Stalker

20 Revelações


Mio acordou no sofá da diretoria sem saber como havia chegado ali, do seu lado sentado na ponta do sofá aguardando por ele, estava Kame.

— Que bom que a bela adormecida acordou! — falou Kame quando percebeu que ele havia despertado.

— O que aconteceu? — perguntou olhando em volta à procura da mulher.

— Você desmaiou depois da visita da atual do seu ex.

— Como você sabe que ela é...

— Quem desmaiaria por um convite de casamento? Era óbvio a situação! Brincadeira, eu lembrei do nome dele e a sua reação ao receber o convite, tornou a situação bem clara para mim. — entregou o envelope para ele— Por sinal, aqui está.

— Como ele tem a coragem de me chamar como padrinho de seu casamento depois de tudo que passamos? — se perguntou Mio em voz alta, pegando com ódio o convite das mãos de Kame.

— Não que eu esteja defendendo meu rival, não interprete dessa maneira, mas por experiência de vida, acho que esse convite não veio dele. Quando você desmaiou de repente, ao invés de me ajudar a socorrê-lo, a noiva dele começou a rir, depois disse que estava muito ocupada com as coisas do casamento e não poderia ficar para me ajudar com você. Penso que se ele queria te provocar, não teria enviado ela, ele mesmo teria te feito o convite e ficado para ver sua reação, mas quem fez isso foi ela e com muito gosto.

— O que você quer dizer? Não entendi. — respondeu Mio ajeitando no sofá para conversar com ele melhor.

— Estou supondo que ela fez isso por vontade própria, para te provocar e demostrar quem venceu.

— Então, o Ian não teria sido tão grosseiro me convidando como padrinho?

— Isso não isenta ele de seus pecados, ele ainda irá se casar com ela e abandonou você, não esqueça disso. — lembrou ele quando percebeu a faísca de esperanças nos olhos de Mio.

— Você tem razão, eu fui tão tolo e idiota, meus irmãos tem razão, eu não sei nada sobre a vida. — disse tentando evitar chorar.

Mio se sentia destruído, aqueles sentimentos que ele guardava a sete chaves dentro do seu coração para parecer outra pessoa na frente de todos, estavam sendo reveladas novamente de forma brutal e humilhante. Kame aproveitou a situação para confortá-lo e mostrar que estava ali com o melhor substituto que ele poderia encontrar.

— Não fique assim, eu estou aqui para você, todos nós já fomos traídos ou seremos de alguma forma por alguém, você não é tolo por ter passado por essa experiência. Por mim... — disse aproximando-se da boca de Mio — Essa será sua primeira e única decepção.— respondeu o beijando, Mio se encolheu interrompendo o beijo.

— Kame, estamos na sala do diretor, não deveria fazer esse tipo de coisas em público... — respondeu tímido e ruborizado.

— Isso significa que posso te beijar se for escondido? — perguntou dando um sorriso galanteador.

Mio ficou sem saber como responder aquilo, não queria dizer isso daquela maneira, mas percebeu que foi assim que pareceu dar a entender. Segurando fortemente o convite do casamento de Ian nas mãos, Mio se perguntou mentalmente o motivo de ele ainda está rejeitado ser feliz com outra pessoa, quando Ian já estava fazendo isso muito seriamente. Cada dia que se passava, Kame se demostrava mais gentil, e ele sentia-se muito confortável junto dele.

— Talvez, não seja tão mal assim a sua ideia... — falou bem baixo, quase um sussurro, mas que foi ouvido muito bem por Kame.

— Considerarei isso como um sim.

— Meu deus, às aulas! — disse Mio levantando-se rápido, quando lembrou-se que ainda estava no curso e tinha sido interrompido no horário do lanche.

— Calma, você dormiu por um bom tempo e os professores nos liberaram. Nesse exato momento... — olhou Kame para o relógio de ouro em seu pulso — A última aula já deve ter terminado, posso te levar para casa no meu carro.

— Já te incomodei demais por hoje...

— Você nunca me incomoda, abuse de mim o quanto quiser. — disse levantando-se e arrastando Mio com ele.

Depois de pegarem suas coisas em sala, eles foram de carro para a casa de Mio, que chegando lá, percebeu que não havia ninguém em sua casa. Lembrou que sua mãe naquele dia estaria de plantão e voltaria somente na madrugada, e que seus irmãos costumavam voltar para casa bem tarde também, isso quando voltavam. Convidou Kame para um café, como agradecimento pelo o que fez por ele, mas Kame estava disposto a receber muito mais que uma xícara de café em sua casa.

