazer.

Depois de dizer isso, entrou no box e ligou o chuveiro. Apoiando-se na parede ficou embaixo d'água, molhando toda a cabeleira loira, sem se importar se Mio iria ou não obedecer sua ordem. Esse, no entanto, ficou parado sem entender o motivo da reação dele, alguma coisa tinha acontecido que deixou ele muito irritado a ponto de beber tanto até desmaiar. Mio não conseguia deixar de se preocupar com o seu estado, principalmente que ele só estava embaixo d'água, não se ensaboava para tirar o cheiro de vinho do corpo, provavelmente por estar em forças para isso. Ignorando seu pedido, entrou dentro do box junto com ele, pegou o sabão liquido corporal que tinha na bandeja na parede e jogou nele, dando banho como se fosse uma criança.

— Você está em um estado deplorável, Kame. Eu não irei sair e te deixar desse jeito. Se quiser me mandar embora, pode fazer isso, mas vai ser depois de tomar um banho direito e tirar esse fedor de bebida e arrumar o seu quarto que tá parecendo que rolou uma festa. — disse esfregando o peitoral dele.

Kame ficou olhando para ele meio confuso, depois deu uma risada.

— Está muito corajoso para alguém que não me permitia tocá-lo devidamente como um namorado toca o outro. Está aprendendo a ficar desinibido no trabalho? — perguntou sarcasticamente.

Mio sentiu que ele sabia de algo, mas como não tinha certeza, não queria fazer que nem o funcionário que falou demais por pensar que ele tinha visto os sites que ele frequentava. Encarou aquilo como um blefe, que nem as das partidas de Poker que ele jogava online quando não tinha mais nada pra fazer em casa.

— Estou apenas evitando que fique doente, quando eu preciso você cuida de mim, estou fazendo o mesmo.

— Só por causa disso entrou vestido dentro do chuveiro junto comigo? Até aonde sei, você tem a saúde mais debilitada aqui.

— Eu trouxe roupas, posso me trocar depois. Além do mais, quem está debilitado agora é você, não eu.

Quando terminou de ajudá-lo no banho, Mio estava prestes a sair do chuveiro quando Kame o puxou de volta, encostando na parede.

— Para onde vai depois de me deixar exitado tocando o meu corpo?

— Eu não estava tocando o seu corpo, estava te ajudando a tomar banho. Me deixe sair, ainda tenho que arrumar a bagunça que fez em seu quarto. — tentou novamente, mas inutilmente.

Kame ganhava de força e estava irredutível.

— Se você quer me acalmar, faça amor comigo aqui e agora. Mostre que eu não preciso me preocupar com nada. — Kame pedia aquilo olhando em seu olhos esperando sua resposta.

— Eu... Eu não estou no clima no momento. — tentou Mio se desvencilhar do pedido.

— Quando você está? Sempre sou eu que começo a tocá-lo, você nunca toma iniciativa. Nunca me diz eu te amo sem que eu fale primeiro, nunca me beija de livre e espontânea vontade. Não pareço seu namorado, e sim alguém que te forçar a ficar em um relacionamento.

Mio estava ficando agitado, ele se sentia triste em saber como Kame se sentia estando namorando com ele, ao mesmo tempo, ficava receoso de fazer qualquer ação, e trair a confiança de Ian.

— Isso não tem nada a ver... Eu tenho me dedicado muito ao trabalho e sou tímido nessas coisas, você bem sabe. Não tenho esse tipo de experiência que você já tem com outras pessoas.

— Então, me deixe ensiná-lo a ser mais experiente. Essas coisas se aprende com a pessoa com quem namora. — falou beijando o pescoço de Mio de forma provocante, logo depois, enchendo ele de chupões ousados e mordidas no pé do ouvido.

Mio tentou desviar das tentativas, mas Kame era insistente. Suas mãos ja removiam sua blusa, sem ele precisar ajudá-lo, ele estava sendo um pouco impaciente e um tanto violento. Não estava em seu estado normal. Mio imaginou se ele estava agindo daquele modo porque ele não tinha demostrado muita afeição por ele nos últimos dias, era verdade o que Kame tinha dito, ele nunca o procurava dessa forma, sempre cedia ao charme dele só quando tentado pelo outro. Achou que Kame estava no seu limite como homem, relacionamentos o casal gosta e necessita de contato íntimos, ao invés de dar isso a quem era seu namorado de verdade, Mio desviava sua atenção para Ian. Por conta disso, resolveu deixar Kame fazer o que bem entendesse com ele naquele momento.

— Se é isso que você quer... — falou bem baixo, com Kame beijando seu peitoral e apertando suas nádegas.

