Stalker

3 Procura-se


Com dificuldades Mio tentava abrir os olhos. O sol invadia o quarto. O seu ombro e braço direito doíam muito. Olhando para um lado e pro outro concluiu que estava em casa. Poderia tudo ter sido um sonho? Que seu braço doendo fosse consequência de uma queda da cama? Ele sentou-se com as costas apoiadas na cabeceira e ficou um tempo assim. Depois esticou um pouco o corpo para olhar a janela. A partir do momento que começou observar seu vizinho, ele mudou os móveis do seu quarto. Ele colocara a cama do lado da janela, para quando acordasse a primeira coisa que visse fosse Ian. Estranhamente as janelas da casa dele estavam fechadas: Algo muito raro. Será que não foi um sonho? Será que depois do ocorrido Ian mudou-se? O que ele faria sem seu objeto de observação? Seus dias voltariam a serem sem graça.

Sentiu um cheiro de sopa vindo do corredor, logo sua mãe entrou com uma bandeja.

— Filho, que bom que acordou! Estava ficando realmente preocupada — disse colocando a bandeja no criado mudo. Sentada ao seu lado, conferiu sua temperatura — A febre baixou. Mesmo assim, é melhor se alimentar direito, não quero que tenha uma recaída — disse ela.

— Mãe, eu dormi por quanto tempo? — perguntou ele meio desnorteado.

— Quase dois dias. Ficou no hospital em observação e logo eu e seus irmãos, o trouxemos para casa.

— Ah...

— Agora que está acordado, poderia dizer o que estava fazendo de pijamas no prédio vizinho? E sem mim? Você nunca saiu sozinho. Sabe que sua saúde é fraca e todo cuidado é pouco.

— Vi o vizinho em situação de risco e fui ajudar — disse cabisbaixo pegando a sopa como pretexto para evitar próximas perguntas.

— Eu nunca gostei dessas janelas, olha aí a situação que ela nos causou? Além de toda poeira que ela pode trazer aberta e... — ele foi logo a interrompendo.

— Mãe, não é culpa da janela que eu tenha saído para ajudar alguém. Teria feito isso em qualquer lugar. Se você passasse mal e nenhum dos meus irmãos estivesse em casa, eu faria o mesmo. Correria atrás de ajuda. Então por favor, não crie mais problemas.

— Problemas foi o que VOCÊ me criou! Olhe isso! — falou puxando seu pijama e deixando os ombros amostra. Tinha uma enorme mancha roxa que começava do ombro e terminava no meio do braço — Que mãe gosta de ver seu precioso filho assim... Machucado? Sem contar que você bateu a cabeça no chão do elevador. Não poderia simplesmente ligar para a polícia? Ou melhor, ter me chamado? Eu ligava ou informava o porteiro para avisar o dono do apartamento. Sabe o que é isso? Esses filmes que você vê na TV só ensinam loucuras e blá blá blá...

A mulher começou a falar de todos os problemas da sociedade. Mio nem a escutava mais, puxou a camisa cobrindo o hematoma e continuou tomando a sua sopa. Logo depois dormiu. Eram sete horas da noite quando Mio acordou. Não percebeu quando dormiu depois de tanta conversa de sua mãe. Meio zonzo, fez o de sempre, puxou a cortina da janela e olhou para o prédio vizinho na esperança que o Ian ainda morasse lá. Quase teve um infarto.

Encolheu-se na cama usando o cobertor como escudo. Ian estava na janela e parecia procurar algo em seu prédio, e por muito pouco ele não foi visto. De relance conseguiu ver que ele estava bem. Vestia uma camisa de mangas longas pretas com gola em formato V bem cavada, onde via seu peitoral por estar inclinado sobre a janela. O cabelo bagunçado como sempre, balançava com o vento, e seu olhar era de alguém curioso. O que aconteceu para o Ian se interessar pelo seu prédio? É possível que tenha descoberto sua existência? Não era algo difícil de imaginar, o porteiro deve ter contato sobre o caso, e Ian deveria estar o procurando. Fechou a cortina disfarçadamente.

A campainha da sua casa tocou e logo em seguida sua mãe o chamou até a sala. Eram dois policiais pedindo que explicasse o ocorrido, como ele descobriu sobre a tentativa de assassinato e tudo que envolvesse o caso. Contou sua versão de modo que os policiais não percebessem que ele vigiava seu vizinho, esclarecendo que foi somente um golpe de sorte estar distraído olhando o prédio ao lado no momento do acidente.

Os policiais anotaram todas as informações, agradeceram e o elogiaram pela bravura entre os resmungos de sua mãe "Não apoie uma atitude dessas". Mio voltou para o quarto, deu uma espiada na janela novamente, porém ele não estava mais lá.

Sua mãe gritou que iria ao mercado e saiu. Ele ficou ali encostado com a cabeça no vidro da janela no escuro, imaginando tudo que lhe tinha acontecido. Passou a mão pelo ombro, doía um pouco, mas sentia-se tão bem consigo mesmo. Um verdadeiro herói. Novamente a campainha tocou, poderia ser sua mãe ou um de seus irmãos que esqueceram a chave de casa. Correu para abri-la sem nem ao menos conferir quem era no olho mágico. Ficou surpreso ao ver Ian em sua porta.

— Olá, Anjo — disse ele sorridente.