— Obrigado por me acompanhar até em casa e me confortar depois daquilo com a noiva de Ian. — falou Mio quando colocava as xicaras na pia.

— Não esquente com isso. — respondeu Kame chegando cada vez mais perto dele, fazendo Mio sentir de perto sua intenção.

— Acho que é melhor você ir agora, ficará tarde...

— Eu sou bem grandinho para voltar tarde para casa.

— Mas Ian, você já fez muito por mim hoje e eu não gosto de ficar te incomodando... — dizia extremamente nervoso com a aproximação dele.

— Ian? — repetiu Kame, chateado.

— O que tem Ian?— perguntou Mio sem perceber.

— Você acabou de me chamar de Ian.

— Me desculpe, eu não notei... — disse colocando a mão na boca, enquanto morria de vergonha.

Depois de tudo que Kame havia feito por ele e sabendo que esse estava interessado nele, confundir seu nome com o do ex, era um gafe gravíssimo.

— Sabe o que você merece por conta disso? Uma punição.

— Punição? Tipo, você vai me bater? — perguntou preocupado.

— Claro que não! — riu Kame — Ao menos que você goste disso...

— Não, não! Eu não gosto desse tipo de coisa. — descartou prontamente.

— Penso em algo como isso... — Kame foi diretamente em seu pescoço e o beijou bem naquele local que fazia seu corpo se arrepiar contra sua vontade, ousando mais, ele começou a subir com a língua até sua boca. — Vou te beijar até que nunca mais esqueça meu nome. — disse Kame pressionando ele contra a pia.

Mio estava deixando-se levar pelo beijo, mas temia que algum de seus irmãos chegassem e encontrassem naquela cena, já que sua cozinha ficava próxima a sala.

— Kame... meus irmãos... eles podem... eles podem chegar e ...

— Então, vamos para seu quarto. — sussurrou o outro em seu ouvido.

Mio não tinha intenção de levar aquilo adiante, mas acabou sendo conduzido involuntariamente até seu quarto, onde foi colocado sentado na cama enquanto o outro removia a própria camisa.

— O que você está fazendo? — perguntou Mio inquieto com sua atitude, ao mesmo tempo que admirava o belo físico de Kame.

— Te punindo, o que mais? — respondeu esse jogando-se em cima dele na cama e tentando remover também suas roupas.

— Mas... a porta... a porta... alguém pode entrar.

Kame levantou correndo e foi até a porta do quarto dele e a trancou por dentro, voltando novamente para a pose que estava.

— Agora pare de arranjar desculpas, estamos sozinhos por enquanto.

Kame não dava oportunidades para que Mio pensasse em uma resposta ou reagisse, ele rapidamente tomava seus lábios sempre que ele tentava argumentar sobre o que estava acontecendo, nesse processo ele usava suas mãos para excitá-lo enquanto o beijava de forma quente e sensual. Mio aos poucos se via com menos roupas e sendo beijado e mordido por todo canto de seu corpo, mal conseguia controlar suas ações. A sensação de ser instigado daquela maneira, estava tomando conta do seus sentidos e ele deixou por um momento de pensar em outra pessoa que não fosse ele. Necessitava esquecer que seu coração estava em pedaços e que não adiantava muito colar os seus cacos, ele precisava ser substituído. E Kame estava ali oferecendo gratuitamente um novo em folha, aparentemente muito melhor do que o que ele tinha antes.

Kame abusava de sua experiência com relacionamentos, para satisfazer Mio até ele ser completamente dele, quando finalmente ambos estavam sem roupas, ele introduziu seu dedo enquanto o beijava, estimulando a entrada do outro para recebê-lo, Mio já não mais o impedia de fazer nada, seu corpo era todo dele para fazer o que quiser. Kame só lamentou o fato dele manter seus olhos fechados todo o tempo, parecendo que não queria confirmar o que faziam, porém não deixou aquilo o afetar, sua intenção era se fazer sentir e Mio o liberou para isso.

Quando o possuiu, suas investidas eram acompanhadas de beijos calientes e nervosos, estava tão empolgado por estarem transando finalmente que mal conseguia controlar seu desejo de usufrui-lo rapidamente, por esse motivo seus movimentos eram acelerados, porém gentis, ousados e ao mesmo tempo românticos. Mio segurava suas costas enquanto gemia baixo próximo ao seu ouvido deixando ele mais excitado. Não demorou para que ambos se satisfizessem, principalmente Kame.

— Eu quero que você seja meu, Mio. Quero que esqueça por completo aquele merdinha que te fez sofrer, então namore comigo. — disse quando deitou ao lado dele, alisando a barriga sem músculos de Mio.