Kame não estava preocupado se Mio iria ou não permiti-lo possui-lo, iria fazer com ou sem permissão. Estava com ciúmes, a imagem de Ian beijando Mio na rua passava em sua mente inúmeras vezes, ele queria arrancar do corpo de Mio qualquer sinal que outro homem tenha deixado. Ele virou Mio de costas para ele, ficando de encontro a parede, puxou sua cintura para que ele empinasse mais o quadril em sua direção, aproveitando o chuveiro ligado, enfiou um dedo dentro do ânus do outro, incitando o local para recebê-lo. Mio nada dizia, fechava os olhos e se apoiava na parede, sentiu quando ele introduziu seu pênis dentro de sua bunda, e começou a possuí-lo como um animal selvagem. Kame prendia suas mãos na parede, e chupava seu pescoço todo o tempo, buscava sua boca e beijava de forma rude.

Aquele não era o jeito que eles faziam amor, Kame nunca fez dessa maneira com ele. Estava evidentemente diferente, mais grosseiro, pouco se importando se Mio estava curtindo ou não. Era um homem diferente, parecia magoado, e Mio não tinha certeza se era pelo fato de não ter dado muita atenção ou por ele saber de alguma coisa que ligava ele a Ian.

Teve um momento que Kame mordeu seus lábios, fazendo sangrar, Mio reclamou.

— Kame, você está me ferindo! — Mio não estava gostando daquele jeito de fazer sexo de Kame, não estava sentindo desejo, se sentia mais como um boneco sendo usado por ele.

Esse não se importou com sua queixa, continuava chupando e mordendo seu corpo, aumentava a velocidade em que socava seu membro dentro dele, apertava Mio de encontro a parede, deixando seu rosto amassado nos azulejos. Kame não percebia as lágrimas que escorriam do rosto de Mio, ele não estava sentindo dor, estava se sentindo mal. Pensava em como Kame deveria estar magoado com ele para agir daquela forma, e como Ian ficaria triste se descobrisse que eles haviam transado. Um mistura de culpa, confusão estavam o afligindo. Kame estava agindo como seu namorado, estava em seu direito de querer sentir prazer com seu namorado, Mio se sentia um traidor por se sentir estranho fazendo isso com ele. Por que ele sabia que no fundo ele não conseguia mais ver Kame como seu namorado, Ian estava dominando sua mente novamente. Era Ian quem ele considerava seu amor, o único que poderia fazer esse tipo de coisa.

Quando estava prestes a gozar dentro dele, Kame chegou perto do seu rosto e beijou sua face.

— Por que você não ama somente a mim? Por que eu não sou bom o suficiente para você, eu quero tanto você do meu lado. Eu te amo tanto, Mio, tanto...

Quando finalmente acabou, ele desabou com a cabeça encostada nas costas de Mio. Chorou como se fosse uma criança.

— Desculpe, Mio, desculpe. Eu sou um lixo, eu não sou assim. Eu não quero perdê-lo, você é a única pessoa que eu luto para ter, e a única pessoa que me ver como eu sou e posso confiar. Eu não sou merecedor do seu amor e de ninguém... Eu só causo coisas ruins para as pessoas.

Mio virou-se para ele, abraçando ele contra seu peito.

— Que besteiras você está dizendo? Você não é um lixo, ninguém te quer mal. Eu não sei o que está acontecendo com você, o que está te afligindo para agir estranho, mas eu prometo que sempre estarei aqui para te apoiar, sempre. Tudo bem?

— O que eu acabei de fazer com você, é repugnante! Você me odeia agora não é? Você não vai querer mais ficar comigo, você vai voltar para o seu ex...

Mio estava deprimido por Kame, ele sentia que tudo aquilo era sua culpa. Arrastou Kame para um relacionamento infeliz, agora estava tentando abandoná-lo. Logo ele que sempre esteve junto dele se dedicando e dando todo carinho, não merecia ser tratado dessa maneira. Ele prometeu que iria dar uma chance para Kame o fazer feliz e não estava cumprindo com o combinado. Se odiou por isso.

— Desculpe por ferir você, sei que está assim por minha causa. Eu tenho falhado como seu namorado, como pessoa, como amigo, como tudo nessa vida. Tenho feito as pessoas ao meu redor sofrer pelas minhas escolhas, tenho sido egoísta demais. — respondeu abraçando ele mais forte.

Kame sentiu que Mio estava lhe oferecendo uma nova oportunidade de reparar seu erro e quem sabe conquistá-lo definitivamente. Acreditou que seria a sua última chance para recuperar seu amor definitivamente.

— Meu dedos estão ficando enrugados, vamos sair de baixo desse chuveiro?

Ambos saíram do chuveiro, mas calmos. Resolveram esquecer o episodio do chuveiro e recomeçar a final de semana como haviam combinado. Não houve mais sexo entre eles nos dois dias, Kame se comportou como um perfeito namorado novamente, paparicando Mio todo o momento, fazendo qualquer vontade dele. Se demostrando prestativo e preocupado com seu bem estar. Tentou ser o mais carinhoso e romântico possível. Passaram o final de semana vendo filmes e series.

No domingo á noite, Kame resolveu tentar fazer amor com ele, porém Mio não estava confortável com a ideia, então ele ficou somente nos beijos quentes e chupões por seu corpo. Mio por muito pouco não cedeu as investidas, impediu que ele continuasse usando o argumento de que precisaria acordar cedo pois teria que ir em casa antes de ir trabalhar. Pela manhã, acordou bem cedo e deixou o café da manhã de Kame pronto, mas não quis acordá-lo, esse dormia muito feliz na cama. Parecia uma pintura, era muito bonito. Mio se perguntava o que ele via nele, para ser tão apaixonado, não chegava nem perto do tamanho de sua beleza, não se sentia interessante o suficiente para atrair homens como Kame e Ian. Deixou um recado na mesa e foi embora para sua casa como combinado.

Mio não demorou muito em casa, trocou de roupa, pegou a pasta dos matérias de trabalho e saiu novamente. Não tinha ninguém em casa, mas ele já sabia que seria assim, entrou correndo no elevador quando chegou na empresa, estava alguns minutos atrasado. As pessoas olhavam para ele, e faziam comentários rindo. Ele achou que deveria está descabelado, já que nem se olhou no espelho para se arrumar corretamento por conta do horário. Passou a mão pelo cabelo para disfarçar um pouco, em um dos andares que o elevador parou, entrou Rafael, que ficou encarando ele estranhamente.

— Bom dia... — disse ele para todos quando entrou.

— Bom dia.

— Mio, você não estava de folga hoje?

— Eu? Não. — respondeu ele.

— Tem certeza? Eu posso jurar que você estava de folga hoje. — insistiu Rafael, olhando ele diferente. Esperando que ele entendesse o significado por trás da frase.

Porém, Mio não entendia e insistia que não tava de folga. Como eles estavam indo para o penúltimo andar, assim que esvaziou o elevador ficando somente eles dois, Rafael apertou um botão do elevador parando ele no andar.

— Pelo visto seu final de semana foi proveitoso, não é mesmo? — falou Rafael zangado.

— Como assim?

— Você ainda pergunta? — Rafael virou ele para o fundo do elevador que tinha um enorme espelho que pegava o reflexo da metade do corpo das pessoas.

— Está escrito no seu corpo que seu final de semana foi muito divertido, imagino quando Ian ver isso.

Mio ficou chocado quando se viu no espelho, estava cheio de marcas vermelhas ao redor do pescoço e orelhas. Por ser muito branco ele fica facilmente marcado, e Kame tinha sido muito violento com os chupões no pescoço, ele esqueceu completamente disso. Seus lábios estavam um pouco inchados ainda por cima, não tanto quanto ficou no dia, mas estavam bem salientes e vermelhos na parte de baixo. Mio entendeu porque as pessoas olhavam para ele e sussurravam entre elas, estava envergonhado e agora, preocupado com Ian.

— O que eu faço? Não é exatamente da forma que você tá pensando... Meu Deus! Eu não posso ficar dessa forma aqui! Ian não pode me ver assim!

— Melhor você pegar esse dia de folga, volte para casa e coloque um monte de gelo nisso aí. Não quero saber o que fez, só quero que evite que Ian te veja dessa maneira. — disse Rafael apertando o botão para o elevador voltar a funcionar, logo em seguida, apertando para voltar ao térreo.— Aproveite que ele ainda não chegou, e corra para casa.

Assim que o elevador abriu no hall de entrada, a primeira pessoa esperando para entrar era Ian. Seus olhos dilataram-se ao ver Mio, ele entrou dentro do elevador, e mandou Rafael sair. Esse saiu sem falar nada.

Ele pausou o elevador se trancando com Mio, que suava frio de nervosíssimo. Ian segurou seu queixo e fez ele levantar o rosto para ver seu pescoço. Analisava ele como um médico, depois levantou a camisa de Mio procurando por mais marcas, e encontrou pelo peitoral e descendo abaixo do umbigo. Mio puxou rapidamente a camisa, se sentindo culpado por não ter reparado em nada disso quando mudou de roupa.

— Ian, me deixe explicar o que aconteceu...

— Por favor— disse Ian, cortando sua fala — Volte para sua casa imediatamente, está demitido. O recursos humanos entrará em contato com você para pagar pelos serviços prestados. Não tente subir, assim que eu abrir esse elevador, vá embora. Se eu te encontrar na empresa, irei chamar os seguranças. — disse apertando o botão e dando as costas para Mio.

— Ian, me deixe explicar! — Mio entrou em desespero, Ian olhava para ele com ódio, muito mais do que o dia que eles brigaram no banheiro do hospital, não era somente ódio, era nojo, decepção.

Mio queria explicar como as coisas aconteceram, ele sabia que não iria adiantar muito, mas pelo menos ele não pensaria que foi deliberado. Quando tentou tocá-lo Ian segurou seu braço no ar, com força e arrastou ele para fora do elevador. Apertou o botão para fechar a porta e sumiu.

Mio ficou parado olhando para a porta fechada, com as lágrimas escorrendo pelos olhos, segurando o boné que servia para esconder o cabelo, sem se preocupar em ser reconhecido pelos capangas de Natally. Não se importava mais com eles, afinal, tudo havia acabado de vez.

Notas finais
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