Mio evitou olhar para os olhos claros dele, e ficou encarando o teto enquanto pensava, ele tinha medo de seguir em frente com outra pessoa e passar pela mesma situação, afinal de contas, Ian o enganou com o mesmo discurso de que seria bom com ele, esse tipo de promessa havia se tornado em sua cabeça sinônimo de cilada. Porém, uma parte dele queria arriscar uma nova relação, pois o outro já estava fazendo isso, ele não deveria considerar que todas as pessoas são iguais a Ian, tinha que dar um voto de confiança para quem sabe colher algo bom disso. Também desejava ser feliz, e nada melhor que Kame para fazer isso. Gentil, carinhoso, preocupado e determinado, eram inúmeras qualidades que ele possuía, bastava somente dizer um sim.

— Você sabe que meu coração não está cem porcento.

— Eu sei e aceito todas as rachaduras, cacos ou qualquer coisa que venha com ele, eu sei que sou capaz de consertá-lo; mas para isso é preciso que você aceite entregá-lo para mim.

— Não é tão fácil assim...

— Mio, acabamos de fazer amor se não percebeu, seu corpo já me aceitou só falta você me liberar sua mente.

Mio ficou muito vermelho ao perceber que ele tinha razão, se ele fez o que ele considerava o mais difícil, qual o problema de seguir em diante?

— Tudo bem, me esforçarei para ser um bom namorado. — respondeu.

Kame o abraçou, puxando Mio para cima do seu corpo querendo um segundo round, mas o outro o impediu lembrando que seus irmãos chegariam a qualquer momento e que também estava cansado. Kame aceitou parar por ali, mas antes de se arrumar e ir para sua casa, beijou várias e várias vezes Mio, prometendo ser o melhor namorado do mundo. Esse ficou contente com sua empolgação.

—-------------------------------------------------------------------------------------

Ian desconfiou da felicidade de Natally ao entrar no quarto, mesmo sabendo que ela oscilava nas emoções, sentiu que ela havia feito algo de ruim para estar tão empolgada.

— Boa noite, meu amor! — disse beijando seu rosto, e ele limpando logo em seguida — Eu trouxe algumas sobremesas de um restaurante que fui hoje, senti pena de você e essas comidas de hospitais.

— Pode jogar fora, deve ter veneno nelas. — respondeu ele, colocando de lado a vasilha transparente com a sobremesa.

— Não seja idiota, eu nunca faria esse tipo de coisa com você. Para te provar... — ela abriu a tampa e provou um pedaço — Humm, uma delicia, viu? Se tivesse algum veneno, eu não comeria.

— É, eu já li Romeu e Julieta, não duvidaria se comesse veneno e depois me oferecesse para romantizar a morte.

— Como você é chato! Se não quiser comer, não coma! Você é muito grandinho para ficar de birras, que noivo rabugento eu arranjei. — disse sentando na poltrona do quarto. — Hoje eu fiz alguns testes de convites para nosso casamento, qual você acha mais Chic? — perguntou mostrando um leque de opções.

— Seria interessante se você realmente tivesse um noivo para casar.

— Você é tão engraçado, Ian... Aprendeu isso aqui? Sabe o que é mais engraçado? A cara que seu albino fez quando eu entreguei o convite dele. — disse ela rindo histericamente — Foi tão hilário quando ele desmaiou... Nossa, muito medíocre.
— Você entregou isso para ele? — perguntou Ian assustado.

— Claro, foi o meu primeiro convidado, fiz questão de dizer que você o queria como padrinho, você precisava ver, amor a cara que ele fez!

Quando ela percebeu a fúria nos olhos de Ian, levantou correndo pegando suas coisas com medo dele a atacar novamente.

— Tenha uma boa noite querido! — gritou quando saiu rapidamente do quarto, Ian saiu da cama e foi atrás dela, mas a porta estava trancada por fora, ele ficou batendo na porta inúmeras vezes, mas desistiu quando percebeu que ignorariam.

Foi necessário algumas horas para ele se acalmar, tentando pensar em uma maneira de contornar aquela situação, Ian percebeu o quanto aquilo estragaria sua única e grande oportunidade de conversar com Mio novamente, pois se o que Natally havia dito for verdade, mesmo que a mãe de Mio aceite repassar o recado, provavelmente esse não terá nenhuma intenção de aceitar.

—-----------------------------------------------------------------------------------

Três dias se passaram e Mio estava em um relacionamento sério e segregado com Kame, estava jantando com sua mãe quando percebeu que a mulher andava agindo de forma suspeita quando estavam à sós e tentou entender o que acontecia com ela.

— Alguma coisa de ruim aconteceu em seu trabalho, mãe? — perguntou depois que colocou os pratos na pia.

— Por quê? Como foi seu curso, hoje?

— A senhora acabou de desconversar... Meu curso foi bem, estou perto de fazer um teste para estágio em uma grande empresa de software, agora me responda, aconteceu alguma coisa com a senhora?

Ela raspou o prato de comida várias vezes, mesmo não contendo mas nenhum resíduo no prato, de tanto que era sua inquietação. Sentia-se péssima por ainda não ter contato nada à respeito de Ian para o filho, e não sabia exatamente se deveria realmente contá-lo sobre isso. Por fim, resolveu sondar a situação antes de decidir alguma coisa.

— Você se lembra que havia me pedido para investigar sobre aquele moço que você se envolveu do prédio vizinho? — iniciou ela a conversa.

Mal humorado em lembrar de quem ela se referia, Mio tratou de se distrair lavando os pratos.

— Sim, lembro, a senhora não precisa mais se preocupar com isso.

Ela não sabia se respirava aliviada ou sentia culpa pelo o outro, mas como queria ter certeza que Mio não iria ter nenhuma recaída caso descobrisse isso por outra pessoa, resolveu insistir na conversa e contar tudo que descobriu.

— Estou feliz em saber que pensa assim, então só informarei a você que eu sei aonde ele está e conversei com ele.

— Serio?— perguntou um pouco empolgado, mas depois voltou ao normal. — Ele deve estar muito bem de vida.

— Na verdade ele está hospedado no hospital que trabalho, com alguns machucados.

Mio ficou assustado em ouvir aquilo, e sua preocupação com a saúde de Ian falou mais alto que sua raiva por ele.

— O que aconteceu? É muito grave? — perguntou aflito, abandonado os pratos e concentrando sua atenção toda em sua mãe.

— Bom... Ele me contou uma história muito estranha de que havia sido surrado pelos seguranças de sua noiva, que ele afirma não ser sua noiva de verdade, mas sim, uma desequilibrada amiga de infância que o tem perseguido por anos... — informou ela.— Disse também que se afastou de você porque essa mulher é perigosa e para evitar que ela fizesse o mesmo que tem feito a ele e algumas pessoas com quem ele se envolveu no passado, ele decidiu se afastar , o que eu achei particularmente uma decisão sábia da parte dele.

Mio ficou chocado com a tranquilidade que sua mãe repassava aquelas informações, ela não percebia a gravidade da revelação que acabará de lhe dizer. Ele descobriu que todo esse tempo Ian não havia o abandonado para ficar com outra pessoa e sim o protegido de alguém que o perseguia. Isso explicava o modo como ele pediu que o prometesse nunca se aproximar dele, e porquê Kame desconfiou da atitude da mulher no dia que ela foi visitá-lo, tudo se encaixa finalmente. Ao mesmo tempo que se sentia aliviado por saber que Ian não era o homen desprezível que chegou a pensar, logo uma sensação de culpa e traição assumiu sua mente.

Ele havia aceitado namorar com Kame, e inclusive já haviam dormido juntos, no fundo ele sentia que havia traído Ian, quando esse pensava gentilmente em sua felicidade e segurança. Por alguns minutos desejou nunca ter escutado aquilo de sua mãe, era melhor ter continuado com sua ilusão de quem foi abandonado e trocado, do que saber que na verdade quem abandonou e trocou alguém nessa historia foi ele. Ele traiu Ian e não confiou em seus sentimentos, e Mio não conseguia processar essa culpa de uma forma menos negativa.

— Filho, ele me pediu para falar com você sobre isso, e também pediu para combinar com você de encontrá-lo escondido no banheiro do hospital para ele terminar qualquer tipo de relação que ele tinha com você, pois ele está ciente que isso não dará certo. Mas, sabe? Você não precisa disso para continuar sua vida, agora que já sabe sobre o que aconteceu, continue fazendo tudo que tem feito e siga em frente em paz. Deixe esse homem problemático no passado, como um erro que deve ser esquecido e viva sua vida de agora em dian...

— Eu irei dormir agora. — disse Mio saindo da cozinha enquanto ela falava.

Rapidamente se escondeu em seu quarto, trancou a porta e foi diretamente para a sua janela, no escuro, observar as janelas fechadas do apartamento em sua frente. Era inevitável não chorar depois de ouvir tudo aquilo.